Sobre temas relevantes e atitudes irrelevantes!

No Mestrado cursei uma disciplina na qual os pós-graduandos apresentavam seus projetos de pesquisa. Foi muito interessante pois socializávamos nossas pesquisas e nos expúnhamos à análise e questionamentos. Recordo que um dos colegas expôs sua pesquisa sobre o significado dos alimentos nas religiões afros. Lembro dos sorrisos irônicos e comentários à boca miúda. Para muitos dos que se pautavam pelo materialismo histórico e dialético, temas como este não tinham importância. De fato, desqualificava e desrespeitava o colega e, por extensão, seu orientador.

De outra feita, recebi um email cujo remetente solicitava contribuições para um projeto de pesquisa sobre o futebol. Repassei a mensagem a alguns colegas com a esperança de que colaborassem. As minhas expectativas foram frustradas. Uma das respostas que recebi não apenas desqualificava a pesquisa como, ainda que educadamente, me dava um puxão de orelhas por “perder tempo” com tais coisas. Ora, se o pesquisador ingressou no programa de pós-graduação, tem quem o orienta, sua temática teve, portanto, o reconhecimento e a legitimação da instituição. Do ponto de vista acadêmico, por mais exótico e fora do lugar que pareça ao outro, é legítimo. Consideremos, ainda, considerar que o pesquisador dedica parte da sua vida a este objetivo e que envolve o orientador e recursos públicos. Merece, portanto, que seja respeitado.

Os relatos são do passado, mas, infelizmente, são atualizados pelas velhas e novas gerações. Tendo como motivação o Ano Internacional dos Afrodescendentes, lançado pela ONU, a Comissão Organizadora da IX Semana Acadêmica de Ciências Sociais, realizada na UEM, selecionou o tema geral “E a situação do negro no Brasil?”. Ao escolher tal temática, os organizadores consideram-na, é claro, relevante.

Ora, é legítimo que existam interesses temáticos diferentes e até mesmo que outros considerem seus temas os mais relevantes. Há quem prefira discutir o que acontece na Líbia a debater a questão racial no Brasil. Ok! Cada um tem o direito de investir a vida no que considera importante. Tem o direito, inclusive, de organizar eventos e, com certeza, encontrará apoio na instituição. Mas, por que não reconhecer o mesmo direito ao outro? Afinal, a universidade é um espaço plural e permeado por interesses contraditórios.

Se, ainda que sob a retórica ideológica, anula-se a manifestação dos que não se encaixam nos “ismos” que defendemos, então estaremos diante de uma perspectiva autoritária. Ou por acaso só os nossos temas são relevantes no campus? Divergências existem e ainda bem. Infelizmente, a cultura autoritária é renitente.

Temos o direito de divergir, mas será respeitoso desconsiderar a energia, dedicação e trabalho investidos na organização de um evento, apenas porque a temática não nos interessa? Na perspectiva dos envolvidos, os temas sempre são relevantes. Por que a questão racial é menos relevante do qualquer discussão abstrata fundada em “ismos”? Por acaso, eleger a obra de Marx ou de algum dos “herdeiros” como objeto de estudo e análise nos torna melhores e mais importantes que os demais? Será que nada temos a aprender com os outros? Se não participamos e boicotamos, abdicamos da necessária interlocução com o diferente. Esta atitude também nega a possibilidade de compartilharmos nossa análise e crítica com o outro. Todos perdemos!

Devemos aprender a conviver e respeitar-nos mutuamente! Precisamos cuidar para que as nossas divergências não nos ceguem a ponto de adotarmos atitudes irrelevantes com pompas de muita relevância. A obtusidade dos que erguem muros ideológicos intransponíveis pode se mostrar insana.

14 comentários sobre “Sobre temas relevantes e atitudes irrelevantes!

  1. Ozai. Voce toca na ferida narcísica do habitus universitário: quem decide relevãncia ou irrelevância para ser pesquisa? Primeiro, é preciso considerar que uma pesquisa “científica” deve partir de PROBLEMAS, e não de temas/ assuntos. Não existe assuntos relevantes/irrelevantes, mas PROBLEMAS ou PROBLEMÁTICAS QUE COBRAM SOLUÇÃO em forma de conhecimento sistemático. Portanto, apenas escolher um assunto ou tema, contribui somente para a realização de um “estudo sistemático”, que é bem diferente de pesquisa “científica” (que deve apresentar algo novo, um avanço de conhecimento). Segundo: parece existir hoje um certo desespero por parte daqueles que sempre dominavam o modo de pensar nas ciências humanas e sociais. Que bom para a sociedade, para a universidade e para a pesquisa CIENTIFICA ter gente que ousa ir para além do modo hegemônico e dogmático de pesar e de autoritariamente “obrigar” os alunos a escolher o que eles previamente escolheram como “certo” ou “relevante” para estudar ou pesquisar. Então, ainda resta alguma esperança…Parabéns! Raymundo.

