Educar contra a barbárie

Você que nasceu nos anos 1960 sabe onde fica Auschwitz? Sabe o que aconteceu? E a geração dos anos 1980, será que aprendeu o significado de Auschwitz? Sabemos cultivar nas mentes e corações dos jovens a indignação diante da barbárie em Auschwitz e outros campos de concentração nazistas?

Nossa responsabilidade como educadores é enorme. A realidade que nos cerca expressa a barbárie e está prenhe de fatores que apontam para o risco da regressão. O mundo globalizado impele as pessoas em direção ao xenofobismo, à intolerância diante do outro, à idéia de que há uma inevitabilidade histórica, ao consumismo e ao individualismo desenfreado. Naturalizam-se as mazelas e misérias da condição humana, em nome de um determinismo amparado num viés tecnicista e nas necessidades da concorrência internacional, isto é, da predominância do mercado.

Prevalece a mesmice entediante e anestesiante. Espaços onde deveria frutificar a reflexão crítica mais parecem “cemitérios de vivos”. A crítica deu lugar ao comodismo e ao servilismo. Os poderosos de plantão decretaram que não existe alternativa e muitos acataram. Os problemas sociais que afligem enormes parcelas da humanidade, excluídas da mais elementar cidadania, parecem inevitáveis ou castigo. A condição humana continua a ser aviltada em situações que antes horrorizavam os bem-pensantes membros da classe média intelectualizada.

Enquanto isso nos voltamos para o nosso mundinho, para o nosso umbigo; para as veleidades da ambição acadêmica. Vaidosos, ostentamos nossos títulos acadêmicos como prova de pretensa superioridade intelectual. Títulos que nada provam. Mesquinhos, alimentamos nosso ego com o quinhão do poder burocrático. Em nossa arrogância, fetichizamos a técnica e o conhecimento sem atentarmos para o fato de que seu domínio pelo nazismo significou a supressão da humanidade. Como compreender que foram precisamente os cientistas, isto é, pessoas tituladas e diplomadas, que projetaram o sistema de morte que vitimizou milhões com rapidez e eficiência?

Donos da verdade, damos ouvidos às conversas de corredores, formalizamos a informalidade das relações em memorandos, protocolandos, etc. Transformamos o trivial e o ridículo em batalhas políticas – ainda que coloquemos em risco a sobrevivência econômica dos nossos colegas de trabalho. Substituímos a mais elementar solidariedade pela autofagia e pelo individualismo exacerbado.

Em nome da eficiência quantificamos tudo. Assim, repetimos outro procedimento presente em Auschwitz: a coisificação das relações humanas. A partir do momento em que não nos indignamos diante da realidade social, que aceitamos como naturais determinados fenômenos sociais, acabamos por admitir que parcelas de seres humanos são descartáveis. Longe de pura abstração filosófica, este fenômeno está presente em nosso cotidiano nas questões que nos parecem mais banais. Numa realidade onde a vida humana pouco vale, a tendência é a crescente banalização do mal.

Como educadores, temos responsabilidade social. Ao invés de nos perdemos em discussões intermináveis e estéreis; de nos afogarmos em nossa própria vaidade; de gastarmos nosso precioso tempo na mesquinhez do emaranhado burocrático e na luta pelo poder de controlar os meios de prejudicar o outro; de nos desgastarmos em picuinhas e academicismos; eduquemos no sentido da auto-reflexão crítica e nos dediquemos à tarefa de esclarecer, para que se produza um clima intelectual, cultural e social que não permita a repetição de Auschwitz. O primeiro passo é repensarmos nossas práticas como educadores e nos indignarmos com tudo que nos lembre Auschwitz …

11 comentários sobre “Educar contra a barbárie

  1. Parabéns pela matéria “educar contra a barbárie”. Creio que quando se
    volta para a ambição acadêmica e superioridade intelectual é possível
    uma equiparação ao nazismo. Sustentar tal mesquinhez supõe, certa
    vezes, a defesa de regimes autoritários.
    É preciso incomodar a sociedade, quer por atos concretos quer por
    formação. E educação é artifício importante, pois é com essa
    ferramenta que o sistema incutil durante anos a acomodação.

