Nietzsche, para pensar…

Terminei a leitura de Humano, demasiado humano, de Nietzsche.* Selecionei alguns trechos para a reflexão:

O espírito livre, um conceito relativo. – É chamado de espírito livre aquele que pensa de modo diverso do que se esperaria com base em sua procedência, em seu meio, sua posição e função, ou com base nas opiniões que predominam em seu tempo. Ele é a exceção, os espíritos cativos são a regra; estes lhes objetam que seus princípios livres têm origem na ânsia de ser notado ou até mesmo levam à interferência de atos livres, isto é, irreconciliáveis com a moral cativa. Ocasionalmente se diz também que tais espíritos livres derivariam da excentricidade e da excitação mental; mas assim fala a maldade que não acredita ela mesma no que diz e só quer prejudicar: pois geralmente o testemunho da maior qualidade e agudeza intelectual do espírito livre está escrito em seu próprio rosto, de modo tão claro que os espíritos cativos compreendem muito bem. Mas as duas explicações para o livre-pensar são honestas; de fato, muitos espíritos livres se originam de um ou de outro modo. (…) De resto, não é próprio da essência do espírito livre ter opiniões mais corretas, mas sim ter se libertado da tradição, com felicidade ou com fracasso. Normalmente, porém, ele terá do seu lado a verdade, ou pelo menos o espírito da busca da verdade: ele exige razões; os outros, fé” (p.157).

Deduzindo razões e não-razões das conseqüências. – Todos os Estados e ordens da sociedade: as classes, o matrimônio, a educação, o direito, adquirem força e duração apenas da fé que neles têm os espíritos cativos – ou seja, da ausência de razões, pelo menos da recusa de inquirir por razões. Isso os espíritos cativos não gostam de admitir e sente que um pudendum [algo de que se envergonhar]” (p.158).

“Os espíritos livres que sustentam sua causa perante o fórum dos espíritos cativos têm que demonstrar que sempre houve espíritos livres, ou seja, que o livre-pensar já tem duração; depois, que eles não querem importunar; e, por fim, que em geral trazem vantagens para os espíritos cativos. Mas, como não podem convencê-los deste último ponto, de nada vale ter demonstrado o primeiro e o segundo” (p.160).

Esprit fort [espírito forte]. – Comparado àquele que tem a tradição a seu lado e não precisa de razões para seus atos, o espírito livre é sempre débil, sobretudo na ação; pois ele conhece demasiado motivos e pontos de vista, e por isso tem a mão insegura, não exercitada. Que meios existem para torná-lo relativamente forte, de modo que se afirme e não pereça inutilmente? Como se forma o espírito forte (esprit fort)? Este é, num caso particular, o problema da produção do gênio. De onde vem a energia, a força inflexível, a perseverança com que alguém, opondo-se à tradição, procura um conhecimento inteiramente individual do mundo?” (p.160).

“Como falta tempo para pensar e tranqüilidade no pensar, as pessoas não mais ponderam as opiniões divergentes: contentam-se em odiá-las. Com o enorme aceleramento da vida, o espírito e o olhar se acostumam a ver e julgar parcial ou erradamente, e cada qual se semelha o viajante que conhece terras e povos pela janela do trem” (p.191).

O partidário mais perigoso. – Em todo partido há alguém que, ao enunciar com demasiada fé os princípios do partido, estimula os demais à apostasia” (p.198).

Os perigosos entre os subversivos. – Podemos dividir os que pretendem a subversão da sociedade entre aqueles que desejam alcançar algo para si e aqueles que o desejam para seus filhos e netos. Esses últimos são os mais perigosos; porque têm a fé e a boa consciência do desinteresse. Os demais poder ser contentado com um osso: a sociedade dominante é rica e inteligente o bastante para isso. O perigo começa quando os objetivos se tornam impessoais; os revolucionários movidos por interesse impessoal podem considerar todos os defensores da ordem vigente como pessoalmente interessados, sentindo-se superiores a eles” (p.245).

Opiniões novas na casa velha. – Á derrubada das opiniões não segue imediatamente a derrubada das instituições; as novas opiniões habitam por muito tempo a casa de suas antecessoras, agora desolada e sinistra, e até mesmo a preservam, por falta de moradia” (p.250).

