Os arautos do reacionarismo

Os reacionários temem mudanças, especialmente as que desafiam as suas certezas e dogmas. Se dependesse deles, as fogueiras da inquisição permaneciam a arder e a queimar os ateus, hereges e gays, que eles consideram anormais e aberrações da natureza. Conservadores até a medula, não suportam a mínima alteração no que consideram a ordem natural das coisas. Na cruzada contra o mal, isto é, contra tudo o que não se encaixe em sua tacanha concepção sobre o mundo, vêem-se como os salvadores de almas e imaginam ter o mandato divino para manter-nos no reto caminho do Senhor!

Não se contentam em se imaginarem “os eleitos”, lançam o dedo acusador contra os que ousam não compartilhar da sua cegueira. São missionários retrógrados que temem o aperfeiçoamento dos costumes e dos valores humanos. Seus corpos estão no presente, mas suas mentes são prisioneiras de um passado que urge superar. Obstinadamente, anunciam um mundo morto e mortificante. Eles são os arautos da regressão política, social, cultural e moral.

Se dependesse deles, o mundo não mudaria. Eles brandem suas espadas imaginárias e levantam suas vozes contra os que se dedicam a derrubar os muros simbólicos e reais que mantêm a segregação sexual, a opressão machista, heterossexual e homofóbica. Claro, as sociedades ainda são predominantemente machistas e resistem aos avanços feministas e dos gays, lésbicas e afins. Diferenças e valores morais e culturais introjetados por gerações, educadas por mães que consideram normal a dominação masculina e por pais homofóbicos e outros que até são transigentes em relação aos homoafetivos, desde que sua prole não seja um(a) deles(as).

As lutas das mulheres e dos homoafetivos tendem a fragilizar as muralhas que dão segurança à maioria. Assim, mesmo que as pessoas individualmente não gostem, a sociedade progride e reconhece a igualdade na diferença. Refiro-me à igualdade no plano formal e jurídico. A aprovação pelo Senado argentino do casamento entre pessoas do mesmo sexo é exemplar. É uma lei polêmica e a divergência é democrática. A sociedade argentina mobilizou-se e o debate foi intenso. O resultado apertadíssimo da votação (33 votos contra 27, com três abstenções) comprova-o. A Argentina pode orgulhar-se. Agora, está entre os dez países que adotam leis neste sentido (os outros são: Holanda, Bélgica, Espanha, Canadá, África do Sul, Noruega, Suécia, Portugal e Islândia).

Em tais condições, é patente e deve ser reconhecido o direito democrático dos que não aceitam o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo. É importante frisar que a lei não anulará o estigma nem o preconceito. A questão é ainda mais profunda porque a polêmica extrapola o âmbito social e político e é alentada por argumentos de cunho religioso. Os arautos do reacionarismo, que se vêem como intérpretes e porta-vozes da palavra divina, escarnecem e acusam os pecadores que desafiam a Lei de Deus! E se tivessem o poder de aplicá-la? Deus nos livre desses fiéis seguidores!

Não questiono o direito de eles acreditarem em Deus. Aliás, é perda de tempo e energia discutir isto. Nunca vi nem falei com Ele, mas Ele existe na cabeça dos que acreditam. Na medida em que a maioria acredita, Ele se torna realidade – um fato social, como diria Durkheim. O problema, porém, começa quando estes crentes, cegos em sua leitura fundamentalista de um texto considerado sagrado e escrito pelo próprio Deus, arrogam-se serem intérpretes da Lei divina e intentam impô-la à sociedade e ao Estado. São teocratas disfarçados de missionários abnegados; são os arautos da intolerância que alimentam as fogueiras acesas por fanáticos de todas as espécies. Felizmente, o mundo muda… apesar deles!