  2. Nós precisamos muiiiito de pessoas como você no espaço acadêmico, realmente os educadores se colocaram acima de tudo.
    Contraditórios, trabalham para manter seus status quo, escrevem e falam muito a respeito de ética e etc, mas a pratica é bem diferente.
    Querem manter seus empregos e títulos a qualquer preço, e não se preocupam com os rumos da história e do ser humano.
    parabéns.

  3. Querido Professor,

    Concordo com a sua opinião, porém entendo que o pensamento, a teoria dissociada da práxis não levará a lugar algum, ou seja, ainda ajudará a sustentar esse estado de coisas. Somos professores e agimos dentro de um sistema excludente, massificador e injusto. Se a titulação, se a educação continuada nos impulsionar a uma nova linha de ação em nossa vida como um todo, a fim de que consigamos multiplicar novas ideias para novas práticas, ainda vejo sentido em cursar Mestrado, Doutorado, etc. Por outro lado, se somente estudarmos para colecionar títulos, aumentarmos o nosso status econômico e social, estaremos fazendo exatamente o que o sistema cobra de nós e deixando de lado, ou mesmo até ocupando insatisfatoriamente, as brechas que ele mesmo produz para que façamos a nossa libertação. Auschwitz é um forte ícone da barbárie humana, porém, de lá pra cá, muitos holocautos já aconteceram e estão acontecendo ‘veladamente’ sem a notoriedade histórica, porque os artefatos culturais de sustenção do poder dominante estão aí, invadindo as veias humanas sem as pessoas se darem conta disso.
    Abraço.

  4. Caro Ozai

    Torna-se necessário uma extrema mudança não somente na EDUCAÇÃO, mas no Sistema Político e isso só acontecerá mediante mudança na mentalidade do ser humano. Na XLVI Conferência Internacional de Educação em 2001, destacou-se que o Século XX deixoui como herança 180 milhões de pessoas mortas por outras pessoas. Muitos dos LÍDERES da maioria dessas pessoas eram altamente EDUCADAS, estudaram nas melhores escolas do mundo.
    E, além disso, em alguns lugares onde ocorreram genocídios execráveis, os sistemas educacionais e as escolas foram co-responsáveis pela criação de um Sistema de legitimação desses genocídios. Portanto, sabemos que não há progresso sem educação. Entrentanto, a educação por si só- e qualquer que seja a educação- não é garantia de PROGRESSO: depende de sua qualidade, da Qualidade e Formação dos profissionais, do Compromisso de cada um, do Sistema Político prover bons salarios ao nosso educador brasileiro. Temos que mudar nossa PRÁTICA enquanto EDUCADORES? Temos sim, mais antes o pensamento dos que compõem o Sistema Político precisa ser mudado.

    Grande Abraço!

    Socorro Pinheiro

    Belém /Pará

  5. A ideia do tema é muito boa principalmente para se trabalhar em sala de aula o tema direitos humanos. Porém discordo que o mundo globalizado tenha tornado ou se proponha a fabricaçao de xenofóbics, pois na pratica o que temos é um mundo cada vez mais estadunidense e nós brasileiros cada vez mais amantes e apreciador de tudo o que é estrangeiro, mesmo que seja paraguaio (produtos falsificados). isso é uma questao comercial quanto mais nacionalista forem as pessoas menos os paises capitalistas vao vender seus produtos,
    Nao concordo jamais com o qu aconteceu em Auschwtz, pois trata-se de humano exterminando humano e esse nao é o proposito da vida. Porem e nao quiser-mos a repetiçao de Auschwtz devemos fazer uma capanha de defesa do povo Palestino que sofre todos os dias dos abusos de poder regado a ira e sede de vingaça do governo israelense. Talves eles nao percebam, pois estao na vatagem, mas essa sede de vingança tem tornado-os em milhares de HITLE na vida do povo palestino.