Religião e governo. – Enquanto o Estado ou, mas precisamente, o governo se souber investido da tutela de uma multidão menor de idade, e por causa dela considerar se a religião deve ser mantida ou eliminada, muito provavelmente se decidirá pela conservação da religião. Pois esta satisfaz o ânimo do indivíduo em tempos de perda, de privação, de terror, de desconfiança, ou seja, quando o governo se sente incapaz de diretamente fazer algo para atenuar o sofrimento psíquico da pessoa: mesmo em se tratando de males universais, inevitáveis, inicialmente irremediáveis (fomes coletivas, crises monetárias, guerras), a religião confere à massa uma atitude calma, paciente e confiante. Onde as deficiências necessárias ou casuais do governo estatal, ou as perigosas conseqüências de interesses dinásticos, fazem-se notórias para o homem perspicaz e o dispõem à rebeldia, os não perspicazes pensam enxergar o dedo de Deus e pacientemente se submetem às determinações do alto (conceito em que habitualmente se fundem os modos humano e divino de governar): assim se preserva a paz civil interna e a continuidade do desenvolvimento. O poder que reside na unidade do sentimento popular, em opiniões e fins comuns a todos, é protegido e selado pela religião, excetuando os raros casos em que o clero e o poder estatal não chegam a um acordo quanto ao preço e entram em conflito. Normalmente o Estado sabe conquistar os sacerdotes, porque tem necessidade de sua privatíssima, oculta educação das almas, e estima servidores que aparentemente, exteriormente, representam um interesse bem diverso. Sem a ajuda dos sacerdotes nenhum poder é capaz, ainda hoje, de tornar-se “legítimo”: como bem entendeu Napoleão. – Assim, governo tutelar absoluto e cuidadosa preservação da religião caminham necessariamente juntos. Nisto se pressupõe que as pessoas e classes governantes sejam esclarecidas a respeito das vantagens que a religião lhes oferece, e que até certo ponto se sintam superiores a ela, na medida em que a usam como instrumento: eis aqui a origem do livre-pensar” (p.251-252).

O socialismo em vista de seus meios. – O socialismo é o visionário irmão mais novo do quase extinto despotismo, do qual quer ser seu herdeiro; seus esforços, portanto, são reacionários no sentido mais profundo. Pois ele deseja uma plenitude de poder estatal como até hoje somente o despotismo teve, e até mesmo supera o que houve no passado, por aspirar ao aniquilamento formal do indivíduo: o qual ele vê como um luxo injustificado da natureza, que deve aprimorar e transformar num pertinente órgão da comunidade” (p.255).

Inimigos da verdade. – Convicções são inimigos da verdade mais perigosos que as mentiras” (p.265).

Ilusão dos idealistas. – Os idealistas estão convencidos de que as causas que servem são essencialmente melhores que as outras causas do mundo, e não querem acreditar que a sua causa necessita, para prosperar, exatamente do mesmo esterco mal-cheiroso que requerem todos os demais empreendimentos humanos” (p.266).

Os fiéis às convicções. – Quem tem muito o que fazer mantém quase inalterados seus pontos de vista e opiniões gerais. Igualmente aquele que trabalha a serviço de uma idéia: nunca mais examina a idéia mesma, já não tem tempo para isso; e vai de encontro ao seu interesse considerá-la sequer discutível” (p.270).

Desprezo dos homens. – O mais inequívoco indício de menosprezo pelas pessoas é levá-las em consideração apenas como meio para nossos fins, ou não considerá-las absolutamente” (p.272).

Partidários por contradição. – Quem enfureceu as pessoas contra si mesmo, sempre ganhou também um partido a seu favor” (p.273).

A vida do inimigo. – Aquele que vive de combater um inimigo tem interesse em que ele continue vivo” (p.274).

Na corrente. – Correntes fortes arrastam consigo muitas pedras e arbustos; espíritos fortes, muitas cabeças tolas e confusas” (p.275).

Inaptidão para o partido. – Quem pensa muito não apto para ser homem de partido: seu pensamento atravessa e ultrapassa o partido rapidamente” (p.282).

O que há de perigoso nas opiniões livres. – O contato ligeiro com opiniões livres é algo que estimula, uma espécie de comichão; cedendo a ela, começamos a coçar o ponto; até que enfim aparece uma dolorosa ferida aberta, ou seja: até que a opinião livre começa a nos perturbar, a nos atormentar na posição que temos na vida, em nossas relações humanas” (p.290).

“Convicção é a crença de estar, em algum ponto do conhecimento, de posse da verdade absoluta. Esta crença pressupõe, então, que existam verdades absolutas; e, igualmente, que tenham sido achados métodos perfeitos para alcançá-las; por fim, que todo aquele que tem convicções se utilize desses métodos perfeitos. Todas as três asserções demonstram de imediato que o homem das convicções não é o do pensamento científico; ele se encontra ainda na idade da inocência teórica e é uma criança, por mais adulto que seja em outros aspectos” (p.300).

