Reflexões sobre a intolerância (2)

A violência e a opressão, observou Spinoza, não podem promover a fé. Judeu, vítima da intolerância por parte da própria comunidade, ele foi acusado de ateísmo e excomungado. Ele passou a viver à margem da religião judaica. Sua atitude é referência para os judeus secularistas que, sem negar o judaísmo, abdicaram do abrigo da religião. A sua excomunhão reforça a necessidade da liberdade de expressão.

John Locke, no mesmo século de Spinoza, na Carta Acerca da Tolerância, afirmou que a autoridade política não pode definir a crença dos indivíduos. Por maior que seja a capacidade repressiva, a autoridade política é incapaz de impor plenamente a crença religiosa – esta só tem valor se é livremente aceita. Locke enfatiza a imperiosa necessidade de distinguir os âmbitos da autoridade política e religiosa, de definir claramente os papéis do Estado e da Igreja. Para ele, “não cabe ao magistrado o cuidado das almas, nem tampouco a quaisquer outros homens”.[1] A fé não pode ser imposta pelo Estado nem por quaisquer instituições humanas.

Segundo o filósofo inglês, ainda que o poder civil fosse capaz de converter os homens à religião, isto em nada contribui para a salvação destes. As autoridades que representam o poder civil adotam diferentes religiões, embora o mesmo Deus. Este está acima das nações e territórios. A presunção da autoridade civil em cuidar e salvar as almas, “salientaria o absurdo e a inadequação de Deus, pois os homens deveriam sua felicidade eterna ou miséria simplesmente ao acidente de seu nascimento”. Locke conclui, portanto, que “todo o poder do governo civil diz respeito apenas aos bens civis dos homens, está confinado para cuidar das coisas deste mundo, e absolutamente nada tem a ver com o outro mundo”. [2].

Como a interpretação da doutrina pelos homens difere no tempo e no espaço, é necessário que desenvolvam tolerância mútua. Nenhum indivíduo tem o direito de atacar ou prejudicar outrem porque professa uma religião diferente. Não obstante, os homens continuaram a se matar, a perseguir e destituir os bens dos outros pelo simples e absurdo argumento de que estes professam outra fé. A história do povo judeu é ilustrativa do quanto a intolerância religiosa, aliada a fatores econômicos, sociais e políticos, é prejudicial.

Embora tolerante, Locke advogou a necessidade de restringir a tolerância. Para ele “não devem ser toleradas pelo magistrado quaisquer doutrinas incompatíveis com a sociedade humana e contrária aos bons costumes que são necessários para a preservação da sociedade civil”. [3] Para Locke não pode haver tolerância para quem a utiliza enquanto expediente para se fortalecer e, quando considerar necessário, atacar “as leis da comunidade, a liberdade e propriedade dos cidadãos”. Por fim, o filósofo da tolerância nega igualmente esta prerrogativa aos ateus. “Os que negam a existência de Deus não devem ser de modo algum tolerados”, afirma. Ele argumenta que:

“As promessas, os pactos e os juramentos, que são os vínculos da sociedade humana, para um ateu não podem ter segurança ou santidade, pois a supressão de Deus, ainda que apenas em pensamento, dissolve tudo. Além disso, uma pessoa que solapa e destrói por seu ateísmo toda religião não pode, baseado na religião, reivindicar para si mesma o privilégio de tolerância”. [4]

A relação tolerância-intolerância é complexa. Se os limites forem ultrapassados, colocam-se em risco as relações humanas e a convivência social. A tolerância e a intolerância são manifestações do humano, demasiado humano. Compreender isto não significa aceitar a intolerância religiosa, racial, sexista, homofóbica, política, etc. Muito pelo contrário!


[1] LOCKE, J. Carta Acerca da Tolerância. In: LOCKE, John. Carta acerca da tolerância; Segundo Tratado sobre o governo; Ensaio acerca do entendimento humano. São Paulo: Abril Cultural, 1978, p. 5. (Os Pensadores)

[2] Idem, p.6.

[3] Idem, p. 22.

[4] Idem, p. 23-24.

7 comentários sobre “Reflexões sobre a intolerância (2)

  1. O cético, diz Espinosa, “refuta-se a si próprio, interdita-se de dizer o que quer que seja.” (Ibd.: Tratado da Correção do Intelecto §§ 47-48) Se o sujeito é capaz de enganar-se a despeito de tudo, há, porém, duas coisas com as quais ele não pode enganar-se: o fato de ter a certeza de que é capaz de pensar sobre a própria dúvida e, a certeza da existência do seu eu pensante.

    A Intolerância
    Para Espinoza, a substância é absolutamente infinita, pois se não o fosse, precisaria ser limitada por outra substância da mesma natureza, a saber: “à natureza de uma substância pertence o existir”. Assim, a substância é indivisível. Assim, sendo da natureza da substância absolutamente infinita existir e não podendo ser dividida, ela é única, ou seja, só há uma única substância absolutamente infinita ou Deus.