9 comentários sobre “Os arautos do reacionarismo

  1. Ozai:

    excelente texto, balanceado, procurando nao diminuir o poder da fe’ dos que a tem, enquanto ao mesmo tempo assegurando que os que nao estao de acordo tem os mesmos direitos. Nao faz muito tempo–uns trinta anos–um amigo meu, homossexual, saiu do Brasil por ver como gays eram tratados em publico e dentro da propria familia. Hoje ele estaria nas ruas, provavelmente, protestando e se fazendo ouvir. Caminhamos, devagar e sempre.

  2. Antonio

    Boa tarde.

    Observo com angustia que o fanatismo vem aumentando sensivelmente. As tragédias do Século XX não foram suficientes para o despertar da paz e de uma sociedade centrada na igualdade social, política e econômica.
    A intolerância vem crescendo e as mazelas sociais, sobretudo a pobreza material e de espírito, somente vemos aumentar astronomicamente.
    As tragédias se sucedem e nós ficamos pasmos e sem ação. O derramamento no Golfo passa como coisa batida, quando a incompetência deveria estar sendo denunciada e punida. Se queremos nossos excluídos por delitos submetidos a penas embora a pequenez de seus atos, porque não punir os criminosos ambientais?

    Um abraço

    Pedro
    Santos – SP (Provisóriamente).

  3. Homossexuais terem o direito de casar perante a lei, ok. Agora quero ver essa liderança gay começar a querer realizar casamentos em igrejas, desrespeitar a religião, coisa que já acontece em várias partes do mundo.
    Nenhuma religião séria condena homossexuais, condena o homossexualismo. Não entender essa diferença é ser muito incapaz de raciocínio.
    Esse programa nacional de direitos humanos PNDH 3, quer dar direitos por lei a homossexuais de processarem um padre ou pastor por falar contra o homossexualismo, isso é ridículo. Querer que toda uma sociedade seja submissa à um gosto sexual de uma minoria é demais. Daqui a pouco vão querer que todos usem vermelho, montem escolas de gays. Eu me pergunto, o que irão ensinar de diferente em uma escola de gays???? Cidadania que não é.
    Agora sobre a existência de Deus, isso é matéria de conhecimento e não de fé.

    Por São Tomás de Aquino:
    Com o uso da razão é possível demonstrar a existência de Deus, para isto propõe as 5 vias de demonstração:

    Primeira via
    Primeiro Motor Imóvel: Tudo o que se move é movido por alguém, é impossível uma cadeia infinita de motores provocando o movimento dos movidos, pois do contrário nunca se chegaria ao movimento presente, logo há que ter um primeiro motor que deu início ao movimento existente e que por ninguém foi movido.

    Segunda via
    Causa Primeira: Decorre da relação “causa-e-efeito” que se observa nas coisas criadas. É necessário que haja uma causa primeira que por ninguém tenha sido causada, pois a todo efeito é atribuída uma causa, do contrário não haveria nenhum efeito pois cada causa pediria uma outra numa sequência infinita.

    Terceira via
    Ser Necessário: Existem seres que podem ser ou não ser (contingentes), mas nem todos os seres podem ser desnecessários se não o mundo não existiria, logo é preciso que haja um ser que fundamente a existência dos seres contingentes e que não tenha a sua existência fundada em nenhum outro ser.

    Quarta via
    Ser Perfeito: Verifica-se que há graus de perfeição nos seres, uns são mais perfeitos que outros, qualquer graduação pressupõe um parâmetro máximo, logo deve existir um ser que tenha este padrão máximo de perfeição e que é a Causa da Perfeição dos demais seres.

    Quinta via
    Inteligência Ordenadora: Existe uma ordem no universo que é facilmente verificada, ora toda ordem é fruto de uma inteligência, não se chega à ordem pelo acaso e nem pelo caos, logo há um ser inteligente que dispôs o universo na forma ordenada.

    Se alguém quiser refutar São Tomás, gostaria de ler as considerações. Não adianta ler Marx e Gramsci pois eles não tiveram capacidade para isso.

    Abraços e fiquem com Deus.

