Com a Juventude do Colégio SESI, em Paranavaí (PR)

Nesta semana, estive em Paranavaí, cidade localizada cerca de 76 Km de Maringá, no noroeste do Paraná. Fui a convite do jovem Prof. Daniel Marques para conversar com os estudantes do Colégio SESI – Ensino Médio sobre o tema Cultura e Sociedade na década de 1960/70: a herança da juventude de 1968. Também participou do evento o Prof. Dr. Renan Bandeirante de Araújo (UEPR).

Os alunos do Prof. Daniel leram a obra 1968: o ano que não terminou, de Zuenir Ventura.[1] O objetivo da atividade era resgatar o contexto histórico e refletir sobre os temas e questões atuais. Parabéns ao professor e às turmas pela iniciativa. Numa época em que os jovens passam horas no MSN, Orkut, Facebook e etc., mas não têm paciência de ler algumas páginas, quanto mais um livro, é salutar que os estudantes, moças e rapazes oriundos da classe trabalhadora, ocupem parte do seu precioso tempo para ler sobre a geração dos idos de 1960.

Foram estimulados pelo professor! O método pedagógico adotado pelo SESI também contribui nesta direção. O conteúdo é trabalhado a partir de temas, estudados e aprofundados por todas as turmas. A organização do estudo é diferente do que costumamos ver no sistema de ensino, inclusive no nível superior. O que vi no Colégio SESI de Paranavaí não foi carteiras e cadeiras alinhadas em fila, mas mesas em torno das quais se reúnem grupos de alunos. Assim, estimula-se o trabalho coletivo. Claro, o regime disciplinar está presente como em qualquer instituição de ensino formal. De qualquer forma, a atitude respeitosa e a participação dos alunos, especialmente no momento em foi aberto para perguntas, são dignas de registro. É certo que a presença dos professores de todas as turmas, e da diretora, também contribuiu.

Esta experiência deixou lições importantes. A convivência com os jovens, ainda que num espaço disciplinar, revigora as energias e, principalmente, permite conhecê-los melhor. Por outro lado, é desafiador. Por exemplo, como responder adequadamente à pergunta de um jovem sobre o fracasso do socialismo na ex-URSS ou o significado do Comunismo? O que dizer sobre as inquietações de uma jovem professora sobre os valores que permeiam as atitudes da juventude na atualidade e os dilemas dos que, neste contexto, deveriam expressar a autoridade legítima? O que falar sobre a presença/ausência da autoridade dos pais e professores? Se não devemos confundir autoridade com autoritarismo, será que não exageramos na crítica à autoridade e, assim, contribuímos para a formação de uma geração que não aprendeu a ser livre e confunde liberdade com licenciosidade?

Não sei se consegui contribuir à altura das expectativas do Prof. Daniel Marques, dos jovens estudantes, professores e demais presentes na ocasião. Não obstante, tenho certeza de que foi muito importante para a minha formação intelectual, humana e enquanto docente. A experiência em si acrescenta elementos valiosos, mas também contribuiu o processo anterior, isto é, a fase de preparação. Graças ao convite, finalmente li a obra de Zuenir Ventura (um dos livros que estavam na “fila” para leitura), assisti a filmes e documentários sobre o tema (destaco o filme As Meninas[2] e o documentário A Opinião Pública[3]); e, numa tentativa de compreensão sociológica da juventude, li Juventude: ensaios sobre sociologia e história das juventudes modernas, de Luís Antonio Groppo.[4] Um livro esclarecedor e instigante que permite pensar sobre a juventude sem mitificá-la. Em resumo, valeu a pena.

Meu sincero muito obrigado ao Prof. Daniel e aos jovens estudantes do Colégio SESI Paranavaí, bem como aos demais que participaram e tornaram possível a realização do evento.


[1] VENTURA, Zuenir. 1968: o ano que não terminou – A aventura de uma geração. São Paulo: Nova Fronteira, 1989.

[4] GROPPO, Luís Antonio. Juventude: ensaios sobre sociologia e história das juventudes modernas. Rio de Janeiro: Difel, 2000.

6 comentários sobre “Com a Juventude do Colégio SESI, em Paranavaí (PR)

  1. Não bastasse o tema, me chamou a atenção o fato de o trabalho ter sido desenvolvido num SESI, onde me formei no ensino fundamental. Muito me surpreende – positivamente, é de deixar claro – a evolução no trato com a educação por parte dessa instituição, haja vista a metodologia empregada em Paranavaí, detalhada no relato.