    Apesar de ser denominado Deus, a substância de Espinoza é radicalmente diferente do Deus judaico-cristão, pois não tem vontade ou finalidade já que a substância não pode ser sem existir (se pudesse ser sem existir, haveria uma divisão e a substância seria limitada por outra, o que, para Espinoza, é absurdo, como foi explicado no parágrafo anterior). Consequentemente, o Deus de Espinoza não é alvo de preces e menos ainda exigiria uma nova religião. “Espinoza foi um ateu de sistema”. (I think that he was the first who reduced Atheism into a system)

    Por causa do fanatismo dominante e também do grande temor de que fossem abalados os fundamentos sagrados da sociedade, Espinosa que foi educado na cultura e religião judaica sofreu a acusação de anti-semitismo. No verão de 1656, a Sinagoga Portuguesa de Amsterdão puniu Espinoza com o chérem foi excomungado pelos judeus, continuava a ser para os cristãos “o judeu de Voorburg”. (Cherém ou Herém, é o mais alto grau de punição dentro do judaísmo: a pessoa é totalmente excluída da comunidade judaica).(ROMEO, Sergio Rábade. El Racionalismo Descartes y Espinosa. Espinosa Razon e Felicidad. p.334. CEU Universidad San Pablo/Editorial Trotta, Madrid. 2006).

    O Cherém manuscrito pela Sinagoga: Pela decisão dos anjos e julgamento dos santos, excomungamos, expulsamos, execramos e maldizemos Baruch de Espinosa… Maldito seja de dia e maldito seja de noite; maldito seja quando se deita e maldito seja quando se levanta; maldito seja quando sai, maldito seja quando regressa… Ordenamos que ninguém mantenha com ele comunicação oral ou escrita, quem ninguém lhe preste favor algum, que ninguém permaneça com ele sob o mesmo teto ou a menos de quatro jardas, que ninguém leia algo escrito ou transcrito por ele.(ESPINOSA, Baruch de – Vida e Obra – Editora Nova Cultural Ltda. São Paulo-SP. 2005. p. 5)

  2. Caro Professor
    Como o senhor muito bem definiu, tolerância e intolerância são manifestações do humano, então, dificilmente teremos a supressão desses sentimentos por mais que se dialogue a respeito ou que pelo menos seja minimizado.
    Se somos assim, se trazemos conosco essas deturpações que nos fazem rejeitar a própria espécie quando em confronto sobre o que pensamos, certamente precisamos estudar as razões pelas quais somos impelidos à irracionalidade diante do surgimento de conceitos diferentes sobre nossas convicções, comportamentos e tradições.
    O que nos conduz à intolerância, se lá pelas tantas somos tolerantes ao mesmo tempo?
    Que dispositivo é este que aciona a barbárie, a carnificina, a tortura, quando rejeitamos que outros seres humanos vivam e pensem diferentemente de nós?
    Ainda bem que o empirista Locke existiu há mais de 300 anos atrás, pois independente da sua contribuição sobre o funcionamento da mente e seu trabalho sobre direitos e deveres, a sua intolerância para com os ateus possibilita que também suas teorias sejam intoleráveis sobre o universo e sua composição: mentes, diversos tipos de corpos e Deus.
    Deus estabelecera uma lei divina que poderia ser conhecida através da razão(!?), dizia Locke, e desobedecê-la seria moralmente errado.
    A partir desse pressuposto, o nosso filósofo não se mostrava nada indulgente com os que discordavam desta idéia. Talvez porque à época, a Igreja mantinha um rigoroso controle sobre pensamentos que questionavam a existência de Deus, e muitos filósofos enfrentaram esta intolerância com relação ao que estava por ela determinado. Mas eu prefiro um ateu pacifista, atuante e comprometido com as boas relações entre os seres humanos que crentes em Deus, que se matam, que se odeiam, que se rejeitam, em nome Dele; igualmente mais vale a pena um alienado político que um sectarista que também reprime com violência pensamentos que não se coadunem com os seus. Enfim, somos imperfeitos (ora, se Deus é perfeito por que nos criou assim, tão cheios de defeitos?), portanto, vamos carregar conosco o que temos de ruim e tentar, na medida do possível, que tais manifestações não nos impeçam de aceitar aquele que não pensa da mesma maneira ou que não haja como nós ou que não concorde conosco ou porque prefere o mesmo sexo ou sua conduta difere dos padrões estabelecidos.
    Temas como este, professor, devem ser colocados à exaustão para que sejam discutidos e se consiga estabelecer o entendimento tão necessário à convivência pacífica entre nós. Que discordemos, mas não nos tornemos inimigos; que tenhamos culturas e tradições próprias, mas que não sejam motivos para se aniquilar um povo inteiro; que se acredite em Deus ou não, mas que não seja condição de se exterminar esta pessoa; que viva feliz o homossexual e esta felicidade não seja capaz de provocar o ódio no seu semelhante heterossexual; que o obeso (nova demonstração de intolerância em moda hoje em dia) consiga conviver em paz, mas que não seja repudiado por uma sociedade que está bitolada às formas e à magreza, como se fossem uma espécie de certificado de moral e ética ilibados para os elegantes; que os mais capazes intelectualmente sejam mais pacenciosos com os que não tiveram esse dom ou oportunidade de estudos, mas que esta supremacia cultural não sirva de álibi para atitudes nada condizentes com tamanha inteligência; que o ser humano seja mais tolerável consigo mesmo, que aceite melhor as suas limitações, mas que os seus parcos entendimentos e conhecimentos não sirvam de apanágio à rejeição daqueles que possuem uma visão mais ampla e uma compreensão mais adequada sobre as aflições que todos sentem, independente de suas condições pessoais.
    Enfim, mestre, penso que passarão várias gerações e elas continuarão a debater sobre a intolerância e tolerância porque estarão agindo e se comportando como sempre foi a trajetória humana ao longo de sua existência.
    Na minha modesta opinião, o avanço tecnológico e científico – este desenvolvimento que nos trouxe conforto, rapidez, melhor qualidade de vida, indiscutivelmente – não contribuiu para que progredíssemos como pessoas em disciplinarmos manifestações contrárias à convivência harmoniosa e pacífica, ao contrário. A própria mídia tem colaborado negativamente em acirrar muitas vezes o ódio e a intolerância entre as pessoas, povos e nações, aumerntando consideravelmente a distância que poderia nos levar ao entendimento e à paz.
    Talvez os senhores, professores, possam conquistar corações e mentes através do ensino isento, de uma cultura tipicamente humana, de modelos políticos e comportamentais que nos conduzam para uma existência mais tolerável e suportável com as diferenças que ao longo de nossas vidas enfrentamos.
    Percebe-se que, ao longo da história, a religião é intolerante; que a política e seus regimes também, justamente os dois fatores que mais atuam e exercem influência no ser humano, indiscutivelmente. Portanto, que as salas de aula sirvam como locais adequados ao debate sobre este assunto tão importante, e que deve ser permanentemente trazido à tona de modo a se reformar o conceito da reação para discussão, algo bem mais correto e civilizado de se agir frente aos diferentes modos de se pensar e responder às diferenças entre nós.
    Que este tema seja sempre posto a comentários, professor.

