Foz de Iguaçu (PR): as várias faces de uma cidade

Uma idéia na cabeça, uma câmara na mão. Resultado: um excelente documentário sobre Foz de Iguaçu (PR). As muitas faces de uma cidade, produzido por Danilo Georges e Eliseu Pirocelli, revela as contradições do espaço urbano, geralmente ocultadas pelos interesses políticos e econômicos dominantes.

De maneira perspicaz, as cenas iniciais traçam um paralelo entre a cidade idealizada para efeito de propaganda turística e a outra cidade desconhecida pelo turista. De fato, o olhar do turista, em geral, é para as paisagens que são apresentadas nos cartões-postais. Turista quer se divertir, ver o belo espetáculo da natureza, etc. Seus olhos são seletivos. O objetivo é o deleite. A realidade que persiste paralelamente à cidade vista pelo turista gera desconforto. Como afirma o DJ Caê, a administração pública prioriza a cidade a ser mostrada ao turista: “Eles se preocupam muito em deixar a cidade boa pro turista, pra quem tá vindo de fora, mas, não se preocupam tanto para quem tá aqui”.

O documentário mostra o outro lado da cidade: os bairros periféricos e favelas como Cidade Nova, Passarela (Vila C), Favela do Queijo, Favela Jd. Paraná, Morenitas. Nestes espaços a vida também pulsa com toda a intensidade, mas a grande mídia, predominantemente, atenta apenas para a miséria e violência. Dessa forma, alimenta o preconceito contra os pobres. Este aspecto é enfatizado no documentário e as palavras de Vera Malaguti resumem-no bem: “A imprensa é estimuladora do medo. As razões maiores do aumento da violência não são discutidas, então, a gente não caminha para a frente”. As imagens e falas registrados são uma denúncia de uma certa postura elitista que culpabiliza e criminaliza os pobres pela situação em que se encontram, e, assim, desconsidera as estruturas políticas, econômicas e sociais que os mantêm nestas circunstâncias.

Pobreza não é sinônimo de ausência de cultura. As condições sociais e econômicas não permitem o acesso à chamada “cultura culta e erudita”, mas as dificuldades e necessidades também estimulam a criatividade e a emergência da cultura e arte popular como a de Mano Edo, artesão que constrói casas e uma cidade em miniatura. Há também expressões culturais como o Rap e o Hip Hop. É uma cultura de resistência.

Um dos méritos desse documentário é não cair na tentação da apologia da miséria. Os moradores da periferia não são apresentados apenas como vítimas de uma cidade injusta e desigual, mas enfaticamente enquanto indivíduos criativos que resistem e lutam para superar a realidade e os mecanismos que os oprimem.

As muitas faces de uma cidade é também uma denúncia contra a concentração dos meios de comunicação. A população da periferia torna-se refém da imagem que a mídia constrói sobre ela e, especialmente, do ocultamento de que é vítima na medida em que priorizam-se os aspectos para consumo turístico. A isto soma-se as enormes dificuldades para o acesso aos meios de comunicação comunitários que expressem sua fala e cultura. O documentário mostra as múltiplas faces da cidade Foz do Iguaçu e propicia uma forma de expressão dos diretamente envolvidos neste drama humano e das manifestações culturais que, apesar de tudo, eles produzem.

“Queremos ver o dia, em que os estudos sobre a violência dos de baixo, cedam lugar aos estudos sobre a rede de solidariedade entre os pobres, sobre suas sociabilidades, suas formas de lazer e de construir o mundo” (Milton Santos).

É com estas palavras que o documentário é finalizado. Elas sintetizam bem o que vemos e ouvimos nos pouco mais de 30 minutos de duração. Os produtores de As muitas faces de uma cidade conseguiram ser fiéis a este propósito.

Ps.: Obrigado ao Danilo Georges pelo envio do DVD e a oportunidade de assisti-lo.

