A experiência da leitura!

“O pior leitor é o passivo, resignado, que aceita tudo e lê o livro como uma receita ou bula para o bem viver. Este é o não-leitor” (Milton Hatoom). [1]

“Nunca se obrigue a ler um livro – é um esforço perdido” (Arthur Koestler) [2]

A experiência da leitura é essencialmente individual, sempre única e nova. Parafraseando Rousseau, que afirmava ser a vontade intransferível, ninguém pode sentir as minhas emoções e viver da mesma forma a minha experiência ao ler, por exemplo, A Mãe (Gorki), Pais e Filhos (Ivan Turguéniev), Anna Karenina e A morte de Ivan Ilitch (Tolstoi), Os Demônios (Dostoievski), Germinal (Émile Zola), Eugenia de Grandet e Ilusões perdidas (Balzac), A Revolução dos Bichos e 1984 (George Orwell), O zero e o infinito e Ladrões nas trevas (Arthur Koestler), Zorba, o grego (Níkos Kazantzákis), A leste do Éden (John Steinbeck), Pai patrão (Gavino Ledda), História do cerco de Lisboa, Ensaio sobre a Lucidez, Ensaio sobre a cegueira, A Caverna (José Saramago), Incidente em Antares (Érico Veríssimo), Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis) e tantos outros.

Como expressar o que senti ao ler cada um deles? Qual a influência que tiveram sobre a minha vida? Transformaram o meu ‘olhar’ sobre o mundo, a forma de relacionar-me com a realidade, comigo e com as pessoas próximas e queridas? Contribuíram para a formação política? Influíram na práxis docente? Tornaram-me alguém melhor, mais observador e sensível diante da miserabilidade da condição humana? Penso que sim. Esta, porém, é uma resposta que expressa a minha maneira de conceber a literatura e a relação que tenho com a leitura desde a mais tenra idade – quando lia, à luz do candeeiro, na cidade de Poção (PE), literatura de cordel.

Um dos aspectos essenciais da literatura é que ela nos fala diretamente, sem a necessidade de conceituação e análise interpretativa. Refiro-me à leitura desinteressada, mas que produz emoções, as quais podem nos marcar por toda a vida. Deixemos à teoria e crítica literária e à sociologia da literatura a tarefa de analisar. Este é o campo do leitor especializado, e não do leitor que simplesmente vivencia a experiência da leitura.

É interessante que não recordo das leituras na escola, indicadas por meus professores. A lembrança que tenho não é muito alentadora. Estava no colegial, como dizíamos naquele tempo, e nos foi solicitada a leitura de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Era uma tarefa, uma obrigação a cumprir. Foi uma experiência desastrosa e sofrível. Nem recordo se consegui ler até o final. A minha impressão foi péssima e muitos anos se passaram até que, por livre e espontânea vontade, li Memórias póstumas de Brás Cubas. Foi impactante! Suas palavras iniciais tornaram-se parte da minha filosofia de vida, pois elas sintetizam a condição humana e o absurdo das vaidades – tituladas ou não.[3] Um dos melhores livros que li. Tornei-me admirador do autor e li seus contos e outras obras, como O Alienista.[4] Confesso, porém, que não retomei a leitura de Dom Casmurro.

A vida nos ensina muitas coisas – basta disposição para aprender e esforço. Aprendi a melhor selecionar os livros. Os melhores foram os que li pelo prazer de ler. As leituras, porém, nem sempre podem ser feitas com prazer – muito do que leio está vinculado à minha práxis docente; a diferença é que consegui transformar isso num trabalho prazeroso. Contudo, esta não é a regra geral! O paradoxo é que alguns leitores precisam ser “incentivados”. A “obrigação” acadêmica de ler pode dar resultados positivos. Em determinados contextos, a indicação de livros, acompanhada de certo “estímulo” e “convencimento”, aumenta a probabilidade de isso ocorrer. Mas será que contribui para transformar os leitores em indivíduos melhores e cidadãos responsáveis?


[1] HATOOM, Milton. “Leitores incomuns”. EntreLivros 28, agosto de 2007, p. 44. Versão eletrônica disponível em http://www2.uol.com.br/entrelivros/artigos/leitores_incomuns.html

[2] KOESTLER, Arthur. O Iogue e o Comissário. São Paulo: Instituto Progresso Editorial, S. A., 1947, p.60.

[3] “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”, escreve o autor.

[4] Até me aventurei a escrever sobre a obra. Ver: O Alienista: Literatura, Ciência e Poder. REA n. 72, maio de 2007. Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/072/72ozai.htm

13 comentários sobre “A experiência da leitura!