  6. Antonio
    Os campos de concentração se a memória ajuda são uma invenção inglesa. Paralelo aos campos de extermínio nazi tivemos a Sibéria, já de uso dos Czares e largamente utilizada pelos autoritários de Moscou. O grande problema é que o conflito mundial não serviu de lição. Provavelmente os conflitos que lhe seguiram e lhe seguem são tão ou mais sanguinolentos. Teríamos que consultar os números das vitimas e os gastos com guerras após 1945, imagino que sejam assustadores. O quanto se gasta no mundo com a militarização também deve ser algo grandioso. O paradoxo é que os que financiam, os que desenvolvem estas armas, conflitos, estratégias, genocídios, tem títulos acadêmicos e possivelmente lá estejam essencialmente por mérito e não “pistolagem” .
    O Brasil manteve Campos de Concentração da República Velha ao Estado Novo. Nossos presídios continuam piores que os Campos de Concentração da Europa.
    Cordialmente
    Pedro

    • Pedro ! Até onde vão meus conhecimentos, sua informação está correta. Os campos de concentração são uma invenção inglesa, usados na África (do sul principalmente) e na Índia, na segunda metade do século 19. Passaram a ser usados posteriormente por alemães, italianos e outras nações em períodos totalitários.

      Abr. Paulo

  7. Conheço o seu texto na íntegra, publicado na REA, Ozaí.
    Considero muito pertinente a sua análise sobre os resquícios das visões
    totalitárias, que até, inconscientemente, vão sendo reproduzidas nos espaços em que se estabelecem as relações entre humanos: na família, na escola, em tantas outras instituições da sociedade capitalista.
    Um deles promove esse modo de reprodução de forma subliminar: o mercado.
    Nele, estamos todos e todas as pessoas, abastadas e empobrecidas. A sociedade de consumo nos iguala no sentido de sermos “desejantes”, no sentido da busca por produtos. A grande maioria deles, quase totalmente dispensáveis.
    Na análise de Marx, como sabemos, estava destacada a função do sistema produtivo que produz necessidades antes nunca existentes e nos leva a consumir mercadorias impensáveis.
    Talvez precisemos mesmo, caro Ozaí, dar uma grande sacudidela em todas as áreas do conhecimento, desde as que produzem as ideologias e as análises sobre a sociedade e as culturas até aquelas que se responsabilizam por criar o conhecimento que se aplica na produção de bens materiais.
    Estamos em meio a um impasse que será insolúvel para os humanos, se não alterarmos a nossa visão de mundo e o nosso estilo de vida.
    Por exemplo, onde serão colocados todos os equipamentos que descartamos em todos os continentes, como os celulares, os computadores e todos os derivados dessa tecnologia altamente atraente e altamente danosa ao mesmo tempo?
    Como enfrentarmos a tirania do mercado que invade as relações em casa e na escola? Se um aluno pobre não dispõe de recursos tecnológicos, ele estará discriminado duplamente: não poderá aparentar a sua inserção nessa sociedade tecnológica e também não terá acesso ao conhecimento que está sendo difundido por esses meios.
    O que dizer de alunos nas universidades que usam celulares nas salas de aula, enquanto o professor ou professora tenta chamar sua atenção para um conteúdo, que a maioria também despreza porque acha muito mais fácil utilizar a internet para copiar textos.
    Estamos encrencados, meu amigo. Além das relações humanas desiguais porque estabelecidas, de modo estratificado em classes, e responsáveis pelos desencontros e desmandos que levam até mesmo aos exemplos de Auschwitz, temos na atualidade, um GRANDE IRMÃO que define o paradigma totalitário da forma de viver da maioria dos seres humanos e, principalmente, das gerações mais novas, com a cumplicidade de governantes, empresários da educação, que fazem fortuna nessa área de atuação “comercial” e ainda, milhares de educadores, que sequer tem a condição de parar para refletir sobre todas essas questões, pois correm de um lado para outro, lutando pela sobrevivência.
    Temos que continuar, como você, refletindo e produzindo idéias que possam fortalecer os movimentos, em prol da luta pelas transformações possíveis em todos os espaços, desde a casa até a rua.
    Temos que continuar a fazer de cada espaço em que atuamos um front em que se pode encetar uma guerra de posições.
    Temos que permanecer firmes no propósito de contribuir de modo coerente, produzindo teoria e prática indissociáveis.
    Como será que realizaremos essas tarefas históricas? De modo individual ou coletivo?
    Penso que é fundamental o uso da internet para a divulgação dessas idéias instigantes, tanto quanto precisamos com urgência, urgentíssima, retomarmos os espaços dos partidos e sindicatos, associações e assemelhados para fazer uma outra prática política, em que se coloque em debate tudo que está na raiz dessas relações autoritárias e arbitrárias, que são geradas, em última instância, nas relações sociais de produção.
    Sem que se amplie a capacidade de debate crítico e de luta inteligente no âmbito dos movimentos sociais, no espaço virtual e no espaço físico, concreto, ainda será muito mais difícil imaginarmos as perspectivas de futuro sem novos episódios como Auschwitz.

