Na UEL com os jovens revolucionários!

Estive na Universidade Estadual de Londrina (UEL), a convite do Diretório Central dos Estudantes (DCE), para participar da mesa-redonda “Produção do conhecimento ou Conhecimento da produção”. O evento fez parte da programação para a recepção dos calouros. Portanto, o público-alvo. Esta era a minha expectativa.

Reencontrei amigos da época do mestrado na PUC/SP – agora professores da UEL – e outros cuja amizade foi estabelecida posteriormente. Além de ser presenteado com a companhia deles, também ganhei o Cadernos AEL – Trotskismo* do amigo Pedro Roberto Ferreira. E ainda sobrou tempo para fotografar a coruja que fixou morada no prédio do Centro de Ciências Humanas (CCH). Curiosamente, é ali que também se instala os colegas da área de Filosofia!

Chegou a hora da mesa-redonda. Numa sala enorme, semicircular, com um tablado no centro e as cadeiras organizadas em fileiras verticais, nos reunimos para debater o tema proposto. Fui, então, convocado a compor a mesa, juntamente com o Prof. Jozimar Paes de Almeida do Departamento de História (UEL). Embora estivéssemos num espaço formal, prevaleceu certa informalidade. O jovem José, que coordenou cronometicamente os trabalhos, apresentou os professores como “companheiro”. Isto me chamou a atenção porque há tempo que não era tratado dessa maneira, menos ainda no ambiente universitário. Neste, o tratamento preferencial é colega, professor, senhor, às vezes acompanhado da titulação.

A palavra “companheiro” tem um significado especial em minha vida e ouvi-la levou-me de volta às minhas raízes, das quais me orgulho. Por outro lado, expressou bem o clima reinante naquele recinto. Estabeleceu-se um debate profícuo. Contribuiu para isto a presença de vários jovens que estavam ali não apenas como acadêmicos, mas enquanto militantes de uma causa. Querem revolucionar a universidade e a sociedade. Em tempos pós-queda do muro de Berlim e desagregação do império soviético, estes jovens obstinados fazem a crítica à sociedade burguesa, seus valores e tudo o que ela representa. São jovens revolucionários que fixam a ponte com as gerações anteriores. Os mortos revivem nas novas gerações e as idéias tidas como superadas, tal qual a fênix, renascem das cinzas. Espero, porém, que esta geração tenha aprendido com os erros dos que vieram antes!

Curioso, pedi aos calouros que levantassem as mãos. Entre as cerca de 30 pessoas apenas quatro eram novatos. A minha antecipação mental do público-alvo revelou-se inadequada. Fiquei a pensar sobre as dificuldades quanto à participação dos calouros. Como explicar a ausência daqueles para os quais a atividade foi planejada e que exigiu esforço, dedicação e energia dos organizadores? O que explica o distanciamento entre a vanguarda e a massa? Como interpretar a alienação dos estudantes em relação às questões políticas que envolvem a universidade e a sociedade em geral? Por que eles se mantêm indiferentes aos seus órgãos representativos?

Esta é uma realidade que não se restringe à UEL, mas se faz presente nas universidades em geral, independente de qual grupo político tem a hegemonia do DCE e/ou dos Centros Acadêmicos (CA). Não será o caso das lideranças estudantis repensarem as estratégias em relação aos acadêmicos que pretendem representar? Será que não estão demasiadamente concentrados em si mesmos e nas disputas políticas inter-grupos?

Quanto ao evento na UEL, não sei se atendi às expectativas dos presentes e dos que me convidaram, mas considero que valeu a pena! Só tenho a agradecer ao DCE, especialmente ao Roberto, Tabata, Lucas e José. Obrigado também ao Prof. Jozimar e aos amigos Eliel, Elsio, Pedro e Renata.


* ARQUIVO EDGARD LEUENROTH. CADERNOS AEL: Trotskismo. Campinas: UNICAMP/IFCH/AEL, v.12, nº. 22/23, 2005 (426p.).

6 comentários sobre “Na UEL com os jovens revolucionários!

  1. Caro professor, a pergunta que me ocorreu é: será que efetivamente representam? Será que as Câmaras de hoje -vereadores, deputados, etc.- efetivamente “representam” o povo? A pergunta é sincera, teoricamente, e não pretende sugerir que não o fazem. Daria uma boa pesquisa!
    Um abraço.
    PUCCI

  2. Ozaí, pertinente seus questionamentos. E já faz algum tempo que os eventos preparados nas universidades, nem sempre conta com a presença do público alvo. Me lembro de quando fazia graduação, no curso de Ciências Sociais, na UEM, as atividades preparadas para os alunos, tinham a presença maciça destes somente até passar a lista de presença, depois, permaneciam uns poucos interessados. Além de seus questionamentos, acrescento mais um: é possível que o aparente “desinteresse” seja resultado da repressão que jovens estudantes sofreram durante as décadas da ditadura, e por herança sobrou-nos a apatia, o conformismo, o medo…?

    • Silvio,

      muito obrigado.
      Suas palavras são instigantes. Talvez as causas estejam mesmo na atualidade e em aspectos que nem percebemos. De qualquer forma, os tempos são outros…

      abraços e tudo de bom,

  3. Antonio
    Saude
    Fico feliz que ainda tenhamos pessoas dispostas a realizar o debate e mais do que isso pessoas dispostas a ir debater. Verdade que são poucos e pequeno também é o grupo dos que insistem em resistir(participar). Atualmente se observa que muitos DCE(S), DA(s)ou Centros Academicos, se encontrem em mãos conservadoras em aberto apoio a Reitorias neo-liberais. A democracia tem disso e os estudantes – maioira – assim deve querer. Pasmo vejo na TV Professores e Estudantes de instituição universitária brasileira saudar a Senhora Clinton entusiasticamente. Não tenho resposta para a baixa participação das pessoas junto aos poucos movimentos sociais
    que insistem em sobreviver. Obvio que se tivesse não precisariamos estar a debater. Por outro lado não vejo problema nos erros ou nos acertos, o problemas para nós esta nos objetivos e compromissos que os projetos politicos desejem atingir. Muitos dizem querer e fazer para o melhor e para todos,enquanto que somente estão aplainando caminhos para seus projetos mediocremente pessoais.
    Cordialmente
    Pedro

    • Pedro,

      muito obrigado.
      As fronteiras entre o interesse pessoal e o coletivo (público) são muito tênues. Trabalho numa universidade pública e vejo que o discurso a favor do público, ainda que seja sincero (e não temos como medir isto), corresponde, muitas vezes, a interesses pessoais e mesquinhos.

      abraços e tudo de bom,

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