VII Colóquio de Pesquisa Sobre Instituições Escolares

Realizou-se nos dias 1, 2 e 3 de setembro, no Centro de Pós-Graduação da Uninove, São Paulo, o VII Colóquio de Pesquisa sobre Instituições Escolares. Além das várias comunicações e apresentação de pôsters, foram realizadas várias mesas-redondas.[1] Fiz parte da mesa-redonda A Universidade e a construção da práxis contra-hegemônica, realizada no dia 02/09/2010, na companhia do Prof. Dr. Alvaro Acevedo Tarazona (Universidade Industrial de Santander – Colômbia) e Prof. Dr. Carlos Bauer (PPGE-UNINOVE). A minha fala teve como base o texto A Delinquência Acadêmica, de Maurício Tragtenberg [2], e Somos todos delinqüentes acadêmicos?, de minha autoria.[3]

Falei com o coração e numa linguagem talvez mais informal do que o ambiente acadêmico e o seleto grupo de intelectuais presente esperasse. Fiquei com a sensação de que falei o que não devia e deixei de lado aspectos importantes. Não teria sido melhor adotar um tom mais formal? Além dos textos, adotei um roteiro, mas segui só até certo ponto. Apesar da tolerância do coordenador, chega a hora de concluir e, então, é preciso desconsiderar o plano.

O grande dilema da fala pública é que dificilmente sabemos como se dá a recepção. Há indícios que nos permitem avaliar: o comportamento, a permanência no recinto e a presença e participação no debate. De qualquer forma, o receptor é uma incógnita.

Pena que não foi possível prolongar o debate por mais tempo. Falamos demais! A questão fundamental, porém, emergiu: é preciso resistir. Mas, como? Aqui revela-se a força e fragilidade da minha postura. Na medida em que não tenho militância partidária, não freqüento igrejas – religiosas ou laicas –, me recuso a ocupar cargos e participar de instâncias como a pós-graduação, não me organizo para disputar a política universitária, termino por restringir a capacidade de resistência ao âmbito individual.

A individualidade tende a ser confundida com individualismo. É um dilema. De um lado, há a pressão para participar, aderir às estruturas, aceitar os “pequenos pecados” sem medo do inferno! É por aí que abrem-se as portas da adaptação. O passo seguinte é justificar-se e proteger-se com a retórica humanista e/ou revolucionária. Por outro lado, isolar-se também pode ser uma forma de suicídio político. Como se integrar e manter os princípios, a ética, a coerência entre o discurso e a prática, pensamento e ação? Se a opção é pelo exílio, será absurdo esperar a compreensão dos outros?

A fala do Prof. Romão e da Profa. Cleide, e a argumentação do amigo Carlos Bauer, me fizeram pensar. Talvez eu precise rever a postura; talvez os críticos tenham razão. Mas não me conhecem tão bem quanto a minha amiga quase sexagenária. Ela sabe que, desde que comecei as “minhas universidades” no sindicalismo em São Bernardo e Diadema, na Pastoral Operária na Zona Leste em São Paulo e no PT do Parque São Lucas (SP), prevaleceu a atitude independente. Sempre tive dificuldade de fazer o sacrifício do intelecto e de adaptar-me aos grupos organizados e instituições. Ela me conhece bem! Ainda que pensativo, sigo exilado, mas comprometido com a utopia que aprendi a cultivar naquela época.

Fiz questão de participar das atividades realizadas nos três dias de duração do evento. Foi uma oportunidade para conhecer pessoas maravilhosas, consolidar “amizades virtuais” e rever amigos cuja amizade resiste ao tempo, à distância e às eventuais divergências. Foi, sobretudo, uma oportunidade para aprender.

O evento revelou possibilidades de práticas contra-hegemônicas. Sinceros parabéns aos organizadores, especialmente ao Bauer, Jennifer, funcionários e pós-graduandos. E, muito obrigado!


[1] Foram realizadas as seguintes mesas-redondas:

Quarta-feira, 01/09/2010 – 14hs.

