Sobre os intelectuais

Desde a antiguidade que os intelectuais se colocam a soldo dos governantes e colaboram para a conservação do poder e do status quo.[1] Por outro lado, sempre existiram os contestadores da ordem e do poder político vigente, os inconformistas e instabilizadores; os que construíram novas ordens e produziram novos contestadores e defensores da ordem instituída.

O intelectual deve tomar partido diante dos dilemas do seu tempo? Deve engajar-se na política ou abster-se de participar do poder? Deve assumir o papel de conselheiro do príncipe? Qual o seu compromisso social?

Sartre, modelo de intelectual engajado, celebrizou este debate ao defender que o intelectual-escritor não é neutro diante da realidade histórica e social. “O escritor “engajado” sabe que a palavra é ação: sabe que desvendar é mudar e que não se pode desvendar senão tencionando mudar”, afirma.[2] No contexto capitalista é impossível manter a imparcialidade diante da condição humana. Para ele, “a função do escritor é fazer com que ninguém possa ignorar o mundo e considerar-se inocente diante dele”.[3]

O intelectual, porém, tende a separar a palavra do mundo, o conceito da realidade. As palavras dissociam-se da vida real, das contradições, sofrimentos e esperanças dos que vivem o mundo. Como assinalou Paulo Freire: “Em última análise, tornamo-nos excelentes especialistas, num jogo intelectual muito interessante – o jogo dos conceitos! É um “balé de conceitos”.[4]

Não se trata apenas de refletir sobre o mundo, de desvendá-lo aos olhos dos incrédulos, mas de arrancá-los da consciência feliz, isto é, da sua ignorância perante o mundo e a condição humana neste, tencionando-os para transformá-lo. Se a palavra é ação, esta não é contemplação: “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo”.[5] A discussão sobre a relação teoria e prática, contemplação e transformação, permanece atual.

Sartre observa que o intelectual moderno é um homem-contradição, um ser dividido entre a ideologia particularista (fatores econômicos, sociais e culturais que condicionam sua vida) e o universalismo (exigência intrínseca da sua atitude como técnico e pesquisador). “Um físico que se dedica a construir a bomba atômica é um cientista. Um físico que contesta a construção desta bomba é um intelectual”.[6] Eis o paradoxo do intelectual moderno na acepção sartreana.

O especialista não questiona as condições em que se dá a pesquisa, o resultado ou o uso que se faz dela. Mas é precisamente no momento em que o pesquisador “se mete no que não é da sua conta e que pretende contestar o conjunto das verdades recebidas, e das condutas que nelas se inspiram em nome de uma concepção global do homem e da sociedade” que ele se torna um intelectual. [7]

Tocqueville, no século XIX, censurou os intelectuais, os quais teriam desempenhado um papel negativo na Revolução Francesa.[8] Em contraposição, Sartre argumenta que os filósofos iluministas tiveram a missão de desenvolver os pressupostos teóricos que legitimaram a ideologia burguesa, a qual se tornou universal e hegemônica. Os filósofos eram intelectuais orgânicos, no sentido gramsciano.[9]

Se somos feitos à imagem e semelhança de Deus, o ideal iluminista nos fez à imagem e semelhança do homem burguês. Os intelectuais modernos, técnicos do saber prático, encontram-se presos às amarras do humanismo universalista burguês e às contradições do seu ser social, enquanto membros de uma categoria social vinculada à ideologia dominante. Então, coloca-se a necessidade de construção de um novo humanismo, outra universalidade. Esta é, na acepção sartreana, a tarefa histórica dos intelectuais.


[1] “Embora com nomes diversos, os intelectuais sempre existiram, pois sempre existiu em todas as sociedades, ao lado do poder econômico e do poder político, o poder ideológico, que se exerce não sobre os corpos como o poder político, jamais separado do poder militar, não sobre a posse de bens intelectuais, dos quais se necessita para viver e sobreviver, como o poder econômico, mas sobre as mentes pela produção e transmissão de idéias, de símbolos, de visões, de ensinamentos práticos, mediante o uso da palavra (o poder ideológico é extremamente dependente da natureza do homem como animal falante)”. Ver: BOBBIO, Norberto. Os intelectuais e o poder: dúvidas e opções dos homens de cultura na sociedade contemporânea. São Paulo: Editora UNESP, 1997, p.11.

[2] SARTRE, Jean-Paul. Que é Literatura. São Paulo: Ática, 1993, p.20.

[3] Idem, p.21.

[4] FREIRE, Paulo; SCHOR, Ira. Medo e ousadia – O cotidiano do professor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986, p. 131.

[5] MARX, Karl. Teses Sobre Feuerbach. In: Marx & Engels, Obras Escolhidas, v. I. Lisboa: Edições “Avante”; Moscou: Edições Progresso, 1982, p. 03.

[6] SARTRE, Jean-Paul. Em defesa dos intelectuais. São Paulo: Ática, 1994, p. 08.

[7] Idem, p. 14-15.

