Trabalho intenso na pós-graduação: servidão voluntária?

Os professores vinculados à pós-graduação vêem-se pressionados a atingir metas e obedecer a critérios definidos por outros alheios aos programas que participam. No frigir dos ovos, o que importa não é a qualidade do aprendizado, da formação dos mestrandos e doutorandos, mas sim cumprir as exigências da Capes. Os fins são substituídos pelos meios. Disso depende a quantidade de bolsas, reconhecimento do programa, etc.

Por que determinadas práticas tornam-se predominantes na universidade, especialmente na pós-graduação? Por que os docentes introjetam a ideologia produtivista de forma acrítica e “natural”? Por que o ethos acadêmico é essencialmente pragmático e de índole mercantil? O que explica a servidão voluntária de indivíduos considerados cultos aos ditames do produtivismo e do poder burocrático? O que ganham e o que perdem ao se submeterem? Por que mesmo os que são nitidamente prejudicados aceitam resignadamente e não organizam a resistência?

Se tais práticas predominam no campus é porque atendem a determinados interesses. Acomodar-se é garantir parte do provento. O ethos akademikós corresponde a uma estratégia legítima. Há os que pautam suas práticas pela mais valia dos bens simbólicos (status, distinção, poder, etc.), pelos ganhos reais (recursos públicos e privados) e se sujeitam às exigências para atingir tais objetivos. São os plenamente adaptados, dispostos a pagar o preço requerido pela competição fomentada pelos que ditam as regras do jogo.

É correto ver os beneficiados como vítimas? Parece que é uma adesão consciente; uma opção e, como em todas, há bônus e ônus. Como negar o direito de optar? Se o indivíduo, excitado pela disputa, está disposto a qualquer coisa para vencer o jogo – até mesmo a vender a alma e comprometer a saúde física e espiritual – não é seu direito? Pode alguém acusá-lo pelo desejo de possuir mais capital simbólico e o vil metal? Tal crítica não é coisa de espíritos ressentidos? O individualismo e os valores predominantes na sociedade competitiva legitimam-no. É melhor deixá-lo em paz!

Há também os que vivem a se lastimar pelo excesso de exigências, das tarefas a cumprir, etc. Mas também resignam às estruturas burocráticas e à ideologia que influenciam o cotidiano das nossas vidas no campus e no ambiente familiar – e se sentem à vontade para cobrar dos que se recusam a “jogar o jogo”. A despeito dos reclamos e choramingos, se submetem porque não são capazes de abrir mão dos bens simbólicos e materiais a que têm direito enquanto partícipes do “jogo”. Reconheçamos, é uma atitude tão legítima quanto qualquer outra. É uma estratégia motivada por interesses igualmente legítimos.

Há, ainda, os que não aceitam as regras do jogo e se recusam a jogá-lo. Claro, também pagam o seu preço – por exemplo, viver apenas do salário, não ter FGs, bolsa produtividade, o status de professor da pós-graduação, etc. Não é tão legítimo quanto as demais estratégias? Eles também têm motivações legítimas Deixemos-lhes em paz. Até porque, na medida em que se recusa a competir e a “jogar o jogo”, é um concorrente a menos.

Não obstante, por que os docentes envolvidos com a pós-graduação não resistem às imposições? Por acaso, a culpa das circunstâncias em que se encontram é dos que não estão na pós-graduação? Os que aderem aos programas de pós-graduação são vítimas do sistema ou simplesmente aceitam a servidão voluntária, porém interessada? Até quando suportarão?

Se decidirem enfrentar o poder burocrático que nutrem cotidianamente terão o apoio dos colegas da graduação. Mas, por favor, direcionem seus reclamos para o alvo correto e não nos culpem por suas desgraças.

12 comentários sobre “Trabalho intenso na pós-graduação: servidão voluntária?

  1. Bem,lá vai uma torrente de superficialidades,mas lá vou eu.Weber diz que a dominação é um processo que depende de dois agentes que relacionam-se reciprocamente:o dominado só existe porque existe o dominante/dominador(?),e vice-versa.Como gostam alguns,é fácil se conformar com uma ajudinha de 700 pau por orientado(S-E-T-E-C-E-N-T-O-S pau é o que eu ganho trabalhando 8(O-I-T-O)horas por dia.Não,não são oito horas por SEMANA.Sem pensar nos miseráveis que sequer têm o que comer.Sem pensar na velhinha que vi dormindo na rua outro dia,nesses dias de frio brabo.É fácil se vender:basta ter alguém que compre.

    Que pena dos pobres meninos ricos da docência e tal!!!Que pena que eles têm que trabalhar(sic)8(O-I-T-O)horas por semana!!!!Coitados desses pobres

    A propósito,é uma coisa que tem me incomodado ultimamente,e que me irrita,embora não devesse dar a mínima porque não é da minha conta.Mas aí eu lembro que a gente vive em grupo,aparentando ou não.

    Sei lá se tem como categorizar a situação desses pobres ricos da docência,mas eu lá sou cientista,e eu lá sou obrigado a corroborar com o cientificismo.Eu quero é mais que Weber se exploda junto com os weberianos.