Tema: Do programa Universidade para Todos à Internacionalização das Instituições Universitárias Brasileiras

Participantes: Prof. Dr. José Eustáquio Romão (PPGE-UNINOVE), Profa. Dra. Cleide Almeida (PPGE-UNINOVE) e Prof. Fr. Jason Mafra (PPGE-UNINOVE)

20hs.

Tema: Universidade – História, formação e compromisso social

Participantes: Prof. Dr. Luís Eduardo Wanderley (PUC/SP), Profa. Dra. Maria da Gloria Gohn (PPGE-UNINOVE) e Prof. Dr. José Rubens Lima Jardelino (UFOP).

Quinta-feira, 02/09/2010 – 10hs.

Tema: Como e por que pesquisar Instituições Escolares?

Participantes: Profa. Dra. Maria Isabel Moura Nascimento (UEPG), Profa. Dra. Ester Buffa (PPGE-UNINOVE e UFScar) e Prof. Dr. Paolo Noselia (PPGE-UNINOVE e UFScar).

14hs.

Tema: A Universidade e a construção da práxis contra-hegemônica

Participantes: Prof. Dr. Álvaro Acevedo Tarazona (Universidade Industrial de Santander – Colômbia), Prof. Dr. Antonio Ozaí da Silva (UEM) e Prof. Dr. Carlos Bauer (PPGE-UNINOVE).

Sexta-feira, 03/09/2010 – 10hs.

Tema: Formação de Professores no Brasil e no México

Participantes: Profa. Dra. Bernadete Gatti (Fundação Carlos Chagas – FCC), Prof. Dr. Ricardo Pérez (Universidade de Guadalajara – México) e Profa. Dra. Ivanise Monfredini (PPGE-UNINOVE).

14hs.

Tema: Formação de Professores no contexto internacional

Participantes: Prof. Dr. José Rubens Lima Jardelino (UFOP), Profa. Dra. Diana Elvira Soto Arango (Universidad Pedagógica y Tecnológica de Colômbia – UPTC – e Red de Universidades Estatales de Colômbia (RUDECOLÔMBIA) e Profa. Dra. Thérèse Hamel (Université Laval – Canadá).

Obs.: Teve mesas-redondas que foram coordenadas por professores e pós-graduandos da casa. Evito maiores detalhes para não cometer erros quanto aos nomes, já que não estão incluídos na relação da programação entregue aos participantes.

[2] Este texto foi apresentado no I Seminário de Educação Brasileira, realizado em 1978, em Campinas-SP. Publicado em TRAGTENBERG, M. Educação, política e sindicalismo. São Paulo: Editores Associados; Cortez, 1978 (e também pela Editora Unesp, 2004). O texto A Delinquência Acadêmica está disponível em http://espacoacademico.com.br/014/14mtrag1990.htm

[3] Disponível na Revista Espaço Acadêmico, n. 88, setembro de 2008, http://www.espacoacademico.com.br/088/88ozai.htm

9 comentários sobre “VII Colóquio de Pesquisa Sobre Instituições Escolares

  1. Caro Ozai,

    Tentei acessar seu texto “Somos todos delinquentes acadêmicos? em seu blog e não foi possível, há algum problema com o acesso a esse documento; por favor, como posso ter acesso ao mesmo? Identifico-me demais com suas posições em relação à produção academica, marcadamente de cunho (re) produtivista, o que para mim é no mínimo antiecológico e redundante, pois a maioria dos artigos publicados, por obediência a “Tia Capes” e para rechear o lattes dos intelectuais academicos oficiais e os autodenominados engajados, são corte/colagem de leituras marcadamente eurocentricas e traduzem a ultima moda do discurso pseudo engajado dos academicos pós-graduados e laureados pela academia e órgãos de fomento a pesquisa, sobretudo na área de humanas e em educação; e o pior é que esses artigos resultam de leituras que também foram feitas à base da reprodução de outras leituras, o que acho repugnante. Gostaria imenso de ler seu texto, pois como não sou afeita à forma escrita para dar vazão aos meus sentimentos contrahegemonicos, pois o padrão estético/técnico da escrita acadêmica agride demais minha matriz oral e meu modo de pensar, e para mim a escrita é apenas uma forma de acesso a saberes e conhecimentos que possam aguçar ainda mais o meu pertencimento a uma parcela da população que ainda não se encontrou em nenhum dos espaços institucionais, embora atue na universidade como formadora de educadores e defenda a construção da competência leitora e escrita como estratégia política; assim, embora seja uma leitora compulsiva e não goste de traduzir meus pensamentos e posições na forma escrita, e só o faça em ocasiões extremamente necessárias, gosto de apreciar os que o fazem com competência, como é o seu caso. Agradeço se me ajudar a acessar seu texto.

