“Braços cruzados, máquinas paradas”

*A exemplo de outros filmes e documentários como Linha de Montagem, ABC da Greve, Eles não usam Black-Tie, Peões, etc., Braços cruzados, máquinas paradas tem um significado fundamental em minha vida. São cenas, falas, personagens, contexto histórico, que me fazem retornar ao passado, às minhas origens e raízes. Escrever e falar[1] sobre estes eventos que marcaram a história do movimento operário no Brasil e, portanto, a história política recente deste país, é algo que envolve um caráter emotivo muito forte. Por outro lado, o distanciamento no tempo histórico, aliado à experiência de vida acumulada nestas décadas, tornam possível uma reflexão racional e objetiva – embora não isenta de valores nem de emoções.

Aprendi que os temas que pesquisamos, os livros que lemos, o que escrevemos, etc., estão vinculados, ainda que não percebamos, às nossas experiências de vida, ao “eu” marcado de forma indelével pelo grupo no qual nos inserimos, o agente coletivo e social. Afinal, é na relação social, na convivência com os demais que construímos a nossa identidade. O indivíduo é intrinsecamente social. É neste sentido que o “eu” se faz presente em minha fala e escrita, especialmente quando o tema está tão diretamente vinculado à minha trajetória de vida.

Não fui partícipe direto do processo histórico relatado em Braços cruzados, máquinas paradas, mas conheci, convivi, aprendi e compartilhei experiências com algumas das lideranças expressivas do Movimento de Oposição dos Metalúrgicos de São Paulo (MOMSP). Conheci-os nos primeiros anos da década de 1980 e estabeleceu-se uma relação respeitosa e duradoura. A minha formação política está vinculada aos metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Na época, fiz o curso de Mecânico no SENAI de São Bernardo do Campo, com contrato vinculado à Saab Scania do Brasil, empresa na qual realizei o rito de passagem da revolta para a consciência de pertencimento a uma classe social. Esta, pode-se afirma, foi a minha primeira “universidade”, a minha “graduação”.

Foi na Saab Scania que conheci o Gilson Menezes, o Henrique e os companheiros da diretoria sindical liderada pelo Lula e os que os sucederam após a intervenção do governo militar no Sindicato e a retomada deste com a eleição da chapa presidida pelo Jair Meneguelli. A militância sindica levou-me à Pastoral Operária – nos reuníamos na igreja do Parque São Lucas, Zona Leste da capital. O passo seguinte, quase que “natural”, foi a filiação e militância no Partido dos Trabalhadores (PT), do qual me desliguei em 1991. A fábrica, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, a Pastoral Operária (e a Teologia da Libertação) e o PT foram, portanto, as minhas “universidades”. A minha formação política resulta destas experiências; são as minhas raízes e dizem muito sobre o que sou.

Pertenço, assim, à geração que aprendeu a fazer política num momento muito difícil da sociedade brasileira, porém, muito especial. Estávamos, ainda, em plena ditadura militar. É neste contexto histórico que os trabalhadores assumem a responsabilidade e os riscos inerentes à decisão de paralisarem as máquinas.

Comparada às greves metalúrgicas em São Bernardo e Diadema, o movimento grevista retratado em Braços cruzados, máquinas paradas é ainda mais significativo, pois os trabalhadores não podiam contar nem com o apoio do sindicato, dirigido pelo arquipelego Joaquim dos Santos Andrade, o “Joaquinzão”.

É um momento histórico difícil e complexo. Ainda assim, os trabalhadores e trabalhadoras ousam se erguer e lutar contra a opressão econômica e política, por melhores salários e condições de vida e, especialmente, pelo resgate da dignidade. É mais do que uma questão econômica – a conquista do reajuste salarial – embora, este seja o fator detonador do movimento. Os grevistas enfrentam não apenas os patrões, o poderio econômico, mas também o Estado, a repressão policial, a (In)Justiça do Trabalho, a direção sindical e, também, o individualismo e a ideologia da competição que atua entre eles, os fura-greve, os dedos-duros e até mesmo a incompreensão e resistências de suas famílias.

No entanto, é nesta caminhada que eles e elas operam a transição do “eu” para o “nós”, do individualismo egoístico para o sentimento de pertencimento a uma coletividade. É assim que forjam a identidade de classe. É na organização da greve, na experiência concreta da luta que ocorre a superação do “eu”. Isto pressupõe o sentir-se parte integrante de algo maior do que o indivíduo considerado isoladamente, indica reconhecer-se no Outro e vincular o presente e futuro aos demais. Significa confiar reciprocamente, agir de forma solidária, fazer opções e assumir os riscos. Isto se gesta na luta real, na dinâmica da organização, deflagração e sustentação do movimento grevista.

