A Universidade é uma instituição feudal!

Terminei a leitura de Os Intelectuais na Idade Média, de Jacques Le Goff.[1] Compreender as origens é fundamental para a compreensão do presente. Conhecer o intelectual e a universidade medieval nos ajuda a entender o intelectual e a universidade atuais. Percebemos, então, como a tradição resiste ao tempo, como os mortos assombram os nossos cérebros e revivificam pelos nossos hábitos. Consideramos-nos modernos – alguns até falam em pós-moderno – mas, de fato, muito do habitus do intelectual acadêmico de hoje tem a ver com os nossos ancestrais. Os tempos são outros e ocorreram transformações. Não obstante, é aconselhável levar em consideração a tradição, a continuidade na descontinuidade, as permanências nas rupturas históricas.

A leitura de Os intelectuais na Idade Média foi motivada pela curiosidade intelectual, pelo desejo de conhecer melhor a história da instituição à qual me encontro estritamente vinculado.[2] Mas também é parte do esforço de compreensão das práticas no campo[3] acadêmico. Está ligado ao projeto de pesquisa Sociologia da prática científica, desenvolvido com o Prof. Dr. Walter Praxedes e vinculado ao Grupo de Pesquisa em Sociologia do Conhecimento e Educação.

A universidade, em suas origens, é feudal, mas é urbana – e esta é uma das suas características determinantes: “No início foram as cidades. O intelectual da Idade Média – no Ocidente – nasceu com elas. Foi com o desenvolvimento urbano ligado às funções comercial e industrial – digamos modestamente artesanal – que ele apareceu, como um desses homens de ofício que se instalavam nas cidades nas quais se impôs a divisão do trabalho”, afirma Le Goff.[4] O intelectual típico da Idade Média é aquele “cujo ofício é pensar e ensinar seu pensamento”. Como ressalta Le Goff, é a “aliança da reflexão pessoal e de sua difusão num ensino” que caracteriza o intelectual medieval.[5]

Eruditos, doutos, clérigos*, pensadores, etc. Várias são as palavras para designar o intelectual da Alta Idade Média que desenvolve-se nas escolas urbanas do século XII e manifesta-se nas universidades do século XIII. Ele é o elemento central desta corporação específica, a universidade:

“O século XIII é o século das universidades porque é o século das corporações. Em cada cidade em que existe um ofício agrupando um número importante de membros, esses membros se organizam para a defesa de seus interesses, a instauração de um monopólio de que se beneficiem. É a fase institucional do impulso urbano que materializa em comunas as liberdades políticas conquistadas, em corporações as posições adquiridas no domínio econômico. Liberdade aqui é equívoco: independência ou privilégio? Encontrar-se-á essa ambigüidade na corporação universitária. A organização corporativa já petrifica o que consolida”.[6]

Combatida pelas autoridades eclesiásticas e pelo poder civil, a universidade corporativa encontra apoio no papado. Paradoxalmente, coloca-se sob as asas protetoras do poder espiritual, a despeito da sua tendência ao laicismo. São as contradições inerentes a uma instituição que precisa barganhar para sobreviver, manter e ampliar privilégios. Ao se aliar ao sumo pontífice, o intelectual termina por se submeter. A Santa Sé tem interesses e o favorece para domesticá-lo. A corporação universitária conquistou a independência em relação às forças locais, sob o preço de torna-se uma corporação eclesiástica.[7]

Eis uma ambigüidade que persistirá. A universidade se pretende autônoma, mas depende dos recursos do Estado. Como sua antecessora medieval, ela tem privilégios a defender. E, claro, os que dependem dela. Seu caráter corporativo se mantém atual.


[1] LE GOFF, Jacques. Os Intelectuais na Idade Média. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

[2] Refiro-me à universidade em geral, e não apenas à universidade específica na qual trabalho.

[3] Utilizo “campo” enquanto conceito criado pelo sociólogo Pierre Bourdieu, uma das referências bibliográficas principais da pesquisa que desenvolvemos.

[4] LE GOFF, Jacques. Os Intelectuais na Idade Média. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006, p.29.

[5] Idem, p.23.

* Como observa o tradutor, Marcos de Castro, em nota de rodapé: “A palavra do original, clerc, te em francês, além do sentido de membro do clero, o de sábio, erudito, intelectual, o que não acontece com “clérigo” em português” (LE GOFF, Jacques. Os Intelectuais na Idade Média. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006, p. 23).

[6] Idem, p.93.

[7] “Ainda que seus integrantes estejam longe de pertencer às ordens; ainda que, cada vez mais, ela vá abrigar em suas fileiras puros leigos, os universitários passam todos por clérigos, estão ligados às jurisdições eclesiásticas, mais ainda: à jurisdição de Roma. Nascidos de um movimento que caminhava para o laicismo, integram-se à Igreja, mesmo quando buscam, institucionalmente, dela sair” (In idem, p. 100).

12 comentários sobre “A Universidade é uma instituição feudal!

