Ademar Bogo e João Pedro Stédile na UEM

Escola Milton Santos (Fonte: http://www.mst.org.br/node/10234)

Nesta semana, Ademar Bogo e João Pedro Stédile, da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), participaram de evento na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Na quarta-feira, 07 de julho, o filósofo, poeta e escritor proferiu a palestra Universidade e Movimentos Sociais: desafios do momento histórico”; no dia 09, sexta-feira, foi a vez de João Pedro Stédile falar sobre a situação atual da luta de classes no campo. O evento foi promovido pelo Departamento de Teoria e Prática da Educação, da UEM, Núcleo de Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável – Nads/UEM, projeto de ensino Políticas e Gestão no Brasil: Educação no e do Campo e Escola Milton Santos. Este “Ciclo de debates sobre Educação e Movimentos Sociais” fez parte das atividades de inauguração da Escola Milton Santos.*

É louvável a iniciativa dos organizadores no sentido de aproximar a Universidade dos Movimentos Sociais e vice-versa. A fala do Coordenador Nacional do MST, Ademar Bogo, enfatizou este aspecto: “O MST precisa da Universidade”, disse. Para ele, é preciso motivar linhas de pesquisa sobre os movimentos sociais, mas também dar retorno aos mesmos. É preciso ir além da mera instrumentalização, ou seja, da via de mão única pela qual os pesquisadores vão ao MST, enquanto “objeto de pesquisa”, fazem seus mestrados, doutorados, etc., e ficam nisso. Bogo também chamou a atenção para a necessidade da responsabilização diante da realidade com a qual interagimos e apresentou um painel sobre o MST desde sua fundação aos embates atuais.

Faço coro com as questões levantadas por Ademar Bogo quanto à Universidade e a necessidade desta em aprofundar os vínculos com a sociedade e os movimentos sociais. Parece-me, porém, que salvo algumas iniciativas isoladas, ainda que elogiosas, a comunidade acadêmica em geral está voltada para o próprio umbigo e cada vez mais envolvida numa lógica que a afasta não apenas de movimentos como o MST, mas também das demandas dos setores mais necessitados da sociedade. A Universidade, a despeito dos esforços de alguns, distancia-se da função social que deveria cumprir.

João Pedro Stédile falou sobre as transformações pelas quais passaram o setor rural brasileiro nos últimos anos e os desafios do MST na nova realidade da hegemonia do capital financeiro e da crescente presença do agronegócio. Foi uma aula didática e contundente sobre o contexto histórico, econômico, político e social da luta pela terra e os dilemas do MST e da sociedade brasileira e mundial na atualidade. Stédile apresentou dados e exemplos que caracterizam o modelo de produção do agribusiness contraposto ao modelo agroecológico defendido pelo MST. Neste contexto, a reforma agrária clássica perde sentido. Para ele, estamos numa fase de acúmulo de forças e de resistência.

Tanto Ademar Bogo quanto João Pedro Stédile proferiram palestras instigantes e esclarecedoras. É pena que não houve maior participação dos alunos devido ao recesso acadêmico iniciado na sexta-feira. Na prática, a UEM estava esvaziada. Como é típico em situações como esta, o público presente tende a ser composto majoritariamente por simpatizantes e/ou apoiadores diretos. Isto não é negativo em si, mas perde-se a oportunidade de alcançar aqueles indivíduos que tem dúvidas ou divergem dos movimentos sociais como o MST. O debate fica comprometido quando participam apenas os “convertidos”. Esta, porém, parece ser uma característica geral da vida acadêmica – mesmo em seus eventos internos sem qualquer relação com os movimentos sociais. De qualquer forma, foi válido e os organizadores estão de parabéns!


* A Escola Milton Santos é a quarta escola de agroecologia no Paraná. Ela oferece cursos de nível médio e pós-médio de Técnicos em Agropecuária com ênfase em Agroecologia para filhos dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, do MST e de outros movimentos sociais. Ver: http://www.mst.org.br/node/10234

7 comentários sobre “Ademar Bogo e João Pedro Stédile na UEM

  1. No estado que possui a agricultura mais avançada do País, o movimento mais retrógado vem divulgar teses ultrapassadas e carentes de qualquer realidade com respeito ao Brasil real.
    Como a universidade também vive um universo à parte do mundo real, eles se casam muito bem.
    Espanta ver a alienação, no sentido para-marxista, de tantos universitários: pensam que estão lidando com um movimento social, quando estão em face de um partido neo-bolchevique. Bem, para quem acredita estar em Petrogrado em 1917 parece que está bem…

    • Parabens para Paulo Roberto Almeida. Em poucas palavras claras e concisas, matou a charada!

  2. É realmente uma pena que não houve nenhuma divulgação. Eu mesmo gostaria muito de ter participado. Quem sabe na próxima.

  3. Antonio
    Saudações
    Realmente a distância entre as instituições de ensino superior e a sociedade, particularmente dos excluídos, é grande. Felizmente não podemos generalizar, pois existem algumas excessões, ou seja, em alguns momentos e em alguns projetos, timidos evidentemente, a Universidade se digna ir ao encontro da realidade social. A regra é se manter sobre si própria, se bastando no seu conhecimento e pesquisas, esses profundamente dissociados da realidade cotidiana. Parcela dessa responsabilidade é dos próprios estudantes, que aceitam tudo que lhes é dito e imposto. A maioria inclusive, não só recebe, como reproduz. Cabe a nós que já passamos por cursos universitários insistir no debate e discussão de qual Universidade queremos e a quem ela pode ser mais útil. Em nossa ótica se ela começar a ajudar os excluídos, os desempregados, os analfabetos, os sem-terra, teto, moradores de rua, dará passo significativo.
    Cordialmente
    Pedro
    Caxias do Sul – RS

  4. Concordo com o argumento publicado. As Universidades, em geral refletem o que são: instituições que formam profissionais para servir o establishment, ou seja, a concentração do poder, da renda, da propriedade e dos bens de produção em mãos de poucos. Fico horrorizado quando vejo mestres que ainda apregoam a teoria econômica de Adam Smith, da tal “mão invisível”, e veem o mercado e a politica neo-liberal como o que há de mais avançado e possivel de ser realizado! O MST, quebrou de modo lúcido esse paradigma e retoma a questão da luta de classes, que se eterniza: explorados x exploradores. Um país que legaliza e defende o direito de um homem só ou empresa possuir milhões de hectares de terra enquanto outro não pode ter nenhum, pisa na própria constituição erigida sob o valor da igualdade, equidade e solidariedade.

  5. Prezado,

    Não acho que a universidade, enquanto instituição, olha para o seu próprio umbigo. Esse tipo de comentário é linear. Se a universidade assim o fizesse, não abrigaria palestras como as mencionadas no post. Por outro lado, creio que falta inteligência e capacidade de articulação e comunicação à direção do MST. A direção do MST não inova nas suas estratégias de comunicação e não faz com que enxerguem a real dimensão de sua causa. Em parte, isso faz com que não aumente o número de simpatizantes à sua causa e essa fique restrita aos “convertidos”. Aliás, esse é um problema da esquerda: ela se comunica mal, mas muito mal mesmo. Como se não bastasse, o movimento não sinaliza ser um movimento democrático, pois a sua direção permance a mesma há vários anos. Algo quase stalinista, do tipo “ad eternum”.

    Francisco Giovanni Vieira

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