5 comentários sobre “Foz de Iguaçu (PR): as várias faces de uma cidade

  1. Caro Ozaí
    Interessante o ducumentário entretanto, é o que vemos por todo o lado, os contrastes, que não são mera ficcção, fazem parte do nosso quotidiano embora raramente aceitamos ou queremos ver. É a vida meu amigo. Obrigada por postar essas matérias abraços bea

  2. Por coincidência passei 2 semanas na cidade nesta virada de 2009 para 2010 e adorei.
    De fato, vê-se pouco os aspectos enfatizados no trailer e comentados pelo Ozaí.

    Em compensação, além das belezas naturais chamou-me muito a atenção o fato de que a cidade é bastante cosmopolita considerando-se o tamanho reduzido de sua população e sua posição interiorana. Gostei de ver que há gente e comida(hmmm!) de muítssimos lugares, ouve-se muitas línguas e vê-se grande variedade de tipos étnicos.

    É claro que isto está ligado, também, à proximidade das fronteiras e a presença de Itaipu (onde parece que trabalham muitas pessoas de fora e onde se tece (?) uma parte importante de nossas relações com o Paraguay). Itaipu agora está envolvida na construção de uma Universidade Latinoamericana (UNILA).

    Em Foz deparei-me com muita “bronca” do lado brasileiro contra o lado paraguaio. Parece que o Paraguay é só um lugar em que se faz compras. Achei difícil entrar em contato com o Paraguay e os paraguaios. Fica muito aquele tititi das compras e de tomar cuidado senão te roubam. O comércio no Paraguay parece estar dominado por não-paraguaios (paraguaio é empregado ou ambulante).

    Pouco ou nada se fala de conhecer e visitar às Missões (na Argentina ou Paraguay) ou do médico suíço Bertoni que se radicou na região onde há uma história grandiosa dos guaranis e de sua relação com os jesuítas. Visitar as Missões mudou profundamente minha visão da história da América.
    Espero ver o documentário e estou curioso para saber se também trata destes assuntos.

  3. Antonio
    Saude e liberdade
    Dificilmente tenhamos cidades no Brasil, de médio e grande porte, que não tenham populações marginalizadas e consequentemente excluídas. Nas cidades menores, a regra são as dificuldades economicas, pois o emprego é um dos bens mais preciosos e escassos. A migração interna no Brasil é um fenomeno gigantesco. Provavelmente também estejamos entre os primeiros que exportem mão-de-obra barata para o primeiro mundo. O Estado Brasileiro nessas questões mostra sua total omissão e incompetência pois é incapaz de garantir a todos os brasileiros um minimo de acesso integral a educação básica, a saúde, ao lazer, etc. Não que isso resolvesse os problemas de classe, mas tendo um minimo de acesso a cultura e a educação, talvez os brasileiros pudessem ter e construir novas oportunidades de se firmar socialmente. Temos um milhão de empregos domésticos formais e mais de cinco milhões de trabalhadores (as) domésticos na informalidade, ou seja, sem Carteira Profissional assinada. Se o Estado assegurasse os direitos sociais desses (as) já teriamos um significativo avanço.
    Cordialmente
    Pedro

  4. Caro amigo Antônio Ozaí da Silva
    O documentário FÓZ DE IGUAÇU (PR) ” AS VÁRIAS FASES DE UMA CIDADE ” é apenas o retrato de uma das Cidades brasileiras que demonstra o contraste entre o rico e o pobre, contraste esse totalmente desproporcional, que demonstra o rico cada vez mais rico e o pobre cada vez mais pobre. Esse documentário poderia servir de estopin para lançarmos aqui no seu BLOG a idéia de democratizarmos o acesso as habitações horizontais no Brasil para a população de baixa renda.
    Parabéns ao jovem talento que produziu esse documentário, que se dignou mostrar um novo olhar para FÓZ DE IGUAÇU (PR).

  5. Parabéns pela matéria, como seria bom que este documentário chegasse aos nossos governates em Brasília. Eles prometem o que já está na Constituição: Melhorar a educação, moradias, saúde, segurança etc… No concreto não fazem nada e ficamos calados perante tantas diferenças sociais.

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