Ainda sobre a intolerância

O tema é complexo. A negação da intolerância exige uma atitude tolerante, mas também de intransigência. Quem decide, porém, quando o indivíduo, denominações religiosas, grupos, etc., são intolerantes, e, portanto, não podem ser tolerados? Numa sociedade onde os interesses são antagônicos, quem interpreta quais são os “bons costumes” e o que é prejudicial?

Afinal, quais as restrições à tolerância? Mesmo o mais ferrenho defensor da liberdade de expressão pode se ver diante de circunstâncias que a questione. É possível tolerar a liberdade de expressão em todas as situações? Numa sociedade democrática, é possível tolerar os antidemocráticos? Podemos, em nome da tolerância, admitir a literatura de cunho racista e preconceituoso? Como tolerar, em nome do respeito ao multiculturalismo, culturas que contradizem os direitos humanos?

No século XVIII, Voltaire, em seu Dicionário Filosófico, se perguntava: “O que é a intolerância?” E, respondia: “É o apanágio da humanidade. Estamos todos empedernidos de debilidades e erros; perdoamo-nos reciprocamente nossas tolices, é a primeira lei da natureza”. Há muito que a humanidade padece deste mal. O preconceito religioso, étnico, político, cultural, ou seja, a incapacidade humana em se reconhecer no “outro” e respeitá-lo é, sem dúvidas, um fator essencial gerador da intolerância. É preciso considerar, ainda, as formações societárias específicas e os diferentes contextos históricos.

O preconceito e a intolerância são estimulados por motivos essencialmente econômicos. A sociedade escravagista necessitava desenvolver uma teoria justificadora da pretensa superioridade racial dos brancos para impor o trabalho escravo. No entanto, o fator econômico não esgota a questão. Até mesmo fatores de ordem psíquica devem ser levados em conta. Neste processo, a educação pode cumprir um papel fundamental, seja no sentido de contribuir para a introjeção do preconceito e, assim, fortalecer atitudes intolerantes; seja para construir uma sociedade tolerante e que predomine o respeito mútuo.

As sociedades passaram por transformações substanciais, mas não extinguiram o preconceito nem a intolerância. O projeto iluminista fundado na crença da razão enquanto fator de progresso humano fracassou. O século XX gerou barbáries como o holocausto e as guerras “em nome de Deus” permanecem atuais. No mundo globalizado pós-11 de setembro, o preconceito e a intolerância se fundam em novas formas e procuram se legitimar por um discurso estimulado pelo Império, cujas conseqüências imediatas é a criminalização de qualquer crítica à sua hegemonia, a qualificação indiscriminada de “terrorista” e as restrições às liberdades individuais e à própria democracia. Em nome da segurança.

As potências atuais resgatam o grande Leviatã e, na “guerra de todos contra todos”, todos somos suspeitos potenciais. Neste contexto, os movimentos de migrações, os inúmeros campos de refugiados espalhados pelo mundo, potencializam uma realidade explosiva: a crise econômica capitalista, a concorrência pelo emprego, o aumento da desigualdade social, a convivência entre diferentes culturas, etc. Estes elementos geram um campo minado no qual as atitudes os preconceitos e intolerância ganham audiência e teorias legitimadoras.

No Brasil, não é diferente. Impactado pelas transformações em âmbito mundial, carregamos ainda a triste realidade de uma dívida social, herança da nossa formação histórica e das políticas econômicas adotadas pelos diferentes governos. À desigualdade social que grassa em nossa sociedade, soma-se a discriminação racial e o preconceito de classe. Convivemos com as injustiças sociais e raciais, as quais são até transformadas em obras cinematográficas de sucesso (paradoxalmente, a miséria é objeto de consumo e fonte de renda).

Em tais condições, o preconceito e a intolerância tendem a perdurar. Isto se faz presente em todos os espaços: no trabalho, nas escolas, nas universidades, nos meios de comunicação, etc. Contribuir para transformar esta realidade é também um compromisso dos intelectuais com responsabilidade social com os que são econômica e culturalmente desfavorecidos.

À intolerância religiosa soma-se a intolerância política, cultural, étnica e sexual. A inquisição está presente no cotidiano dos indivíduos: no âmbito do espaço doméstico, nos locais do trabalho, nos espaços públicos e privados. Ela assume formas sutis de violência simbólica e manifestações extremadas de ódio, envolvendo todas as esferas das relações humanas. A intolerância é, portanto, uma das formas de opressão de indivíduos em geral fragilizados por sua condição econômica, cultural, étnica, sexual e até mesmo por fatores etários.

