A impotência da argumentação racional (ou quando 2+2=5)

Winston (John Hurt) em cena de 1984, filme baseado na obra homônima de George Orwell

*Em 1984, de George Orwell, o torturador afirma à vítima: “Não apenas destruímos nossos inimigos; nós os modificamos. Compreendes o que quero dizer?” [1] O objetivo do algoz não se restringe a arrancar a confissão do torturado. Este, ao praticar a crimidéia, comete o maior dos crimes: questionar a verdade do Partido e do Big Brother. Não basta arrepender-se ou acatar a verdade instituída: é preciso estar convicto, introjetar os ensinamentos da doutrina, render-se por “livre e espontânea vontade”. Trata-se de convencer-se de que a realidade não existe fora do âmbito do pensamento único ditado pelo Partido. Portanto, ela é moldada à verdade absoluta determinada pelo sistema totalitário: 2 + 2 pode resultar em 5.

Parece absurdo que em algum momento da história o ser humano tenha aceitado convictamente tal verdade. Mas o que foram os processos inquisitórios senão a tentativa de introjetar dogmas? Que foram os Processos de Moscou senão a submissão a uma verdade inquestionável? Como explicar que milhares de pessoas tenham aceitado consciente e voluntariamente as verdades apregoadas pelos nazistas e tenham amparado seus crimes? Como compreender o ódio étnico e racial? E as teorias que intentam legitimar a escravidão e o genocídio? Se milhares e milhões podem aceitar tais verdades, então, o raciocínio de que 2 + 2 é igual a 5 não é tão absurdo.

No cotidiano nos deparamos com atitudes semelhantes. Há momentos em que os fatos cientificamente comprovados são inócuos diante da verdade ideologicamente estabelecida e dos preconceitos profundamente disseminados. O crítico que busca ir para além da aparência e dos discursos altissonantes e oficias é tachado de ressentido, pessimista e outros epítetos.

Nestas circunstâncias, o absurdo toma ares de verdade. O pensar acrítico toma como verdade o discurso que melhor se ajusta à realidade imediata. Ele olha, mas não vê; pensa, mas não raciocina; trabalha com discursos prontos e idéias preconceituosas sobre os que pensam diferentemente. Seu horizonte não vai além do bolso ou do nariz. Seu pensamento expressa o senso comum ideologicamente modelado.

Porém, o senso comum também tem aspectos positivos. Para Hannah Arendt, o senso comum é a parcela de sabedoria herdada que todos temos em comum. O conhecimento não formal, produzido nas relações cotidianas entre as pessoas é valorizado. Este conhecimento está relacionado à subjetividade, a um sentir que induz ao compromisso ético com o mundo em que vivemos, à compreensão. [2]

Em Arendt, compreender distingue-se tanto da informação quanto do conhecimento científico. Nesta concepção, compreensão “é a maneira especificamente humana de estar vivo” e nada tem a ver com a idéia comumente aceita de que compreender é perdoar. Compreender é um processo interminável, uma forma de reconciliação com o mundo, com uma realidade que não necessariamente perdoamos. Podemos compreender os crimes dos ditadores, mas isto não significa perdoá-los. Como afirma Arendt, “ao compreendermos o totalitarismo não estaremos perdoando coisa alguma, mas antes, reconciliando-nos com um mundo em que tais coisas são definitivamente possíveis.”[3]

O conhecimento racional e científico, forjado nas universidades, pode prescindir do humano; muitas vezes, imagina-se mesmo acima do humano. O pensamento totalitário utiliza a autoridade da cientificidade e objetividade para justificar a barbárie. Não foram os cientistas, indivíduos bem informados e titulados, os que praticaram experiências genéticas contra os judeus e que desenvolveram teorias que procuravam justificar o holocausto? Não foram indivíduos instruídos e diplomados que organizaram a máquina de extermínio que ceifou milhões de vidas humanas (do transporte às câmaras de gás e o sumiço dos cadáveres)? Na ex-União Soviética e outros países ditos comunistas, a psiquiatria não foi usada como instrumento de repressão política? Os regimes ditatoriais latino-americanos não contaram com a cumplicidade de médicos na tortura dos prisioneiros políticos?

O elogio ao senso comum e ao saber informal não resulta necessariamente na condenação do saber científico e formal, ou vice-versa. Contudo, é preciso reconhecer os limites do saber dito científico e negar-lhe a pretensão de constituir o único saber legítimo. O diálogo entre o professor Long e o pastor Mathieu, na obra de Freinet [4], expressa de forma exemplar os dilemas, limites e contradições dessa relação. Eles nos mostram que progresso técnico não resulta necessariamente em progresso humano e que a instrução nem sempre torna o homem humanamente melhor.

O intelectualismo que desconsidera o saber popular é tão perigoso quanto a ignorância e a alienação das massas. O ignorante titulado, igualmente alienado e descomprometido, imagina-se superior aos simples mortais e tem a pretensão de encarnar a verdade, a qual deve ser pregada aos incautos. Este tipo de intelectual imagina-se iluminado e capaz de iluminar o caminho dos demais. Arrogante, como se estivesse no Olimpo, desvaloriza o saber informal e o saber prático. Não percebe os próprios limites a arrisca-se a se afogar nas águas que acolhem os narcisistas.

