Casamento, amor e sexo (leituras foucaultianas)

para a minha mãe, Dona Margarida!

Pasan los años
Y como cambia
Lo que yo siento
Lo que ayer era amor
Se va volviendo otro sentimiento
(Pablo Milanés)

A leitura da obra de Michel Foucault[1], me fez refletir sobre o casamento em geral. Eis algo que parece natural e perene. A julgar pelo senso comum, existe desde os tempos imemoriais, está relacionado ao amor romântico[2] e ao sexo autorizado e legitimado pelos valores sociais, culturais e religiosos predominantes.

Naturalizar o casamento, e tomá-lo como algo que sempre existiu da mesma forma e com o mesmo caráter, é desconhecer as mutações históricas e culturais ocorridas no tempo e no espaço. Um breve olhar pela história mostra que esta instituição, a exemplo da família, teve diferentes significados relacionados aos diversos contextos culturais, sociais, políticos, etc. As motivações e os aspectos que o casamento assume na antiguidade greco-romana são próprias da época, e, inclusive, se considerarmos os diferentes grupos sociais, diferencia-se no mesmo tempo histórico.[3]

Na Grécia antiga, o casamento era uma prática “destinada a assegurar a permanência do oikos[4], cujos atos fundamentais e vitais marcavam, um, a transferência para o marido da tutela exercida até então pelo pai e, o outro, a entrega efetiva da esposa ao seu cônjuge.[5] Ele constituía, portanto, uma “transação privada, um negócio realizado entre dois chefes de família, um real, o pai da moça, e o outro virtual, o futuro marido”; esse negócio privado era “sem ligação com o a organização política e social”.[6]

Seria preciso analisar como o casamento foi concebido e praticado na transição para o feudalismo, na sociedade burguesa e nas experiências autodenominadas socialistas. O enfoque é o ocidente! Se levarmos em conta as culturas orientais e o mundo islâmico, então, é ainda mais complexo. Iludimos-nos ao universalizarmos o “nosso modelo”.

Não é possível aprofundar o tema neste espaço. Trata-se apenas de uma reflexão! Não obstante, emergem algumas questões: em que medida o casamento ocidental moderno mantém elementos de continuidade e de ruptura com o passado? É possível afirmar que a idéia de amor que temos no ocidente é a mesma em qualquer contexto cultural-social ou é uma construção histórica? Em que se fundamenta e como evoluiu a idéia de que as relações sexuais só são autênticas se sancionadas pelo casamento? Por que? E quando o casamento sanciona e impõe a relação sexual como um “dever matrimonial”, mas inexiste o sentimento de amor? E se a atividade sexual do casal não leva ao prazer recíproco, inexiste ou é insatisfatória? E se o orgasmo depende de relação extraconjugal, ainda que o casamento seja mantido? E se a paixão esmaece com o passar do tempo e os laços conjugais permanecem apenas pela responsabilidade mútua com a felicidade dos filhos? E se o avançar da idade metamorfoseou o amor romântico em um sentimento fraternal e de amizade? E se o que era amor se torna outro sentimento e a paixão é redescoberta no relacionamento extramatrimonial?

Casamento, sexo e amor não são sinônimos e nem sempre coexistem em harmonia. Pode ocorrer sexo no casamento sem a presença do amor; o contrário também é possível. Pode, inclusive, acontecer que um casamento seja mantido apenas pelo costume da convivência, numa relação de interdependência, sem sexo e unidos por um amor afetuoso. Por outro lado, não existem relacionamentos externos à vida conjugal nutridos pelo desejo sexual? Por acaso, o casamento é uma camisa de força capaz de impedir que novas paixões aconteçam? De qualquer forma, com amor ou sem amor, com sexo ou sem sexo, a tirania da opinião pública, o temor religioso, a culpa, o medo, a dependência econômica, etc., são fatores poderosos para manter os casamentos. Às vezes, é necessário insistir no casamento. Outras vezes, é preciso resignar-se. É compreensível.

