A Comuna de Paris na PUC/SP

para Camila, Alexandre, Gustavo, Luiz ,Modolo, Palu, Rodrigo, Rodolfo e Tadeu

Nesta semana participei do evento “Tomando o céu de assalto: da Comuna de Paris a Oaxaca – 140 anos de auto-organização da classe trabalhadora”, organizado pela APROPUC, Núcleo de Estudos de Ideologia e Lutas Sociais (NEILS), Núcleo de História, Trabalho Ideologia e Poder e o Conselho dos Centros Acadêmicos da PUC-SP (CCA). Ocorreram várias conferências e palestras*, além de eventos culturais (Aula-teatro 9 do Nu-sol, coordenada pelo Prof. Edson Passetti: Eu, Émile Henry. Resistências; Performance: Lembrando de Louise Michel, com Beatriz Tragtenberg e Lucila Tragtenberg; Música com Arnaldo França e Carlinhos Antunes & Sexteto Mundano e a exibição do filme La Commune ,de Peter Watkins). Houve, ainda, o lançamento da Revista PUCViva nº 40 – 140 anos da Comuna de Paris.

A composição das mesas, bem como o público presente, revela a pluralidade política e ideológica no campo dos marxistas e libertários. Numa esquerda tão dividida em partidos, organizações, grupúsculos e seitas, além dos não-organizados, esta reunião de homens e mulheres de várias gerações é significativa. Fosse outra época, seria impossível realizá-la. Apesar das farpas lançadas, das incompreensões mútuas e das más interpretações em torno das falas e questões levantadas, todos sobreviveram na mais perfeita paz e saúde, sem feridos ou mortos. Não obstante, parece que progredimos.

A homenagem à Comuna de Paris é um dos pouquíssimos pontos que unifica o campo político-ideológico do anarquismo individualista e acadêmico aos marxismos. Se há convergência na auto-identificação política e ideológica em relação aos comunardos parisienses de 1871, as divergências são muitas, quase que insuperáveis e dizem respeito à interpretação dos fatos, caráter, atuação e lições da Comuna. O problema começa quando as lições são concebidas como imperativas, quando, na verdade, expressam e reforçam posições ideológicas atuais. Compreendo! As esquerdas se retroalimentam com as leituras que fazem dos acontecimentos históricos e do que consideram a tradição, o fio de continuidade.

A retórica revolucionária é fundamental para fortalecer a crença dos convertidos, mas é discutível se tem algum efeito sobre a minoria dos presentes que ainda não assumiram o credo laico. Se considerarmos os já convertidos, anarquistas e comunistas organizados ou não, fica a impressão de que há um diálogo de surdos. Dificilmente “X” convence “Y”, nem parece ser o objetivo. Talvez seja ingênuo imaginar que o debate de idéias e formulações teóricas e políticas seja para valer. Salvo exceções, muitas das falas são recursos para marcar posição.

Na medida em que as trincheiras estão definidas e as fronteiras bem delimitadas, é questionável se, a rigor, há debate. Deixando de lado os não-convertidos e/ou não organicamente vinculados a este ou aquele partido ou grupo político-ideológico, é no mínimo discutível se as falas e discussões influenciaram sobre as verdades dogmatizadas. Afinal, só os que têm dúvidas são capazes de aprender e superar as próprias certezas.

Contudo, ainda que permaneça a divisão nas esquerdas e a cultura autoritária e dogmática, sem falar no espírito de seita, o evento “Tomando o céu de assalto: da Comuna de Paris a Oaxaca – 140 anos de auto-organização da classe trabalhadora”, realizado nos dias 23 a 27 de maio de 2011, na PUC/SP, foi muito positiva. É importante resgatar a memória das lutas dos trabalhadores e homenagear os mortos que assumimos como os nossos mortos. Parabéns aos organizadores e a todos os que participaram desta semana. Meu sincero muito obrigado pelo convite!

[VEJA IMAGENS DO EVENTO]


* Os conferencistas e palestrantes foram: Henri de Carvalho, João Bernardo, José Paulo Netto, Jason Borba, Bia Abramides, Rui Costa Pimenta, Paulo Barsotti, Áquilas Mendes, Antonio Ozaí da Silva, Waldo Lao Fuentes, Valério Arcary, Rosa Maria Marques, Maria Angélica Borges, Edison Salles, Lívia Cotrim, Milton Pinheiro, João Bocchi, Vito Gianotti, Lúcia Barroco, Edson Passetti, Marcos Del Roio, Carlos Eduardo Carvalho, Vera Lucia Vieira, Marcelo Buzetto, Erson Martins Oliveira, Osvaldo Coggiola, Antônio Carlos Mazzeo, Alexandre Hecker, Armando Boito, Eliel Machado, Diana Assunção, Ramon Casas Vilarino, Everaldo de Oliveira Andrade, Sérgio Lessa, Antonio Rago, Wanderson Fábio Melo e Lúcio Flávio de Almeida.

4 comentários sobre “A Comuna de Paris na PUC/SP

  1. Olá Profº,

    O evento realizado na PUC foi muito interessante, valeu apena ter se deslocado de Maringá para São Paulo! Os Professores que participaram das mesas foram ótimos em suas intervenções sobre a Comuna e tudo que diz respeito a ela, enfim acredito que para mim foi um momento de aprendizado grande.

  2. Estimado Doutor
    Muito bom dia
    Cumprimentos a ti por teres participado de tão importante evento. Extensivo aos promotores e a Instituição que abriu suas portas (coisa rara no Estado Democrático e de direito). Quanto as pessoas terem posição ideológica particularmente não vejo problema, e sim na situação contrária quando aparentemente não tem posição e mais com isso visam auferir eventual vantagem. Temos situações que o cidadão percorre todas as etapas possíveis da vida educacional do primário a livre docência sem nunca ter participado de um debate ou palestra sequer. Possivelmente o número de instituições de educação superior que promovam algum debate está se tornando rara e minoritária. Mesmo nas semanas acadêmicas de algumas Universidades e Faculdades a maioria participa em silêncio, muitas vezes premida pela obrigatoriedade da presença ou de um relatório. Quanto a esquerda ser multifacetada, pode que isso esteja a enfraquecer sua atuação, porém quando Ela consegue operacionalisar suas ações tomando praças e ruas, mobilizando os excluídos, momento onde o Estado mostra seu fascismo deslocando milhares de policiais para “proteger” a “autoridade”, podemos dizer que a luta continua.
    Um abraço
    Pedro

  3. adorei o blog parabéns! aproveito para dizer que temos uma coluna semana no Jornal PUCViva da APROPUC chamado Gauche na Vida e aceitamos textos até 4.000 caracteres. Nos envie e se tiver de outros autores também pode enviar meu email biabramides@gmail.com aguardo seu artigo para a Revista Comuna de Paris 2 bjos da Bia Abramides

  4. Gostei da heterogenidade,porque hoje quando se pensa em tirar o sono daqules que nos tiraram o direito de sonhar.Não temos no momento uma proposta ou programa concreto é bom trabalharmos essas difereças em busca de um consenço duradouro que obviamente não será por agora.Prem não há outro caminho.

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