Votar nulo ou em Dilma Rousseff?!

Desde o início, minha posição estava definida: nem Serra nem Dilma, voto nulo. Sei que não é postura simpática. No último debate da TV Band, por exemplo, chamou-me a atenção os vários comentários críticos sobre quem opta por anular o voto. Acompanhei pela internet e, simultaneamente, o chat – que me pareceu até mais interessante do que o debate entre os candidatos, já que se limitaram a se acusar mutuamente (e quem sou eu para julgar a inocência de um ou outro?!).

Pois bem, no debate entre os eleitores que, em tese, acompanhavam o desempenho dos seus respectivos candidatos, houve quem afirmasse que votar nulo é covardia. Outro, afirmou que é falta de amor ao país. Além de outras pérolas como: “Anular voto NÃO é democracia”; “Anular o voto é ajudar a matar muita gente”; “Votar nulo é ignorância”; “Voto nulo não resolve, devemos honrar nosso país e nossa democracia!!!”; “Votar nulo é pecar por omissão”; “Votar nulo é dizer: tanto faz pra mim”; “Votar nulo ou em branco é a forma mais errada de fugir da responsabilidade e não assumir o próprio ato!!!”. Os potenciais eleitores que anularão seus votos no próximo escrutínio foram acusados de ‘antidemocráticos”, ‘cúmplices de crimes’, ‘ignorantes’, ‘covardes’, ‘irresponsáveis’, ‘omissos’ e até de ‘pecarem’!

Coitados dos meus amigos e companheiros libertários, do PSTU, PSOL e outros que, a despeito de não assumirem ideologias ‘exóticas’, decidiram anular o voto. Que será, então, do ex-candidato Plínio de Arruda Sampaio? Será que seus eleitores aceitarão democraticamente sua posição pelo voto nulo ou farão coro às críticas referidas acima?! Aliás, o tema é polêmico e não é por acaso que o PSOL dividiu-se entre o voto crítico em Dilma e a anulação do voto. A consigna “NENHUM VOTO EM SERRA!” não supera a contradição. O PCB também se definiu pelo voto contra Serra, ou seja, em Dilma. Já o MST e outros movimentos sociais reafirmaram o apoio a Dilma – desde o primeiro turno, diga-se de passagem.

A pressão contra o voto nulo é forte. Dizem até que é uma opção ‘objetivamente’ pró-Serra, isto é, que contribui para a vitória dele. Há quem considere utópico, no sentido negativo do termo. No limite, é deslegitimado o direito democrático de anular o voto e confunde-se, às vezes com má-fé, com apoliticismo.[1]

Os argumentos contra o voto nulo transcritos acima expressam opiniões que não se restringem a indivíduos isolados. Precisam, portanto, ser levadas a sério. Na verdade, são despolitizantes e mostram o grau de ‘maturidade’ política de muitos. A liberdade de decidir não pode ser prisioneira de preconceitos, moralismo e autoritarismo. A democracia pressupõe o convencimento dos outros por meios coerentes, ou seja, democráticos. Descartemos, portanto, qualquer espécie de chantagem política, moral, religiosa, etc.

Não milito em partidos, não estou submisso à disciplina partidária. Sigo a minha consciência. Leio, vejo, escuto, analiso e reflito sobre os argumentos – mesmo os mais absurdos. Continuo a defender o direito democrático e legítimo de votar nulo. Contudo, dado os rumos que a campanha eleitoral tomou neste 2º turno, tenho repensado sobre a minha posição política inicial. No momento, estou com os indecisos, com os que ainda definiram o voto.

Mas não tão indeciso! A pesquisa eleitoral caracteriza os indecisos entre os que “não sabem”.[2] Não é o meu caso. Sei muito bem que não votarei, sob qualquer hipótese, em José Serra! A dúvida está entre votar nulo ou em Dilma. Seja qual for a decisão, também tenho claro que esta não é uma luta do bem contra o mal, nem muito menos um Palmeiras X Corinthians. Aliás, se fosse uma questão futebolística seria mais fácil, pois o José Serra é palmeirense.


[1] Sugiro a leitura de: “O Direito ao Voto Nulo”, REA, nº 64, setembro de 2006, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/064/64ozai.htm; e, “Voto Nulo – Uma outra política é possível”, REA, nº 59, abril de 2006, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/059/59ozai.htm

[2] A primeira pesquisa do Datafolha para este 2º turno indica que 7% “não sabe” em quem votar; nulos e brancos perfazem 4%. Ver http://datafolha.folha.uol.com.br/folha/datafolha/tabs/intvoto_pres_11102010.pdf

72 comentários sobre “Votar nulo ou em Dilma Rousseff?!

  1. Votar nulo é um ato de protesto. O cidadão de tanto ver as canalhices, as roubalheiras, as corrupções praticada diariamente por muitos políticos, preferem assim votar nulo…

  2. Salve, Ivan Luiz.

    Mas então, Ivan, assim não dá. Vou-lhe dizer com todo o respeito que você está equivocado. Meu companheiro, então você acha que nós devemos, neste momento da vida brasileira, nos contentar como esse tipo de cômputo, entre quem rouba mais no pedágio e quem rouba menos no pedágio, entre quem rouba mais na Petrobrás e quem rouba menos na Petrobrás, e achar que quem rouba só um pouquinho (putzgrila, e que pouquinho!), é menos ladrão do que quem rouba mais? Pô, Ivan, falando sério, assim você parte o meu coração!
    Eu insisti nesse papo da Petrobrás por uma questão de sentimento, vamos ver se eu consigo me fazer entender. Se o Malan, o Preto, o FH e o Serra me roubarem (o Delfim é dos que roubam só um pouquinho, porque está com Dilma), eu vou me sentir roubado, como sempre. Agora, quando o Partido dos Trabalhadores e o Partido Comunista me roubam, quando a ex-companheira de Carlos Marighela me rouba, velho, eu fico desolado. Mas eu estou errado, porque a corrupção está autorizada, naturalizada, como nunca antes na história deste país. Está acontecendo um negócio estranho por aqui, não sei se alguém sabe do que se trata, é muito louco. Quando o Sarney ficou no centro daquele gravíssimo escândalo envolvendo o roubo puro e simples de milhões e milhões e milhões de reais, para que se aplicassem numa de suas empresas altamente suspeitas (vai lá saber em que outros tipos de crime essa turma está envolvida), o Lula apresentou-se à Nação para dizer o seguinte: “Escuta, o Sarney não pode ser tratado como um cidadão comum, cês tão pensando o quê?”. E o povo gosta, aplaude, bicho, eu às vezes tenho a sensação de que o brasileiro simplesmente perdeu a vergonha. Não se trata disso, eu sei, mas que parece, parece — não estou me referindo a você, evidentemente.

    • Eduardo,
      Eu entendi que você fala de si próprio. Como não o conheço, não tenho motivos para duvidar da sua idoneidade muito menos das suas boas intenções.

      • Não, eu quis dizer que não me referia a você quando falei em falta de vergonha. Conversar por escrito acarreta às vezes o risco de gerar um tipo muito específico de mal-entendido, porque não há a entonação, o olhar, essas coisas, entendeu?

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