    Grata e parabéns pelo blog, onde sempre identifico-me e sinto-me menos exilada social e politicamente.

    Lucinete Chaves

  2. Caro Ozaí, pela primeira vez ouso me manifestar. A razão é que me senti completamente identificada com suas (auto) reflexões a respeito desta incômoda posição na academia (“vai, meu filho, vai ser gauche na vida…”, já dizia o poeta). Como manter-se íntegro e coerente com uma posição crítica sem se isolar completamente ou sem ‘cair em tentação’ de integrar-se através dos meios que tanto criticamos? Como sobreviver, inclusive afetivamente, em um ambiente competitivo e hostil? Como manter nossa produção intelectual de forma isolada, sem reflexão, debate e trocas? O movimento docente supriu este espaço durante muito tempo mas agora, também lá, vivemos tempos difícieis, de crise e esvaziamento.
    Não há respostas, penso eu. Apenas coragem para resistir e ‘aguentar o tranco’, na certeza de que outros tempos – de luta e enfrentamento – virão. O otimismo histórico é nossa grande arma de resistência.
    Abraços
    Regina

  3. Dentro ainda das ^licenças poéticas^dos mais experientes permito-me sugerir uma reflexão sobre os propósitos de uma Pastoral, já que pratico a da Fé e Política, que me parece poder superar com mais coerëncia a tradicional Operária, mesmo aparentemente discordando da CNBB, e em que pese o CNLB.
    A cada embate de diálogos sempre haverá incompreensôes e concessôes, ora mais ora menos, numa busca de construir o BEM COMUM, para os ÉTICOS.
    O QUE É INTOLERÁVEL É A OMISSÃO, a fuga do dever de tentar melhorar.
    Etiquetas e criatividades daqui, confrontos e provocações ali, mas o que importa é tentar chegar num momento melhor.
    Temos limites e eles precisam ser respeitados a bem de uma qualidade, talvez o principal componente em falta nas formatações e desempenhos acadëmicos.
    A EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA NO SEU MELHOR SENTIDO PARECE-ME TER SUA RAZÃO DE SER NO QUE HÁ DE MELHOR NA HUMANIDADE, O CONHECIMENTO E PROTEÇÃO DA DIGNIDADE.
    Dignidade esta que me parece ser a própria essëncia dos DIREITOS HUMANOS CONSAGRADOS UNIVERSALMENTE, em que pese suas fronteiras nas questôes ecológicas e econömicas, em outras palavras nos limites materiais do desempenho político.
    A postura deve ser sempre de tentar o melhor possível, sem perder tempo precioso com arrependimentos inúteis, infrutíferos.
    AQUI LHE PERGUNTO DE NOVO SE NÃO É POSSÍVEL ABRIR UM ESPAÇO PARA UM DIÁLOGO SOBRE A SOCIOLOGIA DAS PROFISSÕES, NA MINHA FORMATAÇÃO E A PARTIR DE CERTA LEITURA DA TESE DE DOUTORAMENTO DA PROFA. DRA. MARIA DA GLORIA BONELLI(UFSCAR) E OUTROS ESCRITOS A RESPEITO das companheiras Profas. Dras. Marli Diniz(UFRJ) e Maria Lígia de Oliveira Barbosa(UFMG).
    Vejo nos conceitos da Sociologia das Profissões um caminho para tornar nossa área de estudos mais próxima da realidade, logo mais frutífera, menos alienada, mais engajada, menos elitista, mais artesâ, assim talvez acelerando mudanças indispensãveis na cultura para que as resultantes políticas possam ser de mais qualidade.
    Pastoral é ética perseverante e crente nos melhores resultados, a partir de ações pelas melhores intençôes, sempre complementadas pela Graça.
    Graça para mim é um fato recorrente de muitos sucessos significativos, e acho que por hoje paro por aqui.
    SHALOM

