A “Ciência Política” é Ciência?

para Carla Ayres, por instigar o pensar!

Foto: João Vicente Nascimento Lins

Nesta semana participei do evento Que é política?, organizado pelo Centro Acadêmico Florestan Fernandes, curso de Ciências Sociais (UEM). Foi um momento de reencontro e o primeiro contato direto com os calouros; foi, portanto, muito importante. A minha participação talvez tenha pecado pela ausência de teorizações, pois optei por conversar sobre temas concernentes à política e, assim, contribuir para a reflexão sobre a realidade em que estamos inseridos enquanto docentes e discentes. A minha intervenção dirigiu-se especialmente aos novatos. Daí, o meu intuito de não proferir uma aula sobre o tema, mas sim de levantar questões e propiciar o diálogo num tom de conversa.* Os veteranos já tiveram – e terão – muitas aulas teóricas; os calouros terão a oportunidade de discutir e aprofundar as várias teorias e conceitos sobre a política.

Durante o debate fui questionado sobre a relação entre Ciência Política e ideologia. Sinceramente, tenho dúvidas sobre a pretensão à cientificidade por parte da Ciência Política e parece-me que muito do que os “cientistas políticos” apresentam como “científico” é ideológico. Por outro lado, a afirmação do caráter “científico” têm efeitos negativos, como a intolerância diante de outras formas de saber e do senso comum. Em suma, também a Ciência deve ser submetida à crítica.

A minha resposta colocou em xeque o status de Ciência para a “Ciência Política”. A reação de quem inquiriu me fez ver que desapontei. Ao voltar para casa fiquei a pensar e com uma certa angústia. A rigor, o desapontamento tem sentido. Como pode um professor de Ciência Política, com mestrado na área, ser céptico sobre o status científico desta? E, santa heresia!, pronunciado na “Casa de Salomão”, o espaço por excelência guardião da Ciência! Deve-se, ainda, considerar prováveis efeitos deletérios sobre os calouros. Pois, se a minha argumentação estiver correta – por exemplo, ao equiparar a opinião do senso comum à doxa douta**, cuja diferença é dada apenas pela titulação e legitimidade institucional – por que e prá quê cursar Ciências Sociais?

Compreendo. Penso, porém, que uma das tarefas de quem faz Ciências Sociais é ser crítico em relação ao próprio campo. A dúvida científica deve ser sua atitude principal e isto significa não aceitar verdades dogmáticas e absolutas. Tudo deve ser submetido à crítica, até mesmo a autoridade professoral e/ou o ideólogo travestido de cientista. Nisto, não há qualquer condenação moral sobre a ideologia. Muito pelo contrário! É direito do/a professor/a assumir-se ideologicamente, ainda que sob o risco da doutrinação. O problema consiste na ilusão da cientificidade do discurso ideológico.

Foto: João Vicente Nascimento Lins

Será que muito do que consideramos “Ciência Política” não é a mera interpretação e adaptação das teorias às nossas afinidades ideológicas? Será que muito do que creditamos como científico não consiste, de fato, na instrumentalização ideológica do que denominamos de “Ciência Política”? – o que vale também para as outras áreas das Ciências Sociais.

Nenhuma teoria social está desvinculada da ideologia. A opção por este ou aquele referencial teórico não é inocente, descomprometido. Sua utilização, muitas vezes, nada tem de científico, mas consiste meramente num exercício para reafirmar a ideologia subjacente ao pesquisador. Neste sentido, a teoria é interpretada e mediada pelo “cientista político”, o qual, acredita-se, faz Ciência. Pressupõe-se que a utilização do ferramental teórico, metodológico e a obediência às normas formais outorga per si o status de cientificidade. Será?! Ainda que desaponte, permaneço com dúvidas.


* Esta “conversa” foi acompanhada de um vídeo sobre o tema, cujas imagens “falam por si”. Disponível em https://antoniozai.wordpress.com/2010/03/04/o-que-e-politica/, de 04.03.2010.

