Análise do capitalismo nas leituras de Maurício Tragtenberg

RESENHA: TRAGTENBERG, Maurício. O capitalismo no século XX – 2ª. ed. revisada e ampliada. São Paulo: Editora UNESP, 2010 (Coleção Maurício Tragtenberg), 186 p.

* “O capitalismo no século XX”, é parte do esforço de preservar e divulgar a obra de Maurício Tragtenberg (1929-1998). Soma-se, portanto, aos demais títulos da COLEÇÃO MAURÍCIO TRAGTENBERG, dirigida e editada pelo Prof. Evaldo A. Vieira e publicada nos últimos anos pela Editora UNESP.

Este trabalho foi publicado originalmente em 1967 (Editora Senzala), sob o título “Planificação: desafio do século XX”, resultado da monografia apresentada por Maurício Tragtenberg na Universidade de S. Paulo, que lhe deu o direito de prestar o vestibular. A presente edição foi cuidadosamente revisada pelo editor. Nele, Tragtenberg analisa as diversas concepções sobre o homem: a judaico-cristã, o homem da polis grega, a naturalista – o homo faber. Uma característica que salta à vista é a diversidade de autores: Nietzsche, Dostoievski, Marx, Engels, Lenin, Kierkegaard, Franz Kafka, Kant e Erich Fromm. Nos capítulos em que analisa, desde as condições de surgimento do capitalismo ocidental à evolução da sociedade russa (as origens ao stalinismo), a lista é acrescida de outros autores como Leon Trotsky, Max Weber, Rosa Luxemburgo, Victor Serge, Werner Sombart, etc. Isso expressa o conjunto dos estudos e leituras realizadas, de forma autodidata, por vários anos. Por outro lado, demonstra a abertura de espírito à absorção do conhecimento em suas diversas fontes.

O “testemunho de um amigo de muitos anos e algumas vicissitudes comuns”, Antonio Candido, enfatiza o caráter heterodoxo deste trabalho:

“O livro que se vai ler foi escrito com profundo empenho vital e intelectual, por um homem que vive em profundidade os problemas da sociedade e do espírito. O leitor verá a tentativa bem conduzida de caracterizar momentos importantes na evolução do capitalismo e do espírito burguês e, depois, nos embates que estes sofreram dos grandes movimentos revolucionários do nosso tempo. Simultaneamente, verá o esforço de reconhecer, na diversidade dos tempos e dos caminhos da história, algumas constantes que permitem localizar o processo desfechado na idéia e na prática da planificação econômica. Com honestidade e heterodoxia, longe de dogmas e preconceitos, o autor circula entre fatos históricos, sociais e econômicos com uma formosa liberdade, manifestando a cada instante uma equação pessoal que não se quer omitir e atua como presença fecundante. Apesar de alguma obscuridade ocasional de expressão, saímos da leitura mais capazes de compreender os temas abordados” (Preâmbulo, p. 9-10).

Este depoimento, a título de apresentação da obra, proporciona a síntese dos temas tratados.

Em “O capitalismo no século XX”, Tragtenberg analisa o processo revolucionário russo e expõe as contradições e vicissitudes. Sua crítica à burocratização da Revolução Russa incorpora as análises de Leon Trotsky e Rosa Luxemburgo, mas também Max Weber e o pensamento libertário.

Tragtenberg chama a atenção para os fatores que culminaram no “golpe de Estado” levado a cabo pelo Partido Bolchevique em novembro de 1917. A vitória dos bolcheviques, numa sociedade predominantemente agrícola, em guerra com as forças imperialistas do Ocidente, dilacerada numa guerra civil e sem muitas esperanças quanto às possibilidades de uma revolução européia, dada a falência da social-democracia diante da 1ª Guerra Mundial, expressa a impossibilidade de construção do socialismo em solo russo. O caminho encontrado pelos bolchevistas foi a instituição do “comunismo de guerra”, um regime de coerção.

A principal conseqüência do “comunismo de guerra” foi a inversão do processo de autogestão. Sob o argumento das necessidades impostas pela guerra, a gestão dos meios de produção foi retirada dos produtores diretos e passou para a responsabilidade de um diretor nomeado pelo Estado. A classe foi substituída pela vanguarda dirigente. O mesmo ocorreu com os sovietes, burocratizados e submetidos ao Estado.

Para Tragtenberg, a rebelião dos marinheiros de Cronstadt representa um dos mais expressivos movimentos de resistência ao processo de burocratização e desvirtuamento dos ideais revolucionários. Para o governo Lenin/Trotsky, pelo contrário, representou o afrontamento ao poder bolchevique, um grave perigo, e foi reprimida violentamente. O esmagamento da insurreição de Cronstadt foi o toque de finados na intenção socialista que animava a Revolução Russa. A burocracia dominante vencera”, escreve (p.112). [1]

Tragtenberg analisa ainda os aspectos que configuram o imperialismo russo, o capitalismo de Estado e o processo de concentração da produção, gerador do imperialismo capitalista. E alerta que a superação histórica do capital exige diferenciar “rigorosamente socialização dos meios de produção de sua estatização pura e simples”. Para ele:

É pela socialização dos meios de produção controlados pela classe operária organizada em suas organizações diretamente representativas, que é possível efetuar-se a passagem de uma sociedade liberal capitalista a uma sociedade planificada, evitando o capitalismo de Estado e o totalitarismo, conservando as liberdades básicas do homem (p.170-171).

