Por quê?!

“Simplesmente, era-lhe impossível continuar a viver! “Deus não quis!” diria a pobre moça, e matou-se depois de rezar uma oração. Tudo isso parece simples, mas nos persegue como pesadelo; chegamos até a sofrer com isso, como se houvesse acontecido por nossa culpa”.

(F. Dostoiévski)[1]

Estava no Anfiteatro Maior (CCH), na Universidade Estadual de Londrina (UEL), quando soube da triste notícia: ela suicidou. À mesa, os conferencistas Eurelino Coelho (UEFS), Raúl Zibechi (Brecha/Uruguai) e Valério Arcary (CEFET), debatiam sobre o socialismo no século XXI. Uma discussão deveras interessante, mas não tão importante quanto uma vida humana. Perplexo, não mais consegui concentrar-me. Como um filme a passar diante dos meus olhos, a minha mente viajava no tempo e buscava imagens de alguém que não verei nunca mais. Um rosto jovem e alegre, sorriso cativante, foi resgatado em minha memória. Mais do que o registro de um tempo que não voltará, a imagem fixada para o resto dos meus dias.

No dia seguinte, ao acordar, fiquei a pensar sobre o fato. O dia estava ensolarado, lindo. Mas ela não teria nem veria aquele dia. “O sol não nasceu para ela”, pensei. Na verdade, ela recusara-se a vê-lo e senti-lo novamente. Quais seus reais motivos? Eu, que amo tanto a vida e o viver, tento compreender o seu desespero. Mas é difícil.

Retorno para a UEL. É manhã e o campus está repleto de jovens estudantes caminhando em direção às salas de aula. Passo em meio a rostos jovens, alegres e sorridentes, numa vozearia à espera do início da aula. Caminho entre eles e observo-os. Fazem-me lembrar dela. Até outro dia, também a via num ambiente como este. Não a encontrarei mais, não mais verei seu semblante, seu olhar. Pergunto-me, novamente: por quê?!

O suicídio revela a fragilidade das relações humanas, põe a nu o quanto desconhecemos as pessoas. Descobrimos, então, a incapacidade de perceber a tendência suicida. O indivíduo que dá fim à própria vida é aquele que nos parece que nunca cometeria um ato desta gravidade. Imagino que isto aconteça no seio da família e dos amigos mais íntimos. Recordo da mãe desesperada diante do corpo do filho inerte no féretro que, em desespero, gritava: “Por quê? Por quê? Por quê?!” Ela tentava compreender a atitude do filho.

O suicídio nos joga na cara a superficialidade dos relacionamentos humanos numa sociedade cada vez mais individualista. De certa maneira, também somos responsáveis perante o suicida; afinal, ele é um ser social e seus motivos podem não ser meramente individuais. Precisamos pensar se e em que medida a sociedade contribui para isto.

Ao que parece, o suicida sempre nos pega de surpresa. Daí a perplexidade e a pergunta que martela na mente: por quê? Mas não temos a resposta, talvez jamais a tenhamos. Pois, ainda que os motivos sejam racionalizados, a atitude suicida nos lança diante do imponderável, do inatingível. Ainda que razão tente compreender e, quiçá, até mesmo justificar, é difícil aceitar.

Nestas circunstâncias, a morte parece lançar uma espécie de culpa, por sermos incapazes de evitá-la. O que poderia ter sido feito? Teria sido possível ajudá-la a salvá-la de si mesma? Como? O tempo, porém, não volta atrás e é impossível responder a tais questões. O suicídio revela a nossa impotência, mas nos questiona sobre os mistérios da vida e da morte, do humano demasiado humano.

Não estou entre os mais íntimos do seu convívio, mas o pouco em que convivemos foi cativante. À minha maneira sofro, pois é impossível permanecer incólume diante do sofrimento e da morte de uma jovem. Resta-me cultivar sua imagem, viva em minha memória, e tentar compreender o seu gesto. Fica, no entanto, a questão: Por quê?!


[1] DOSTOIÉVSKI, F. Diário de um Escritor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d., p. 103.

19 comentários sobre “Por quê?!