Este especialista se arroga guardião da ciência e do conhecimento diplomado, e, em sua redoma protetora contra as influências do que considera descartável, torna-se insensível diante da realidade social, descartam e deturpam a compreensão. Assim, abrem caminho para a doutrinação. Esta, por sua vez, transcende o domínio do racional, substituindo-o por afirmações que se supõem evidentes e necessárias. A doutrinação destrói a compreensão preliminar, isto é, o senso comum, a linguagem e saber que conferem significado ético ao conhecimento.

Eis o fio de Ariadne que permite nos colocarmos diante dos dilemas humanos, desenvolvermos a capacidade de se indignar diante do sofrimento humano e assumirmos o compromisso ético. Do contrário, de que adianta todo o conhecimento científico acumulado e o domínio das mais confiáveis informações?

Winston, personagem central do livro de Orwell, evolui para esta compreensão na medida em que se humaniza. Funcionário do Partido no Departamento de Registros, onde forja-se o presente e o futuro com a falsificação e controle do passado, tem o conhecimento mas não compreende. Sua humanidade encontra-se subsumida na verdade do Partido, o qual representa o conhecimento verdadeiro. Não há espaço para o senso comum, pois o regime do Grande Irmão suprime tudo o que aparenta sentimento, individualidade e as relações humanas. Winston reencontra sua humanidade nos proles, a parcela abjeta da sociedade.[5]

Winston não suporta a pressão e trai a si mesmo e o seu amor pela Júlia. Mas, é-lhe evidente a necessidade de manter a humanidade. “Se podes sentir que vale a pena continuar humano, mesmo que isso não dê o menor resultado, terás vencido os torturadores.”, diz ele à sua amada. [6]

O saber científico não elimina a possibilidade da barbárie, antes pode contribuir para justificá-la. Sem a compreensão somos presas fáceis à manipulação dos doutrinadores de plantão, escravos da verdade absoluta ou simplesmente indivíduos resignados. Assim, perdemos a capacidade de intervir e reagir criticamente diante da realidade.

A apologia da razão, isto é, do saber acadêmico formal, resulta num tipo de miopia que, aliada a certo elitismo narcisista, impede a percepção das fragilidades da argumentação racional. A história comprova-o. Oxalá tenhamos aprendido! E, como almejava Hannah Arendt, tenhamos o dom de um coração compreensivo. Talvez não seja má idéia voltarmos, à maneira de Rousseau, a repensarmos os limites da razão e a necessidade do sentimento.


* Versão adaptada e reduzida do texto publicado na REA, nº 27, agosto de 2003, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/027/27pol.htm

[1] ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1998, p.235.

[2] Ver ARENDT, Hannah. A dignidade da política. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993.

[3] Idem, p.39.

[4] Ver FREINET, Célestin. A Educação do Trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

[5] Ver ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1998, p.155-156.

[6] Idem, p.157.

9 comentários sobre “A impotência da argumentação racional (ou quando 2+2=5)

  1. Professor Ozaí,

    Muito bom o texto.

    O problema que vejo é um populacho aceitando incondicionalmente postulados. Gente que não enxerga a vida, a dos outros e a si mesmo. Uns não sabem a verdade porque são ignorantes e outros que não aceitam a verdade e dizem que é mentira; este é o maior criminoso.

    Por ser sincero, franco e valoroso eu tive contra mim, a liga dos servis, dos impostores e dos covardes acadêmicos, que são a maioria.

  2. Caro Professor Ozaí,
    Seu texto é muito instigante. Todavia, penso que é preciso distinguir conhecimento científico de saberes da experiência do trabalho, da sobrevivência, da existência, como achar melhor. Penso que faz-se necessário voltar às discussões do Movimento Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS), especialmente as obras de Carson, que foi perseguida porque discutia a importância do desenvolvimento científico e tecnológico, mas a necessidade de discutir os fins aos quais se aplicavam. Penso que não se pode negar a necessidade da ciência e tecnologia, mas discutir o uso que se faz dessa tal como se discutia Carson, dando início ao movimento CTS. Outro discurso que tem que ser feito é do uso do poder que a titulação dá aos sujeitos, o discurso ideológico da ciência e da tecnologia e o falseamento do real com ares de cientificidade.

  3. Acho um pouco forçada a lembrança do nazismo e a sua associação à apologia da razão. Seria, na minha opinião, bem mais importante salientar o caráter irracionalista da ideologia nazista e do ambiente cultural onde ele teve tão fácil aceitação. Vêm-me à memória também os processos pelos quais as seitas manipulam os seus adeptos, atraídos primeiro com manhas, quando penso nessa pseudo-equação.

    Não será perverso invocar argumentos de antigos nazistas e suas amantes para, precisamente, criticar a razão e a ciência, associando-as no mesmo espírito de autoritarismo ao nazismo?