  1. Ozai. Lembrei-me de uma destas mensagens de internet, que referia a Jesus Cristo como sendo “comunista”. Ora, Jesus Cristo nunca foi comunista ou socialista, até pq são cerca de dois mil anos que separam Jesus de Marx. Mas a SUJETIVIDADE de quem postou INTENCIONAMENTE deixou passar seu traço cristão para fazer marketing, mais para atrair cristãos para o campo socialista-comunista do que atrair socialistas-comunistas para se converter ao cristianismo.
    Parece que o conceito “feudalismo” usado no texto talvez deixa escapar uma projeção pessoal do autor para estigmatizar o “atraso” da universidade contemporânea. Exagero. Concordo com o Zamboni, a universidade tem “origem” medieval ou feudal, mas hoje é uma instituição moderna-e-contemporânea, mas certamente ainda reproduz vícios daquela época. Mas acho que a instituição avançou em alguns pontos, por exemplo, hoje a universidade não está atrelada ou submetida ao poder da Igreja Católica. Isso deve ser levado em conta. Por outro lado, ela ainda reproduz vícios do feudalismo, sim. Além dos conceitos de Bourdieu usados, eu acrescentaria outro que considero significativo para pensar nossa atuação na universidade de hoje “distinção”. Publicar, melhor, a ânsia de publicar para não morrer, é a maior distinção, e isso não existia na universidade pré-moderna.
    Por falar em ânsia, ansiedade, este é outro caminho para levantar vários efeitos colaterais da universidade produtivista. Um deles pode ser o suicídio: (Ler: LIMA, R. O suicídio na universidade produtivista – outubro/2013: http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/22070/11718)
    Por outro lado, penso que o problema fundamental da UNIVERSIDADE, NO BRASIL, é ignorar os problemas concretos, sobretudo os cursos de HUMANAS. Predomina a reprodução abstracionista que leva o nome de “teórica”. O ensino é reproduzido como se fosse ciência, mas não passa de pseudociência, infelizmente. De certa forma esta falha da universidade está presente no planeta: o que nela é ensinado e investido em pesquisa “científica” não atende aos problema REAIS da humanidade. Suspeito que vem desta falha as novas religiões oportunistas e a literatura de auto-ajuda.

  2. Prof. Antonio Ozai,

    Agora a pós-graduação também serve aos interesses do MEC para justificar o ENADE. Criouo-se uma nova forma para conseção de bolsas baeada na meritrocacia. Exemplo: entre um mestrando “rico” com nota 70 no ENADE e um mestrando “pobre” com nota 68 no ENADE, nós pagaremos a bolsa ao mestrando “rico”. O mestrando “pobre” vai trabalhar para sobreviver ao curso e batalhar para “produzir artigos”, caso contrário, também pode levar desvantagem quando concorrer com o “mestrando rico” em concurso público. Segue portaria normativa:

    PORTARIA NORMATIVA Nº 9, DE 26 DE ABRIL DE 2010 Dispõe sobre a concessão de bolsas de estudo em Cursos de Pós-graduação Stricto Sensu aos estudantes concluintes dos cursos de graduação que obtiveram as melhores notas no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE) em 2007 e 2008

  3. Caro prof. Antonio Ozaí, como outros já disseram, o conceito de feudalismo é ambiguo e inexato no sentido em que é impregado, mas não desfigura a sua importante contribição.
    A Idade Média não corresponde exatamente ao modo de produção feudal, nem aos seus desdobramentos, tanto ideológicos como da visão de mundo construídos pelos homens medievais, pois, como em todas a as sociedades, o medievo era plurifacetado, existiram muitas Idades Médias, muitas sociedades medievais. Medieval não é sinônimo de feudal, e nem corresponde a todo território europeu: o conceito de feudalismo quase se circunscreve à Europa Ocidental, e esse ocidente se delineia basicamente em hoje chamamos de França, Inglaterra, Alemanha, Países Baixos e norte da Italia,o sul italiano, o mundo ibérico e o leste europeu eram outra conversa, viviam modelos outros e realidades que não a do feudalismo , que perdurou entre o s séculos IX e XIII.
    A idéia é tratar a universidade como medieval, cuidado que o próprio Jacques Le Goff tem, mas a sua argumentação é coerente no sentido de que as formas de pensamento e a mentalidade do mundo acadêmico não se transformou muito ao longo deste tempo. Muito antes de Bacon os homens já tinham consciência de que saber é poder, entre os medievais não era diferente.
    Como dizia nosso querido Tragtenberg sobre a delinqüência acadêmica, a universidade reproduz o status quo, e desde tempos imemoriais o modelo de saber- poder e poder-reprodução das idéias continua em constante engendramento, mas sob as mesmas bases, o burocratismo do ensino e o caciquismo das idéias insistem em perdurar.
    Não existe muita novidade no modelo de intelectual que Le Goff descreve, o importante da construção do medievalista francês é, como você mesmo colocou, a fundação dos arquétipos institucionais e da intelectualidade do ocidente na Idade Média, aliás, me perdoe a generalização, mas o homem moderno e pós moderno devem muito mais ao medievo do que eles próprios imaginam.
    Obrigado por sua atenção.