  1. Ozaí,
    Sei muito pouco sobre algumas coisas, mas tenho certeza que as respostas só virão quando fizermos as perguntas. Para mim essa a essência da nossa condição de humanos é o conhecimento. Não devemos abandonar a dúvida ou deixamos de viver.
    Uma pessoa muito sábia do meu convívio me disse certa vez que o suicídio é uma busca de por fim a dor. Não significa a desistência da vida, mas, o desejo profundo de cura. Se esta é a resposta…não sei! Mas a sua pergunta fez muitas pessoas pensarem e elaborarem conhecimento.
    Oxalá cheguemos um dia a um conclusão eficaz para evitarmos que o direito a vida plena nos falte. Temos que ter este compromisso ou perderemos o sentido de nosso papel neste mundo. Você está cumprindo do seu, levantando a dúvida e buscando a resposta.
    Lindo texto!

  2. Caro Ozaí, fiz parte da organização do Simpósio Lutas Sociais na América Latina, sou membro desde 2008 do GEPAL e aluno do 4° ano de Ciências Sociais da UEL. Ao visitar seu blog, fiquei surpreso pelo seu amor a literatura. Às vezes entro em parafuso, pois também gosto muito de lliteratura, dos clássicos como Dostoiévski, Tolstói, Turgueniev, Kafka, Balzac e não consigo dar conta da “literatura científica”, que convenhamos, por vezes é seca, árida e sem vida. Bom seria se os acadêmicos das Ciências Sociais soubessem ler outras coisas, compreendessem que a Revolução, por exemplo, não pode ser feita com chavões, palavras de ordem, mas com ternura. Ternura que só a literatura nos oferece. É tão triste assistir certas aulas “secas”, “objetivas”, excluindo as subjetividades (não a subjetividade tacanha da pós-modernidade, que despreza os conceitos)…é tão chato ser “objetivo”…
    Enfim, isso soou mais como um “desabafo”, rsrsrsrs.
    Espero que um dia, certos acadêmicos das Ciências Sociais dêem as mãos à literatura. Que entendam que a literatura é antropológica, sociológica e política. São retratos da condição humana em determinadas épocas históricas. Pena que boa parte da academia não perceba isso.
    Foi um prazer ter conhecido seu blog e foi um prazer recebê-lo em nosso Simpósio.

    Abraços.

    Tiago Tobias

  3. Belo texto, Ozaí!
    Realmente, atos como este costumam jogar nos ombros das pessoas o fardo da culpa, quando na verdade ela não existe. Mas, infelizmente, a sensação de que poderia ter sido feito algo para evitar tamanha tragédia ressoa, e ressoa fundo.
    Mas cabe lembrar, também, que aquilo que não foi não é; que, como você mesmo escreveu, não se pode alterar o passado. Acredito que caiba a nós, vivos, com o futuro no horizonte, repensarmos nossa conduta com os outros, tanto na mais singela das atitudes quanto na maior das utopias. Vivamos, então!

  4. Que esta pessoa deveria ser amada, isso é bem provável pelo que todos escreveram.
    Agora, não precisa se esforçar muito para vermos ao nosso redor motivos para tal ato.
    Vemos famílias destruídas, vemos uma juventude entregue a drogas e prostituição, vemos governantes sem um pingo de Amor por ninguém e sim por poder e dinheiro, vemos uma mídia desonesta que destrói a mente das pessoas, só tem coisa ruim…

    Pena que esta pessoa não tenha se confortado em nosso senhor Jesus Cristo. Pois, para ter estômago para engolir todas as canalhices dos dias de hoje, só tendo os ensinamentos de Cristo bem guardados.
    “Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e inofensivos como as pombas”, nosso senhor Jesus Cristo.

  5. professor, impossível não chorar ao ler o seu texto! Mais impossível ainda é não lembrar da doce, meiga e romântica Ana sem pesar, sem dor, sem de fato nos questionarmos: por quê? Já ouvi e li inúmeros comentários sobre, (inclusive uns que dão raiva), e a única coisa que me conforta pensar é que se ela não tivesse ido por esse caminho evitaria nosso sofrimento, talvez não o dela! Afinal de contas, existe remédio para desejar a vida? Por que ela era amada sim, ainda é e sempre será, me recuso a acreditar que ela não sabia disso. A minha resposta para este porque, é de que não existe mais sentimento: amor, raiva, alegria, tristeza, ódio, e de certa maneira quem não sente mais nada disso já está morto por dentro, e isto sim, deve ser pior que a própria morte! Que a sua beleza esteja iluminando um outro lugar, porque quem teve a sua companhia sabia de sua força!!!