“A pressuposição de todo crente de qualquer tendência era não poder ser refutado; se os contra-argumentos se mostrassem muito fortes, sempre lhes restava ainda a possibilidade de difamar a razão e até mesmo levantar o credo quia absurdum est [creio porque é absurdo] como bandeira do extremado fanatismo. Não foi o conflito de opiniões que tornou a história tão violenta, mas o conflito da fé nas opiniões, ou seja, das convicções” (p.301).

“… em geral preferimos nos entregar incondicionalmente a uma convicção tida por pessoas de autoridade (pais, amigos, professores, príncipes), e sentimos uma espécie de remorso quando não o fazemos” (p.301).

“Quem ainda hoje combate e derruba opiniões com suspeitas, com acessos de raiva, como se fazia durante a Reforma, revela claramente que teria queimado os seus rivais, se tivesse vivido em outros tempos, e que teria recorrido a todos os meios da Inquisição, se tivesse vivido como adversário da Reforma” (p.302).

“É das paixões que brota as opiniões; a inércia do espírito as faz enrijecerem na forma de convicções” (p.305).

O andarilho. – Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra – e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem” (p.306).

Humano, demasiado humano, foi publicado originalmente em 1878. E, não obstante, permanece atual. Vale à pena ler na íntegra.


* NIETZSCHE, F. Humano, demasiado humano: um livro para espíritos livres. São Paulo: Companhia das Letras, 2003 (349p.).

12 comentários sobre “Nietzsche, para pensar…

  1. Onde está seu pensamento agora? É a pergunta de Nietzsche a Breuer no filme Quando Nietzsche chorou (Quando.Nietzsche.chorou.legendado.ptbr_gold.rmvb). O filme traz o contexto do período vivido por Nietzsche, e nesse sentido pode enriquecer a leitura do livro ou das anotações. Abraços Jaci.

  2. Tres semanas passadas terminei um Nietzsche. Texto significativo. Pela leitura que acompanhaou uma outra literatura, (um texto muito psicologico que pouco gosto) fiquei instigado a retomada de Nietzsche . Muito pensante, já estava, e por este texto fique mais ainda comprimido a escrever. Agora acredito que esta aflorando. Vou retomar o texto, este comentado, e, mais adiante, mesmo com Nietzsche, vamos pausar nossas intensidades interacionistas na profundidade da dinamica social …bem acho que já estou começando…mais pra frente melhoro o texto. Gostei muito do comentário escrito.

  3. Vou apenas pontuar o andarilho. Mais do que nunca é urgente que tenhamos metas, e metas bem refletidas. O deslumbramento crônico é coisa de um passado irresponsável. A natureza grita, a grande maioria clama em sofrimentos desnecessários, e é urgente atitudes pacifistas que superem os absurdos de uma civilização doente. É PRECISO E URGENTE METAS CONSENSUADAS PARA PRÁTICAS COLETIVAS ADEQUADAS A UM MUNDO MELHOR, e isto requer mais que uma liberdade impossível, pois toda a vida requer algum condicionamento saudável, mas educação de qualidade COMPLEXA (UNESCO-MORIN) para que náo sejamos a geração que poderá acabar com a Humanidade por simples futilidades. A PAZ DO SENHOR. ZÉ CARLOS

  4. Nietzsche é um paradoxo. E justamente por isso ele reservou-se o direito de escrever honestamente o que pensava acerca da Sociedade e do indivíduo. Admiro muito este filósofo, para mim, uma fonte constante de pesquisa.
    Acerca dos espíritos livres, diria que essa liberdade só é verdadeira se antes de tentarmos nos libertar dos grilhões e das normas vigentes, nos libertemos de nós mesmos, isto é, deixemos de pregar peças e de mentir para nós. Para isso é preciso dominar o medo, pois é ele que nos mantém presos às coisas. Quando cometemos o erro de dizer que somos donos de nossa consciência, nossa consciência, ou nossa alma (como dizem alguns), se torna ainda propriedade de alguém…
    Isso não é fácil, pois acreditar é parte intrínseca do ser humano. Acreditamos nas pessoas, e por isso, de certa forma, dependemos delas. Acreditamos nas leis, nos regimes, etc. Acreditamos em nós mesmos, e assim, estamos presos à nossa mente, ou à nossa forma individual de ver o mundo que nos rodeia, e por isso, por vezes ficamos fechados às visões de terceiros.
    Contradições, ou paradoxos, são importantes para nosso crescimento.
    Sdç Antonio, e o felicito pelo compartilhamento das suas anotações.

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