    Pensava eu,que esses pobres ricos da docência estão num estado de alienação.Não sou nenhum devoto de Marx,mas acho que alienação,dentro da concepção marxiana,refere-se ao estado do indivíduo,onde este está subjugado,dominado,por aquilo que ele próprio constroi,produz etc.Parece ser o fenômeno por que passam os pobres ricos da docência.E pior,alguns se dizem marxistas,anarquistas,libertários e o diabo a quatro.Mentira,né gente!?!!!

    Discutia eu,hoje,com um colega da graduação,qual o motivo dessa crise de identidade.Ele pontuou que o problema era por conta do fim da história(sic),a dispersão das relações(sociais,de trabalho,familiares etc)e a supremacia da ideologia ultra-liberal.

    Coitados dos indivíduos!!!Não dos pobres ricos da docência.Eles são indivíduos conscientes do mundo em que vivem,ganham bem,o suficiente para não se prostituírem.Não,eles não devem ser militantes políticos e nada que não queiram,só sejam sinceros consigo e com seus interlocutores:eu não sou marxista,anarquista e nem nada,e o mundo é lindo do jeitinho que está.

    O que a gente precisa para superar essa crise por que passa a humanidade – mais uma,e que não começou,sempre existiu – é dizer quem é quem no mundo:quem é fascista,levanta a mão!!!!Quem é socialista,levanta a mão!!!Quem quer essa merda de mundo,levanta a mão!!!Quem quer mudar o mundo,levanta a mão!!Quem acha que,talvez,pode ser,a culpa seja do caráter animal do humano,vá pro inferno!!!!Quem não aceita hipocrisia,vamos pra luta,antes que os fascistas se organizem!!!!!

    Basta isso para,nem Capes,nem nada mande nas vidas ricas dos pobres docentes(ou seria o contrário(?)

    A ciência é mentirosa:ela trabalha para alguns,em detrimento da desgraça da maioria.Weber é um mentiroso.Quem acreditar neles deve ser alienado.

      • Na verdade eu estava questionando o comentário do Sr. Carlos Rico, mas acho que não há a ferramenta de diálogo entre os leitores… seu post em si ficou bem claro, Antonio Ozaí. Abraços!

      • Caro Rafael,

        boa noite.
        Peço desculpas, o erro foi meu: passou despercebido que era para o Carlos Rico. Quanto ao diálogo entre leitores, é possível. Mas depende do leitor querer (ele pode ativar para receber os comentários no post e, assim, responder). Em suma, depende apenas do leitor querer. Espero que o Carlos te responda. Mais uma vez, desculpe pela falha.

        Abraços e tudo de bom

  2. E nesse assunto vão emergindo outras coisas associadas. Lembro aqui da LDB, do capítulo sobre ensino superior. O que se lê no Art. 57 “Nas instituições públicas de educação superior, o professor ficará obrigado ao mínimo de oito horas semanais de aula.” Muitas interpretações apontam que esse mínimo estaria restrito à graduação. Os legisladores da UEM levam a LDB em consideração?

  3. Acho que tudo já foi dito, no fim é uma questão de status, as pessoas competem para ver quem tem mais poder e mais renome, nunca se pensou nos estudantes em primeiro lugar, nem no tipo de impacto que a pesquisa pode ou não gerar na sociedade. No fim o professor de pós é tão alienado na produção quanto o burgues, ele não pode seguir um caminho diferente daquilo que o mercado indica por que senão ele corre o risco de se ferrar e acabar fora do mercado. E pelo que tudo indica continuaremos nessa toada enquanto não questionarmos todos esses dogmas e pensarmos em uma universidade e numa sociedade nova, sem competição sem padrões alienantes.

  4. Antonio
    Bom dia
    A competitividade nas instituições, organizações, empresas e mesmo no serviço público fazem a regra em nosso país. Situação que passa a justificar uma conduta que privilegia o “Eu” (individualismo) em detrimento do nós (equipe). Em se falando unicamente do Serviço Público observa-se que não temos regras objetivas que tratem do assunto (regramento jurídico de abrangência nacional). Infelizmente temos milhares de servidores (as) que recebem menos que o salário mínimo. Por outro lado temos alguns que ultrapassam R$ 70.000,00 mensais (O Estado de SP, 07/08/2011). Esta suposta “competitividade” que privilegiaria os que mais se esforçam, estudam e conseqüentemente em tese mais produziriam esconde na prática as enormes distorções existentes no seio do Estado brasileiro e infelizmente presentes também na sociedade. A nosso ver, em termos de Serviço Público há premente necessidade de se estabelecer pisos nacionais de salários e plano de carreira uniforme (estatocracia e meritocracia), que suprimam os privilégios de minoria em detrimento da maioria miserável. Sem essa oxigenação estaremos a manter um Estado de poucos, para poucos e premido pelo cotidiano dos escândalos.
    Cordialmente
    Pedro

  5. A palavra “jogo” foi muito bem empregada e me lembrou Homo Ludens do Huizinga. Que esse jogo não seja uma roleta russa! O tempo – e a saúde dos players – dirá…

  6. Muitas perguntas e uma reivindicação, contudo há que se indagar sobre o horizonte de possibilidades das práticas cotidianas de qualquer professor na universidade e lembrar-se das características heterogêneas, fragmentadas e desconexas que por meio da burocracia universitária exige – também como parte da estrutura da vida cotidiana – uma resposta imediata. Isto favorece o pragmatismo e o estranhamento de todos; meu e do blogueiro. João dos Reis Silva Júnior.

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