Qual é o seu segredo?!

O meu amigo Walterego, ausente nos últimos tempos, resolveu dar o ar da sua graça e, sutilmente, comentou sobre a epígrafe do blog:

“Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio…” (Dostoievski)

Acostumei-me tanto a estas palavras que elas já passavam despercebidas. Nem recordava mais de qual obra dostoievskiana havia citado. O autor russo é um dos meus preferidos e li vários dos seus livros. Pesquisei nos meus arquivos e, então, encontrei: a citação é de Memórias do subsolo.[1] Relendo as minhas anotações compreendo melhor seu significado.

Embora sutil, o comentário do amigo Walterego não foi gratuito. O que ele delicadamente põe em relevo são os meus “segredos”. Quem não tem segredos que não ousa revelar aos amigos e nem a si mesmo? Quanto mais passa o tempo, mais recordações se alojam na mente. Há lembranças que guardamos com carinho e como um tesouro; outras são capazes de abrir feridas que imaginávamos cicatrizadas. São lembranças do subsolo que parecem deletadas, mas mantêm-se latentes em algum lugar dos subterrâneos do inconsciente, ainda que blindadas por uma espécie de proteção cerebral.

A conversa com o amigo Walterego instiga o resgate das reminiscências, fazendo-as emergir do esquecimento. Mas também carrega o risco de fender a blindagem e romper o dique protetor das lembranças represadas no passado. De qualquer forma, este não o espaço mais apropriado para expor “segredos”. É melhor, e mais prudente, se manter fiel à epígrafe. Talvez até seja demasiado ousado trazer essa reflexão à tona. Mérito do amigo Walterego por estimulá-la!

Por outro lado, é preciso contextualizar a epígrafe dostoievskiana. Memórias do subsolo, escrito à cabeceira de morte da sua primeira esposa, Maria Dmitrievna, e publicado originalmente em 1864, na revista literária Epokha, é um texto perigoso. O personagem-narrador é alguém solitário e angustiado: “Sou um homem doente… Um homem mau. Um homem desagradável. Ceio que sofro do fígado”.[2] É um pessimista, céptico. Sua crítica mordaz mira tudo e todos. Ele duvida da ciência e das superstições religiosas, da razão e da desrazão, mas, sobretudo, investe contra si mesmo e a própria consciência. Seu cepticismo é profundo!

Em minhas notas de leitura registro – e não recordava deste detalhe – que li parte da obra no Hospital, ao lado da minha filha Juliana – que se recuperava de uma cirurgia.[3] Imagino que a minha capacidade de concentração estava fragilizada. Porém, me conheço suficientemente para saber que não me identifico com o personagem-narrador in totum. Não obstante, sei que não saí ileso da leitura. Escolhi a epígrafe porque me parecia que cabia bem num blog sem objetivo academicista e com um estilo lingüístico intimista e menos formalista. Ao reler minhas anotações, vejo que a minha identificação tem mais a ver com a tomada de consciência sobre o real e o sofrimento que isto acarreta: “Juro-vos senhores que uma consciência muito perspicaz é uma doença, uma doença autêntica, completa. Para uso do cotidiano seria mais do que suficiente a consciência humana comum…”[4]

A consciência de si e da realidade na qual estamos inseridos nos faz sofrer. Talvez seja melhor ignorar, desconhecer, bastar-se com a “consciência humana comum”. No entanto, há um liame entre os vários níveis de consciência: os segredos. Todos temos os nossos segredos, ainda que sejamos seres completamente alienados. Quais são os seus segredos? É do humano que se trata. Eis a beleza das palavras de Dostoievski.


[1] Ver DOSTOIÉVSKI, F. Memórias do subsolo e outros escritos. São Paulo, Editora Paulicéia 1992, p.99. A obra é composta por três textos: Notas de Inverno sobre Impressões de Verão [inverno de 1862/63]; Memórias do subsolo [janeiro a maio de 1864]; e, O crocodilo [meados a outubro de 1864].

[2] Idem, p.65.

[3] Foi uma das minhas leituras na fase de doutoramento. A literatura ajudou-me a superar as dificuldades inerentes ao trabalho de pesquisar e escrever a tese.

[4] Idem, p.68.

5 comentários sobre “Qual é o seu segredo?!

  1. Antonio Ozai, não consigo imaginar a vida sem segredos, ainda que não revelados podem ser relevados, quando de dentro do ser vem a vontade de superar seus proprios medos, desiluções dentre outros, como seria o mundo interior sem a tentativa de mudança? ainda que com segredos que possam ser desvendados por si, ou por alguem que por mera coincidência venham a ser divulgados, não revelar para “amigos” é um cuidado em preservar a sua particularidade

    Elisangela Andrade Garcia.

  2. Caro Ozaí,
    Essa reflexão é instigante, e nos leva a tentar rememorar sobre as lembranças que nos angustiam. Halbwacs já constatava que a memória é seletiva, mesmo a memória coletiva. Constrói e reconstrói versões aceitáveis dos acontecimentos.
    momento terapia de grupo:
    Quisera eu poder apagar, esquecer definitivamente acontecimentos e segredos que, se relembrados, ainda provocam certa aflição. Em dois anos de psicanálise pré conclusão da tese (SP), cheguei ao avanço de descobrir as origens de algumas inseguranças. Como você, sou de origem simples, sempre estudei em escola pública e sabemos que as classes populares não alimentavam o sonho do ensino superior e menos ainda um doutorado. Chegarmos lá requereu uma superação de limites pré-estabelecidos socialmente. E continuamos avançando para além das nossas inseguranças…

  3. Acho que todo ser humano tem medo de seus segredos. Eu tenho medo dos meus. Tem segredos que nem eu gostaria de saber. A alma, esse tormento.

  4. Ozai: Esta e’ uma passagem realmente famosa e inesquecivel. A vida de qualquer pessoa, para quem nao quer enlouquecer, tem que ser um exercicio de “esquecimento criativo.” Todos nos esquecemos, temos que esquecer, para poder pensar, construir nossa identidade pessoal, nossa historia. Caso contrario, seremos como o personagem Funes, do conto “Funes, el memorioso,” de Borges, cuja memoria era “um latao de lixo,” e que o tornava “incapaz de pensar.”

    Mas nao acredito na “consciencia humana comum.” Que seria isto? Retalhos de noticias e coisas acontecidas “de fora” da nossa vida pessoal?

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