Ana Karênina

TOLSTÓI, Leon. Ana Karênina. São Paulo: Abril Cultural, 1979 (2 vol.).

Há livros que lemos e passam, ainda que fique a impressão de que valeu a pena. Com o tempo, perde-se a mais remota lembrança e não resta nem ao menos o registro da obra e do autor. Há os que são úteis, que ajudam a compreender teorias, conceitos, etc.; que acrescentam algo. Há os que lemos com prazer – incluo, especialmente, a literatura.

Há outros que jamais esquecemos, que nos ensinam, nos comprometem e permitem-nos a práxis dialógica. São livros que nos transformam, que nos deixam a sensação paradoxalmente angustiante e prazerosa – a angústia pela exposição das nossas fraquezas e dos dilemas que nos parecem insolúveis; e o prazer pela alegria de compreender melhor o mundo, os indivíduos e suas relações e a nós mesmos e nosso lugar neste.

Há, ainda, livros que nos tocam profundamente, que falam da e à alma. São livros que expõem as nossas fraquezas e dilemas morais e humanos, demasiadamente humanos. Ana Karênina, de Leon Tolstói, é um exemplo.

Na sociedade patriarcal da era dos czares, Ana Karênina apaixona-se pelo Conde Vronski. O amor simplesmente acontece, é inútil buscar explicações. De início, ela racionalmente recusa-se a aceitar o que o coração dita. A razão clama para que ela afaste os sentimentos que a impelem para uma relação extraconjugal. Ela questiona-se insistentemente e, honestamente, procura extinguir a chama do amor. Mas a centelha permanece teimosamente arraigada em seu ser e alimenta o fogo da paixão. Ela termina por render-se ao amor. Não, ela não o faz irresponsavelmente. Ela tem consciência dos perigos inerentes à sua decisão. Mas ela não pode resistir ao amor.

Os hipócritas a culparão, a moral social a condenará. O marido exige que mantenha as aparências do matrimônio, clama pelos deveres conjugais, lança sobre ela os argumentos da religião e ameaça afastá-la do filho, em nome da honra, da moral e dos preceitos religiosos. Mas, como culpá-la por amar?

Ela paga um preço demasiado alto pela opção de viver o seu verdadeiro amor. A nobreza do sentimento que a faz desafiar as convenções sociais é incapaz de solapar a força da moral pública que os condena. O pior, no entanto, não é a culpa lançada sobre ela, mas o sentir-se culpada diante de si mesma. A autocondenação, pela introjeção da culpa, é o dilema moral dos amores proibidos e moralmente censurados.

Ana Karênina é “culpada” por amar? Numa sociedade patriarcal, onde prevalece a dominação masculina, exige-se da mulher, muito mais do que do homem, a fidelidade conjugal e a manutenção dos laços matrimoniais, sob qualquer circunstância. Se ela é mãe, a cobrança é ainda maior. Ela está “condenada a ser feliz” no casamento e no papel de mãe. E, de fato, tais exigências são muito intensas e é preciso muita coragem para não se submeter. Ainda que ela mantenha o matrimônio apenas por aparências, o amor maternal e a felicidade do filho são decisivos.

Ana Karênina ama o seu filho, mas não se submete à chantagem marital. O marido não a perdoa e, em nome da moral e da religião, a separa do filho. É um fardo muito pesado, mas o amor é forte e a ajuda a suportá-lo. Paradoxalmente, a paixão a impele à tragédia. O sentimento de culpa, o intenso sofrimento diante da separação do filho e a insegurança em sua relação com o Conde Vronski, lançam-na no desespero e ela termina vítima do ciúme.

Admiro Ana Karênina, admiro as mulheres que ousam lutar contra a opressão e por seus direitos, inclusive o de tentar ser feliz. Na ficção ou na realidade, o amor tende a se sobrepor à razão. Nisto reside a sua força e a fraqueza. O necessário equilíbrio entre a razão e a emoção é muito difícil, mas não é impossível. É preciso tentar compreender ao invés de culpabilizar. Pois amar é humano, demasiadamente humano!

9 comentários sobre “Ana Karênina

  1. Estou lendo Ana. Acho-a uma personagem típica, revelando-nos a opressão da época, seus costumes e valores que, do ponto de vista atual; inviáveis.

    O fato é que se trata de Tolstói. Ele não só ambienta o adultério, as aparências; mas fala da mundo agrícola em que estava submerso a Rússia. O romance é bem estruturado e nos faz refletir sobre os vários aspectos os quais a vida nos submete.

    Abraço!