Por outro lado, a transição do “eu” para o “nós” não anula o indivíduo. Nem todos se assumem enquanto agentes da luta coletiva com a mesma intensidade; as responsabilidades são diferenciadas e o comprometimento do “eu” com o “nós” não tem o mesmo significado para todos. O “eu”, ainda que transformado pela experiência qualitativa da ação sindical-política, tende a se tornar predominante tão logo o movimento esmaece. E, mesmo quanto a greve está em andamento, permanece a tensão entre o “eu” e o “nós”, isto é, entre os valores, sentimentos e interesses individuais e as demandas do grupo social, da coletividade. É simples compreendê-lo se partimos do pressuposto de que não se trata de conceitos e teorias, mas de indivíduos de carne e osso, com as qualidades e complexidades inerentes ao humano real e concreto; indivíduos com subjetividades gestadas por trajetórias e experiências de vida específicas, com valores e sentimentos conflitantes em relação ao coletivo e até mesmo em cada um considerado individualmente.

O “nós”, o coletivo, a classe, não se reduz a uma abstração conceitual, mas é uma construção gestada a partir da experiência concreta da luta grevista. O “nós” não existe a priori, determinado pela situação econômica objetiva compartilhada – embora esta seja essencial enquanto fator estimulador para a ação coletiva –, mas forma-se na dinâmica da organização e deflagração da luta grevista.

O “nós”, portanto, não é um todo homogêneo. O individualismo egoístico, a competição e, em suma, a ideologia predominante, continuam a atuar enquanto contra-tendência à conformação da consciência e prática de classe, enquanto o “eu coletivo” – o “eu” não se dissolve no “nós”, mas é amalgamado neste e, simultaneamente, mantém-se enquanto potência.

Por sua vez, a imersão do “eu” no “nós” faz emergir a energia que estava latente. Em outras palavras, fazer parte do coletivo, reconhecer-se enquanto parte de algo maior do que o “eu individual” fortalece e energiza o indivíduo enquanto agente atuante na e/da história. A sensação de pertencimento e identificação com o “nós” produz o sentimento de alegria e felicidade. É o contentamento de nos sentirmos artífices da nossa própria história e senhores do nosso destino.

As trabalhadoras e os trabalhadores, personagens principais de Braços cruzados, máquinas paradas, são alegres e realizam-se no processo da luta, apesar das dificuldades e intimidações. Paradoxalmente, são pessoas felizes. O patronato e seus representantes, a exemplo da cena do advogado patronal na audiência de conciliação na Delegacia do Trabalho, são incapazes de compreender este sentimento gerado pela força e atuação coletiva. A condição social e econômica, os valores e a ideologia de classe patronal, impossibilitam-nos vivenciar e compreender o significado profundo inerente à luta coletiva dos trabalhadores. Resta ao representante do Estado o discurso da intimidação. Esta cena é fundamental para identificarmos as forças sociais e políticas em pugna e fica nítido que o operariado só pode contar com as suas próprias forças, união e organização.

A greve é uma escola para o trabalhador e a trabalhadora. É a sua graduação em política, a sua universidade. Vitoriosa ou derrotada, é uma experiência rica e marcante. No movimento grevista há muito em jogo. O emprego, o salário, as possibilidades de “subir na vida”, etc. No limite, e considerando-se o contexto histórico, é da vida que se trata. Lembremos do operário Santo Dias da Silva, liderança da oposição metalúrgica de São Paulo, assassinado covardemente em frente à fábrica Sylvânia pelo policial Herculano Leonel.

O primeiro desafio, portanto, é vencer o medo alojado em nossas consciências e que habita em nosso corpo. Trata-se do medo à autoridade, ao despotismo do patrão e de todo o aparato que lhe dá sustentação, da chefia à gerência e direção da empresa, ou seja, medo do poder burocraticamente organizado enquanto estrutura racional e legal. A organização hierárquica administrativa é, então, acionada para controlar, disciplinar a força de trabalho e restaurar a ordem. A fábrica, enquanto poder econômico e organização burocrática moderna privada, conta com o apoio do Estado e a violência pretensamente legítima das forças da lei e da ordem. O contexto político ditatorial induz ao arbítrio e à impunidade. O patronato sabe que pode contar com o aparato repressivo do Estado e com a (In)Justiça do Trabalho. Isto fica nítido no documentário, no transcorrer do movimento grevista e na realização da eleição para o Sindicato. A fraude eleitoral é absurdamente desconsiderada e o Estado, através do seu representante, o Ministro do Trabalho Arnaldo Prieto (governo do ditador Ernesto Geisel), garante a posse do Joaquinzão.

