A universidade pública é democrática?! (2)

É tempo de eleições na UEM. Os departamentos elegem o chefe e chefe adjunto, coordenador e coordenador adjunto dos respectivos cursos e os representantes no Conselho Universitário (COU). Todos têm o direito de votar, mas com pesos diferentes: o voto dos docentes vale 70%, acadêmicos 15% e funcionários 15%. O voto do professor vale por quase cinco alunos e/ou funcionários. É democrático?

John Stuart Mill, no século XIX, defendeu a inserção dos trabalhadores na política inglesa. Ele foi um liberal democrático que também escreveu um libelo a favor das mulheres.[1] À sua maneira, foi feminista. Não obstante, a democracia que advogou era restrita: ele imaginou um sistema de voto no qual os trabalhadores e a burguesia teriam um peso menor e cabia aos de cultura mais elevada o peso maior.

No século XIX ou hoje, o essencial é: quem detém o Poder e quais os procedimentos para conferir Poder? A democracia está vinculada ao número, à quantidade dos que conformam maioria e minoria. É esta lógica que determina quem exerce o Poder legitimamente. Propostas como a do filósofo inglês e as que predominam em instituições como a UEM terminam por desqualificar os votantes.

Se um jovem de 16 anos de idade pode eleger o Presidente da República, governador, deputados e senadores, prefeito e vereadores, e seu voto vale o mesmo que qualquer eleitor brasileiro, porque seu sufrágio tem peso menor na eleição do chefe de departamento, coordenador do curso, diretor de centro ou reitor? Por que ele é aluno? Ora, mas ele não é membro da comunidade acadêmica? Não deveria ser estimulada a participação dele nas questões que definem os rumos dessa coletividade? Como responsabilizá-lo e querer que ele exerça a “cidadania” se o desqualificamos? E o mesmo raciocínio vale para os funcionários – aliás, não entendo bem essa divisão entre “funcionários” e “docentes”. Não somos, todos, “servidores”?

O resultado é o fortalecimento do individualismo, do descomprometimento com a universidade pública e a sociedade e a restrição ao único objetivo de se formar e pegar o canudo. Como é possível formar cidadãos críticos se a própria instituição não favorece a participação real e efetiva de todos? Certo, os alunos vão embora, mas eles podem contribuir no período da duração do curso e até mesmo depois de formados. E, de qualquer forma, isto provavelmente influenciará a prática profissional e cidadã.

O fato é que os acadêmicos nem são instigados a pensar sobre estas questões, mas habituados a obedecer. Tudo concorre para que sejam conformistas – mesmo nos chamados “cursos críticos”. Por experiência, sabem das conseqüências que o questionamento do poder professoral acarreta. Se há conflitos, o “espírito de corpo” tende a prevalecer.

O poder docente predomina. Há quem até veja o “funcionário” como uma espécie de “servo”. Quanto aos alunos, espera-se apenas que façam o óbvio: estudem! O poder docente os recompensará ou punirá. A opinião dos estudantes não conta nem mesmo sobre as possíveis candidaturas aos cargos que influenciarão diretamente as suas vidas. Então, como se surpreender se eles se recusam a participar das eleições? Ao candidato não importa, pois quem decide são os pares.

O poder docente, em nome da democracia, nega a democracia. O que fazer? Democratizar as relações internas seria um bom começo. Certa vez, Maurício Tragtenberg defendeu a participação discente em bancas de concurso. Não é também o caso de adotar o voto universal nas eleições no campus? A maioria dos docentes, porém, não admite nem mesmo a paridade.[2] Mas, houve e há resistências. O poder docente não é monolítico, há muitos interesses em jogo!


[1] Ver: MILL, J. S. A sujeição das mulheres. São Paulo: Escala, 2007.

[2] Ver “A Universidade é democrática?!”, publicado em 15/11/2008.

