Estamira Gomes de Sousa

“Tudo que é imaginário, existe, é” (Estamira)

Com roteiro e direção de Marcos Prado, Estamira é um documentário sobre uma senhora com 63 anos de idade, com distúrbios mentais, que trabalhou por mais de 20 anos no aterro sanitário do Jardim Gramacho, local que recebia cerca de 8 toneladas diárias de lixo produzido pelos cidadãos e cidadãs da cidade do Rio de Janeiro.[1] O documentário recebeu várias premiações, no Brasil e no exterior.[2]

O objetivo, aqui, não é fazer análise cinematográfica, nem resenha crítica do documentário. Não é a minha praia e muito já foi escrito. Quero apenas compartilhar com o leitor algumas impressões. Claro, não é um olhar despretensioso, indiferente ou neutro; sou consciente que o meu olhar traduz a minha experiência de vida, em seus aspectos pessoais e acadêmicos.

E talvez seja por ter desenvolvido um olhar político e sociológico, pois, afinal, faz parte da minha formação humana e intelectual, que fique a matutar sobre os motivos que levam alguém a filmar uma história como esta. O diretor Marcos Prado responde, em parte, a esta indagação: “No ano de 2000, seis anos após ter iniciado meu projeto, esbarrei com uma senhora sentada em seu acampamento, contemplando a paisagem de Gramacho. Aproximei-me dela e pedi-lhe para tirar o seu retrato. Ela me olhou nos olhos consentindo e disse para me sentar a seu lado. Conversamos por um longo tempo. Estamira era seu nome. Contou que morava num castelo todo enfeitado com objetos encontrados no lixo e que tinha uma missão na vida: revelar e cobrar a verdade. Nos tornamos amigos. Um dia, tempos depois de conhecê-la, ela me perguntou se eu sabia qual era a minha missão. Antes que eu respondesse, Estamira disse: “A sua missão é revelar a minha missão.” Decidi fazer um documentário sobre a vida dela.”[3]

E, de fato, Estamira conquista pela simpatia. Sua fala, muitas vezes desarticulada e sem sentido, também demonstra um lado lúcido, questionador e revelador das mentiras e hipocrisias que nos cercam e que, muitas vezes, constituem os castelos imaginários que nos oferecem a segurança de que precisamos tanto. Talvez a verdade seja enlouquecedora. O discurso de Estamira, ainda que entremeado pela ira legítima de quem sofreu dramas que deixaram marcas na alma e no corpo, revela uma certa sabedoria sobre o mundo, os que a rodeiam e os que, sob o manto da razão, são responsáveis por cuidar da sanidade mental dela.

Os depoimentos de Estamira e dos seus familiares rondam a miserabilidade humana. Sua história de vida mescla-se com as cenas da miséria dos que, como ela, vivem literalmente do lixo produzido por outros seres alheios à produção social dos resíduos materiais e humanos. Estamira, em sua lucidez, compreende o significado deste trabalho e dos trabalhadores, seus companheiros e companheiras de jornada. Percebe o grau de escravidão a que estão submetidos. Sua fala, portando, é reveladora das condições sociais que historicamente produzem seres humanos como ela.

Estamira chama a atenção pela rejeição a Deus. Ela mostra-se irritada nas situações em que tentam convencê-la sobre as verdades da religião ou simplesmente fazem referência à existência de Deus. “Quem fez Deus foi os homens”, afirmou ela. Sua fala, imagino, deve escandalizar os crentes mais fervorosos. Não obstante, eu a compreendo. Talvez este tipo de “loucura” seja necessário para romper o véu das nossas ilusões.

Estamira Gomes de Sousa faleceu na quinta-feira, 28 de julho de 2011, no Hospital Miguel Couto, na Gávea, zona Sul do Rio de Janeiro, em decorrência de infecção generalizada. Deixa-nos suas palavras e os ensinamentos de uma loucura permeada pela lucidez.

Ps.: Agradeço ao Alex William Leite pela sugestão…


[2] No Site oficial constam trinta e três (33) prêmios e reconhecimento em festivais de cinema: http://www.estamira.com.br/

6 comentários sobre “Estamira Gomes de Sousa

  1. Este filme propicia uma reflexão sobre a realidade social que muitos brasileiros enfrentam cotidiamanente. Parabéns pela escolha do tema discorrido.

  2. Pelo Brasil afora existem várias ESTAMIRAS e todas são do conhecimento do povo e, principalmente, do “poder” público que praticamnete em todas as instâncias, cerca de 99,99999%, são compostos po corruptos que não deixam o país crescer e dá vida digna as pessoas.