Os trabalhadores devem superar os medos causados pelos agentes externos – indivíduos, grupos e estruturas organizacionais privadas e estatais – mas também seus medos interiores. O medo de ser despedido e causar desgraça aos que ama, o medo da culpa, etc.

É um medo legítimo e perfeitamente compreensível. Afinal, no recôndito do “eu” é difícil ficar imune às ameaças reais amparadas no poder econômico e político. Além disso, a ideologia da adaptação, do conformismo e do individualismo é muito forte e influente. A adesão ao “nós” é uma decisão individual muito difícil de ser tomada.

Ainda assim, ocorre a transição do “eu” para o “nós”, do/a operário/a individual para o grupo e classe social. Este processo produz a tomada de consciência. É como uma flor que desabrocha. Esta necessita de cuidados, de condições para desabrochar.

Assim é a consciência do pertencimento ao “nós”. As sementes lançadas na terra ainda infértil precisa de tempo para germinar e desenvolver-se. Elas são regadas com o sofrimento, o suor e o sangue dos que, nas condições mais inférteis e desesperadoras, mantém a esperança e acreditam que, apesar de tudo, ela sobreviverá. Há indivíduos que, a despeito de tudo, lutam cotidianamente para que a semente não morra. Ainda que nesta fase a transição do “eu” para o “nós” não seja possível, eles referendam-se em um “nós” idealizado e, assim, encontram forças para persistir.

Assim, é possível compreender o elemento espontâneo. Ele é a potência que estava latente, despertada pela dinâmica da organização da luta. Ele emerge das sementes plantadas no solo ainda infértil, que desenvolvem-se graças à perseverança e trabalho dos que conseguirem superar as amarras ideológicas do “eu” e/ou dos que, ainda que de maneira desorganizada, expressam a revolta contra as prisões reais e imaginárias do mundo do trabalho. Ou seja, germinam-se e fortalecem-se as condições mínimas para a erupção do aparentemente espontâneo. Este, portanto, não surge do nada.

Braços cruzados, máquina paradas é um documentário que vale a pena assistir. Ele resgata a história recente do nosso país, uma história geralmente desconhecida pela geração que nasceu no pós-redemocratização. É um documentário que desafia o campus a superar o abstracionismo conceitual e intelectualista.

O desafio é compreender o humano real e concreto, em carne e osso, tal qual ele se manifesta nos processos históricos, com os seus dilemas e toda a sua complexidade. A formação do “nós”, da consciência de classe, não se dá no vazio, mas é regada pelo humano humanamente contraditório, demasiado humano.


* Publicado originalmente na Revista Espaço Acadêmico, EDIÇÃO ESPECIAL 10 ANOS, nº 120, maio de 2011. Disponível em http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/13352/6990

[1] Este texto foi escrito como subsidio para a participação no VIII Seminário Lutas & Resistências, organizado pelo Prof. Dr. Eliel Ribeiro Machado (Departamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual de Londrina) e realizado em 04 de maio de 2011. Registro, sinceramente, o meu agradecimento.

10 comentários sobre ““Braços cruzados, máquinas paradas”

  1. Prezado Ozaí. Passei admirá-lo após ler seu depoimento à tempos de como abandonou o partido do PT em 1992. Foi uma atitude nobre. Felizmente, não participou da orquestração do Foro de São Paulo fundado secretamente por Lula, Fidel Castro, Farc… em 1990.
    Infelizmente, o mito Lula que enganou a todos, ficou… e soube atuar para que os brasileiros não percebessem de suas estratégias comunistas para o Brasil.
    No período que menciona entre 1970, 1980… eu trabalhava na VW no ABC e acompanhei o mito Lula e sua atuação junto aos trabalhadores. Muitos daqueles trabalhadores que cruzaram os braços vendo as máquinas desligadas, acompanharam o sindicalista Lula; desempregados, não conseguiam entender porque não conseguiam outra ocupação igual à anterior, e Lula, como príncipe no auge do estrelato, negou a estes trabalhadores qualquer auxílio, sobrando-lhes apenas a esquizofrenia social.
    Quero lembrá-lo Ozaí, que as multinacionais tinham seguro sobre lucros suspensos e no mesmo tempo, pressionavam o governo para redução dos impostos conclusão: apoiavam as greves. No mesmo tempo, o marxismo cultural estava sendo plantado no Brasil, para que os trabalhadores e o povo, não percebessem a trança que os sindicatos financiados pelo globalistas, trariam à suas vidas no futuro. As greves de hoje (2013) fortalecem o MITO sindical através de um aumento salarial simbólico premeditado previamente entre governantes, empresários e sindicatos “globalistas”.
    http://mudancaedivergencia.blogspot.com.br/2011/01/lula-foi-treinado-em-cursos-ministrados.html