    Quanto à contribuição, conhecendo-o como professor (e um pouco como amigo), penso que tudo se aliou, vale dizer, o pensamento pedagógico do lugar, bem como o tema e os participantes, para que o resultado fosse positivo.

    Essa geração, na minha visão, certamente corrompida ainda mais do que a minha, teve uma oportunidade ímpar de manusear um método mais eficaz de obtenção de conhecimento. Esse método, ainda sob meu prisma, vem sendo, infelizmente, deixado pra trás pela lógica social de que somos víítima.

    Quanto ao tema, elucidações como essa são fundamentais para que as gerações encarem o que a época foi e extirpem de vez do inconsciente coletivo ideais como os que outrora eram disseminados. O Direito brasileiro – e aqui puxo um pouco para o meu lado, rs – teve, em 1988, o propósito de contribuir para isso. Se bem ou mal, cada um vê o que convém. Certo mesmo é que os adolescentes devem se sujeitar a debates como esse. O engrandecimento e a crítica são necessários!

    Grande abraço!

  2. Quando estou na aula,seja na quinta-feira – aula do Ozaí…iurrruuuu!!! – seja em outra disciplina,sempre fiquei um pouco chateado com a visão que sempre fomentei da Universidade.Achava – antes de fazer parte – que a Academia serviria aos interesses do conjunto total de indivíduos da sociedade.

    Mas,sinceramente,ainda não encontrei.Esxceto com a Ana Lúcia e a Carla,que sempre estão envolvidas na luta institucional,na construção de ideias para a cidade,entrando à fundo no jogo.

    O espaço acadêmico está arraigado de preconceitos,injustiças – estas,principalmente;veja bem que tem uma pessoa da minha turma que utilizou o benefício das cotas socias do vestibular,sem nunca ter precisado do benefício.

    Todavia,essa sua descrição da participação diretamente numa escola de ensino regular,para pessoas em idade de desabrochar da formação e solidificação de suas visões de mundo,é muito confortante pra mim.

    Ao meu ver,a construção do mundo ideal deve partir do meio dos mais carentes,seja carentes de comida,seja carentes de espírito crítico,seja carentes de uma concepção de mundo oposta à estabelecida e reproduzida.

    Ficar na posição de Pensador de Rodin nem sempre fomenta materializações.Mão na massa,cara pro mundo.POWER TO THE PEOPLE!!!

    Obs:por favor,adiciona meu email e manda os conteúdos do DropBox – rico_vascodagama@hotmail.com

  3. Caro Ozaí,

    Diante do cenário hodierno descrito pelo comentário de Francisco Bendll quanto ao exercício do educador e o ambiente em que se pratica, tirar lições das experiências e delas fazer reflexões que possam ser divididas (somadas) torna-se uma compensação valorosa na “balança” dos resultados. Desejo que tantos outros percebam que isso pode tornar a ação educadora propensa a uma inovação, que faça juz ao seu signficado. Grato por mais esse exercício e essa reflexão e concordo com o comentário da Regina, “só a partir de conversas…”, trocas, diálogos sobre a prática e o uso mais adequado das ferramentas experimentadas é que a “carpintaria dos métodos” pode ser melhor vivenciada e por consequência surtir resultados satisfatórios.
    Luiz

  4. Ozaí, que encontro excepcional! É tão raro termos oportunidade de discutir os assuntos levantados por professores e alunos do SESI de Paranavaí. Gostei muito de ler o relato desse encontro. Talvez um dia seja possível acertar com estudantes do SESI, futuros operários, uma oficina de leituras com as obras de ficção que falam da condição operária brasileira. Cito alguns: “Crônicas da vida operária”, de Roniwalter Jatobá; “Obscuros heróis de Capricórnio”, de Orlando Miranda; e “Guatá”, de Flávio José Cardozo.
    Um abraço,
    Eduardo