  2. Prezado Ozaí,

    Parabéns pelo post! Excelente.

    Poucas coisas são tão danosas quanto uma esquerda autoritária.

    Nada é tão ridículo quanto uma comunidade acadêmica intolerante.

    Assembleísmo não é sinônimo de democracia.

    Cordialmente,

    Francisco Giovanni Vieira

  3. Olá Ozai… parabéns pelas palavras. Participei da semana no gt sobre educação e, como professora e pesquisadora do assunto, digo que grande foi minha decepção na participação dos acadêmicos nesse grupo de trabalho. Sinto que embora o numero de licenciados no curso tenham aumentado, o desprestigio da educação ainda afasta os estudantes das pesquisas relacionadas a essa área. Tivemos apenas dois colegas das C. Sociais/Uem apresentando trabalhos, um da UFPR e uma aluna do curso de Ed. Fisica/Uem. Talvez isso se deva um pouco a isso tudo que você colocou na sua fala. Acho que os nossos “ismos” acaba nos limitando no vasto campo do conhecimento que as Ciências Sociais nos oferece…Fica sempre aquela pergunta, afinal qual temática é relevante pra ser apresentada, pesquisada e “assistida”? Acho que defender a licenciatura dentro do curso tem que ir muito alem do discurso e isso se aplica a todos os temas.

  4. Antonio
    Muito boa tarde
    Vejo que mantens acessa a chama do debate. Nesse espaço repititivamente temos nos posicionada em defesa do ensino público, que este tenha qualidade e sobretudo por uma remuneração salarial adequada (Constitucional) as Professoras e funcionárias das Unidades educacionais. Nossa posição inclusive prioriza o ensino fundamental e médio onde a inclusão deveria ser o norte, ou seja todos tendo acesso a educação. No que tange ao ensino superior reiteramos o parecer de que este deveria (delirio?) cumprir papel de agraciar o debate e o pluralismo das idéias.
    Divulgada a pouco, portanto ainda na quentura, noticia dá conta que a leitura no meio universitário brasileiro ainda é deserto, quando em países como a India, a leitura já no ensino médio é rotina. Os estudos das matemáticas tb não é novidade para o estudante russos, Alunos oriundos de India, China, Coréia, Russia, tem se sobressaído nas escolas e universidades de países como os EUA. Não podemos em hipótese alguma fazer tabula rasa com nossas instituições de ensino superior, somente que milhares de estrangeiros nos últimos tempos (coisa de meses) tem ocupado setores chave de nossa economia e excelentes empregos aqui no Brasil. Será que há falta de gradudados, mestres e doutores no Brasil? ou nosso ensino deixa a desejar mesmo para os Capitalistas de plantão.
    Cordialmente
    Pedro

  5. Olá Prof. Ozaí,

    Seu texto leva a várias interpretações, já que cada parágrafo abre um leque de pressupostos para discussões mais profundas. Mas, infelizmente, não cabe expressá-las em um comentário de blog, tentarei ser sucinta.
    Concordo que há temas de muita importância sendo desconsiderados dentro da academia, de forma a serem até ridicularizados. Eu enquanto acadêmica vi e vejo isso em diversas ocasiões. Mas nesse sentido, entramos naquela velha pergunta que matuta em nossas mentes a tempos: para que(m) serve a ciência? Logo, a pesquisa científica? Como podemos ou devemos abordar determinadas questões de modo que tenham um resultado prático e transformador na sociedade, nosso principal “objeto” de análise?