  2. Prezado Ozaí, gostei muito de ler o seu texto. Ao escrever a análise do filme “Braços cruzados” e desvendar a nós, leitores, sua origem operária, você trouxe novamente o conceito de classe e de luta de classe para entendermos os processos concretos nos quais estamos envolvidos e que a chamada “concertação social” pretendeu ter jogado na lata de lixo da História.
    Você fala da exploração capitalista como um processo que ultrapassa os muros da fábrica, que implica o Estado e o sindicato, no caso de São Paulo — um processo cujo enfrentamento cria o sentimento de pertencimento a um “nós” que está latente nas experiências fugidias porque miúdas, rotineiras e aparentemente individuais de resistência. Que também passa pela família, pelos sonhos e temores individuais. Que 99% das vezes é vivenciada como uma espécie de aceitação não consensual da ordem capitalista. Ao ler e pensar nisso tudo, lembrei-me de Greve na fábrica, de Robert Linhart.
    Se valer uma contribuição, apontaria para o que, sendo objetivo ou externo à vontade dos operários, é vivido subjetivamente como exploração. Trata-se das relações sociais capitalistas, asseguradas como propriedade privada garantida por lei e pela repressão, que permitem o controle do processo de trabalho sob modalidades ditas “participativas”, de modo a intensificar o trabalho. É no enfrentamento cotidiano dessas relações que “germinam-se e fortalecem-se as condições mínimas para a erupção do aparentemente espontâneo. Este, portanto, não surge do nada”.
    Um abraço e parabéns!
    Eduardo

  3. As lutas populares foram usadas para fins eleitorais. porém , novas lideranças surgirão para denunciar a farsa eleitoral voltar a pregar a idéia de revolução com uma ruptura na totalidade com este estado reacionário. além do mais, o campo democrático não se resume ao parlamento. a luta popular deve alcançar o poder político e econômico porque como diz lenin sem o poder tudo é ilusão até uma passageir apresidencia da república ou um mandato de deputado. temos que conquistar o poder de forma violenta para a classe trabalhadora.
    agradeço ao professor Ozaí por este espaço diante do cerceamento de expressão e monopólio dos meios de comunicação.
    ANTONIO

  4. prezado senhor,
    professor antonio Ozai
    li o seu artigo e como se contemporâneo acrescento que fiz parte da luta da oposição metalúrigica de são paulo na metalúrgica aliperti e outras na região do bairro da saúde.
    pelo que me lembro era um tempo de muita privação material. a classe trabalhadora realmente teve solapado o seu poder aquisitivo.
    penso que a luta foi resultado de condições objetivas e subjetivas e circunstâncias favoráveis.
    além do mais , do seu artigo que mostra a passagem do eu para o nós é o que marx fala de consciência de classe e consciência de classe para si. Com efeito, em um primeiro momento há realmente a consciência de classe na fase do eu mas prossegue para uma consciência de classe para si a fase do nós.
    pelo menos é este o meu entendimento espero que o sr. não entenda apenas como uma abordagem filosófica.

    entretanto recentemente colaborando com o CEDOM-Centro de Documentação e Memória da Unesp que colhe depoimentos dos companheiros do MONSP pude reencontrar o Valdemar Rossi , Anisio Batista e outros companheiros que muito me satisfizeram ao saber que a luta não foi em vão.
    além do mais , apesar dos desvios do PT e seu sindicalismo amarelo hoje vejo que não tem mais volta na evolução da sociedade brasileira que não seja a consolidação da democracia em democracia econômica e social rumo ao socialismo.
    assim , termino solicitando se possível remessa do vídeo por meio eletrônico ou venda eis que não assisti ainda a este documentário porque no dia que eu fui no seminário na OIT ele havia sido axibido na véspera.
    obrigado.
    ANTONIO

  5. Ola Isaias, adoro tudo o que você comenta e escreve. Sou uma leitora assidua de seu blog.
    Seria muito bom termos mais jovens como você neste pais tão pobre em pessoas interessadas com o ser humano e consequentemente com o pais. Sou uma jovem senhora de 65 que peguei a pior fase deste pais varonil rsrsrs.
    Isaias,continue sendo essa pessoa maravilhosa, pois todos meu amigos virtuais e não virtuais recomendo seu blog com muito orgulho. Parabens e abraços