  3. É fácil resolver esse problema, só lembrarmos de amarmos nosso próximo como a nós mesmos.
    Jesus Cristo mesmo disse, não julguies para não ser julgado.

    Quem é intolerante é necessariamente egoísta, só vê seu próprio lado. Não é capaz de ter empatia.

    O problema é como resolver isso hoje em dia, quando quase todos acham que detem a razão.

    Professor uma sugestão, colocar no blog além do link para twitter e facebook, os links para blogger, my space, orkut, etc., assim fica mais fácil divulgar os artigos.

    Abraços

  4. KAMARAD OZAI,
    As teses do velho Locke sobre tolerância/intolerância nos colocam novamente em contato com um dos conflitos mais broxantes da nossa vida, a conclusão de que TUDO É RELATIVO. Para nós que sempre abominamos essa idéia vaselina, morna e conciliadora, esse freio na busca de algo absoluto, de uma verdade, uma crença, um ato, uma célula, um número, um sistema, um crime, um sentimento etc., foi um golpe fatal. Descobrir e ter que aceitar que entre o 8 e o 80 existia outros setenta e dois números e que entre o Branco e o Preto existiam milhares de outras cores foi um golpe terrível que implodiu o lugar confortável e narcisista do “certo” e do “errado”, do conveniente e do inconveniente etc. Além disso, se tudo é relativo, se o Yin está contido no Yang e vice versa – sinto – a própria linguagem é uma mera cortesã, tudo leva em si a ambiguidade e estamos condenados a mais abjeta das mediocridades onde não há a mínima chance de saltarmos para fora da areia movediça e da lenga-lenga doentia em que estamos metidos…
    Mas esta é apenas uma reflexão instantânea para esquentar os neurônios nesta manhã nublada de Brasília feita a uns poucos quilômetros do Congresso Nacional, lugar onde milhares de picaretas (de todas as laias) se beneficiam há decadas ( sabendo ou não) dessa odiosa relatividade das coisas”.

  5. Pois é, Ozai, com que entao também Locke tropeça nos limites impostos por sua época – nobody is perfect!… Mas obrigada pela esclarecedora leitura que você faz desse importante filosofo, que pessoalmente nunca li e que faz parte daquelas lacunas imperdoaveis que vou levando pela vida afora, sabendo perfeitamente que nunca serao preenchidas a nao ser por leitores com caminhos de pesquisa diferentes dos meus. Funçao que sem duvida o blog vem desempenhando lindamente.
    Quanto ao seu comentario ” A história do povo judeu é ilustrativa do quanto a intolerância religiosa, aliada a fatores econômicos, sociais e políticos, é prejudicial”, eu diria que esta também merece uma exigência moral grande o bastante para atualiza-la em tolerância para com seus vizinhos, reduzidos a “favelados” portadores de violência e merecedores de puniçoes exemplares. Toda reduçao de qualquer ser humano a uma imagem que o diminui é uma cruel forma de intolerância.

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