São muitas as perguntas e as relações humanas são complexas. Há várias formas de amor e de amar. As respostas são diversas e até pode ser que não existam ou sejam insatisfatórias. Talvez a resposta mais comum seja a religiosa. Deixo-a aos cuidados dos pastores de almas, sentinelas da consciência e moralistas de plantão. O meu interesse é histórico e sociológico. Portanto, exige leitura, estudo e aprofundamento. Ler a obra de Michel Foucault é parte deste esforço.


[1] FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 2: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984; FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 3: o cuidado de si. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985; e, FOUCAULT, Michel. Ética, sexualidade, política. (Ditos e escritos V). Textos selecionados e organizados por Manoel Barros de Motta (Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006).

[2] A propósito, sugiro a leitura de Misoginia medieval e a invenção do amor romântico ocidental, escrito por R. Howard Bloch (Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995).

[3] “Na sociedade pagã, nem todo mundo se casava, longe disso… O casamento, quando alguém se casava, respondia a um objetivo privado: transmitir o patrimônio aos descendentes e não a outros membros da família ou aos filhos de amigos; e a uma política de castas: perpetuar a casta dos cidadãos” (Paul VEYNE. “L’Amour à Rome”, Annales, E.S.C., 1978, 1; apud FOUCAULT, 1985, op. cit., p. 81.

[4] Oikos significa casa; Oikonomia, “administração da casa”. Refere-se, portanto, à economia doméstica, a qual envolvia relações despóticas (senhores-escravos), relações pais-filhos e marido-mulher.

[5] Foucault se apóia em J. P. BROUDEHOUX, Mariage et famile chez Clément d’Alexandrie, Paris, Beauchesne, 1970, p.16-17; apud FOUCAULT, 1985, op. cit, p.79.

[6] Aqui, Foucault cita CL. VATIN, Recherches sur le mariage et la condition de la femme marieé à l’époque hellénistique, Paris, De Boccard, 1970, apud in idem.

15 comentários sobre “Casamento, amor e sexo (leituras foucaultianas)

  1. Olá Ozaí, tudo bem?!

    Sobre esse tema, deveras nenhuma elucidação melhor será dada que a dos preceitos bíblicos, onde realmente casamento, amor e sexo, são coisas diferentes, mas que só são plenas quando juntas em um só e mesmo compromisso entre duas pessoas. Mas, certamente a história e a sociologia têm coisas importantes a dizer a esse respeito. Anthony Giddens, em “A transformação da intimidade” teceu algumas críticas à Foucault, embora concordasse com ele no sentido de que se tratam de construções sociais. Para Giddens, o “amor romântico” surgiu na contramão de uma ordem dominante, mesmo como um fator “subversivo” de um discurso dominante. Para ele, está relacionado a uma reivindicação de autonomia feminina contra uma sociedade predominantemente machista. De fato, como ele coloca, o “amor romantico” era especialidade feminina e de uns poucos “homens ociosos”. Na contemporaneidade, segundo Giddens, as relações amorosas tem se tornado “relações puras”, uma vez que há um enfraquecimento dos valores morais tradicionais e religiosos. Essas relações, desvinculadas do compromisso de casamento e da reprodução, são voluntárias, sendo válidas até o momento em que proporcionam uma satisfação mútua. Essa ênfase que ele dá num “compromisso” pautado pela satisfação mútua, para Zigmunt Bauman, não passa de uma ilusão. De um fetiche da subjetividade aos moldes da “soberania do consumidor”. Para Bauman, não é mais (nem menos) que a lógica de mercado orientando as relações humanas. Quando duas pessoas concebem um ao outro como uma mercadoria que pode descartar sem maiores considerações quando lhe deixa de ser útil ou satisfatório, e assim partir para outra. Para ele, essas relações nunca são puras, uma vez que não há uma “responsabilidade mútua” de um pelo outro. Quando se é preciso apenas uma das partes para romper com o compromisso, a(s) outra(s) partes, em geral a parte mais fraca, sempre sai no prejuízo: são as “baixas colaterais”. Onde ficam os filhos na “relação pura”? Qual sua autonomia para se livrarem do ônus? E a parte “descartada”, como fica? Ele pergunta. No mais, salienta, “o amor nunca prometeu uma passagem fácil para a felicidade”, como Giddens tem suposto. O amor, diz, é uma relação construída com muita dedicação e esforço mútuos; é um compromisso muito sério, sentido pelo qual o casamento não deve ser banalizado. Embora Bauman seja um suposto judeu ateu, parece ter compreendido onde os preceitos bíblicos queriam chegar: que a relação sexual é sagrada, motivo pelo qual não deve ser profanada e tratada com leviandade; que o amor constrói e não destrói; “que o amor tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo sofre; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece” (I Coríntios, 13). Aliás, a esse respeito, fica a belissima canção de Renato Russo: “Monte Castelo”! Abraço, Douglas.