  6. Realmente é muito lamentável o caso.
    Creio que o suícida,paradoxalmente,talvez seja o indivíduo que mais tinha paixão á vida,que idealizava talvez algo não concretizado ,e por tanto desejar e não ter acaba por renunciar á condição de uma existência insatisfatória,sei lá,soa como um protesto á condição humana.
    Mas como o sábio texto nos diz,é muita pretensão mensurarmos o que significa esse fênomeno de fato, nos foge da análise racional e concreta de cada caso..e também agora não importa,fica a nossa consternação e o nosso pesar..

  7. O suicidio é uma arma de defesa contra a falta de afecto ,uma forma de chamar atenção

    para o que não se deu de coração.Pensa-se interiormente “já que não me dão o que

    mereço ,o que estou aqui a fazer?Estou a mais ,e assim se desiste de fazer prevalecer

    o direito a ser se amado como ser humano e não como um pacote de leite fora do prazo e

    atirado para o contentor do lixo .

    Não há constantes porquês,mas sim de imediato …..porque “apenas”de imediato.

  8. “Excelência, a gente não tem mais espaço na rua. Por que não arranjam um prédio e verticalizam logo a cracolândia. Mete a gente lá e deixa rolar o nosso suicídio coletivo”,est foi uma proposição de um das dezenas e dezenas de vidas humanas que ciculam,e viven/morrem na cracolândia de São Paulo,feita ao senador Eduardo Suplicy,quando este marcara uma reunião com líderes dos moradores de rua do local acerca da renda básica de cidadania,ideia do senador paulista.Quando li essa matéria do UOL/Folha(http://www1.folha.uol.com.br/multimidia/videocasts/800393-suplicy-tenta-falar-de-renda-minima-na-cracolandia-veja.shtml)fiquei chocado e certo de que o que produz a violência,a intolerância e o suicídio é o sistema no qual vivemos.

    As razões da loucura humana,da violência,da tragédia,são o mundo injusto e intolerante em que nos espelhamos.

  9. Hoje saiu na Zero Hora uma interessante reportagem/entrevista com o ator Paulo José que está em Porto Alegre encenando a peça “Um navio no espaço ou Ana Cristina César.’

    O ator é portador da doença de Parkinson e discute sua relação com uma ex-colega da TV Globo que suicidou-se há 30 anos.

    “A pergunta não é por que ela se matou, mas por que a gente continua vivo.”

    De repente podes ler a reportagem na ZH on line. Abraço

  10. Olá Ozaí

    Li a tua postagem e fiquei sensibilizada com a morte desta jovem-aluna e também com vc, afinal em nosso país não culturalmente relevante questionar o por quê das coisas.

    Poderia dizer muitas coisas sobre o suícídio desta aluna, mas não posso, nada sei sobre a sua história de vida. Mas trazendo Freud sem muito aprofundamento em Eros e Thanatos e o equilíbrio que deve haver entre ambos.

    Questiono este mundo onde a maioria das pessoas que chega ao consultório e que ao menos uma vez, já pensou em liquidar com a própria vida. Num mundo individualista e competitivo, em que o diferente é patologizado e esmagado por padrões de conduta, beleza, amor etc, ditados pela mídia sem a menor responsabilidade, tornando insuportável viver em um mundo assim.

    As pessoas estão sempre a se equilibrar em uma corda bamba, cá pra nós, manter um ideal de ego ou um ego ideal em um sistema assim, não é tarefa fácil. Penso que é conveniente que assim o seja, grandes laboratórios ganham com as ditas “patologias” enfim…

    Após extenso estudos e pesquisas de casos clínicos que haviam tentado o suicídio Freud organiza um gráfico e publica um texto no ano 1917 “Luto e Melancolia”,: onde ele saliente somente dois fatores preponderantes; ambiente e ego, mais tarde, baseado na psicogênese do suicídio em Garma, ele amplia estes dois fatores em :

    – ambiente desfavorável e a constituição do indivíduo, enfatizando a depressão resultante do luto e melancolia, o papel do objeto perdido, a deformação masoquista da personalidade e a internalização das agressões do ambiente. E então, da síntese dos dois fatores, poderia emergir uma personalidade autodestrutiva.

    O por quê , me faz lembrar um de seus posts; ‘somos todos deliquentes acadêmicos?”…

    Uma escola e uma Universidade que só vê o produto e não o processo doloroso e dificil que é o aprender para muitos. O processo de ensino-aprendizagem de uma criança, de um adolescente ou de um jovem adulto é algo complexo. E negar isto, em prol da ciência, da técnica é contribuir para o aniquilamento do sujeito.