  8. Que bom Professor Ozai voltar com problemas de ordem vária sob o ponto de vista educacional.

    Não vivo no seu País mas no outro lado do Mar.Porém ,este tema toca-me fundo na medida e que ensinei 37 anos passando por várias reformas e nenhuma resultou.

    A meu ver .parece-me que mudanças têm de ser feitas quer a nível social como pedagógico.

    Já lá vai o tempo em que o professor se servia do seu estatuto profissional de mãos dadas com o sistema politico “ensinava “o que lhe era imposto .O aluno era apenas um numero.Depois ,passou a ser alguém filho de alguém importante socialmente ,mas de repente os Pais começaram a fazer parte de um estatuto que lhe permitia exigir ao prof anota para entrar na Universidade que lhe daria o titulo de DR.

    Simplesmente os titulos nãda definem.Há que mudar as mentalidades de uns e de outros .Aos profs compete não só passar conhecimentos como procurar saber o pq de tanta aversão pelo saber .Os jovens acham que as tecnologias sabem mais que o chato do professor e este é um verbo de encher com todos os defeitos possíveis apoiados pelos pais para quem o prof não passa de incompetente.

    De seguida ,veio o pior _a rivalidade entre colegas por causa dos escalões que lhes dá maior representatividade.

    Esquecem-se que ensinar é aprender a ensinar e os profs com maior prática pedagógica deveriam ter o papel de apoio aos mais novos e não se preocuparem em se superiorizar.

    Ensinei num país onde os profs a partir dos 55 anos passavam a ter outras funções desde a biblioteca a conselheiros pedagógicos .Estavamn sempre em cima dos acontecimentos sem a preocupação de avaliadores do trabalho do colega.

    A escola tem de mudar quer a nível de ensino quer a nível de relações prof/aluno/pais.
    um inter diálogo para o crescimento intelectual ,social e humano.Doutro modo ,a Escola como instituição do saber não passará de um fóssil histórico.

  9. Caro Ozaí, concordo com você. Porém, acho que a crítica deve ser feita apenas quando visa a mudança na realidade presente. Muitos membros da classe média intelectualizada se fecha no castelo de marfim das universidades e produz críticas inócuas.

    O conhecimento deve ser empregado e virar inovação. Dissociar discurso e prática é um passo para a manutenção do status quo. Se nossa produção intelectual não criar novas possibilidades, ela simplesmente não tem porque existir!

    Abraço!

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