Estudantes de Ciências Sociais: revolucionários profissionais?

*“A organização de revolucionários deve englobar, antes de tudo e sobretudo, pessoas cuja profissão seja a atividade revolucionária”, escreveu Lenin.[1] Sem entrar no mérito do debate sobre a concepção leninista de partido, tão bem exposta em Que fazer?, imagino que a defesa da profissionalização do Cientista Social não se refira à formação de revolucionários profissionais. Ou será que o curso de Ciências Sociais tem a obrigação de formar profissionais da revolução? Não é esta uma função própria das escolas de formação política vinculadas a partidos e organizações revolucionárias? Será que cabe aos docentes fazer cabeças, doutrinar?[2]

Se aceitamos que o objetivo do curso de Ciências Sociais não é o de forjar revolucionários profissionais, isto significa que o processo de formação dos futuros cientistas sociais se fundamenta na neutralidade axiológica? Não, a neutralidade é um engodo e tem conseqüências. Devemos nos restringir à preparação do profissional para o mercado? Também não! Ou é o caso de formar profissionais críticos, cidadãos atuantes na vida e em seus espaços de trabalho? Talvez! Mas, o que precisamente significa formação crítica? E como ser crítico diante da forte pressão pela adaptação e conformismo do mercado de trabalho?

Os indivíduos podem se limitar à tentativa de compreender o mundo, mas também podem agir para transformá-lo. Podem se rebelar ou se adaptar. Não obstante, estarão diante das contradições inerentes à sociedade. O revolucionário não vive no vir-a-ser idealizado. A menos que tenha recursos ou que alguém o mantenha, precisa trabalhar e submeter-se ao mercado de trabalho. As chances de sobrevivência na guerra de todos contra todos são menores na medida em que não estiver suficientemente habilitado. E é sempre mais difícil remar contra a corrente e “mais fácil fazer como todo mundo faz”.[3]

A questão não se reduz ao engajamento político, envolve a responsabilidade social. Nós, professores, vivemos do nosso trabalho – remunerados pela sociedade – mas nem todos estamos engajados na luta política para além dos muros da academia. Nem podemos afirmar que todos assumem a responsabilidade social diante da realidade social que nos circunda. Muitas vezes, restringimos nossa prática ao nosso mundinho, à pequena política e os pequenos poderes. Sejamos francos: para muitos de nós a sociologia, antropologia e ciência política, bem como as ideologias, são, também, meios de vida. Ou seja, profissão! Enquanto cientistas sociais, somos também profissionais –  e espera-se que desempenhemos bem as nossas tarefas. Há um mercado acadêmico e ideológico. Não devemos ser ingênuos a ponto de não percebermos os interesses particularistas sob a máscara da universalidade e da retórica revolucionária.

Por que, então, escandalizar-se diante dos estudantes que simplesmente querem se dar bem no mercado de trabalho? Por que esperar que todos sejam politicamente comprometidos? Gostaria muito que todos os estudantes se responsabilizassem socialmente, que tivessem postura crítica. Até porque, estudam numa instituição pública mantida com os recursos da sociedade. Porém, sei que para muitos a expectativa é meramente se preparar para vencer no mercado de trabalho, ter uma profissão que possa garantir melhores condições de vida. Essa postura é tão legítima quanto a dos que se dedicam a pensar a revolução, ao estudo e pesquisa engajada. Por outro lado, não esqueçamos que o mercado de trabalho inclui trabalhar na rede pública estadual como professor de sociologia de jovens do ensino médio. A nossa responsabilidade, portanto, é ainda maior.


* Texto elaborado como subsídio para participação na mesa-redonda “Ciências Sociais: Mercado ou Revolução?”, organizado pelo Centro Acadêmico Florestan Fernandes, curso de Ciências Sociais (DCS/UEM). O evento, realizado em 23.02.2010, na Universidade Estadual de Maringá (UEM), teve a participação da Profª Drª Eide Sandra Abreu Azevedo e Profº Drº Ednaldo Aparecido Ribeiro, coordenado por Luiz Alexandre (graduado em Ciências Sociais, UEM). Agradeço a Nicolle Montalvão Pereira e ao Centro Acadêmico Florestan Fernandes.

[1] LÉNINE, V. I. Que fazer? Lisboa: Edições “Avante”; Moscou: Edições Progessso. Obras Escolhidas, vol. 1, 1977, p.158.