    No entanto, politicas públicas ou privadas de saúde mental não fazem parte da pataforma de nenhum candidato nesta eleição, tão pouco do currículo escolar ou é aceita na academia. Abraço

  11. Existem explicações (ou classificações da causa) sociológicas para o suicídio – Durkheim. E outras mais interessantes vem do existencialismo – não me lembro o nome do livro, mas é de um tal Marcel.

    Lamento a perda.

    Abraço!

  12. Quando escrevi ” Por que?” no meu orkut, era exatamente sobre isso que estava questionando.
    Tirou mtas palavras da minha boca professor, creio que todos nós que a conhecíamos sentimos algo bem semelhante… sem contar os mais próximos dela, que com certeza sofreram e ainda sofrem muito mais que nós.
    É extremamente difícil de compreender…

  13. Ozai: De fato, quando alguem perto de nos se mata, e’ como se tivesse tambem morto um pedaco de nos mesmos. E todos sentimos culpa, e’ verdade. De uma certa maneira, falhamos esta pessoa de algum modo; e’ impossivel nao pensar isto. Mas ha’ tantas razoes que levam a pessoa ao suicidio, e tantas delas de origem mental mesmo, que ninguem poderia ter impedido a morte. De todas maneiras, sofremos. E vemos o terrivel desperdicio que e’ o suicidio, uma solucao permanente para um problema muitas vezes temporario.

  14. Antonio
    Bom dia
    O ser humano em sua jornada tem muitos desafios. As diferentes sociedades humanas encarram essa situação de muitas maneiras. Para nós sob a influência judaico/cristã esse assunto é penoso e delicado. Acho somente que existem situações que podem ser explicadas, uma frustração, uma forte decepção, pessoas que estejam em tratamento e esse não atenda as necessidades, entre outras. Fica o desafio de que busquemos ser mais solidários e compreensivos. Que efetivamente tb busquemos ajudar o próximo, com gestos, palavras e ações. Talvez aí consigamos mitigar um pouco o sofrimento, angustias e ansiedades do coletivo que fazemos parte. Esse espaço por exemplo para nós é uma benção, pois podemos colocar nossas dúvidas e incertezas.
    Um abraço
    Pedro Vanzin Filho

  15. Caro amigo Antonio

    Imediatamente, quando falastes que o suícidio nos põe nus diante da gravidade desse fato e revela nosssa impotência de realizar algo, lembrei-me de Lévinas. Tens razão: a superficialidade das relações humanas é algo que torna a pessoa descrente de seu próprio valor enquanto agente que tenta traçar nessa vida um sentido existente e não propriamente da Existência (Lévinás). O Outro não aparece como uma força que propõe um significado plural, mas é algo que não se domina e, portanto, precisa ser aniquilado. Outra pergunta que me faço, pois também já passei por situação semelhante com dois estudantes é, não apenas “Por que?”, mas, igualmente, “Como?”. O ato do suicídio é algo incompreensível para nós porque sempre se pode imaginar que algum signficado apresentado pela vida seja mais forte e permita a essa pessoa viver. Nessa nossa incompreensão, já se manifesta nossa INCAPACIDADE, reitero, de compreender algo além de nós mesmos. Os Sujeitos cada vez mais se atomizam dentro de seus próprios desejos, se tornam incapazes de viver pluralmente (Taylor) e, nesse momento, acreditam que podem dar contar de um fenômeno que pertence à ordem do infinito: sua auto-realização.
    Amigo, são esses momentos que se pede um olhar diferenciado sobre a Condição Humana e não às diferenças que cada pessoa apresenta, mesmo porque, ao fazer essa ação, segregamos mutuamente uns aos outros.

    Abraços

  16. Ozaí, caríssimo,
    Quanta sensibilidade! Parabéns!
    Talvez não seja o caso de se perguntar, mas, apenas, de aceitar.
    Abraços e bom domingo!
    Roberto.

  17. Bem, e inexplicavel mesmo. Nao existe “por que´s”. So para ela. Quem fica, ficara se perguntando o resto da vida sem encontrar respostas.
    Dizem que quem se suicida e fraco e covarde. Eu acredito, para se cometer um suicidio e preciso muita forca e coragem. Acho que o desespero faz reunir as ultimas forcas existentes para se poder concluir essa acao.

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