17 comentários sobre “A universidade pública é democrática?! (2)

  1. Ozaí parabéns pelo texto e pela profícua discussão que vem promovendo nesse espaço.
    Eu gostaria de explicar que a democracia nao e um processo de integracao ela e excludente, nem todos tem os mesmos pesos.
    A democracia ela e falsa tambem, permite defender os seus interesses.
    Nao podemos ficar supreendido com este ato faz parte do gosmo democratico excluir os sem direito, porque muitos nao tiveram uma analise mais profunda da comparacao dos paises democraticos do mundo, eu tive sempre essa preocupacao, so que nao fiz a inda uma tese, que possa demostrar essas contardicoes. Nao sou ant democratico, so apenas um estudioso do processo democratico, espero que me entenda assim.
    Boa discussão a todos.

  2. Ao Ozaí e a todos que estão a comentar seu texto. Parabéns pelo texto e pela profícua discussão que vem promovendo nesse espaço.
    Eu gostaria de explicar que na Instituição Federal em que trabalho como docente, e na qual já fui aluno e bolsista com funções administrativa, a eleição, ou melhor …,a indicação do reitor e ou do diretor dos Campi, ´tem a participação dos três seguimentos do Instituto, de forma relativa, ou seja, cada seguimento representa um terço do votos. Acho muito interessante e mais democrática esta forma, se fosse adotado a maioria absolut dos votos, não tenho dúvida que o seguimento discente tem a maioria de eleitores manteria o poder político por muito tempo. Todavia há que se considerar que os alunos permanecem na instituição apenas durante sua formação, que dura não mais de três a quatro anos. Ao contrário, professores e admnistrativos permanecem por longo tempo, em torno de 30 a 40 anos até se aposentar, assim constroem um vida política e uma relação mais forte e dependente com a Instituição.
    Como vêem… a participação dos alunos é garantida e é efetiva, creio que poderemos, ao longo dessa discussão, indentificar uma maneira mais democrática, o que tenho buscado ponderar ao ler todos os comentários postados.
    Boa discussão a todos, valeu Ozaí!

  3. Parabéns pelo texto e por retomar a discussão!
    É difícil entender como um espaço que deveria ser democrático, de participação e igualdade pratica atos como o já famoso “70-15-15”. Atitudes como tal sistema me remontam a ações de políticos que, preocupados apenas com seu próprio bem-estar e o dos seus, legislam em causa própria ou pela manutenção do poder.
    Parece que o elitismo de Mosca, Pareto e Michels se faz presente, de maneira vergonhosa diga-se de passagem, numa instituição de ensino das mais gabaritadas do sul do país!
    É uma pena.. mas pior que vivermos tal situação é percebermos que o debate para mudá-la não se dá nos conselhos superiores.
    Que venham as eleições, que surjam os novos candidatos a reitor e vice-reitor, novos chefes e chefes adjuntos, novos coordenadores e coordenadores adjuntos e novos representantes dos departamentos no Conselho Universitário! E que ao menos um tenha o discernimento (ou porque não dizer o bom senso?) necessário para propor o fim do “70-15-15” e o direito de voto paritário na UEM!

  4. Ótimo texto pai! Você é froids! rsrsrs…

    Concordo com vc que os alunos não se comprometeram enquanto não ficar claro que sua participação é importante para a instituição e para sua formação como pessoa. E acrescento, como aluna, que além da desigualdade no valor dos votos entre professores, alunos e funcionários, o fato do presidente (coordenador) e seu vice (adjunto) já saírem praticamente eleitos ao montarem as chapas – como vemos na maioria dos departamentos da UEM, onde existe apenas uma chapa e a votação é mera formalidade – também é um grande desistímulo para que os alunos votem, afinal, como muitos dizem, “não fará diferença alguma”. E, discordando da citação que o Raimundo usou em seu post, jovens que ingressam em uma univesidade são adultos e devem ser tratados como tal, e enquanto forem tratados como adolescentes ou “crianças” impensantes, nunca assumiram seus deveres – é o que vemos, por exemplo, em nosso DCE, que deveria ser uma representação dos alunos e não passa de mais um lugar de diversão dentro da universidade.