  5. Sou de uma geração pós-guerra (1950), portanto, quatro já se passaram depois de mim. Claro que tudo é diferente daquela época, científica e tecnologicamente falando. Não há comparação neste sentido em termos de avanços nos meios de comunicação, transporte, eletrônica, medicina etc.
    Nós não sabíamos o que era computador, poluição, efeito estufa, Internet, celular(!), TV em cores, transmissão ao vivo, corrupção, drogas.
    Sequer imaginávamos que o homem chegaria à lua um dia, muito menos a criação do fantástico telescópico Hubble, que nos mostra os confins do universo!
    Transplantes de órgãos somente em filmes de terror, e sem efeitos especiais!
    As bolas de futebol eram de couro, e na cor do couro! Com gomos salientes e o bico para enchê-la, e era raro que um guri a tivesse em casa para jogar uma pelada.
    A piazada fazia seus carrinhos de lata de azeite, ou de lomba com rolimãs. As meninas brincavam de boneca e de casinha.
    A missa das dez horas da manhã aos domingos (para quem era católico, mas a maioria era desta religião), transformava-se num ato solene, onde vestíamos as melhores roupas e sapatos.
    Durante o entardecer, as pessoas colocavam cadeiras às beiras das calçadas e tomavam chimarrão, e conversavam até às 20/20;30 da noite, quando se recolhiam para deitar.
    Os filhos eram tratados pelos pais com autoridade. “Escreveu não leu, o pau comeu”, era o lema em vigência à época.
    O respeito era imposto, e não se discutia. Fumar na presença dos pais era um verdadeiro sacrilégio e, beber, então, nem pensar!
    Nos colégios os professores eram autoritários, sérios, e nos castigavam sem dó nem piedade: ora era ficar em pé no estrado e de frente para o quadro-negro ora era se ajoelhar no mesmo local, quando a falta era mais grave.
    Ser expulso da aula era comum; suspenso por dias ou semana corriqueiro.
    O namoro era a ante sala do casamento. Todo cuidado era pouco, pois não havia a pílula ou outros meios de prevenção. Mesmo assim, havia casos de rapazes que tinham feito “mal” às moças. Mas eram raros.
    A diversão era ir às festinhas aos fins de semana na casa de um ou outro amigo, e, as músicas que as embalavam eram orquestradas. Entretanto, despontava um ritmo intenso, que nos sacudia, que fazia com que fôssemos chamados de “transviados”, era o rock. Em princípio em forma de balada, depois mais frenético. Os filmes do Elvis Presley eram disputadíssimos em Taguatinga, DF, onde eu residia na década de sessenta e, simultaneamente, surgia um conjunto arrebatador: The Beatles!
    Os anos seguintes trouxeram mudanças mais velozes, e saia-se de um modismo para outro (hippies), e ventilava-se à boca pequena o uso de LSD, mas em outros países.
    Aquela juventude do passado ia se perdendo com o tempo. Não deixava saudade porque o ritmo que a vida passou a nos impingir impedia que pudéssemos parar e pensar nos avanços e transformações que havíamos sofrido. O slogan, da época, diante das guerras que o mundo presenciava (Vietnã e a Guerra dos Seis Dias, 1967, que teve a sua continuidade em 1973, Yon Kipur, o Dia do Perdão, entre árabes e judeus) era “Paz e Amor”.
    Os jovens eram mais rebeldes, resolutos, senhores de si; as meninas encurtaram as saias; namoravam tanto em frente aos seus pais quando na ausência deles.
    A maioria de nós já havia casado, com filhos. A luta era para manter a família, conseguir emprego.
    Estou me estendendo, perdão, mas eu não consigo estabelecer ou encontrar onde aconteceu a nossa perda de controle; onde deixamos escapar o respeito, a educação; de que modo o “ter” veio ser mais importante que o “ser”; por que as drogas substituíram o carinho, a devoção, o amor.
    De onde surgiu a corrupção desmedida e a política fisiológica; por que os pais não são mais atenciosos com os filhos e estes mais respeitosos com seus pais; por que as meninas “ficam” com tanto rapazes e por que os meninos as seduzem sem maiores cuidados deixando-as grávidas desde a tenra idade e por que elas não se preservam?
    Por que o computador é mais importante que o grupo de amigos e o celular imprescindível para “bater papo”?
    Por que a escalada da violência sem precedentes e a omissão das autoridades em coibirem o contrabando de armas e a venda de drogas?
    Por que permitimos que os jovens fiquem expostos à toda sorte de problemas pessoais, familiares e sociais com sérias consequências em seus desenvolvimentos da personalidade e caráter?