A obra “O capitalismo no século XX” contém, ainda, dois apêndices: “O bolchevismo como fenômeno de aculturação” e “A rebelião de Cronstadt”.

Como enfatizado por Evaldo A. Vieira, estamos diante de um autor que se caracteriza “pela erudição meditada, a heterodoxia tolerante e a autonomia intelectual” (p.7), cuja obra, em seu conjunto, permanece atual. Fica a sugestão de leitura!


* Publicada na REA, nº 112, setembro de 2010, disponível em http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/11097/5978

[1] Maurício manteve esta análise crítica. Em 1983, num artigo publicado na Folha de S. Paulo, escreveu: “No fundo toda revolução é uma grande desconhecida, quando entendemos por revolução não a simples substituição de homens no poder, mas sim a criação de novas relações de produção, novas relações sociais”, escreveu. Ele concebeu a resistência dos marinheiros de Cronstadt como “Uma revolução na revolução russa” (FSP, 10.4.1983). Aos seus alunos e orientandos, propunha leituras críticas para além do marxismo-leninismo ortodoxo das vertentes stalinista e/ou trotskista.

5 comentários sobre “Análise do capitalismo nas leituras de Maurício Tragtenberg

  1. Novembro de 1917 nao foi bem um “golpe de Estado”, pois nao havia um Estado normalmente constituido. Havia um governo provisorio, que havia organizado as primeiras eleicoes livres jamais realizadas em terras russas, eleicoes solenemente ignoradas pelos bolcheviques, que nao eram a maioria e que simplesmente dissolveram a primeira assembleia eleita depois de dar, nao um golpe, mas um putsch, ou seja, uma tomada violenta do poder.

    • Sim, meu velho, essa história da Assembléia Constituinte de 1918 revela bem o projeto de poder que o partido sempre teve. Um dos documentos mais tristes sobre Democracia que comecei a estudar quando era do partido foi aquele sobre o “renegado” Kautsty, tu te lembras dele? Vou-lhe dizer uma opinião minha: este mundo só vai piorar enquanto não surgir um forte segmento da civilização dedicado à disseminação do pensamento científico, porque é o melhor que temos para sistematizar o questionamento cético, racional, exigente quanto às evidências ou à coerência racional do que se diz, implacável frente a todo engodo e toda superstição, em oposição inicial e final a todos os argumentos de autoridade, tanto políticos quanto religiosos, etc. Como disse o grande Carl Sagan, este aqui é um mundo assombrado por demônios. Os que conhecem um pouco melhor o movimento comunista e seus princípios compreenderão a gravidade disto aqui: o bolchevismo não é científico.
      Abraços.

  2. Menino, como eu gosto do Maurício Tragtemberg!
    E como é fácil perceber quão distante está aquele momento em que esta civilização será questionada até as últimas consequencias, porque até hoje não foi.
    Mas tem uma curiosidade bacana em relação ao Tragtemberg. Consta que ele fazia sempre questão de se dizer não um anarquista, mas um comunista libertário, não lembro agora quem foi que eu ouvi dizendo isso, acho que foi o filho dele. Se a gente olhar só um pouco, verá que todo mundo que está na política tem umas maneiras bem parecidas de proceder, porque todos, pela direita e pela esquerda, defendem o capital. Como a coisa está longe, existem uns indícios muito bons de que nunca acontecerá.
    Abraços.

  3. É pela socialização dos meios de produção controlados pela classe operária organizada em suas organizações diretamente representativas, que é possível efetuar-se a passagem de uma sociedade liberal capitalista a uma sociedade planificada, evitando o capitalismo de Estado e o totalitarismo, conservando as liberdades básicas do homem (p.170-171).

    Gostaria de entender isso.
    Há milhares de empresas que tem mais responsabilidade social que qualquer outra instituição, contribuem para educação de seus funcionários, pelo bem estar da comunidade, pelo bem estar do meio ambiente.
    O meios de produção já são e sempre foram socializados dentro do livre comércio.

    Creio que a falta de socialização e distribuição de renda em nosso país e em muitos lugares do mundo, deve-se a pequenos grupos poderosos que defendem seus próprios interesses as custas de muita gente inocente.

    Pois, como explicar a ligação entre banqueiros, estados comunistas, muçulmanos, corporações empresariais em uma linda e harmoniosa cadeia de negócios?

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