  2. Olá, Antonio. Aqui é o Beto que escreve desde Londrina. O assunto sobre o qual que você esboça ensaiar interesse/inquietude é realmente instigante e de-há muito objeto de intensa (e produtiva) controvérsia já seja no sistema universitário, em especial nas ciências humano-sociais e, quiçá há mais tempo, nos movimentos internacionais anarquista, socialista/social-democrata, comunista e trotskista. Não há como soslaiar contribuições como as de Alexandra Kollontai, Clara Zetkin, Flora Tristán; em muito anteriores ao assim-chamado movimento feminista de segunda onda ou o sufragismo burguês. Com todas as limitações científico-naturalistas da época histórica que lhe tocou viver, considero o ideário engelsiano ainda um clássico na crítica à crítica do casamento monogâmico e ao patriarcado. Gostaria de sugerir uma leitura interessante neste programa de pesquisa tentativo-exploratório que você consbustancia (e, generosamente, socializa) em seu blog: THERBORN, G. Sexo e poder: a família no mundo 1900-2000. Tradução de Elisabete Doria Bilac. São Paulo: Editora Contexto, 2006. 510p.

  3. Olá Ozaí… Li algumas obras de Foucault (“Vigiar e Punir’, “As palavras e Coisas”, “A ordem do Discurso” e “Arqueologia do Saber”), mas essas que você cita não li ainda, espero ler algum dia. As questões que você traz nos põe a refletir e vejo que, se antes o casamento era quase uma “obrigatoriedade” (social, etc..), hoje as pessoas podem optar pelo casamento ou não. Parece-me que a questão toca também nessa estranha necessidade que temos de ter alguém com quem compartilhar alegrias, tristezas, angústias…..Como já cantou o poeta “é impossível ser feliz sozinho”…

  4. Penso que o que fundamenta o casamento seja a espiritualidade, apesar de seu uso sócio-econômico ao longo dos tempos. Esse é o verdadeiro conceito de amor, de cunho espiritual, duas almas que se fundem, desaparecendo enquanto egos, numa jornada para o aprimoramento recíproco. De resto, tudo é impermanente e não tem consistência em si mesmo. Há algum tipo de ideal que vem de cima e está por detrás das formas, que permanece além da temporalidade, e que anima a união criativa. Todo processo de criação no campo das manifestações vem da união das polaridades. Assim acredito.

