Confesso que chorei!

Foi a última sessão de fisioterapia. Os procedimentos são simples: exercícios de alongamento, vinte minutos sob aplicação de Ondas Curtas e mais vinte sob “choquinho”. Primeiro, a Diatermia. Do grego diathermaínein, a palavra é definida pelo Aurélio como: “Aplicação terapêutica da eletricidade, com base no desenvolvimento de calor, em virtude de correntes induzidas no interior dos tecidos, por aplicação dum campo externo de alta freqüência”.

A Diatermia reproduz um princípio antigo: a conhecida “compressa quente”, só que através de uma máquina ligada à eletricidade. Mais uma vez, a ciência apropria-se da sabedoria popular, desenvolve teorias e aparelhos que potencializam os efeitos – benéficos ou maléficos. A aplicação de calor sobre o corpo objetiva estimular a circulação sanguínea, o combate a inflamação e alivia a dor. É, portanto, analgésico.

O alarme da máquina interrrompe o estado de sonolência e indica que terminou. O paciente é convidado à terapia do “choquinho”. Após tantos “choquinhos”, pergunto à fisioterapeuta sobre o princípio do tratamento. Ela explica que é um procedimento de analgesia. O termo técnico é TENS: Estimulação Nervosa Elétrica Transcutânea. De novo, o uso de corrente elétrica aplicada diretamente à região dolorida por meio de eletrodos.

A terapia do “choquinho” me faz lembrar o que vi, li e ouvi sobre tortura. O mesmo procedimento utilizado para fins analgésicos, ou seja, para abrandar e suprimir a dor, poderia ser aplicado para causá-la. É apenas uma questão de intensidade da corrente elétrica. Mesmo nas condições da fisioterapia, o aparelho pode gerar desconforto se não for regulado na freqüência adaptada à sensibilidade do paciente. O que poderia causar se utilizado para fins não terapêuticos?

Deitado, sob “choquinhos” que até davam uma sensação entorpecente, pensei no sofrimento dos que foram submetidos a choques elétricos em sessões de tortura que transformavam o tempo numa eternidade insuportável. Não pertenço à geração que sofreu no corpo e, em muitos casos, pagou com a vida, pela coragem de desafiar os ditadores e seus acólitos; aqueles que ousaram defender a liberdade e acreditaram na aurora de um novo tempo; os que fertilizaram o solo árido da democracia com o sangue vertido pela violência dos seus algozes.

Não sou daquela geração, mas conheci alguns dos sobreviventes. A tortura deixou marcas indeléveis, físicas e psicológicas.[1] Sei o que sofreram pelas conversas, relatos biográficos e, sobretudo, livros e filmes.[2] Sob o efeito dos “choquinhos”, lembrei-me deles e, especialmente, do que li em obras como Batismo de sangue, do Frei Betto[3]; recordei-me de filmes como O que é isso companheiro?[4], Lamarca, Zuzu Angel, etc. Lembrei-me que chorei ao assistir as cenas de tortura em Zuzu Angel e que a fala do eclesiástico tentando justificar o injustificável foi-me nauseante. Com estas reminiscências, o tempo parecia prolongar-se sob o efeito analgésico da corrente elétrica.

A minha dor foi pequena diante do sofrer que lançou as bases do tempo presente. Ela foi suportável – até porque há os remédios e fisioterapia ao alcance. Talvez eu seja sentimental demais por chorar ao assistir a um filme como Zuzu Angel, mas minhas lágrimas foram sinceras e expressam o tributo aos que sofreram para que tenhamos liberdade de expressão e até mesmo o direito de escolher os governantes, ainda que a democracia seja incompleta e decepcione. São as contradições da vida.

A máquina sinalizou que a sessão terminara e me fez voltar à realidade. Meu corpo estava melhor, a dor cedeu. As lembranças, porém, me acompanharam. Não esquecer é também uma forma de dizer não à repetição do passado.


