Educação e Movimentos Sociais

Realizou-se nesta semana, na Universidade Estadual de Maringá, o II Ciclo de Debates sobre Educação e Movimentos Sociais.[1] Na terça-feira, 29 de março, Ana Inês Souza, do Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo (CEFURIA), proferiu a palestra A atualidade da obra de Paulo Freire e sua importância para a Educação Popular. Em 02 de abril, Nei Orzkoski, da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), conferenciou sobre A Universidade dos Trabalhadores: a Escola Nacional Florestan Fernandes.

A iniciativa dos organizadores é elogiável. Nos tempos atuais, são raros os momentos em que a universidade se abre para o intercâmbio com os movimentos sociais e dialoga com uma perspectiva pedagógica que a desafia. A convivência é salutar para todos. Eventos como este contribuem para a explicitação das diferentes posições políticas e ideológicas presentes no campus. Rompe com a falsa idéia de que a Universidade e a Ciência são neutras e imparciais.

A conferência da companheira Ana Inês Souza me fez pensar sobre as contradições inerentes ao espaço da educação formal e os dilemas expostos pela Educação Libertadora de Paulo Freire. Como incentivar a autonomia do educando num espaço que favorece a relação de dependência, muitas vezes incentivada pelos docentes? Como investir na autonomia do educando se ele chega ao ensino superior com medo da liberdade ou a confunde com licenciosidade? A pedagogia freireana é exeqüível num espaço em que as relações entre educador e educando são pautadas por mecanismos institucionais e burocráticos de poder? Enfim, é possível trabalhar no locus do campus na perspectiva freireana?

Observe-se que o evento envolve, principalmente, o curso de Pedagogia, majoritariamente composto por mulheres. Este intercâmbio estimula a reflexão das acadêmicas e contribui para a melhor compreensão dos movimentos sociais, em especial o MST. Por outro lado, colabora para a superação dos preconceitos fomentados pela grande mídia e também compartilhados por parte da docência – a qual tende a reproduzi-los em sala de aula sob o manto do saber pretensamente científico. O evento em si põe a nu as contradições da educação formal. Por exemplo, ao ficar nítida a resistência à educação popular, ao MST e outros movimentos sociais.

Com o auditório lotado, senti um misto de alegria e dúvida. Alegria pela significativa presença e interesse do público. Fiquei a me perguntar, porém, se todas estariam presentes se não fosse o “estímulo” dos docentes.[2] Ouvi manifestações de preferência pela aula (no sábado, a presença das acadêmicas foi bem menor, talvez porque não houve o “estímulo” de serem dispensadas das aulas). Considerando-se a temática e a inspiração filosófica do educador em pauta, não deixa de ser contraditório. Bem, talvez seja uma contradição necessária para o educar na perspectiva da Liberdade e Autonomia, e isto envolve tanto os educandos quanto os educadores.

A conferência do companheiro Nei Orzkoski também foi instigante e esclarecedora. Antes, foi apresentado o vídeo sobre a ENFF.[3] Ficou claro que a filosofia que permeia a formação política da ENFF é marxista. Está vinculada a um projeto político e social e é uma opção legítima. Não obstante, por que não estudar os clássicos do pensamento liberal e conservador diretamente na fonte? Não foi este é o método de Marx e Engels em sua crítica da Economia Política? A resposta confirmou a dúvida. Compreendo! Somos seres sociais contraditórios e, portanto, os movimentos sociais não prescindem das contradições do ser no mundo. Não obstante, parabéns a todos pela realização do evento. Que o exemplo se multiplique no espaço contraditório do campus.

 


[1] O evento foi promovido por: Escola Milton Santos de Educação do Campo – MST, Núcleo de Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável – NADS/UEM, Projeto de ensino: “Políticas e Gestão no Brasil: Educação no e do Campo” – Departamento de Teoria e Prática da Educação/UEM, Grupo de Estudos e Pesquisa em Políticas Públicas e Gestão Educacional – GEPPGE/UEM, Espaço Marx e Terra, Trabalho e Cidadania.

