“Assim falou Vargas Vila” sobre a sinceridade

“A sinceridade é uma virtude que devemos somente a nós mesmos. Praticá-la com os outros é um suicídio” (Vargas Vila).[1]

As palavras de Vargas Vila (1860-1933) é um convite à reflexão. Ele me foi apresentado por Ezio Flavio Bazzo, organizador da obra “Assim falou Vargas Vila”.[2] Este autor maldito, banido da sua terra natal, foi “novelista, militante panfletário, jornalista, niilista, ateu, anticlerical e obsessivamente indignado com a palhaçada fastidiosa reinante na América Latina, principalmente com o carneirismo vergonhoso de sua política e de suas assembléias”.[3] Seus livros foram censurados, queimados em praça pública e a Igreja ameaçou de excomunhão quem se atrevesse a lê-los.

Escritas há muito tempo, são palavras atuais pertinentes. Por exemplo, o que ele escreve sobre a sinceridade. Seja sincero e correrá o sério risco de ver decretada a sua morte social. Muitos lhe considerarão inconveniente e grosseiro; outros dirão que você padece da ingenuidade dos loucos e das crianças – os únicos que, em geral, não temem a espontaneidade – e o aconselharão a “pensar antes de falar”; dirão que seu tom de voz é ofensivo. O ser humano necessita gosta das aparências. A verdade pode ser insuportável. A mentira é o fundamento da sociedade:

“O único método reflexivo de triunfar é a mentira; a verdade é espontânea e irreflexiva; por isso leva sempre à derrota; ninguém se salvou por dizer uma verdade; todos os vencedores o foram pelo poder de uma mentira…”[4]

“A mentira é o estado natural do homem. Na mentira vivemos, pela mentira gozamos e é do seio generoso da mentira que extraímos as únicas gotas de mel que adoçam a vida. A mentira é a esmola dos céus, nela vibra a bondade suprema, é ela que dá força ao espírito para não desfalecer, não morrer, não fechar as asas e cair dos céus exóticos do sonho sobre a terra miserável.”[5]

“A verdade é de tal maneira odiosa aos homens, que quando mencionam uma, a colocam na boca de um louco como Hamlet. E é para provar sua loucura que este diz uma verdade.”[6]

Se a verdade deve ser socialmente dissimulada, talvez Vargas Vila esteja certo quando define a amizade como uma:

“… forma de comércio entre os homens, máscara de Aristófanes sob a qual se gesticula à vontade; consórcio de duas vaidades, junção de duas mentiras sob qualquer interesse sempre bastardo (…) a hipocrisia é o laço que une os homens em sociedade: no dia em que imperasse a franqueza, se destruiriam uns aos outros como os soldados de Cadmos.”[7]

Quantos de nós estamos dispostos a assumir os riscos de dizer aos nossos amigos e pessoas amadas o que realmente pensamos? Somos capazes de ouvir o que sinceramente pensam sobre nós? Quantas amizades, casamentos, etc. resistem à sinceridade? Talvez por isso preferimos nos enganar mutuamente, como se pisássemos em cristais sem assumirmos o risco de quebrá-los.

“Assim falou Vargas Vila”. Resta escandalizar-se ou suspender os preconceitos e refletir sobre o significado das suas palavras. Se não tememos a sinceridade, temos algo a aprender. Afinal, se atentarmos bem para o nosso cotidiano, talvez nos assustemos em perceber que as palavras de Vargas Vila, por constrangedoras que pareçam, servem bem para pensar o indizível, aquilo que não temos coragem de pronunciar.


[1] In: BAZZO, Ezio Flavio. Assim falou Vargas Vila. Brasília, Companhia das Tetas Publicadora, 2005, p. LXXXIII.

[2] Informações e a apresentação de Ezio Flavio Bazzo estão disponíveis em: Revista Espaço Acadêmico, nº 49, Junho de 2005.

[3] BAZZO, Ezio Flavio. Assim falou Vargas Vila. Brasília, Companhia das Tetas Publicadora, 2005, p. XXIII.

[4] Id., p. XXXIX.

[5] Id., p. LXXII.

[6] Id., p. LXXX.

[7] Id., XLIV.

15 comentários sobre ““Assim falou Vargas Vila” sobre a sinceridade

  1. Nós somos o que pensamos, já dizia Buddha. A vontade ávida do homem o persegue para dar sentido a sua existência, atrelados a imposições e regras impostas ou fazendo as ditas regras, somos escravos, dependentes do regime, em busca de um motivo fugaz, onde prevalece o poder de uma minoria, nos fazendo robotizados, numa falsa moralidade de Progresso e Democracia. Não existe verdade absoluta, a mentira é o avesso da verdade? O Cristão diz que a Verdade de Deus é a única. não relativizam. Às vezes o certo é o errado para mim, ou vice-versa, eis a questão. Tudo é relativo? Tenho a minha verdade e você tem a sua, vai do que eu acredito.

    • Silvana,

      boa tarde.
      Muito obrigado por ler e comentar o blog.
      Respeito muito sua postura, mas prefiro a hipótese de somos o que fazemos, ou seja, são as nossas ações que determinam nosso ser. O pensamento pode nos iludir e podemos ser cair em auto-enganos. Já escreveu o “Mouro” que a prática é o critério da verdade e que não é a consciência que determina o ser social, mas o contrário. Por outro lado, se tudo é relativo, então não existe nem a verdade nem o real. Talvez precisemos relativizar a sua relativização rsrsrs

      Mas, claro, é o meu modo de pensar. É relativo rsrsrs
      Muito obrigado.
      Abraços e ótimo final de semana,

  2. A questão proposta apenas revela aquilo que ja sabemos, alimentos a idéia de que tudo esta na normalidade: quando agimos em contradição com aquilo em acreditamos e sentimos.