  4. Caro, Mestre Ozai
    O senhor não fala demais, simplesmente fala porque conhece a realidade, realidade essa que só visa o bem estar da classe dominante, enquanto isso a desiguladade social tende a aumentar, situação essa que poderia ser melhorada se na escolas de ensino fundamental, médio e superior fosse feito reflexões sobre os direitos de um ser social em desenvolvimento e automaticamente através destas reflexões uma grande parte da população conseguiria sair do campo Moral para o campo da Ética, ética essa que o Sr. tem e isso nos dia de hoje é raro.
    O Sr. nem imagina quantas vezes já tentei expor o que penso a respeito de suas publicações, mas elas são tão completas que fico sem palavras.
    Abraços, sou admiradora de suas publicações isso está me ajudando muito a refletir sobre
    as injustiças sociais.

  5. “Como se integrar e manter os princípios, a ética, a coerência entre o discurso e a prática, pensamento e ação? Se a opção é pelo exílio, será absurdo esperar a compreensão dos outros?”

    Caro Prof. Ozaí,

    Antes dessa frase acima que separei, o senhor comentou também sobre os pequenos pecados.
    Se esses pequenos pecados, são por má fé dos participantes. Acredito que devemos lutar contra isso também. Talvez esses pequenos pecados são os que fazem a diferença para o mal.

    A questão de como se integrar e manter os princípios realmente é um grande problema. Ainda mais, quando percebemos que os valores de uma grande maioria de líderes, sejam universitários, políticos, empresariais estão distorcidos e não trazem benefícios a sociedade.
    Não sei se esse é o seu caso, mas percebo que isso existe e muito em nosso querido país.
    Também não sei se minha geração verá um país mais democrático e ético. Sou bem pessimista em relação a isso.
    Mas, aí que entra a grande questão caro Professor.
    Devemos lutar, se integrar, correr os riscos ou ficar assistindo o barco afundar?

    Acredito que devemos seguir nossos princípios até o fim, pois uma coisa é certa, dessa forma não corremos o risco de nos arrepender depois!

    Sempre há a possibilidade de nós estarmos certos e uma grande maioria errada, ao invés de aderirmos a algo, talvez sejam os outros que deveriam se “desaderir”…

    Saudações!

  6. Estimado Antonio
    Bom dia
    Acho que exageras! Tens ainda amigos, sinal que não és tão individualista. Mais do que isso consegues seres convidado à eventos. Trabalhas no meio academico superior, ainda um privilégio no Brasil real. Quanto aos outros dilemas são próprios, isso salvo melhor entendimento, de que tem posições politicas, convicções éticas, amor a leitura, inconformismo com as injustiças, etc. Por mais e melhor que façamos sempre achamos que não fizemos(ou fazemos) o bastante. Ao recebermos uma critica voltamos a nos questionar onde “erramos” e o por que não fizemos de forma diferente. Ótimo que se não as Instituições Superiores, mas ao menos pessoas e segmentos que nelas trabalham se esforcem em preservar o sentimento academico, ou seja, o espirito da troca de idéias.
    Um abraço
    Pedro
    Caxias do Sul – RS

  7. Amigo Ozai

    Que interessa se falou demais?O que prevalece é que o seu saber sobre a temática em questão é um saber aquirido no contacto com a realidade em si.Enqto os outrs oradores esse saber é ditado pela teoria instalada nos gabinetes,

    Todo o mundo sabe bem que se está num mundo em mudança que,a meu ver ,uma solução a saiir ,não a propor ,é encarar o problema das instituiçoes com a frontalidade do diálogo com os que operacionam na área escolar.

    Os meus parabéns por ter abordado o tema não com a demagogia dos gabinetes mas por testemunhar que o tema náo atinge os objectivos para a mudança se não for alicerçado no saber feito,

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