** Ver “Cientista Social?!”, disponível em https://antoniozai.wordpress.com/2008/10/19/cientista-social/, de 19.10.2008.

29 comentários sobre “A “Ciência Política” é Ciência?

  1. olá sou selma do rj estou cursanso serviço social; encontrei este bolg no google, gostei muito, por isso estou postando este comentário: hoje em dia é dificil pensar em ciencia polica como ciencia propriamente dita; acredito ser interpretações de teorias edeológicas ; num cojunto social

  2. que mudanças ocorreram ate os dias de hoje entre a democracia e a ditadura ozai.dionisia afonso

  3. Essa questão é fundamental para nós, cientistas políticos.
    Weber diz que a subjetividade está presente no momento da escolha do objeto.
    Bourdieu comenta sobre a legitimidade que o campo impõe para os que estão inseridos neste.
    Para mim, estes autores analisaram a questão sob o ponto de vista que você levantou: o questionamento de dentro.
    Fiz um blog com a intenção de sempre me perguntar tal questão.
    “Cientista política não é político”. E isto é fundamental entender. Não estamos (ou na maior parte das vezes) tentando cargos públicos. Isto já seria um ponto de partida para análises. Desenvolvo algumas no blog…
    Parabéns por levantar a bola…

  4. Ciência política assim como qualquer ciência já mais será aquilo que o significado da palavra diz, o ser humano é um ser com muitas emoções e por mais que ele diga que consegue separa-las de algumas atividades, isso não acontece 100% das vezes. Por mais que eu me segure para não criticar Israel, no final minha pesquisa pode representar uma crítica indireta que eu nem sonhei em colocar. Outro exemplo, se a pessoa for estudar o MST, ela sempre partirá de um ponto de simpatia, ou ódio, que por mais que a pessoa consiga tirar suas emoções da pesquisa de alguma forma essas emoções estarão no meio da pesquisa sem ela saber. O unico jeito de você conseguir ser um pesquisador 100% neutro, seria você ser um psicopata que conseguisse esconde seus sentimentos das pessoas, fora isso não existe neutralidade mesmo nas ciências exatas.

  5. Olá pofessor.
    Ótimo o seu texto.
    Entendo que se alargarmos a discussão acabaremos por ingressar num debate sobre a cientificidade das ciências; e com justa razão, posto que os argumentos ideológicos não estejam exclusivamente no campo das Humanas e Sociais, embora neste campo “apareçam mais”.
    Bom de ler o seu texto.
    Abçs.
    Francisco

  6. Antonio…você não tem idéia do tamanho da ajuda que suas reflexões me trouxeram…hoje pela manhã -andando por um parque ecológico- vizinho a minha casa…conversavamos ( e discutíamos) exatamente sobre este tema…para mim, hoje, a Política me fez pensar se seria uma ciencia ( Ciencias Poíticas? ) ou se seria relgião…digo isso depois do Congresso do meu Partido PT…Você me autoriza repassar no meu BLOG ( que aliás temos a honra de te lo como seguidor…) Valeu Ozaí.
    Abraços domingueiros…Odila

  7. Caro Professor Ozaí,

    Entendo que este espaço procura materializar,e tornar fácil,a compreensão sobre as teorias das Ciências Sociais;excelente,por assim dizer.

    Mas não posso deixar de comentar o que sucede pelo cantos da política brasileira.

    Fiquei uma semana,mais ou menos,sem internet,e assim desatualizado e desorientado,pois a TV e o rádio,menos ainda os jornais e revistas,não realizam seu real papel de informar.

    Pois bem:fiquei sabendo logo que reeconectei minha máquina à rede,que os grandes senhores da “Casa Grande”,chamada meios de comunicação,uniram suas forças para realizar o 1° Fórum Democracia e Liberdade de Expressão,organizado pelo Instituto Millenium,em São paulo,semana passada.

    E revirando traduções do encontro,pode-se concluir que o evento público,onde pagou-se R$500,00 para participar e assitir às explanações,nada mais é que a 2° Marcha pela Família com Deus,predecessora do golpe militar de 1964.