[2] A minha posição sobre isto é pública. Em outro post, O professor e o MST, publicado em 25.04.2009, escrevi: “A sala de aula não é “escola de formação de quadros” de partidos ou da organização “x”. A postura do professor, portanto, não deve ser a do “doutrinador político”, daquele que procura ganhar “corações e mentes” para a sua causa. Enquanto cidadão e pessoa pública, ele tem outros espaços para defender suas propostas e ideologia. O professor tipo “dogmático” e “doutrinador” desconhece que sua contribuição maior não está em conquistar discípulos, mas sim em “preparar o caminho para se chegar a decisões” (id.). Ou seja, ele deveria apresentar e debater com seus alunos todos os aspectos que envolvem a questão, o tema. Às vezes ele até conquista um ou outro, mas presta um desserviço à ideologia que defende (tive professores, por exemplo, que não davam aula, faziam doutrinação; fortaleciam a fé dos convertidos, mas afastavam a maioria dos que até poderiam simpatizar).” Disponível em https://antoniozai.wordpress.com/2009/04/25/o-professor-e-o-mst/ As aspas no interior do textos se referem a trechos de Ideologia e Utopia, de Karl MANNHEIM (Rio de Janeiro: Zahar, 1976, p.187).

[3] Outras freqüências, Engenheiros do Havaii. Composição: Humberto Gessiger.

9 comentários sobre “Estudantes de Ciências Sociais: revolucionários profissionais?

  1. Olá Ozaí,

    Haveria algum vídeo sobre a mesa “Ciências Sociais: Mercado ou Revolução?” ? Gostaria de obter mais informações sobre o tema.

    Obs: Sou leitor do seu livro sobre Maurício Tragtenberg e considero a obra como de excelente qualidade. Parabéns!

  2. Caro Ozaí, seu texto é interessante e me fez pensar algumas coisas que muito provavelmente acabaram se deslocando das questões colocadas inicialmente por você. Mesmo assim, arrisco alguns comentários. Se tivermos em conta que as Ciências Sociais são compostas por três grandes áreas (Antropologia, Ciência Política e Sociologia), não necessariamente elas são “progressistas” ou têm a preocupação básica de formação de uma consciência social crítica. Talvez por isso, elas estão mais próximas da formação para o “mercado” que para a “revolução”. Por outro lado, acho difícil falarmos nas Ciências Sociais como um todo. A minha área em particular, a Ciência Política, é uma das mais conservadoras. Um dos sintomas deste conservadorismo é não só o conteúdo das disciplinas, como também os “temas” escolhidos nos congressos promovidos pelos profissionais ligados à ABCP (Associação Brasileira de C. Política). Aproveito para abrir um parêntese que demonstra como os cursos estão cada vez mais conservadores: aqui na UEL o curso de Economia foi reformulado recentemente e se tirou de uma vez por todas a Economia Política (além de Marx não ser mais estudado no curso, retirou-se a Sociologia e a C. Política da grade), transformando-a em Economia “Pura”. Voltando-nos para as Ciências Sociais propriamente ditas, se levarmos em conta uma das “disciplinas” que a compõem, refiro-me ao marxismo, aí acho que a coisa se complica bastante. O marxismo não nasceu dentro da academia, ele é fruto das lutas operárias antes mesmo da existência de Marx e Engels. Foram as greves, motins, rebeliões, revoluções, em uma palavra, as lutas entre explorados e exploradores que propiciaram o surgimento do marxismo. Salvo engano, foi no início do séc. XX e principalmente depois da II Guerra Mundial que ele foi “incorporado” e se expandiu como disciplina dentro das Universidades. Ao contrário de outras disciplinas que disputam os corações e mentes dos estudantes – em minha opinião é uma disputa legítima, desde que se respeitem mutuamente -, o marxismo nasceu com o propósito de fazer a revolução proletária. Portanto, mais que uma disciplina, é uma ciência da transformação social, cujo principal agente é o proletariado. Dentro da academia o marxismo é dissociado das práticas que o originaram. Ele tem mesmo status que as demais disciplinas: os alunos são avaliados, podem ser “aprovados” ou “reprovados” como qualquer disciplina. Dentro da academia a dissociação do marxismo da prática revolucionária é mais do que evidente. Nesse sentido, o que é o marxismo sem a sua práxis? Em sua defesa, proponho então que ultrapasse os muros universitários e “sirva” de “liga” às lutas sociais dos sem-teto, dos sem-terra, dos operários, dos estudantes etc. etc. De todo modo, imagino que este seja o dilema que vivemos na atualidade. Abraços.

  3. “Por que, então, escandalizar-se diante dos estudantes que simplesmente querem se dar bem no mercado de trabalho? Por que esperar que todos sejam politicamente comprometidos?”