[2] O “estímulo” dos professores/as é uma prática geral e comum nas universidades – também vivi esta experiência na graduação. Consiste em dispensar os/as alunos/as para participarem dos eventos, com a condição de que assinem a lista de presença que circula em momentos estratégicos. Em certos casos, a docência solicita relatórios sobre os temas tratados. Mas será que os/as alunos participariam se não fossem adotadas estratégias como estas? São os dilemas da educação formal, institucional e burocrática.

[3] O vídeo “ENFF: um sonho em construção” está disponível em http://www.mst.org.br/node/9047

4 comentários sobre “Educação e Movimentos Sociais

  1. Ozaí, camarada, como está?
    Espero que você continue em paz, quando seja possível estar em paz, e aproveito a conversa sobre a Escola Nacional Florestan Frenandes, a Educação e os Movimentos Sociais para dividir um negócio bem pessoal aqui com você e os demais.
    Eu tinha uma discussão sobre democracia direta, de fato está se formando um movimento em torno disso (Movimento Democracia Pura, MDP), do qual não vou participar. Os caras se articulam em torno da obra de um filósofo atual chamado J. Vasconcelos, ou PROF. J. Vasconcelos, como ele faz questão cerrada de se autodenominar, são gente boa e honesta, mas distante para sempre dos movimentos sociais.
    Mas então, meu velho, eu aqui tomei a decisão de iniciar uma licenciatura a partir do segundo semestre deste ano, para me empregar na rede pública de ensino como professor, de preferência para as séries iniciais, e estou encarando isto como minha única militância política. Nós precisamos introduzir a ideologia da educação popular mais autêntica na escola pública, é possível fazê-lo. Sabemos perfeitamente bem que, em se tratando de política, ingenuidade de qualquer espécie é a pior merda que existe, então não vamos nutrir ilusões. Mas você já pensou se surgisse, no horizonte da luta política, um movimento em prol da estatização da educação e da saúde? Assim, de cara, pode parecer um negócio meio vago, mas haveria muito o que considerar a respeito.
    Mas deixe-me dizer que você e minha mulher Isabel são alguns dos resposáveis por essa minha decisão em primeiro lugar política e em segundo lugar profissional.

    Que viva Anísio Teixeira!

    Eduardo.

  2. Caro Ozaí!

    Como discente sinto que este “estímulo”, esta permuta de presença em aula por participação em evento, na maioria das vezes, camufla intenções de descompromisso com o ensino e a formação universitária. E, mais ainda, corre o risco de reforçar costumes nada saudáveis num ambiente em que liberdade e licenciosidade, com bem frisou, tomam outros significados, bastante confusos.
    Claro que carecemos de debates e eventos participativos que provoquem a reflexão e enriqueçam os estudos, mas, esvaziados como a maioria ou “lotados” por “estímulos”, como poucos, melhor seria repensarmos esta prática. Será que não estamos somente repetindo os modelos herdados de um outro momento do fazer “político-universitário”?
    Um evento realizado na quinta-feira (24 de março), também numa promoção da Escola Milton Santos de Educação do Campo/MST, com a palestra/debate: Indicadores de Sustentabilidade Econômica para a Produção Camponesa Agroecológica, ministrada pelo engenheiro agrônomo Alvori Cristo dos Santos, técnico do Departamento de Estudos Sócios-Econômicos Rurais, no auditório do Bloco I-12, na UEM, estava esvaziado. Não mais que 20 participantes. Participei, pois neste dia não houve aula na nossa sala. Um evento muito enriquecedor sobre as experiências de agroextrativismo e da exploração sustentada de agroflorestas.
    Mais uma vez um artigo seu que suscita reflexões importantes para nossa formação universitária e mesmo para todos os atores envolvidos no ambiente da instituição, realmente tão cheio de contradições.

    Grato, Luiz.

    • Luiz, concordo que é necessário repensar. Quem sabe abrir os debates à sociedade? Por que restringi-los somente aos alunos? Acho que é preciso antes de tudo mostrar a importância dos temas na sociedade para que os estudantes tenham a real noção da oportunidade que estão tendo.

      Abraço,

      Pedro Valadares

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