  5. Professor Ozaí, as perguntas que o senhor faz no texto acima serão repetidas indefinidamente.
    E, as respostas serão sempre as mesmas: sim e não.
    Foucalt deixou de lado as variáveis mentalidades do ser humano, seu poder de adaptação, suas prioridades, o que ele procura no casamento.
    O senhor sabe que muitas vezes a pessoa não gosta de revelar a sua intimidade nem para si mesma, portanto, o que a levou a se casar e se vai ser feliz ou não, satisfeita sexual ou não, são questões que dificilmente deverão ser respondidas a contento.
    Porém, o indiscutível é que o casamento é a maior aventura para homem e mulher.
    Dois seres absolutamente diferentes que se amam, em tese, vá lá, que precisarão entrar em sincronia, ajustarem-se sexualmente, dormirem juntos, conviverem na mesma casa, serem íntimos e afins, constituírem uma família, terem filhos, patrimônio, segurança, estabilidade emocional, brigarem, discutirem, torcerem para times diferentes, terem amizades que influenciarão na relação entre ambos, parentes que adorarão se intrometerem na vida do casal,
    dificuldades econômicas, desemprego, depressão, ouvirão o canto da sereia referente às tentações sexuais fora do casamento, sonhos de consumo que não conseguirão concretizar, frustrações, hábitos que com o tempo serão odiados por um e outro, momentos que não se suportarão, discussões intermináveis sobre a educação dos filhos, ela que reclamará do serviço caseiro, mesmo trabalhando fora, ele que se queixará do excesso de trabalho e que ela não lhe dá o devido valor, ciúme, desejos ocultos, que significam até onde ambos admitem fazer sexo, conduta adequada dos dois, comunicação se sincera ou dissimulada, enfim, NADA se compara ao casamento e suas dificuldades, que somente são compensadas pelo amor e paixão, pelo menos o ardor inicial.
    Eu tenho 41 anos de casado. Foi o ato mais importante que tomei na vida e pelas consequências posteriores, os filhos, três.
    Tenho uma família devidamente constituída, que muito orgulha a mim e a minha mulher.
    Vivenciamos por experiências as mais complicadas, difíceis, problemáticas. Mas conseguimos sobrepujá-las ao estabelecermos nossas prioridades, que não seriam as dela e nem as minhas, mas às da família, aquelas que contemplariam o bem comum.
    Sim, renunciamos inúmeras vezes aos nossos gostos pessoais em favorecimento à união, à harmonia, à paz dentro do lar.
    A nossa intimidade é tamanha que, se um de nós faltar, certamente não se acostumará com outra pessoa ao lado.
    Mas o fundamental é que os nossos filhos nos olham com admiração, com amor, compreensão e incredulidade, haja vista que seus pais estão juntos tanto tempo, que se gostam, que se bastam, que se completam.
    À noite, quando estamos deitados um ao lado do outro, de mãos dadas, fazemos uma pequena retrospectiva de nossas vidas.
    Ela, a minha mulher, com voz meiga, suave e carinhosa me diz:
    – Meu velho, valeu a pena, tu não achas?
    Eu fico contemplando o teto, pensando, milhões de situações me vêm à cabeça e respondo:
    – Sim, minha velha…mas eu não termino a frase!
    Ela pula da cama como uma onça bravia e berra:
    – Tá me chamando de QUÊ!!??
    Eu ainda necessito aprender alguns detalhes que impedem a felicidade plena!

  6. Professor o debate e interessante. Gostaria de viajar na sua analise histórica e sociológica, para responder algumas coisas que me inquietam nesta reflexão se o casamento é uma camisa de força capaz de impedir que novas paixões aconteçam. Porque o mantemos e achamos que o casamento monogâmico é a unica saída para vida social? acho que a resposta a essa questão e muito complexa do que tirania da opinião pública, o temor religioso, a culpa, o medo, a dependência econômica, etc. essas variáveis nao explicam os divórcios difusos, os femicidios, os homicídios nas relações conjugais. concordo que o sexo nao tem uma ligação direita com amor…mas se o casamento esta para a propriedade criativa do social. digo social nao no ser humano mas na construção social do ser humano, reputação, dignidade, com por exemplo pai da família do tipo homem ocidental. O sexo no casamento desempenha um fator oculto, que precisa ser bem estudado. para nao deixar um vazio vou avançar com apenas uma hipotes: o sexo no casamento representa a continuidade do amor…aquele amor que nao tem fim. ele representa a chave da forca escura do casamento. mesmo quando perde a sua função reprodutora. como explicar a medicação da viagra. Espero ter aberto o debate.

  7. Foucault teve seus grandes momentos como pensador. Mas quando escreveu A historia da sexualidade, estava mais pra la’ do que pra ca’. Algumas das reflexoes dele logicamente sao validas, mas outras, nem tanto. Nao e’ possivel crer-se que uma pessoa–nem mesmo foucault– escreve isento da sua propria historia pessoal.

  8. Talvez quando o texto é curto porém denso como este, seja mais eficaz, pois a leitura que você faz de Foucault da vontade de ir às fontes.
    As questoes, pertinentes, suscitam questionamentos sobre o proprio ponto de vista do leitor: e se o mundo nao foi sempre assim como minha curta vida, minha curta vista sempre imaginou, dentro da pequena moldura do meu universo familiar, religioso, cultural?……
    Parabéns, professor, pelo alargamento das nossas interrogaçoes.

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