    Simples, só se estuda esses assuntos com aprofundamento na faculdade.
    A pessoa passa o ensino funamental e médio sem saber de verdade o que é sociologia, responsabilidade social, lógica, economia, política, etc…
    Resultado, chega alienado pela propaganda midiática a faculdade, aí já é tarde, poucos se salvam…

  4. Caro Professor – Vejo que o colega faz uma segmentação que talvez nem pedagógica seja. ALGUÉM PRECISA POLEMIZAR PARA MANTER-SE A VERDADEIRA CULTURA UNIVERSITÁRIA CRIATIVA DE NOVAS E ESPERA-SE MELHORES CONDIÇÕES. Comparando os Cursos de Ciências Sociais com os de Direito, por exemplo, o que fiz primeiro que a Profa.Dra.Maria da Glíória Bonelli, pois ela apenas estudou superficialmente, e eu fiz o curso da USP e vivenciei todos os aspectos do Direito, vamos nos deparar com um quadro completamente diverso. NAS CIÊNCIAS SOCIAIS NADA SE FALA DE TRABALHOS JUNTO À SOCIEDADE CIVIL ROTINEIRAMENTE E NO DIREITO É EXATAMENTE O CONTRÁRIO. Em outras palavras no Direito ampara-se todos os alunos e nas Ciências Sociais apenas aqueles que terão o dom de seduzir algum orientador para manter-se na Academia. Os Cursos de Direito multiplicam-se e os de Ciências Sociais fecham ou são mutilados indiscriminadamente por tiranetes intelectuais impunes. Estudamos organizações, mas não estamos minimamente organizados na questão trabalhista, ou no sndicalismo e Conselhos Profissionais. Já qualifiquei isto de delinquência acadêmica e mesmo de vadiagem acadêmica, pois abandonar a maioria a sua própria sorte, e desprezar o rotineiro posto profissional do sociólogo mais próximo do dia a dia da sociedade, sob o rótulo de mercado, é quase uma insanidade. Onde estaria a famosa prostituição mercadológica num analista de conjuntura no Judiciário para problemas de família, ou mesmo numa favela para assessorar as lideranças em sua visão de futuro? Claro que para estes concursos é preciso alterar a grade curricular sinalizando para as autoridades a aptidão e suas características. Como na história európéia o sucesso do público deixou espaços melhores para o privado, nada mais normal que pensar que as empresas vendo algum bom resultado com bons profissionais públicos, com o perfil adequado, possam contagiar-se com a tese de tê-los para melhorar seus planejamentos em geral e até mesmo na ponta em algumas situações. HÁ UMA CLARA OMISSÃO NOS CURSOS DE CIÊNCIAS SOCIAIS POR UM CORPORATIVISMO QUE NINGUÉM QUER TOCAR. Todo o instumental de sociologia das organizações, dos sindicatos, das profissões está bem depositado em nossa cultura acadêmica, mas guardado a sete chaves a bem do conforto do atual grupo no poder.SHALOM

    • Boa tarde professor!
      Gostei de seu texto. Nossa obrigação como educadores deve ser trabalhar a capacidade dos alunos entenderem e, através da já citada formação crítica, concordarem ou não com o que ocorre em nossas relações sociais. É grande a tentação de moldar nossos alunos a nossas convicções (afinal, não somos neutros), mas ensinar que opiniões diversas podem e devem ser debatidas já se torna um grande avanço. Na universidade tomamos contato com pessoas que acabam se aproximando de uma ou outra vertente ideológica. Existem aqueles que não se sentem mal em defender o que sempre tiveram, mesmo que em detrimento dos demais.
      Em sala de aula acompanhei até agora a mudança de alunos que inicialmente tinham total jeriza pela sociologia (pois a consideravam uma disciplina desnecessária), até a atualidade, aonde cada vez mais alunos se interessam por seguir esta profissão, tendo em vista que alguns alunos ou já entraram ou estão por fazer o vestibular. É claro que quero alçar vôos maiores em minha carreira de educador, mas estas eticamente são possíveis quando o trabalho feito em aula é realmente bem feito.
      Como professor não concursado (estou esperando um concurso público para a área) fiquei feliz de participar de um grupo de professores (Josimar, Marcos, Verônica, Isabel, Talita entre outros) que mesmo não sendo tão grande, lutou para que as aulas de Sociologia fossem ministradas por cientistas sociais, o que na maioria das instituições de ensino médio não iriam ocorrer.
      Fizemos reuniões, estudamos, trocamos experiências e fomos defender os interesses de nossa classe. É claro que queríamos trabalhar, e defendemos nossa profissão, mas lutamos por algo que teve como resultado a volta das aulas de sociologia no Núcleo de Maringá para serem distribuídas para todos os professores formados em ciências sociais. Não queríamos na ocasião lutar sozinhos, mas houveram aqueles que preferiram não se “queimar” participando ou se conformaram mesmo a contragosto com o ocorrido. Esta vitória só foi possível pela formação e entendimento do ensinado a nós, agora professores. Se cabe uma crítica, creio que nós professores (seja de instituições universitárias ou de escola no ensino médio) devíamos trabalhar juntos, pois nós das escolas precisamos do apoio da universidade em prol de uma classe mais unida e ética.
      Tenho certeza que a luta seria menos árdua pela experiência compartilhada, até mesmo pelo respaldo científico que tal apoio geraria. De agora em diante, vamos construir uma educação crítica juntos?

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