A construção de uma sociedade fundada em valores que fortaleçam a tolerância mútua exige o estudo das formas de intolerância e das suas manifestações concretas, aliado à denúncia e combate a todos os tipos de intolerância. Por outro lado, a tolerância pressupõe a intransigência diante das formas de intolerância e fundamenta-se numa concepção que não restringe o problema da tolerância/intolerância ao âmbito do indivíduo; esta é também uma questão social, econômica, política e de classe.

7 comentários sobre “Ainda sobre a intolerância

  1. Fico a pensar sobre as questões que envolvem o preconceito, a intolerância…e, percebo o quanto intolerantes a maioria das classes intelectuais que acabam por crucificar os intolerantes e preconceituosos. Se eu condeno o intolerante, estou sendo aquilo que estou condenando.
    Prefiro escutar “Odeio preto” do que apontar para um negro como um “mereninho”.
    Mais asqueroso que o preconceito e a intolerância, somente a hipocrisia!!!

  2. OU ENTENDEMOS QUE NAS SUTILEZAS DA CONVIVÊNCIA HÁ MUITO ESPAÇO PARA CONFRONTOS, E ISTO É PARTE DAS RELAÇÕES SOCIAIS, OU VAMOS FICAR SEMPRE FALANDO AS MESMAS COISAS.
    O QUE IMPORTA NOS CONFRONTOS É A SUA FUNDAMENTAÇÃO E INSTITUIÇÕES QUE EM ÚLTIMA INSTÂNCIA POSSAM DEFINIR ALGO PARA EVITAR DÚVIDAS DE LIMITES.
    CERTAMENTE TUDO E TODOS SEMPRE É ALGO PARA UMA CRISE MUITO PIOR QUE APRENDER A CONVIVER COM ALGUM GRAU DE FRUSTRAÇÃO, NO LIMITE DAS RADICALIDADES.
    SHALOM