    Afinal como posso ser verdeiro num mundo onde as pessoas veneram a MENTIRA?

    Resposta . MUITA CORAGEM

    Uma nota não pode ser esquecida.
    Quando mentimos não vêmos os efeitos futuros somente os resultados imediatos.
    Estamos presos ao que ocorre “agora” nos interesses que nos envolve.

    No fim Mentir é apenas retardar a verdade. 🙂

  3. É o famoso “autoengano”!! O adiantar do relógio para pensarmos que estamos na hora do encontro. É a nossa vivência na aparência e o capitalismo quando transforma tudo em mercadoria, eta velho Marx, faz com que tenhamos que reluzir para parecer ouro nossas ações, inclusive culturais e intelectuais.
    Dai hoje a academia estar mais preocupada com “a produção em termos quantitativos”. Vejam que eu nem coloquei produção intelectual, que muita, talvez, maioria das vezes não é. Ação política se pauta, há um bom tempo nessa lógica do auto engano.
    Ser radical, que é ir à raiz da questão, lembra-nos que é o próprio homem, tornou-se uma expressão pejorativa e alguns momentos, motivo de chacota.
    Belo texto, vamos ao livro citado.

  4. O nome é denegação, seja, a negação da negação. Nega-se um processo primário em favor da cena. Assim é o infante no primeiro movimento de negar o processo primário da vida. Em seguida, distorce-se a cena. É a outra negação, seja, negação de negação. Temos deste jeiro o homem normal e constituido no erro. A verdade não existe. Apresenta-se-nos como falta sofrida que não permite o conhecimento absoluto. No homem, só ha verdade como Acontecimento, como Advento, como Aufhebung no processo dialético, cuja tese seja A Ignorância. A mentira de que fala Vargas Vila é a doxa, a opinião, o falar das gentes nas praças públicas. Linguagem medíocre e que faz da mediocridade o capital do sucesso e da crença.

  5. Ola
    Esta discussao tambem deve ser feita a partir da otica da politica, do coletivo e nao apenas do individual. Se trabalharmos nesta perspectiva, podemos entender a politica como a arte da retorica e nao da busca da verdade. É assim, que a politica fica tao desacreditada pois o que o politico fala hoje pode ser o oposto do que ele pensa. Ele fala o que o publico quer ouvir. O espaço da busca da verdade, seria o espaço da ciencia e portanto, da universidade. Mas hoje, a universidade está pautada pelo produtivismo, pela busca de prestigio, pelo dinheiro. A busca da verdade e portanto, o pensamento critico, já nao é muito aceito.
    Como ficamos? Acho uma grande discussao.
    Dirlene

  6. faltou uma pergunta: o que é a verdade? nossas impressoes sobre os outros sao mais verdadeiras do que as palavras de consolo ou de solidariedade que também sao invençao nossa, que saem também da nossa percepçao do outro?
    e, ainda mais: essa percepçao é sempre a mesma? ou ela muda com os acontecimentos do dia, as palavras trocadas ou até com a chuva e o sol?
    francamente, nao acredito nesse ser monoliticamente sincero que me soa muito proximo de sentenciadores moralistas, de juizes agressivamente donos da verdade – em outras palavras, de gente insuportavel.
    um abraço e bom domingo.
    Regina

  7. Não dizemos a verdade porque temos medo da morte. Mas, se a “vida” só prospera na verdade, não nos demos conta de que já faz um tempinho que morremos…

  8. Profundo e real.
    Esse foi um dos posts que mais gostei.
    Odeio a hipocrisia intransigentemente, odeio a mentira.
    Mas minto, e ouço mentiras cotidianamente,como parte indissolúvel do convivívio em sociedade. Não gosto de ouvir todas as verdades a meu respeito, e sei que também, nem sempre a verdade é absoluta. Mas preferia que existisse mais verdade, e menos hipocrisia.
    Parabéns, gostei muito… e vou refletir longamente sobre o que li.

  9. é impossível viver somente com a verdade nua e crua, seria cometer um sincericídio, a humanidade precisa da mentira, numa dose correta, é verdade, isto permite o bom funcionamento da sociedade, verdade e mentira se contrapõem nas nossas vidas para assim vivermos melhor

    • Sempre pensei sobre dizer a verdade, omitir ou até mentir ( o que é pior). Gosto de dizer a verdade e sou meio que “marginalizada por isso”. Eu me vejo sendo conivente com a omissão, omissão para proteger alguém ou alguma situação – as vezes se faz necessária – …..
      Sei que vivemos em uma sociedade cheia de mentiras e omissões, com poucas verdades.
      Esse livro deve ser muito bom.
      Gostei do texto.
      Abraços,
      Lina

  10. Uau!!! Que medo! Nada como ter alguem para dizer a verdade, não é. Aí esta o pensamento de Vargas Vila que nos sacode de nossa vidinha…e eu que pensei que era verdadeira. Mas ao ler o texto pergunto assim como ele: será que minha vida social e familiar resistiria se eu dissesse a verdade sobre meus sentimentos e ressentimentos? Sei lá…vou pensar

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s