[1] Sugiro que assista ao vídeo:

[2] Entrevistei alguns deles na década de 1980, quando escrevi o “História das Tendências no Brasil”. Então, o tema ainda era tabu e os traumas recentes.

[3] Foi nos idos da década de 1980, mas ainda não assisti ao filme baseado na obra homônima. Quem sabe faltou a coragem de ver em imagens o sofrimento de personagens como Frei Tito. De qualquer forma, este livro foi importante em minha formação.

[4] Li a obra homônima, escrita por Fernando Gabeira, também nos idos dos anos 1980. Foi um presente de uma companheira da militância. Seguimos rumos diferentes e perdemos contato. Por onde andará ela?! Ainda tenho o livro, o qual também foi muito importante em minha trajetória. A propósito, aos que apenas assistiram ao filme, sugiro que também leiam o livro. Em geral, com todo respeito aos autores e cineastas, a obra escrita é melhor.

12 comentários sobre “Confesso que chorei!

  1. Sempre muito rico tudo o que escreves. Penso que as pessoas que choram diante da dor alheia ou da felicidade que emociona são mais reais, principalmente quando a pessoa lida muito com a razão. Obrigada pelo texto e pela emoção.
    Espero que fiques bem logo. Que a dor pare. Teu aproveitamento da limitação pela dor está rendendo frutos lindos.
    Abraços!

  2. Paulo Roberto, você tem total razão. Antes do golpe militar o regime era de esquerda. A esquerda brasileira com Jango, Brizola, Miguel Arraes e etc. foi incompetente. Governou o Brasil de forma catastrófica, porque sua intensão era uma tremenda ditadura do proletariado.
    A esquerda no Brasil sempre foi covarde e hipócrita (ha algumas excessões). Os militares entregaram o poder de acôrdo com o “plano de distensão política e gradual”, que eles mesmo elaboraram.
    O que nós estamos vendo hoje, é novamente a velha e falsa esquerda cutucando novamente os militares. Desafiando as Forças Armadas. Chorando e querendo passar as novas gerações um falso sentimento de mártir.

    C U I D A D O EM NOME DA LIBERDADE MUITAS DITADURAS DE ESQUERDA SE INSTALARAM NO MUNDO.
    Vicente Mourão Landim.

  3. “Um povo que ignora a própria história corre o risco de repetí-la!”

    É muito triste constatar que essa parte de nossa história segue ignorada por uma massa muito grande da população, em especial os jovens. Pior ainda é encontrar, como acontece com frequência, pessoas que de alguma forma viveram aquela época, deveriam, portanto, ser mais ponderadas, mas seguem defendendo a volta de um regime de força e encontrando justificativa para essa barbárie.

    Meu temor é que a frase acima seja mais que uma simples frase de efeito e torne-se uma profecia…

  4. É isso mesmo Ozaí não devemos relaxar nunca , enquanto houver impunidade, enquanto houver torturas, cerceamento da liberdade e guerras não podemos, sequer, ter um sono dos justos, mesmo porque é injusto. Que todos durmam em paz!!!

  5. Estava na Faculdade de Medicina, na época, mas por motivos de uma patologia óssea, não participava, só estudava. Aos poucos, fui vendo amigos que não apareciam mais e não se formaram comigo. Deixei Fortaleza e em RP-SP, conheci e participei – eu conheci a política e sobre os anos de ditadura. Um grande amigo que não se formou, ficou impossibilitado por torturas, vizinhos……Horrível!
    A liberdade de Ser e respeitar a liberdade do outro é um direito precioso de todos.
    Ao assistir o filme “Zuzu Angel”, chorei e me emociono ao ver, saber de violência ao direito de Ser de cada um de nós.
    Lina