  4. caro Ozai, é importante e oportuno abordar esse tema, no momento em que nossos vizinhos rompem com uma tradiçao universal, que é a de sacramentar exclusivamente a uniao heterosexual.
    Nao sei o que isso vai representar na nossa era, mas certamente algo muito melhor do que as bancarrotas da piratagem financeira respeitavelmente organizada, a destruiçao dos oceanos pelas gigantescas multinacionais do petroleo, sem falar da expansao da desastrosa pax americana pelo Oriente médio, etc.
    acho que o seu amigo acima tem razao de chamar a atençao para o peso dos argumentos tradicionalistas – afinal, uma familia tradicionalmente estavel e afetuosa é sem duvida um valor. mas sera que se pode idealiza-las? e, falando nisso, sera que a midia nao anda idealizando seu tanto as felizes criancinhas que têm a sorte de ter por pais um casal homo?
    acho que a questao fica em aberto (andei lendo sobre o método socratico de obrigar a pensar com exatidao sobre cada termo de que estamos falando, através de perguntas e de ironia e fiquei muito impressionada), mas sem duvida que o passo dado pelo senado argentino é um corajoso sinal de abertura.
    para terminar, pergunta de estrangeira: ja existem cassinos no Brasil ou os brasileiros jogadores continuam indo jogar na Argentina, no Uruguai, na casa da vizinha ou em qualquer ponto de jogo clandestino onde o governo renunciou desde o governo Dutra a levantar impostos, por pura hipocrisia?
    abraço,
    Regina

  5. Caro professor, é realmente preocupante o poder do dogmatismo, sendo uma questão que tem de ser repensada!

    Se o senhor me permite, gostaria de fazer uma correção:

    No trecho ” …arrogam-se serem intérpretes…” deve-se substituir o “serem” por “ser”, visto que constitui uma locução verbal.

    Grande abraço!

  6. Caro Professor – Ao tempo que insisto em sua colaboração para a questão importante da participação do sociólogo no Fórum dos Trabalhadores do SUAS, pela sua importância Nacional e emergencialidades envolvidas, gostaria de fazer alguns reparos neste artigo.
    Creio que a civilização elegeu os paradigmas da ciência e democracia para resolver pacificamente os conflitos das diferenças.
    Neste sentido, especialmente nós, que tivemos alguma iniciação nos cânones científicos, precisamos cada vez mais nos pautar por razões, e não acusar e praticar a dogmatocracia, que já tantos males causou e causa nos meios menos treinados para o que há de melhor na Humanidade.
    Entendo que a Igreja tem fundamentos aos quais publicamente se expõe, e não é o que o artigo em questão faz, quando apenas rotula e acusa, sem nenhuma informação que seja diferente.
    Em recente debate sobre o assunto um dos defensores da família heterossexual buscou mostrar as questões envolvidas com educação de menores, modelos nas tenras idades, dentre outras questões de relacionamento para um futuro com menos problemas.
    Creio que até o momento as razões não são conservadoras ou avançadas, mas as atitudes estão mostrando uma esquizofrenia, pois acusam daquilo que estão praticando.
    Tentam ocupar espaço pela violência, ridicularização, e não argumentos e o que há de melhor na civilização.
    Tenho interesse em aprofundamentos nas duas situações.
    SHALOM
    ZÉ CARLOS

    • Caro António
      Nessa visão do mundo tacanha que voce refere a componente mais grave é a de uma moral religiosa que se centra no sexo e nos comportamentos sexuais das pessoas para decidir do bem e do mal, como se o sexo fosse algo pecaminoso que só pode ser aceite se estiver ao serviço da procriação. E é essa moral religiosa sexual que eu não vejo ser denunciada por quem, tendo muitas vezes uma formação intelectual e filosófica. o devia fazer. Mesmo os filósofos sempre olharam para o sexo como algo que de preferencia devia ser evitado. Quanto aos cientistas e agora estou a pensar na pessoa que comentou antes de mim, também não tem a ficha muito limpa pois por exemplo em relação as mulheres limitaram-se a fornecer o racional para preconceitos que as prejudicavam gravemente, inclusive na sua sexualidade.

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