    Por que “exageramos na crítica à autoridade e, assim, contribuímos para a formação de uma geração que não aprendeu a ser livre e confunde liberdade com licensiosidade”?
    Onde o elo foi rompido, e seus impactos se reproduzem nos assassinatos de crianças em escolas – que aconteciam nos Estados Unidos e Europa -, mas que desgraçadamente fazemos parte dessas chacinas inexplicáveis, como o deplorável e triste episódio no colégio do bairro Realengo, no Rio?
    Professor Ozaí, acredito que não vamos conseguir conclusão alguma se analisarmos o ser humano de forma setorial ou em áreas estanques.
    Tentar compreender o jovem na sua rebeldia e independência de hoje sem verificar a sua família e o modo que eles (pais e filhos) vivem será improdutivo; analisar a família e seu ambiente sem que ela esteja no contexto político e social brasileiro – mesmo que excluída – também não se chegará a denominador comum; culpar somente a classe política pela sua incompetência e ineficácia sem agregar a essas incapacidades a omissão do povo será infrutífero; a corrupção está instituída em todos os níveis da vida nacional;
    saúde, educação, segurança, moradia popular, são utopias para a população em geral ou mero devaneios.
    A confusão é grande.
    Soluções a curto prazo inexistem.
    Repetir pela enésima vez que a educação é a saída e ser desmentido pelos salários aviltantes dos professores, escolas sem material para pesquisa, giz, carteiras, banheiros sem condições e, agora, também insegurança, eu estaria sendo ingênuo.
    Mas que alguma coisa precisa ser feita, isto é indiscutível!
    O quê, de imediato?
    Bom, pelo menos o senhor, professor, ouve os jovens e lhes dá atenção; conversa com eles e troca idéias; faz com que se sintam importantes e constatem que o conhecimento, o estudo, é a verdadeira liberdade.
    Mas e quando eles saem da sala de aula e percebem que o país clama por CONSCIÊNCIA, cidadania, e os exemplos são os piores possíveis, tanto de nossas autoridades quanto de muitos pais irresponsáveis que apenas os colocaram no mundo, como agir?
    Eu tenho duas netas, ambas de quatro anos. Eu não sei o que dizer para meus filhos as protegerem, cuidá-las, e se – a essas alturas – teremos futuro.
    A realidade é dura, pois em outras circunstâncias eu estaria sendo chamado de pessimista.
    Certamente a escola onde o senhor deu a sua palestra era bem constituída, organizada, com os meios importantes à disposição dos alunos. Um colégio modelo padrão que todos nós queremos.
    E a escola pública? Exemplo de descaso e abandono governamental?
    Os alunos que a frequentam mais pela merenda escolar porque não têm o que comer o suficiente em casa do que efetivamente aprender, fazemos com eles o quê?
    Em todo o caso, professor, o senhor representa uma categoria que me dá esperança ainda. Com sua dedicação, ideal, exemplo de cidadania, força de vontade, disposição, e o desejo de transmitir conhecimentos e ensinar um jovem a ser um cidadão.
    Ainda bem que temos professores, apesar dos esforços que os governos fazem para desestimulá-los, e de alguns pais que não ensinam os seus filhos corretamente e permitem que os mestres sejam agredidos em salas de aula, em flagrante desrespeito e má educação.
    O trabalho é árduo, e que Deus ajude os senhores professores e abra os corações desses jovens para o ensino, que os proteja em suas rotinas diárias.

  6. Ozai, é sempre bom tomar conhecimento das suas reflexoes sobre experiencias e trocas vividas no seu trabalho.
    Desta vez fiquei pensando sobre a ressalva – “Claro, o regime disciplinar está presente como em qualquer instituição de ensino formal” – e me perguntando qual seria a alternativa a uma disciplina qualquer que seja ela, e o que seria um ensino “informal”.
    Acho, sim, que se tem que refletir e procurar sair da rigidez que se instala tanto na instituiçao quanto na pratica pessoal, mas a contribuiçao de métodos e manuais comprovados nao podem ser ignorados, como a necessidade de um “ritual” qualquer, que em termos de ensino pode ser traduzido como “disciplina”, “cortesia” ou outras exigências da sociabilidade.
    Na minha pratica de ensino de linguas, enquanto acreditei na “missao impossivel” de métodos que exigiam que a cada aula a gente se improvisasse pedagoga e autora de métodos de ensino, so perdi alunos e ilusoes.
    So a partir de conversas com colegas é que constatei que na pratica de cada um, a necessidade de se apoiar em métodos experimentatos e aprovados era uma evidencia e que nao podiamos dispensa-los.

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