  6. Antonio
    Saude
    Paradoxalmente na democracia brasileira ainda temos tortura, desaparecidos, trabalho infantil, trabalho escravo, entre outras maselas. Temos pessoas vinvendo inclusive no exilio pois não encontram guarida do Estado Brasileiro. Nossos presidios são piores que os campos de concentração(refiro-me a todos os campos de concentração, do ‘gulag’ aos inventados pelos ingleses) . Culturalmente não temos direitos humanos para as vitimas. Vitimas do trânsito, acidentes do trabalho. Como ficam as familias das vitimas de latrocinio, balas perdidas, etc.? Temos ainda o problema do analfabetismo, do emprego sem direitos, dos narco-criminosos. Nossos vários Estados de Sitio, Lei de Expulsões, Leis de Segurança Nacional, dois Governos de Excessão um de 15 anos outro de 20 são em parte responsáveis? Sim, mas a democracia mais ainda. Nossas guerra internas batem de longe no presente qualquer conflito bélico em andamento.
    Um abraço
    Pedro

  7. “Não esquecer é também uma forma de dizer não à repetição do passado.” Isso diz muito António, e sintetiza todo o texto. Sua experiência transcrita em palavras, as leituras, os filmes… todas essas coisas são gritos que não permitem que as pessoas durmam. E isso é muito bom.

  8. É de chocar qualquer um.
    O amor ao dinheiro/poder reduz o homem à animais irracionais da pior estirpe. Esta situação no Brasil passou mas não pode ser esquecida como lição para hoje e o futuro. Porém, este mesmo amor ao dinheiro/poder governa hoje nosso País (e o mundo), e apenas não efetua aqui (Brasil) tamanha barbaridade, pelo menos de forma clara, pois seus objetivos já estão sendo alcançados sem a violência extrema da Ditadura. Mas, tenho convicção de que, se os objetivos desta elite amante do dinheiro for prejudicada, a violência voltará. Por isso, a sociedade deve procurar mudar nos conceitos de vida (educação, amor fraternal, libertação do amar o dinheiro e o poder), só assim, penso, em busca de virtudes superiores que nos trazem libertação (A minha vem de Jesus) é que a sociedade poderá sobreviver à esta insanidade.

    Atc.

  9. Poderemos investir energias em superar traumas, de forma que jamais repitam-se, ou continuar a alimentar o ódio e a vingança.
    Na Alemanha, num bosque pesto de Munique, Ebersberg, as árvores da entrada, centenas, tinham nomes de alemães mortos por franceses em certa passagem.
    É isto que pretendemos tornar nossa cultura Nacional.
    Temos enormes tarefas por fazer e creio que a pior e menos importante delas é alimentar vinganças, em que pese que o desenho institucional futuro deva prevenir toda a espécie de barbaridade em nossa civilização.
    A PAZ DO SENHOR

  10. Ozai: ah, so’ voce mesmo pra nao aproveitar o soninho gostoso que estas maquinas proporcionam, e ficar pensando em tortura! Relaxa, homem! Eu estive numa destas, uma vez , e realmente considerei esta oportunidade uma maravilha, alias uma bencao mesmo, um consolo por estar vivendo na nossa era. Pelo menos temos estas maquinas que, embora possam causar dor, no meu especifico caso de pessoa egoista e cheia de dores de coluna, desesperada pra ter um refrigerio, aquelas maguinas me fizeram achar que estava numa nuvem. E, quer saber, nao me arrependo! Agora, gracas ao seu texto, se eu tiver que estar numa maquina destas outra vez, vou ficar pensando nos torturados e me sentindo culpada. Thanks a lot! :-% Eva

  11. Como diz o último depoente do segundo video:
    “O fundamenteal do ser humano é a liberdade”
    Com base nisso, é interessante constatar a tremenda (e eu diria desonesta) seletividade da esquerda brasileira. Ela justifica a luta contra o regime militar como uma luta em defesa da liberdade, e se cala totalmente em relação à situação de Cuba, hoje, assim como se calou em realçnao à situação nos países socialistas anteriormente.
    A justificativa, aliás, é falsa, no nosso caso, pois não lutávamos pela liberdade, e sim pelo socialismo, especificamente em sua forma de ditadura do proletariado.
    Enquanto a esquerda brasileira não reconhecer isso, ela continuará a ter um discurso hipócrita…
    Paulo Roberto de Almeida

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