  6. Acredito que os dois maiores exemplos de sindicalismo, de união de classes operárias em busca de identidade e melhores condições de trabalho, tenham sido o Sindicato dos Metalúrgicos de SP e o Centro dos Professores Gaúchos do Rio Grande do Sul (CPERGS).
    Uma pena o “excesso” de politização de seus dirigentes que transformaram esses dois modelos de organização de trabalhadores em trampolim à carreira política.
    Nada contra a partidarização, mas seus diretores uma vez eleitos não podiam priorizar a política e o partido em detrimento de seus colegas, que continuam em busca de reconhecimento pela importância de suas funções, principalmente o Magistério gaúcho, permanentemente em luta de salários mais dignos e escolas mais aparelhadas e preservadas.
    Será que o idealismo deu lugar à ambição, à fama?
    O espírito coletivo foi vencido pela individualidade e conveniência?
    Por que não existem mais os líderes do passado? E vamos ser justos ao registrar que a história do sindicalismo em SP – modelo para todo o Brasil pela sua luta em períodos que a nação vivia sob a tutela do regime militar – divide-se antes e depois do Lula. Ou estou errado, professor Ozaí?
    Pelo menos era o que nós víamos na TV (censurada) e líamos nos jornais (idem) sobre quem liderava as greves e ia sempre para a cadeia, pois eu não morava em São paulo.
    E não sou do PT, aliás, jamais tive ficha em qualquer partido político, haja vista que não se faz política e sim jogo de interesses. Mas isso é outra história.
    Refiro-me ao sujeito que enfrentava as consequências em defesa da coletividade, da sua classe operária, do pensamento único em torno de objetivos comuns.
    O que aconteceu com esta gente corajosa?
    Ou os sindicatos travestidos de representantes de classe sucumbiram diante das “atrações” que a política nacional oferece a quem dela participa?
    Uma lástima que este episódio que o senhor nos contou acima e a sua participação efetiva, professor, tenha acabado.
    O próprio MST que, em tese, poderia vir a ser uma espécie de sucessor deste belo movimento sindical, perdeu-se nas ramificações de ideologias e movimentos que o divorciou da sociedade que inicialmente até llhe foi simpática.
    Atualmente o MST se faz notar quando impede o nosso ir e vir ao bloquear as estradas e invade terras alheias.
    Aonde que o sentimento comum de uma classe em busca de melhorias no seu trabalho e vida foi parar?
    O que houve de tão trágico e importante que substituiu o o clamor de uma classe unida em prol do mesmo objetivo?
    Quais foram as razões que desintegraram os movimentos legitimamente populares sem a nódoa de interesses sectaristas e conveniências pessoais inrustidas e dissimuladas?
    Eu gostaria que o senhor, professor, a quem muito admiro, e, apesar de não ter os conhecimentos e a cultura dos comentaristas dos assuntos que o senhor expõe, faço questão de colaborar, de opinar – e peço perdão se lá pelas tantas eu escrevo bobagens -, eu gostaria muito que essas questões fossem abordadas oportunamente, isto é, a quebra da união da classe operária; a inexistência de líderes; o sectarismo em substituição ao sindicalismo.

  7. O Eu, permita-me, é um oásis de fantasias e ilusões. Esfuma-se, formando-se. O sujeito, este, sim, é determinante, mas não é”intrinsecamente social”. Ele decorre de um Ato particular,um Ato de linguagem, que eclode em Acontecimento. Não há ‘nós’ ( Nostridad). As massas comungam-se em torno de um delírio coletivo ou de um “ideal” suposto comum. O Ideal do sujeito não é o sujeito ideal, mas é este que se procura na luta de puro prestígio ou ilusão que se promete para alívio do mal-estar intradérmico. O que se chama “o social” é horripilante alienação. Precisamos ter uma leitura de cada, fora da estória da história, de modo a trazer alívio ao ódio que mantemos a nós mesmos. Este ódio é que não nos permite sofrer menos, produzir lugar-espaço mais acolhedor à vida humana. Precisamo-nos esquecer. Precisamos outra visão da história, da polis, do sujeito humano. And last but not least, parar de pronunciar o Ego que Descartes descaracterizou com o cogito e com o sum. Pois, “sou justamente onde não penso… e só posso pensar onde não sou”. Dê carinho a este término, correto?

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