    Falei e disse! rsrsrs
    Beijos

  5. A universidade, ao contrário do que pensam alguns, não é o lugar para o exercício da democracia. Ela é um lugar de aprendizado e de estudo.
    Equalizar todos os seus “frequentadores” é uma falsa questão, e uma falsa posição.
    Não se pode equiparar os que têm interesses permanentes no desenvolvimento da instituição e os que estão de passagem tentando se qualificar para a vida e o mercado de trabalho.
    Democratismos falsos são uma receita segura para a decadência e a inoperância.
    Aluno está ali para aprender, e deve cobrar o ensino de seus mestres.
    Não está ali para opinar sobre o funcionamento da universidade no mesmo pé de igualdade, ou fora dos mecanismos previstos para esse efeito.
    Demagogia sobre a igualdade, onde não existe igualdade de fato, só pode redundar em fracassos.

  6. Este ano votaremos todos para o mais alto cargo de nosso país. Isto não foi uma dádiva mas uma conquista. Foi resultado de uma luta unida de todos os setores progressistas do nosso
    país, inclusive setores progressistas da Igreja Católica. As instituições ligadas ao MCT também têm uma fórmula ridícula de nomear os dirigentes de suas instituições o conhecido Comitê de Busca e (Apreensão). Como se vê inspirada na mais legítima tradição estalinista, facista e nazista. Recentemente em nosso país os militares para obter maioria no Senado instituiram os senadores biônicos. Esta fórmula das Universidades como das Instituições de pesquisa ligadas ao MCT só denunciam a necessidade de uma campanha nacional por eleições diretas em todos os níveis nas universidades e instiuições de pesquisa. Que todos os candidatos apresentem suas propostas , seus projetos e etc… e se submetam ao sufrágio universal de suas comunidades sem privilegiar o voto de quem quer que seja. A ANDES e a SBPC podem muito bem se articular e liderar esta campanha. O mais ridículo é ver antigos companheiros, camaradas e etc.. . emprestando seus nomes para viabilizar estas fórmulas reacionárias de continuar se lucupletando com verbas, bolsas, enxovais etc…DIRETAS JÀ. O resto é entulho autoritário.

  7. Meu caro amigo Ozai. 1) Novamente seu escrito demonstra incoerencia, quando diz “O resultado é o fortalecimento do individualismo, do descomprometimento…” Ora, se o professor, aluno ou funcionário NÃO PARTICIPAM das reuniões abertas ou como representantes nos três legislativos da UEM (COU, CAD, CEP) ele faz opção pelo “descomprometimento”. Especilamente o professor “consciente” deve se comprometer a “sujar” as mãos no dia-a-dia das discussões e atos ligados aos destinos da universidade, senão ele é visto como “intelectual elitista”, no mínimo. É chato, sim, estar nesse meio, mas é DEVER, meu caro. Como dizia um filósofo antigo “é próprio do ser adulto enfrentar os deveres, enquanto a criança quer apenas fazer coisas que lhe dá prazer”. Queremos essa crítica sua e dos outros, DE DENTRO, forjada na práxis universitária. Por favor, escute, entenda.
    2) Sobre o peso do voto do professor da UEM, essa discussão foi realizada várias vezes, inclusive com participação dos grupos representativos e independentes (como eu), e continuou essa proporção porque os argumentos de oposição não convenceram os presentes. Há interesses e interesses, sim, e daí. Participe, lute, faça oposição, arguemente, faça um movimento… Democracia é isso: partipicapção, comprometimento com as lutas de fato, ter disposição de argumentar COM LUCIDEZ E SERENIDADE, tolerancia e respeito de ouvir outras posições, votar e ser votado e aceitar os resultados. A propósito, acho exagero o peso docente, mas tb não acho que aluno – obviamente em trânsito na universidade – deve ter peso igual aos que permanecem e são diretamente responsáveis pela sua gestão. Por exemplo, um errinho pode levar o professor-representante ser processado judialmente, enquanto que o aluno é quase-anônimo, não é responsável judicialmente pela política e gestão da universidade. Abraços. E, vamos ao “cromprometimento”, companheiro, camarada OZAI.