    Como acredito muito nas suas palavras,peço caridosamente que o senhor exponha algo sobre o evento,e suas reais intenções,já que a situaçãoe é mais um desenrolar político na nossa jovem redemocratização.

    • Caro,

      muito obrigado por ler, comentar e pela sugestão.
      Também li sobre o tema e me parece que devemos pensar criticamente sobre a “Liberdade de Expressão”.
      Valeu pela dica! Sugiro a leitura do texto publicado na Agência Carta Maior:

      Gilberto Maringoni
      O rosnar golpista do Instituto Millenium
      Não é bom subestimar os pitbulls da imprensa brasileira. A direita não costuma se unir apenas para tomar chá com torradas. Só não articulam um golpe por sua legitimidade social ser reduzida. – http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4561

      Washington Araújo
      Liberdade de Expressão e seus 30 novos significados
      Cotejando os temas abordados no Millenium e, principalmente, os conferencistas que lá foram vivamente aplaudidos, podemos imaginar novos significados para o verbete “liberdade de expressão”. – http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4560

      Se vc já leu, desconsidere. Fica a sugestão para os demais leitores.

      Obrigado.

      abraços e ótima semana,

      • Professor , podemos tratar a politica como algo nao dinamico ?
        Me ajude;

      • Nathalia,

        boa tarde e obrigado por ler e comentar.
        Na minha forma de ver, a política é essencialmente dinâmica, pois ela sempre está vinculada a interesses que são contraditórios e até mesmo antagônicos. O movimento da política é dialético e se alimenta das contradições, produz novas contradições, novas sínteses…

        Abraços e tudo de bom,

  8. Meu caro Ozaí.

    Eu creio que você esteja certíssimo em colocar para si – e para os demais -esse questionamento.Esse é um mal do qual padece não apenas a Ciência Política, mas as Ciências Humanas, de modo geral. Como as teorias políticas não são, via de regra, verificáveis, mensuráveis, interpretações díspares dos mesmos fatos sociais são consideradas igualmente válidas, ainda que não convalidáveis. Ao contrário do que ocorre com as Ciências Exatas, nas quais os teoremas recebem amplo grau de aceitação, até que surja nova teoria capaz de aprrender fatos ainda não explicados, suficientemente, pela teoria precedente.

    Assim, a ciência política acaba sendo instrumentalizada ao sabor das convicções político-ideológicas. Sobretudo porque há – principalmente, dentre os intelectuais militantes – incapacidade, ou má vontade, de dialetizar com seus antípodas ideológicos. Falta humildade em reconhecer que a crítica aperfeiçoa e que há, muitas vezes, razão no que dizem aqueles que pensam de maneira diferente.

  9. Também já me inquietei com a cientificidade das ciências políticas, pois se filosofia não pode ser considerada ciência, como considerar então como ciência um campo onde todos os seus maiores teóricos eram filósofos e falavam como filósofos?

  10. Estimado Antonio
    Bem estar e liberdade.
    Cumprimentos pelo debate. Onde não há mais esperança surge a esperança.
    Em 1980 quando cursava Licenciatura Plena em Filosofia, a mesma pergunta era-nos feita por Colegas de outros cursos. No que a Filosofia se diferenciava da Ideologia, ou mais se é que tinha alguma diferença. Obvio que o mesmo se aplica a ciência. Confesso que não sei ainda a resposta. Provavelmente nunca saiba. O que defendo e me parece que aí convergimos (hipotese) é que devemos conhecer e estudar as ideologias, os fundamentos teoricos das ciências. Em suma acho que o saber deve ser vasculhado e partilhado, mesmo ai esta uma ideologia, de que este não tem dono, não e mercadoria e deveria estar acessivel a todos.
    Um forte abraço, desejo um excelente semestre a ti e aos teus colegas professores da Universidade e principalmente a teus preclaros alunos.
    Pedro
    Caxias do Sul
    * A esperança na nossa ótica esta que estas promovendo o debate e este é sempre salutar. Ficar angustiado e mesmo frustrada tb entendo que faça parte, isso demonstra nossos limites e que nossa ideologia não nos dá respostas suficientes;