[8] Tocqueville, observa o Prof. Zevedei Barbu na apresentação de O Antigo Regime e a Revolução, definiu os intelectuais de sua época como “penseurs de cabinet”, isto é, críticos da sociedade tradicional, mas cuja alternativa se limitava a sonhos e fantasias. “Na visão de Tocqueville, o pecado capital cometido por essa intelligentsia foi o de pensar e escrever a respeito de uma nova sociedade sem possuir qualquer experiência em assuntos públicos. Assim, a intelligentsia constituía um protótipo de marginalidade, ficando sempre suspensa entre a sociedade real, que ela rejeitava, e a sociedade de seus sonhos, que era irrealizável”, comenta. (Ver: TOCQUEVILLE, Alex de. O Antigo Regime e a Revolução. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1982, p.16).

[9] Segundo GRAMSCI: “Cada grupo social, nascendo no terreno originário de uma função essencial no mundo da produção econômica, cria para si, ao mesmo tempo e de um modo orgânico, uma ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, não apenas no campo econômico, mas também no social e no político: o empresário capitalista cria consigo o técnico da indústria, o cientista da economia política, o organizador de uma nova cultura, de um novo direito, etc., etc.” (In: GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a Organização da Cultura. São Paulo, Círculo do Livro, s. d., p. 7).

14 comentários sobre “Sobre os intelectuais

  1. Ozaí
    Estou deixando esse breve comentário com os “coblogueirantes”, apenas para reafirmar que, embora não tenha comentado os artigos, tenho passado sempre por aqui!

  2. Bastante importante o texto sobre os intelectuais. No Brasil deparamo-nos com uma situação que corrobora a constituição histórica do papel dos intelectuais. Nestas eleições 2010 observamos aqueles que contribuem para a manutenção das reformas capitalistas e, por outro lado, aqueles que se rebelam contra tal regime tão odioso. Estamos vendo os partidos de esquerda sendo literalmente afastados da mídia e dos grandes debates em rede nacional de TV aberta. Recomendo, para quem ainda não viu, o debate promovido pelo jornal Brasil de Fato dos candidatos Ivan Pinheiro – PCB, Zé Maria – PSTU e Rui Pimenta – PCO. http://www.brasildefato.com.br

  3. Muito interessante essa reflexão. Acredito que toda prática é rodeada de um discurso, que é construído pelos intelectuais e pela mídia. fica a pergutna: o discurso que cria a realidade ou o discurso apenas a descreve?

  4. Antonio

    Bom dia

    O Serviço público ao menos nas grandes cidades do Brasil vem recebendo levas de profissionais com graduação. Em todos os níveis temos cada vez mais pessoas com o terceiro grau completo, sobretudo, nas áreas de mais fácil acesso e em consequência braçais. A Universidade apenas vem desde o período de excessão iniciado em 1964, massificando o ensino. Temos, portanto, uma acesso maior ao ensino superior dos setores sociais de menor poder aquisitivo, sem que isso de todo represente sua ascensão economica. Obvio que existem excessões, muitas, mas o ensino superior não garante a todos emprego e salário compatível sequer com o investido. A qualidade do ensino superior é largamente questionada, como exemplo citamos a prova da OAB e o número de vagas que acabam não sendo preenchidas na magistratura. Pelo visto isso não vai mudar tão logo, talvez não mude. Bom dizer que os que trabalham no e com o ensino superior são ou não são responsáveis por isso é querer que o conceito comercial de ensino seja alterado e isso não está no horizonto, salvo, que o sistema vigente entre em crise e consequente colapso.

    Cordialmente

    Pedro

    • Rapaz, deixa eu te contar um negócio.

      Meu último emprego numa grande empresa foi numa “universidade” privada, eu trabalhava na editora. Minha chefe no departamento editorial era uma sujeita de uns trinta e poucos anos, note bem, chefe do departamento editorial, e professora de publicidade. Meu velho, eu fiquei lá um anos, e pelo prazo de um ano não consegui fazer absolutamente nada que prestasse. Um dia, minha chefe veio me perguntar um negócio sobre o acento grave, indicador de crase, numa frase tipo “fulano chega hoje à noite”; ela queria saber apenas se “o a é craseado”. Por uma questão de camaradagem, e um tanto perplexo, fui explicar a ela o motivo pelo qual o acento grave deveria constar ali, e qual não foi a minha surpresa ao ver a mulher fazer um escândalo. Ela foi balançando a cabeleira loura e gritando como uma débil mental: “Não! Não! Não quero que me explique nada! NADA!”. Horas depois, talvez com alguma vergonha, ela esclareceu ser aquele assunto complicado demais para ela, afinal, “não tenho que saber português; sou publicitária!”.
      Que tal?