    Na minha opinião a IX Semana de Ciências Sociais – onde cabe ressaltarmos que não houve participação/contribuição dos acadêmicos na organização por motivos já conhecidos e discutidos por nós (estudantes e organização da semana) – não abarcaria de forma muito crítica e objetiva a situação do negro no Brasil. É um tema delicado, qualquer palavra mal colocada aqui pode levar-nos a interpretações equivocadas que podem degradar (e muito) a discussão. Em particular, acho que a situação dos afrodescendentes deve ser discutida sim na academia, mas de modo que não dissocie a etnia, o gênero, e a classe, e não tendo como condutor histórias de superação e ascensão social. Uma outra problemática que vi, como citado por você e no próprio informativo da semana (que não constava os eventos realizados pelo Centro Acadêmico nos dias 12 e 13 da mesma, apesar de acordado que nossos dias seriam incluídos da programação), a ONU que lançou o Ano Internacional da Afrodescendência. Isso foi discutido no evento? A ONU promove a igualdade entre os homens?…

    Por fim, como disse,o texto abre para várias interpretações. Então cabe a mim enquanto acadêmica que não participou deste evento e estou também envolvida com o movimento estudantil da UEM, dizer que devido toda a discussão feita sobre o curso de Ciências Sociais no ano passado; devido todos os problemas e defasagens internas que cotidianamente são sentidas pelos estudantes de sociais; esta semana de eventos só demonstrou e reforçou para mim o que já víamos e vivíamos no ano anterior: o descaso em relação a opinião e reivindicações dos estudantes. Não pelo tema abordado, mas pelo modo como a semana de c.sociais foi pensada, projetada e realizada.

    Um abraço!

  6. Verdade inconteste seu comentário que reforça ainda quão distante estamos de nos resolver e resolver as questões que envolvem a questão racial, o preconceito cultural, a desinformação ou deformação Política. Em Roraima, a exemplo, a questão indígena ou indigenista e todo seu reflexo sobre a nossa população é um fragmento dessa realidade

  7. Gostei! Percebo que essa importância que as pessoas costumam dar mais importância às suas questões do que às alheias, é inerente ao ser humano, porém, acredito que um dia – com a evolução dos seres – poderemos apreciar as diferenças.
    Eneida

  8. Como professor (aposentado) de Sociologia, ouso uma hipótese: se isso não ocorre na Física, na Química, na Biologia, isto é, nas ciências “duras”, é possível que decorra da baixa autoestima das “Ciências” Sociais. Some-se a isso o complexo de “colonizados”, e temos uma camisa de força psicossocial das mais fortes. A se pesquisar, Ozai.

  9. Oi Ozaí, também acho desrespeitoso quando desqualificamos uma pesquisa baseada em “ismos”, mas também acho desrespeitoso eleger apenas temas que os professores decidem para a semana de sociais, sem participação dos alunos. Eu não boicotei, fui na palestra de sexta e gostei bastante, acho que a questão racial é bem importante, temos muito que avançar, mas poderia ter ocorrido maior diálogo com os alunos para a definição da Semana de Sociais. Por isso que não reprovo a atitude de quem boicotou a semana pela falta de diálogo, o que é diferente de quem boicotou por causa dos ditos “ismos”. Não sei ao certo porque isso ocorreu, pode ter sido falta de comunicação, de tempo, desencontro ou algo assim. Espero que ano que vem possa ocorrer uma semana de Sociais com mais participação dos alunos.

  10. Gostaria apenas de informar que sou membro do Grupo de Pesquisa Trabalho, Educação e Ontologia marxiana, UFAL e faço mestrado em educação – PPGE/UFAL, sob a orientação da Dra. Edna Bertoldo e minha pesquisa trata da educação quilombola sob a ótica marxiana. E que minha temática é seriamente aceita e discutida tanto pela orientadora, que já visitou comigo algumas comunidades quilombolas do nosso Estado de Alagoas, como ainda pelos amigos companheiros de grupo. Temos uma imensa diversidade de temas nos anais do III Encontro Norte/Nordeste Trabalho, Educação e Formação Humana, passando de temas afros a mil e uma coisas. Mas cada grupo é cada um. O nosso pesquisa de tudo um pouco, pois entendemos ser o marxismo útil e necessário para clarificar todo e qualquer problema que envolve a pessoa humana.
    Saudações, Bezerra.

  11. Muito bom o comentário Ozaí. Realmente a reação das pessoas diante de um determinado tema, considerando pouco relevante ou mesmo impróprio, inoportuno, ou seja lá mais o que de negativo, é algo que convivemos, algumas vezes de forma clara, outras em tom de brincadeira. Quando comecei minhas pesquisas enfocando as políticas públicas de atendimento à criança e ao adolescente no Brasil, além dos risos escutei comentários dos mais diversos e desqualificantes. Considero que os temas possíveis para uma pesquisa passa pela capacidade de imaginar do pesquisador, para depois buscarmos as fundamentações e que abrir mais possibilidades cria melhores condições para enfrentarmos os debates ideológicos e os disfarces de discursos, muitas vezes envernizados por temas, autores e palavras protetoras.

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