A dimensão avaliativa da práxis docente

Numa época em que tudo está sujeito a processos avaliativos, discutir as dimensões da avaliação na educação pode parecer modismo. Afinal, a literatura especializada debate insistentemente quais os melhores métodos de avaliação da aprendizagem. Discutem-se os méritos e deméritos da avaliação contínua, dos diversos mecanismos de avaliar (dissertação, prova objetiva, seminários, etc.), do vestibular, ENEM, etc. Os profissionais da educação são submetidos a avaliações internas e externas e o desempenho passa a ser matematicamente pontuado. Busca-se, numa filosofia economicista, verificar se a relação custo-benefício se sustenta. A educação termina por se constituir em coisa mensurável e sujeita aos humores das autoridades.

Nesse emaranhado de múltiplas avaliações que parecem autojustificadas, como fica a situação do aluno? Qual a sua opinião sobre os seus avaliadores e processos avaliativos? Quem ouvirá os seus reclamos? Quem avalia o avaliador?

Ao contrário do que imaginam certos doutos educadores, muitos alunos não vêem com bons olhos as avaliações fundadas na memorização. Eles percebem que o método decoreba prepara-os apenas para a prova e que, depois, esquecem o conteúdo. Vêem claramente que isto não os prepara para a vida profissional, nem lhes proporcionam uma formação crítica. Esta prática pedagógica estimula e reforça comportamentos e posturas inadequadas: a cola, o plágio, a fraude escolar (compra de trabalho), a valorização da nota em lugar do processo de aprendizagem.

Os instrumentos avaliativos são inúmeros. É surpreendente que muitos professores ainda se restrinjam à avaliação estilo decoreba. Por outro lado, observe-se que, independentemente dos tipos de instrumentos avaliativos utilizados, todos são meios e não fim. O problema maior é quando a avaliação se transforma num fim em si, operando-se uma inversão de valores. Os meios utilizados têm aspectos negativos e positivos e podem ser potencializados ou não, a depender das circunstâncias e da capacidade profissional.

Propaga-se a necessidade de tudo mensurar e a certeza de que é possível fazê-lo. Pensar em termos de quantificação do saber parece até mesmo um fator intrínseco à natureza pedagógica. Proponha a extinção de qualquer mecanismo de definição de notas – pois todos os instrumentos visam quantificar resultados – e todos considerarão absurdo.

Os alunos podem questionar o mau uso dos instrumentos de avaliação, podem até mesmo preferir uns a outros e são capazes de elogiar os professores que utilizam eficazmente este ou aquele meio avaliativo. Mas, em geral, concebem a avaliação como um fato em si, naturalizando-a e não questionam os pressupostos. Aliás, não só os alunos, seus professores também! A favor de uns e outros, deve-se observar que estão submetidos a todas as exigências burocráticas do sistema de ensino.

A dimensão pedagógica da avaliação está entrelaçada com a dimensão emocional. Uma prática pedagógica ineficiente e o uso inadequado de meios avaliativos geram efeitos traumatizantes. Por sua vez, a desconsideração de procedimentos éticos no agir educativo e a desatenção quanto aos aspectos emocionais produzem efeitos negativos que, além de gerar sofrimentos, comprometem a atuação do professor.

É no processo avaliativo que o poder professoral (de definir a nota, aprovar ou reprovar) mais se faz sentir. A atitude do professor é o fator de maior influência emocional. O abuso de autoridade e a desconsideração à dimensão emocional tendem a deixar marcas indeléveis por toda a vida. É preciso respeitar a pessoa do aluno, tratá-lo como ser humano. Isto deveria ser uma obviedade!

5 comentários sobre “A dimensão avaliativa da práxis docente

  1. Penso que o mais importante é encarar a avaliação como parte do processo pedagógico, ou seja, de crescimento e autonomização do aluno. Muitos colegas ainda se valem de provas e trabalhos como afirmação autoritária. É preciso que alunos sejam estimulados a formular criticamente. E é preciso que diferentes desenvolvimentos de habilidades sejam estimulados e valorizados. Eu tenho boas experiências com trabalhos presenciais em grupo, em que alunos trocam depois impressões sobre as diferentes questões. Nós temos que nos dar ao trabalho de formular bem as questões e discutir os resultados. De pequenos autoritarismos inúteis está já o mundo cheio.

  2. Ozaí até acho legal o tópico, mas sei lá, da aquela impressão de que a culpa da educação é do professor e não de quem coloca o professor na sala de aula…

    Ozaí seria interessante se vc fizesse um post sobre o salario dos professores, comparando o que foi antes e o que é hj, e no que isso influencia na sua atuaçao em sala de aula.

    Até logo!

  3. Olá, Ozaí.

    Sou aluno universitário e vivencio tudo o que você publicou nesta postagem e, também, na postagem anterior.

    É impressionante! O seu texto descreveu parte da minha vida acadêmica.

    Gostei muito!

    Parabéns!

    Publique, depois, se possível, algum artigo que fale sobre assédio moral. Acho que casaria bem com as últimas postagens daqui.

    Abraços.

  4. Prezado Ozaí, excelente o enfoque, tanto falamos e continuamos na avaliação mensurável. Por mais que tentamos reconhecer as mais variadas formas de avaliação, o sistema nos im pede. O que será de nossos alunos do Ensino Fundamental e Médio que não podem mais repetir ano e a recuperação é ordem, não cumprí-la, a política educacional nos recrimina. Recuperar de forma digna não a “toque de caixa” para compor notas e possível aprovação. Acredito que os professores devem participar de encontros, capacitações, enfim, orientá-los da melhor forma possível quanto a avaliação e colocá-la em prática como realmente se avalia. Será que o professor está realmente preparado para avaliar?

  5. Olá Ozaí,
    Este seu comentário me chamou a atenção pois é justamente um dos temas da minha tese de doutorado, que defenderei em março ou abril. Muito se fala sobre avaliação em sala de aula, mas pouco se progride nessa área. No entanto, o tema a’valiação da docência’ não é muito abordado, e muito menos a questão da dimensão avaliativa na prática docente, que em inglês tem sido tratada de “teacher assessment literacy”. Nessa perspectiva, o letramento docente em práticas avaliativas passa a ser condição básica da sua formação, à medida em que são exatamente essas práticas que tem o poder de servir como mola propulsora do conhecimento e desenvolvimento do aluno.
    Obrigada por abordar esse tema. Adorei! Sucesso! Abraços!

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