  5. Não posso estar mais de acordo. Os intelectuais são fruto do sistema, antes de tudo, e a maior parte não consegue desconstruir esse condicionamento, acabando por justificá-lo. Vide a grande e avassaladora maioria dos filósofos que ao longo dos séculos foram fornecendo racionais para justificar ordens politicas, sociais e económicas opressoras e para manter o “statu quo”

  6. Trazendo o contexto para nosso país, creio que vivemos uma demência cultural generalizada.
    Iniquidade nas religiões, na política, nas empresas, nas universidades, na comunidade e principalmente entre nossa juventude.
    Intelectuais que defendem interesses de poderosos e não dos cidadãos.

    Creio que o Brasil vive um caos, mas parece que poucas pessoas percebem e a grande maioria está anestesiada.

  7. Prezado Professor enfim existe um longo caminho para o aprendizado da sociedade que ficou excluida., “o direito a ter direitos.” este direito de ter é o direito de participação junto com as proteções concedidas de modo que os processos e os resultados dos processos são mantidos como práticas sociais. (Hannah Arendt)

    Em Origins, Hannah Arendt tinha seguido a ramificação do problema nos imperialismos estrangeiros do século 19 estados-nação europeus, contrastando Grã-Bretanha, que se tornaram fascistas ou totalitários do século 20, com a Alemanha, o que fez estes empreendedores imperialistas da burguesia capitalista em ascensão, financiado com investimentos estaduais e sustentada por estruturas legais do Estado, tinham removido indesejados “supérfluo” povos declasse – Arendt chamou de “máfia”, a partir de solo europeu para torná-los agentes implacáveis do capitalismo estrangeiro, que foi dedicado ao crescimento, sem limites, e sem fim infundido com visões de pessoas superiores… controlando as pessoas inferiores…

    Um crime contra a humanidade, Hannah Arendt argumentou, indo além das estipulações e definições legais oferecidos pela Carta de 1948, Declaração Universal dos Direitos Humanos “, ultrapassa e quebra todas e quaisquer sistemas jurídicos” (Arendt / Jaspers, 1992, 54).
    O estado divide o sistema jurídico que a constituiu como um estado, tornando aqueles que tem atacado bem como (eventualmente) os seus próprios cidadãos sem uma política de vida sem uma comunidade humana. Se entendermos como Arendt, que analisou o ser humano significa o exercício de capacidades e estar envolvido em atividades que produzem e sustentam a vida política, então não só os que são feitos sem pátria, mas em última análise, aqueles que, pego em suas próprias armadilhas, fazem os outros apátridas, são cortados fora de sua humanidade, o ser humano. Isto é o que Arendt tinha constatado. Identificando o totalitarismo como uma nova forma de governo que tem como consequência a eliminação política.
    Mas ela também argumentava que o uso de armas atômicas é uma nova forma de guerra que pode eliminar a vida política para a direita junto com a vida. Crimes contra a humanidade são crimes contra a possibilidade e a promessa da política, contra a condição humana fundamental de pluralidade. Como Arendt escreveu a Karl Jaspers, «o homem não vai matar outros seres humanos individuais, por razões humanas, mas […] uma tentativa organizada foi feito para erradicar o conceito de ser humano” (Arendt / Jaspers, 1992; 69
    Marilda Oliveira
    São Paulo – SP

  8. Como sempre,adoro o que publicas.Minha desilusão com a academia é imensa, assim como o fosso que separa a teoria da prática. Me recordo agora de Galeano; “…não somos opinadores, somos opinados… Dizemos não! Não podemos aceitar a mediocridade como destino.” Porém, na academia o saber eurocêntrico predomina e continua a ser disseminado pelos que possuem Ms ou um Dr. na frente do nome, te dizem da forma mais cruel possível, não, tu não podes pensar assim, aliás que te dá o direito de pensar?? Hoje em dia, falando claro, das “Universidades de ponta”, é, aquelas que parecem imensos ‘Shopings Centers”, construídos com as verbas direcionadas para bolsas de estudo. Sem falar nas teses, congruência para quê? Mudar alguma coisa nem pensar. Somos sonhadores ou taxados de radicais Marxistas e por aí vai. Quer saber? Eu odeio a academia e todos os fantoches que nela fingem ser professores, só passando texto com o método ultrapassado de siga o modelo. Desculpe cheguei a entrar em um Mestrado e saí, tem que ter estômago. Isso sem mencionar outras coisas… Abraço

    • Caro Ozai,

      o deu debate e muito interessante, mais so muito ceptico sobre o papale do inteletual para a mudanca da sociedade- desde que o sociologo Robert K. Merton disse que a sociedade segue a pressao do demonio americano [Dolar], ate hoje so vejo o papel negativo do inteletual que esta vende o seu saber ou engajamento para possuir o demonio americano. na minha sociedade mocambicana a um debate muito intensivo sobre essa questao. mas nenhum inteletual que tem um instanate de livro sobre politica, economia e literatura da sua autoria, perderam o sentido de ser. A cho que temos mudar o conceito de inteletual ou por outra temos que reformular o conceito.
      Joaquim Miranda Maloa
      Mestrando em Sociologia na USP
      Investigador do Centro de Pesquisa e Promocao Social- Mocambique-Lichinga.

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