  2. Professor, a senhora Regina perguntou o que o senhor “acha da monogamia”?
    Certamente o senhor não tem os meus 41 anos de casado com a mesma mulher – o senhor é bem mais jovem -, razão pela qual eu peço licença para dizer à srª Claúdia que uma vez um compromisso assumido ele deve ser obedecido.
    Lógico, um casamento (com papel ou sem) não é um contrato de compra e venda com cláusulas a balizarem este ato, mas também traz as suas exigências, sob pena de ser rompido antes do término estabelecido.
    Sua condição maior, aquela que une duas pessoas é o amor e, este sentimento, precisa ser alimentado com certa frequência.
    Não existe outro combustível (alimento) para mantê-lo vivo que não seja o respeito. Quem ama – como dizia a célebre frase de um filme antigo, que levou milhões de pessoas a chorar ao seu final – é jamais ter de pedir perdão!
    Penso que é assim mesmo; não pode haver desculpas para quem faz juras de amor e depois sai traindo a “amada” com outras “amadas” de ocasião. Então não há amor.
    Em termos físicos somente, é claro que homem e mulher desejam inúmeros parceiros durante as suas vidas, e até mesmo casados, mas é na ilusão, no sonho, no desejo, haja vista que a realidade é diferente do que imaginamos. Cabe aos amantes, onde a sinceridade deve estar presente em todos os momentos, acertarem seus ponteiros, de modo a encontrarem mais prazer naquela relação ou emoção ou vibração ou algo que fuja ao cotidiano. Entretanto nada pode superar esta união que não seja o verdadeiro amor ou o mais próximo que podemos chegar perto, pois ele compensa deficiências dela ou dele, ele equilibra possíveis distorções, ele dá sentido à permanência juntos.
    Se o alimento do amor é o respeito, faz-se necessário um encantamento.
    Sim, queremos sempre que a nossa história de amor seja um conto de fadas, um momento mágico, que transcenda uma simples relação e, este encantamento, que precisa estar presente chama-se admiração.
    Este componente será o brilho da relação que ofuscará qualquer opacidade momentânea, qualquer rusga, qualquer desencontro.
    A admiração tem de ser autêntica e não requer grandes qualidades, às vezes um pequeno detalhe basta.
    Mas tem de causar impacto suficiente para ocasionar na outra pessoa ela ser obrigada a agradecer diariamente ter encontrado alguém inigualável, pois as comparações serão feitas sempre, inevitavelmente, e ela precisa se sobressair das demais.
    Bom, se a relação tem amor, respeito e admiração, acredito que a monogamia será uma consequência natural, haja vista que somente uma pessoa com problemas de ordem mental irá querer arriscar perder o seu amor por uma aventura ou por uma noite (pode ser de dia) ou por um encontro fugaz.
    Agora, existem pessoas que dão mais valor em atender o que o corpo lhes pede que o coração; que pensam ser mais importante um conceito altamente discutível de “liberdade” que manter estável uma relação; que se justificam ter o direito à “felicidade” mesmo que ela signifique passar por cima de sentimentos alheios; que imaginam que desta forma, de troca em troca, vão encontrar a sua alma “gêmea”!
    Ah, e não adiante escolher, pois o amor não se apresenta racionalmente, ao contrário, muitas vezes ele causa surpresas inimagináveis, justamente pela condição de pertencer aos humanos, seres contraditórios, confusos, insatisfeitos e incompletos.
    O amor, o respeito e a admiração fazem uma terraplenagem nessas saliências de nossas vidas e, as pessoas que se amam, transitam de mãos dadas por cima delas, pois se completam, se satisfazem, se acertam e passam a ter certeza do que estão fazendo unidas para toda as suas vidas.
    Difícil?
    Muito!
    Afinal de contas encontrar um amor e que este seja recíproco não é muito fácil, precisamos de predicados, de qualidades, de coragem e desprendimento.
    Os pensamentos não mais serão exclusivos e o egoísmo será expulso como a erva daninha em uma plantação.
    O bem comum passa a ser a chave da alegria, da harmonia e da paz.
    A monogamia é essencial à natureza do ser humano pelos valores morais e éticos nele contidos, desde que esta escolha seja verdadeira.
    A partir deste pressuposto, então, a pretensa necessidade de encontrar em outra pessoa a felicidade tão almejada deixa de existir, pelo simples motivo que passa a ser ela também a razão da felicidade desta que encontrou.
    Este encontro de intenções e de sentimentos perdura, pois eles são verdadeiros, e jamais irão ser substituídos.
    Sim, ainda existem relações deste tipo, portanto, monogãmicas, e são elas que chancelam uma união entre duas pessoas que se amam de fato.