  3. Um assunto, professor, verdadeiramente inesgotável.
    Eu não tenho condições de resgatar os grandes filósofos que deixaram suas definições sobre este tema ou sociológos ou qualquer outro pensador, pois eu não cursei faculdade alguma, que eu lamento profundamente.
    Eu tenho a minha idade, 61, além dos conhecimentos empíricos sobre a vida que eu adiciono às minha experiências pessoais que, logicamente, não servem para outras pessoas , razão pela qual o que eu aprendi com os outros e depois comigo mesmo são para consumo próprio, isto é, de acordo com as circunstâncias (um filósofo já abordou assim, o homem e as suas circunstâncias, se não me engano) que moldaram a minha existência e tenham sido elas ocasionadas por mim ou porque me obrigaram lá pelas tantas a trilhar um caminho sem maiores opções.
    Portanto, comentar este assunto tão vasto e difícil exigiria, em princípio, vasta erudição, um estudioso do tema, alguém que fosse íntimo, por assim dizer, sobre os motivos que nos levam à intolerância, à violência em decorrência, quando não a guerras fratricidas.
    Mas eu gostaria de oferecer a minha simples e grotesca colaboração, naturalmente cedendo aos intelectuais, as mentes brilhantes que comentam neste espaço, que avancem nas citações e exemplos que somente os seus conhecimentos podem produzir, de modo que eu fique admirando este refinamento intelectual e cultural que os nossos mestres elaboram com tanto esmero e dedicação!
    Pois, professor, eu digo que a intolerância que temos dentro de nossas casas é o fator preponderante que nos impele a estendê-la para fora de nossos domínios, a partir do momento que perdemos o controle do que estamos fazendo com relação à impaciência, primeiramente, para dar lugar à intolerância posteriormente.
    Certamente a primeira manifestação de intolerância absoluta e injustificável e caracterizando-se como CRIME, é quando nos insurgimos contra a mulher que engravida de nós e a sujeitamos ou a obrigamos a abortar!
    Intolerância contra uma vida que fomos nós que a geramos em um ato de “amor”!
    Somos absolutamente intolerantes com aquela situação que nos obrigará, claro, a alterar completamente o rumo de nossas vidas; por ter sido “algo” não planejado, não esperado, aquela cria não poderá ser aceita, pois é “indesejada”.
    Somos intolerantes quando uma filha engravida; normalmente ela é posta para fora de casa pelo seu comportamento inadmissível e irreponsável. O que ela esperava? Que seus pais fossem compreensíveis e amorosos justamente numa ocasião como aquela?
    Somos intolerantes quando nossos filhos nos desobedecem; a nossa reação costumeira é sová-los, agredi-los, machucá-los. Eles não podem esquecer que os pais existem para difundir amor e perdão.
    Somos intolerantes com as nossas esposas quando não nos satisfazem em seus afazeres; nós as ofendemos, magoamos, e fazemos questão de diminuir-lhes a importância na família.
    Afinal de contas é somente a mãe dos nossos filhos ou aquela para quem fizemos juras de amor em passado recente.
    Somos intolerantes com os nossos pais idosos, arqueados pelo tempo. Não descansamos enquanto não os “depositarmos” em qualquer asilo. Torna-se intolerável conviver com aqueles velhos que sujam, incomodam, precisam de atenção, de alguém que lhes dêem remédios, os coloquem na cama. Uma tarefa extremamente árdua para os filhos que necessitam de “ar puro” e tocar as suas vidas sem maiores preocupações.
    Somos intolerantes com a casa mal arrumada porque a mulher não conseguiu dar conta de seus serviços, e nós as ofendemos em frente dos filhos, quando não em presença de estranhos para mostrar quem efetivamente é o chefe da família.
    Somos intolerantes com as críticas que nossos familiares nos dirigem; rompemos com eles imediatamente pela afronta que nos fizeram, mesmo que o intuito da advertência seja para alertar sobre condutas impróprias ou impertinentes de nossa parte.
    Somos intolerantes com os nossos irmãos. Não é raro desconhecermos o paradeiro e a situação daquela pessoa que tem o mesmo sangue, que nasceu dos mesmos pais, mas ela não “presta”, então, que se vire, que pague pelos seus erros e não incomode.
    Somos intolerantes com os vizinhos, com suas festas, seus amigos, com o modo como eles vivem.
    Somos intolerantes com nossos empregados domésticos, os nossos “criados”. Nós os humilhamos, desprezamos, não toleramos que nos peçam “vales” (adiantamento salarial) ou digam que precisam se ausentar porque têm filho ou algum parente doente. Ora isto é insuportável e um abuso!
    Somos intolerantes com as nossas noras que levaram os nossos rebentos; elas vão se constituir em “inimigas” das mães e opositoras dos pais dos “moços”, obrigando-os a romper com a família em favor desta união. Gratuitamente elaboramos preconceitos contra as mulheres que os nossos filhos escolheram como companheiras.
    Somos intolerantes com todos, enfim, que moram e habitam conosco, haja vista que não percebemos o quanto somos INTOLERÁVEIS!
    Não acredito, respeitosamente, em análises mais aprofundadas ou rebuscadas no passado para explicarem o presente; em definições e teses manifestadas tão somente em imaginações férteis, ricas em conteúdos, mas carentes sobre o dia a dia de uma pessoa no mundo atual.
    Vivemos uma época extremamente diferente daquela vivida pelos grandes pensadores e, é claro que parte de suas idéias podem até encontrar correspondência à intolerância que compõe a nossa existência nos dias de hoje, entretanto, a geração de acontecimentos e o sistema de vida que possibilitamos a nós mesmos, tecem fragmentos de vida muitas vezes impossível de serem unidos ou diagnosticados através de conceitos passados – mesmo que dignos de reverência -, e que edificam o ser humano em forma de colcha de retalhos.
    E, assim, temos vergonha de expor a nossa confecção, o nosso tecido social que não foi bem feito, que deixou a desejar no acabamento, que ficou feio.
    A nossa intolerância que nos acompanha desde os primórdos de nossa existência precisa ser questionada dentro do ambiente familiar, onde tentamos esconder das demais pessoas quem somos realmente, em princípio, e somente lá adiante, estudada a sua repercussão e alastramento no convívio com estranhos ou quem não pertence ao meu clã, ao meu grupo.
    Fácil: se não toleramos quem é nosso íntimo, muito menos vamos tolerar quem é distante.
    Não vou responder pelos meus atos se alguém comentar que não tenho razão!

    • Caro Ozai gostei muito de seu artigo está muito bem esplanado. A tolerância se relaciona com a capacidade humana de aceitar o diferente, ainda que não se possa compreende-lo totalmente. É a virtude de admitir que a verdade possa não estar sempre do nosso lado, que não somos sempre os mais corretos e outras opções podem ser mais válidas que as nossas.
      A convivência social é muito complexa porque exige muitos requisitos: tolerância, compreensão, respeito,paciência; dessa maneira a relação entre pessoas se dá de forma conjunta.

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