  4. Olá a todos, olá prof. Ozaí,

    Muito interessante o texto! Sobre o parágrafo selecionado abaixo,

    “Eles nos mostram que progresso técnico não resulta necessariamente em progresso humano e que a instrução nem sempre torna o homem humanamente melhor.”

    também é possível encontrar reflexão semelhante em “Democracia y Universidad”, de José Saramago: http://www.ucm.es/BUCM/ecsa/36254.php?id=615

    Sob a perspectiva pessoal de aluno que fui, posso garantir que não é nada difícil encontrar em algumas universidades professores extremamente prepotentes e egocêntricos, cegos pelo conhecimento científico e acadêmico e que se tornam capazes de cometer injustiças inimagináveis contra certos alunos. Principalmente alunos que não se enquadram no perfil geral dos alunos. Não me refiro do ponto de vista do tão polêmico sistema de notas nem tão pouco sobre como comportar-se em sala de aula e outras normas básicas de convívio social. O simples ato em divergir com pontos de vista no mínimo diferentes geralmente paga-se um preço elevado por isso.

    Nesse sentido, acho oportuno e gostaria de deixar uma nota aqui sobre a necessidade em criar órgãos específicos capazes de prevenir e de tratar temas tão nocivos quanto pode ser o ASSÉDIO MORAL que geralmente é cometido por alguns professores contra alguns alunos dentro das próprias Universidades. E o pior é diagnosticar que muitas vezes esses professores se encontram em posição confortável devido à proteção que de certa forma lhe é oferecida pelo prórpio corporativismo existente.

    A vítima, nesse caso o aluno desprovido de provas, de autoridade e de conhecimento sobre seus direitos humanos, nao lhe restaria nada menos que sucumbir ao leo, “sem lenço nem documento.”

    Na medida em que nos encontramos diante de um novo paradigma no modo de comunicar-se, não me estranharia que certos alunos assediados e humilhados começassem a divulgar provas como e-mails, gravações de voz, testemunhos e até mesmo vídeos na tentativa de denunciar as situações de humilhação sob as quais estão sendo expostos.

    Nesse caso não seria má idéia se a exemplo do WikiLeaks, uma lista com nomes de professores torturadores e suas respectivas instituições fossem divulgadas na Internet como ferramenta de denúncia. O prejuízo ficaria não só a cargo do próprio carrasco, nesse caso o professor em questão, mas também a todos que se interessam e lutam pela manutenção de um universo plural e, no mínimo, maduro como se supõem que assim sejam as Universidades.

    Fico a disposição para sugestões, críticas e comentários: jfasmaior@gmail.com

    Abraços!

  5. bravo, Professor! um artigo tipo “metralha pensante”, que atira em leque abrindo caminho em todas as direçoes. e o estilo esta ficando bom como vinho velho.
    a escolha do assunto também me parece oportuna, pois ao lado de uma quantidade impressionante e de qualidade de pesquisa produzida no Brasil, aparece muito saco de vocabulario cientifico empurrado olhos a dentro do leitor, numa cacofonia que so é igualada pela pretensao e pela arrogancia. mas acho que isso nao é privilégio nacional – faz parte da mundializaçao.
    quanto ao romance de Orwel, é uma boa escolha, pois no final, se bem me lembro (jamais relerei esse livro, para mim uma lembrança de angustia insuportavel, que nenhuma outra leitura jamais me causou) Winston nao consegue resistir e cede à pressao do torturador. E nao apenas à pressao racional, mas também afetiva – ele é obrigado a ama-lo!
    a criaçao de Orwel é sem duvida genial – mas também diabolicamente evocadora do que ele via como a violência dos regimes comunistas. So que para nos hoje, talvez ela deva evocar outro tipo de perigosa seduçao de sistemas de controle de pensamento, anestesiantes e sedutores com seu vazio e sua extensao global.

  6. Fiquei curiosa em retornar a Rosseau. Em qual obra dos limites da razão e a necessidade do sentimento?

  7. É complexo. De um lado, adoraria que a ciência fosse ouvida, por exemplo, nessa discussão sobre código florestal – que só atende a interesses dos latifundiários. De outro, por mais que se admita que ciência entenda uma faceta da realidade, as pessoas devem ter resguardados o direito de seguir suas próprias escolhas, e formar sua própria cultura. Por exemplo, questões etnicas. Mas toda cultura tende a ser alienante. Por isso, pelo menos entre aqueles imersos nessa cultura globalizada, desapropriados de suas culturas originais, o que resta é uma mistura de crendices religiosas e midiáticas.

  8. O que me parece mais incrível professor, é que na era da informação estamos cada vez mais desconfiados de tudo e de todos!!
    Quase não sabemos mais o que é propaganda e o que é verdade!

  9. Professor, de fato a busca por conhecimento e o aprimoramento deste através das regras institucionais aceitas socialmente não deveriam ser as únicas prerrogativas utilizadas como saber. Assim como você explica, a ciência que seria a chave para o desenvolvimento e uma das respostas para os problemas, foi e ainda é utilizada como ferramenta que dá suporte para crimes. Sem sombra de dúvidas a compreensão e a crítica devem ser os intrumentos discernidores da real utilização do conhecimento “academicista”, e , bem sabemos, que o uso político prepondera sobre o conhecimento cientifico aplicado.

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