  4. Prof. o seu titulo e muito ambiguo, disser que Universidade e uma instituicao feudal e dificil de perceber, talvez seria mais claro explicar que a Universidade teve a sua origem na sociedade feudal. E quer dizer que o professor parte de uma certa absoluta, 2) que o feudalismo presiste no nosso tempo, 3) que todas as Universidades presistem com as mesmas caracateristica, isso e generalizacao. N ao sou historiador mas percebe essa passagem societaria desde os trabalhos de Elias, Marx, Giddens e outros que nao me aperecem na minha memoria neste exacto momento queme adeparo com o seu texto. O feudalismo ela um sistema regido pelo senhor e o seu servo. Nao sei si estou certo na operacionalizacao conceitual. O ensino Universitario nao teve a sua origem no Feudalimo, desde os egipcios, gregos na antiguidade, a epoca Feudal foi apenas uma trajectoria de desenvlovimento e consolidacao do conhecimento, produzido nas Universidades. Espero ter dado a minha modesta contribuicao Prof. Eu te admiro tanto, mas reveja o titulo e os seus argumentos.

    • Caro Joaquim,

      muito obrigado por ler e comentar.
      Sugiro a leitura de “Intelectuais na Idade Média”, de Jacques Le Goff. Então, vc compreenderá melhor o título e os argumentos.

      Abraços e tudo de bom,

  5. Estimado Antonio
    Cumprimentos
    Diferentemente da América Espanhola, que possui Universidades centenárias esse tipo de instituição ficou concentrado em Portugal ficando o Brasil sem estudos superiores por longo período de tempo. Somente o Século XIX vê em território patrio a instalação de cursos superiores, sem ainda constituirem uma Universidade. Esse “atraso” deixou sua marca, de que o ensino de graduação se destinava a poucos. Essa situação se reflete ainda no seio de nossa sociedade excludente. Mesmo para quem faz uma graduação não tem em geral garantia sequer de um modesto emprego. A regra social ainda é o analfabetismo, o analfabetismo funcional e a desatenção total do Estado para com o profissionais da educação envolvidos no ensino fundamental e médio. A educação infantil ainda engatinha e atende muito aquem da demanda. Uma reforma do ensino terá que priorizar o ensino nos níveis iniciais da educação e necessáriamente estar vinculada a valorização das Professoras. Não tenho os números mas a Universidade pública brasileira é cara e com retorno social insuficiente.
    Um abraço
    Pedro

  6. Caro Ozai, mais um esclarecimento importante trazido pelo blog a leitores de outras areas. desta vez tenho também duvidas a esclarecer:
    entre os inumeros sentidos da palavra “clerc” ha também o de “escrevente”, pois o “clerc de notaire” parece ser o empregado/funcionario alfabetizado (do tabeliao ou do convento) encarregado do registro de atas e atos diversos – responsavel, alias, por muitas consoantes duplas que nao se justificavam nem pela etimologia nem pela pronuncia (ele ganhava por pagina). fico me perguntando se esta nao seria uma das acepçoes originais da palavra.
    gostaria também de encontrar no blog algum artigo sobre o livro de Julien Benda e sobre a figura do “clérigo” e as evoluçoes semânticas da palavra.
    outra duvida é sobre o termo “alta idade média”. andei pesquisando sobre ele e a informaçao encontrada apontava para “alta” como sinônimo de” longinqua”, ou seja, a mais afastada de nos no tempo, ou ainda, os séculos imediatamente posteriores ao nascimento de Jesus Cristo e anteriores às invasoes do século V-VI.
    este termo, por outro lado, nao tem como oposto “baixa”, mas simplesmente “Idade Média” propriamente dita, que costuma ser aplicada indistintamente a todo o periodo anterior ao Renascimento, mas especialmente às grandes transformaçoes ocorridas a partir do século XII.
    como nao sou historiadora, solicito esclarecimentos dos especialistas da area e da época.
    um abraço da leitora fiel.

  7. O conceito de feudalismo, tal como empregado neste artigo em relação à Universidade, é de fato, deliberadamente ambíguo: pode querer dizer que a instituição se caracteriza pela defesa de privilégios, numa certa hierarquia social que coloca seus membros, os clérigos (no sentido de Julien Benda, La Trahison des Clercs) como importantes formadores de opiniâo, mas também como defensores acirrados de sua posição social, de seus títulos, de suas prebendas, adquiridas ao custo que se sabe dos membros trabalhadores da sociedade.
    Pode-se também considerar que a Universidade preservou os elementos de saber e de independência de pensamento em tempos bárbaros, de assalto à razão, de dirigentes ignorantes, quase analfabetos, e de violências de todo tipo cometidas contra os simples cidadãos. As universidades deveriam defender, em uma palavra, a civilização contra a ignorância, o arbítrio, a injustiça.
    Pode-se perguntar em que sentido as universidades brasileiras desempenham o seu papel…
    Paulo Roberto de Almeida

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