  11. Meu caro professor e amigo, chega ser até gratificante perceber que o meu questionar instigou o “mestre”.
    E instigou a todos nós.
    Nos deparamos com questoes que parecem tão corriqueiras, sem refletir sobre elas, e por isso corremos o risco de cair constantemente na tal “ideologia”.
    Mas, nós aspirantes a Cientistas Sociais temos a grande responsabilidade de refletir mesmo sobre o que pensamos, o que falamos e como agimos. Isto sim é um desafio para que não sejamos um Engodo de nós mesmos.

    O debate continua…Sempre!
    E, nosso respeito é mútuo.
    Forte abraço, professor.

    • Carla,

      muito obrigado por tudo.
      Sim, nossa função é pensar criticamente as questões “corriqueiras”.
      Gostei da sua frase: “Isto sim é um desafio para que não sejamos um Engodo de nós mesmos”. Parabéns!
      Porém, há os que parecem gostar de se enganar e há os que não veem porque imaginam possuir a verdade inquestionável. Daí a importância das suas palavras.

      muito obrigado e ótima semana,

  12. Colega – Creio que seu erro é inicial, pois etmologicamente ideologia é ciëncia, filosofia, sobre certo ponto de vista. Dai que o treino acadëmico melhora as habilidades, logo ao passar pelas salas de bons professores de Ciëncias Sociais, os recursos para a objetividade desejada são maiores, que os do leigo. Para a cidadania valorizar as aptidões de todos é decisivo, e naturalmente mais ainda para os alunos e formaos, pois tiveram um treinamento melhor. Sua crise deve se de estres, mas estou interessado neste debate. A PAZ DO SENHOR – Zé Carlos – DIRETOR DE4 PROFISSIONALIZAÇÃO DO SINDICATO DOS SOCIÓLOGOS DO ESTADO DO PARANÁ-DRT326PR

    • Caro José,

      muito obrigado por ler e comentar.
      Concordo com a importância de fazer Ciências Sociais, ainda que não seja para exercer profissionalmente. Aliás, agradeço por suas palavras, pois não havia pensado este aspecto, isto é, no corporativismo.

      Ah! Desculpe se me expressei mal: não estou em crise nem estressado… aliás, ando tão feliz que até me preocupo. É que adoro o que faço e me envolvo, talvez mais do que deveria.

      Observe que o foco do texto é a relação entre Ciência e Ideologia. De qualquer forma, muito obrigado por seu comentário. Permaneço aberto à sua crítica, sugestões e contribuições.

      Abraços e ótima semana,

    • Professor, ao comentar que “a Ciência deve ser submetida à crítica” me lembrei quando ainda calouro (mesmo formado não sou muito além disso) ouvia meus professores sobre as ciências sociais não serem exatas e sim subjetivas.
      Não existia então uma linha mestra a seguir?
      Mais adiante, voltando ao blog, sua resposta nos mostrava a real base da ciência:
      “A dúvida científica deve ser sua atitude principal e isto significa não aceitar verdades dogmáticas e absolutas.”
      Em qualquer área, a ciência busca um conhecimento mais elaborado sobre algo. Mas embora tenha essa necessidade ela provavelmente jamais conseguirá ser absoluta. Pelo que aprendi (se bem aprendi), no momento que ela aceitar isso, aceitará também que ciência jamais foi, por eliminar o questionamento.
      Pensando assim, para mim, o senhor justificou seus anos de experiência em política ao não colocar esta ou a sua pessoa como professor fora do debate ideológico.
      O que afinal é ciência, se não a tentativa de comprovar a aplicabilidade de uma ideologia? Será que todos estudos acadêmicos são realmente científicos? Será que em nada o embate entre ciência e senso comum não se confunde entre uma necessidade cultural erudita (classe dominante) sobre a popular (dominada)?

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