  8. Antonio
    Saude e liberdade
    Nas várias instituições de ensino superior do Brasil, este debate volta e meia retorna. Pena que não seja permanente, e ai temos muito da omissão dos estudantes. Mesmo durante o período de excessão (1964-1984) os estudantes das Universidades brasileiras clamavam por democracia e participação na condução dos rumos das instituições de nível superior. Obvio que só poderemos chamar de Universidade, Faculdade ou de Curso Superior as que tenham como um dos parâmetros a democracia. Infelizmente tal não ocorre, consequentemente considero temerário chamar de universitários tais estudos. Por outro lado o democratismo que se espraia também de nada vale. Escolher por exemplo o Presidente por via democrática (democracia representativa) as vezes é bem pior que ter um ditador de plantão. Em regra os eleitos democraticamente, por mais representativa que seja a eleição, no caso em tela paritária e até tendo um aluno como reitor de nada adiantara se não estiver assegurada a voz de todos. O desafio da Universidade e mesmo da sociedade não é com a democracia representativa mas com o direito de todos o qual sim tem que ser necessáriamente igual. Um bom começo é também a revogabilidade de mandato, ser reitor não deveria implicar em diferenciação salarial e outras beneces como vimos no caso de Brasilia já algum tempo atrás.
    Cordialmente
    Pedro

  9. Essa forma de discriminação favorece tão somente à formação de grupos que querem se perpetuar no poder. “Compram” docentes com promessas – e liberação – de projetos e cursos até mesmo no exterior com bolsas polpudas e, desta forma, vão ganhando as eleições, se reelegendo ou elegendo pessoas do seu grupo e assim se perpetuando. Como o voto do aluno e dos funcionarios – na UNIVERSIDADE apresentado com uma forma torpe de discriminacao – somados nada vale face ao peso do voto do docente, fica fácil a manipulação do segmento “docente”. Claro que eu seria irresponsável se estendesse esse raciocínio à categoria docente, mas me refiro a uma boa parte da categoria. Isso também ocorre na Universidade do Estado da Bahia onde estudei e perdura esta forma de eleição(????????????)

  10. Olá!! professor Antonio boa materia aliás, como sempre né! você sempre nos enriquecendo de conhecimentos e esse tema ´sobre a suposta democracia nas Universidades públicas é demais dá” pano pra manga”, muito polêmico se aqui formos falar dessa “falsa democratização” que as universidades publicas pregam uma coisa é na teoria e outra na prática . Votei na eleição passada para reitor , onde eu estudo dessa vez só teve um candidato a reitor , por sinal já estava no poder , obteve a reeleição. Mas como me inojei quando vi só um unico candidato e pior ainda a gente percebe que é a manutenção de poder acima de tudo. Mas fiquei mais triste ainda quando vi que meu voto não tinha peso quase algum. Fiquei decepcionada, mas votei, pois é um direito adquirido, mas precisamos voltar a esse assunto e repensar essa questão do peso do voto do estudante na universidade afinal, sem estudantes não existiria escolas, Universidades … E as pessoas ainda sempre querendo e mantendo o poder , poder , poder e poder e mais poder. Professor se me permite uma sugestão> faça uma matéria falando sobre a obtenção do poder seja em qualquer área, hum… os nossos prefeitos , vereadores, governadores , parlamentares que o diga… como eles adoram o poder, como eles adoram aquelas cadeiras lá de Brasilia e outras cidades. O poder na vida das pessoas o que não é capaz de fazer heim???…

  11. Parabéns pelo texto Ozaí. Felizmente esse ano temos o momento para reabrir essa discussão, a partir de cada departamento, a partir de cada centro.
    Essa a militância acadêmica que todos devem fazer. Espero que seja possível desenvolver uma linha de unidade com todos os setores do ME na UEM para construir uma bandeira única, que na minha opinião deve ser a paridade.
    Abraço.
    Gabriel.

  12. Aqui na UFG ocorre a mesma coisa. Na Faculdade de História nas reuniões do Conselho Diretor temos 4 vagas para discentes ao lado de mais de 30 docentes e da diretoria. Como é possível assim uma proposta vinda dos estudantes ser aprovada?

  13. O texto representa toda e qualquer atividade universitária que perpassa o nosso cotidiano. Recentemente tivemos na UEMG eleições para o reitorado. A mesma coisa: votos docentes “valem” muito mais do que os dos servos-funcionários e dos alunos-engessados, obviamente na lógica do ‘sistema’ eleitoral de muitas universidades. Pena que o espaço público da universidade, que é em tese o foro específico da crítica e da prática democráticas, não seja o exemplo necessário quando se trata de escolhermos nossos representantes institucionais.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s