  3. Considero a literatura russa verdadeiramente extraordinária, sendo a mais densa e que aborda com propriedade as questões humanas mais íntimas.
    Eu sempre gostei de ler Tolstói, e Guerra e Paz fiz vários trabalhos sobre este magnífico painel da sociedade russa no colégio.
    Dostoiewski foi tão importante que a sua obra maior, Crime e Castigo, serviu para profundos estudos da psicanálise no que diz respeito ao remorso.
    Dr. Jivago, de Bóris Pasternak, foi um romance espetacular, a ponto de ter sido feito um filme sobre ele de estrondosa bilheteria, na década de sessenta.
    Soljenitsin, ganhador de um prêmio Nobel de Literatura, com seu Agosto 1914, autor de Arquipélago Gulag, O Pavilhão dos Cancerosos, foi um dissidente do sistema comunista soviético que mostrou os horrores porque passavam aqueles que criticavam o regime russo.
    Lembro-me quando comprei Agosto 1914, e a descrição que o autor faz de uma sopa que se comia fria, com uma capa de gordura, e os detalhes de sua feitura, cozimento e armazenamento, surpreendentes em seus detalhes.
    Máximo Gorki, Gogol, Turgueniev, e tantos outros escritores fantásticos, caracterizam a literatura russa como vibrante, apaixonada, patriótica, um amor pela mãe russa inigualável.
    O romance Anna Karênina iria realçar sobremaneira esta escola de escritores fantásticos e únicos.
    Possivelmente no mesmo nível desta obra de Tolstói esteja Madame Bovary, de Flaubert.
    Bela lembrança, professor.

  4. Ozai, li com prazer seu artigo, tentando me lembrar de minha propria leitura desse romance, que remonta a… nem sei mais.
    O que queria lhe dizer é que eu acreditava ter lido nessa mesma época “O idiota” de Dostoievski, na velha coleçao da Editora Globo, de Porto Alegre, traduzido por algum de nossos grandes escritores através do francês. Ora, estas traduçoes francesas sao totalmente renegadas hoje em dia, e todas ja foram refeitas. Por acaso tive oportunidade de ler ultimamente esse deslumbrante romance, desta vez na traduçao de André Markovikcz – e lhe garanto que foi uma grande surpresa e acho que a primeira vez que tive realmente acesso a Dostoievski
    Sei que no Brasil esta havendo também traduçoes mais bem cuidadas e feitas diretamente do russo – espero que você tenha tido aceso a uma destas – garanto-lhe que nao é a mesma coisa.
    grande abraço,.

  5. Ana Karênina expoe os dramas humanos da modernidade de forma realista. Por isso revolucionária, em especial, devido as circunstâncias, contradições inerentes a Rússia Csarista.

    No mais, acho que sua universalidade reside na projeção (devir) humano-societário, no qual, prevalece as inclinações de indivídualidades postas integralmente em suas relações recíprocas.

    Bela indicação,
    Grande Abraço,

    Vinicius Oliveira

  6. Ótima reflexão. Muitas pessoas com senso comum, provavelmente fariam uma análise simplesmente romantica de uma história assim, sem nenhuma reflexão proveitosa.
    Mas pra quem conhece o mundo atual e sua estrutura como ele realmente é, como é o seu caso, até de um romance, faz uma reflexão positiva e verdadeira sobre os homens e sua complexa existência composta também por razão e emoções.

  7. Sim, mas se isso acontecesse com você…sua esposa. Você a libertaria para ser feliz? Sem puni-la no que ela mais ama, seus filhos? Isso sem esquecer que ainda temos resquícios machistas…talvez até mesmo com o consentimento da própria mulher…seu modo de criar seus filhos…embora as novas gerações estejam mudando…não esqueçamos os crimes passionais do quotidiano…temos muito a trilhar em busca dessa igualdade responsável.

    Rose Palmeira

  8. Antonio
    Muito bom dia
    Obrigado por estar a nos enviar teus artigos,
    Problema brasileiro a falta de leitura. Os livros permanecem com custos elevados, diante do poder (miserável) de compra da maioria da população, Mesmo os que frequentam as cátedras, fugam ao dever da leitura. Existem os que lutam para que isso mude, e nesse rol imodestamente te incluo. Quanto aos preconceitos existentes na Rússia dos Czares, observo que eles ainda estão presentes em nossos dias, principalmente em nosso país, sob o falso manto de se preservar a família, sem a ela se proporcionar emprego, saúde e educação.
    Um abraço
    Pedro 12/06/2011

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