  3. O que me deixa perplexo e não acreditando nos prêmios e elogios que este filme recebeu – e inúmeras pessoas devem ter se emocionado ao vê-lo, certamente – é que a vida de milhares de brtasileiros que vivem do lixo continua a mesma!
    Paradoxalmente se esta senhora que faleceu – o comentário sobre ela mereceu prêmios da crítica, merecidamente -, o resto de nós todos deveria ser chamado à razão pela demonstração de insensibilidade e alienação diante do fato que seres humanos vivem de dejetos, do lixo, de porcarias!
    Mas, não, preferimos aplaudir o filme que mostrou a miséria humana; enaltecemos a obra de arte; ficamos entristecidos pela vida que a Estamira teve, e daí?
    Por acaso estamos fazendo algum movimento para que este tipo de existência miserável termine?
    Estamos tendo a devida consciência que também somos responsáveis por essas vidas que ofendem a diginidade humana?
    Eu custo a acreditar que somos tão alienados a este ponto, enquanto que enxugamos as nossas lágrimas de crocodilo ao sair da sala de cinema, e cinco minutos depois estamos nos deliciando em bares e restaurantes e comentando a “beleza” de comentários que assistimos, as pessoas que estão fuçando no lixo continuam lá, à procura de algo para comer, para vender, para colocar em seus casebres, que sirva para os seus filhos e velhos.
    Credo, que disparate!
    Será que já somos tão cínicos e hipócritas assim?
    E o poder público onde está?
    Bom, eu sei, aliás, todos nós sabemos, então por que não convocá-lo e exigir que tome providências a respeito deste descalabro?
    Ou será mais “elegante” ver e comentar filmes realistas do que efetivamente exercermos a nossa cidadania a pleno?
    Eu estou envergonhado, humilhado e ofendido a cada elogio que o filme sobre esta senhora recebe.
    No entanto, curiosamente eu vejo e constato vários movimentos que se denominam “sociais”, políticos, reivindicatórios (gays), e não vejo NENHUM no sentido de ajudar efetivamente essas pessoas que vivem e comem restos e lixos deixados por nós e por esta turma que adora bater em tambor e berrar pelas ruas afora de forma inconsequente.
    O que está nos faltando para nos mobilizar em prol de melhorias para esta gente tão necessitada?
    O que nos impede de nos reunir e ajudar esses seres humanos que vivem piores que os animais?
    Agora, o que eu não posso admitir é bater palmas para um filme e elogiar a “vida” de uma senhora que só conheceu a miséria, e deixar que esta situação de vergonha continue, sem que nada se faça para resolvê-la.
    Repito: inversamente proporcional aos elogios que este comentário recebeu, deveríamos ser duramente criticados pela nossa inércia, insensibilidade, cinismo, alienação e despropósito.

  4. Obrigada por nos comunicar o falecimento dessa senhora cuja humanidade foi revelada e engrandecida aos olhos de tanta gente pelo excelente documentario de Marcos Prado.
    Meus pêsames a nos todos que a conhecemos e que por um momento tivemos a oportunidade de entrar nesse “continente negro” a que a sociedade de consumo relega o que é incapaz de reciclar. “Continente negro” era como Freud chamava a psique feminina, para ele obscuro, misterioso, perigoso – o desconhecido criado pela vivencia à margem, sem canais de expressao legitimados – acho que cabe essa aproximaçao, em face da soluçao achada por essa mulher tao forte que foi obrigada a enlouquecer para poder falar do mundo do lixo, unica parte que lhe coube no latifundio urbano.
    Nao é a verdade que é enlouquecedora – essas montanhas de lixo que produzimos sao a monstruosa metafora do cruel desperdicio em que vivemos, da mentira que limita nossos horizontes a racionalidades mancas e grandes projetos falaciosos que ignoram o quanto destruimos e o quanto recobrimos com a parte louca, a parte destinada a ser jogada fora, cujo volume é maior do que a parte realmente consumida. Isso é loucura e é nesse sistema que vivemos. A parte que nos cabe nessa partilha imoral, quer queiramos ou nao, é a ‘grande bouffe” em que nos empanturramos enquanto outros morrem de “infecçao generalizada” nos gazes mortais desse amontoado de podridao.
    Quanto a essa historia de Deus ser uma invençao humana, que o homem cria Deus à sua imagem e semelhança, ja ouvi isso em algum lugar… Talvez as sinteses luminosas expressadas por Estamira sejam um bom exemplo do quanto perdemos ao erigir a medianidade do pensamento que nao vai ao fundo das coisas em norma de comportamento – e de planejamento – consumistas.
    Parabéns a Antonio Ozai da Silva pelo excelente artigo.
    Abraço,
    Regina

  5. É dessa “loucura” que estamos em falta. É dessa “lucidez” que carecemos. Nossa!
    Otávio Martins.

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