  1. Minha experiência com Machado de Assis foi a mesma coisa. Como você mesmo disse: Memórias Póstumas de Brás Cubas foi impactante! Quanto a Dom Casmurro, eu comecei a ler na escola, não consegui ir até o final, fiz a prova sem ler o livro inteiro, não sei também se algum dia terminarei de lê-lo. Qualquer experiência obrigada(isto é, já proposital) é horrível, é falsa experiência, pois se pressupõe uma limitação na própria interpretação e um prazo para se interpretar. Por que não podemos demorar uma vida inteira para interpretar um livro se aquele livro contém uma vida inteira de interpretações e indagações? Queremos fazer o que é próprio da excelência uma mera eficiência porque somos compelidos a agir de tal modo.

  2. A leitura deve ser sempre feita com prazer, e por vontade própria, ler forçadamente nunca trás bons resultados….

  3. Antonio
    Cumprimentos
    Não sei a exata dimensão e muito menos o alcance efetivo, mas acho que o Governo Federal mantém programa de acesso a leitura. Resta saber se a relação custo benefício tem sido efetiva. Aqui em Caxias do Sul, a Prefeitura, através da Secretaria de Educação, mantém programa entre outros que propicia a ida de Bibliotecas itinerantes aos bairros e espaços públicos. Tempos atrás havia também (não sei se continua, mas acho que sim) programa, que ia até as Escolas e comunidades, com caixas contendo material museológico, tarefa essa da Secretaria da Cultura do Município. As Colegas do Museu Municipal coordenavam ou coordenam esse importante trabalho cultural.
    O último Presidente até facilitou a vida do livro no Brasil, reduzindo tributos (pelo menos houve bastante publicidade), com o fito de torná-lo mais acessível, mas parece que o Programa esbarrou no fato de que os ‘brasileiros lêem pouco’, conseqüentemente compram poucos livros o que mantém as tiragens em baixos níveis, encarecendo a edição, e como nossos salários são baixos fecha-se o ciclo da dificuldade na aquisição.
    O hábito da leitura, salvo melhor entendimento, é tarefa também doméstica, foi e é onde aprendi a gostar de ler e transmito isso cotidianamente a meus filhos. Não posso tecer normas e leis para os outros, mas considero a leitura uma benção.
    Em países com problemas sociais similares ou piores ao Brasil, como a Índia, observa-se um apego e valorização maior à leitura. Alunos que vão da Rússia para os Estados Unidos estudar, tem em geral sólidos conhecimentos de matemática (álgebra superior, geometria analítica, lógica matemática, etc.), o que surpreende os próprios educadores estadunidenses. O mesmo se dá com os Indianos que conhecem tanto ou mais sobre Shakespeare que os alunos ingleses ou americanos.
    Estamos longe disso tudo. Número significativo de escolas públicas sequer tem sanitário e água potável, isso quando merenda escolar não passa de uma fábula, o que falar de Biblioteca e livros. Faltam-nos políticas efetivas de Estado e não de Governo com relação à saúde e educação e nesse compito se encontra o livro. Triste a nossa sina, mas escravos de fato não precisam ler!
    Cordialmente
    Pedro

  4. Ozaí,
    Acredito, dentre muitos, que o incentivo à leitura começa com a prática mais antiga da humanidade: contar histórias. A partir das narrativas orais é que começamos a dialogar com os textos, e com o outro. O problema, talvez seja o fato de que muitos de nós, professores, não dispomos do dom de contar como requer uma história, para cativar o gosto por ouvir, independente de imagens. Mas há recursos multimídia, dramatizações, etc., que com certeza são mais adequados para incentivar a leitura e para fazer com que se descubra o prazer de ler narrativas, poesia, crônicas, enfim. Como estudante e professor sempre fui avesso às avaliações sobre leitura, fichas, etc. Uma leitura aprisionada seja de que modo for, não é leitura no sentido da descoberta.

  5. A “obrigação” acadêmica de ler pode dar resultados positivos. Em determinados contextos, a indicação de livros, acompanhada de certo “estímulo” e “convencimento”, aumenta a probabilidade de isso ocorrer. Mas será que contribui para transformar os leitores em indivíduos melhores e cidadãos responsáveis?

    Bom, professor. Esse é um problema complexo, que não temos a resposta real e exata.
    Mas, a literatura melhora nosso raciocínio imaginário, onde podemos criar associações com a realidade, isso já é algo positivo.
    Talvez nossa sociedade não esteja bem, por falta da qualidade literária que existia a décadas atrás, que o senhor sabe melhor do que eu e hoje não existe mais.

    Abraços!

  6. Oi, Ozaí. Ói nóis aqui traveiz…

    Agradecimentos pelo belo e bem-humorado post com quadrinhos. Compartilho a percepção em geral. Mas deu vontade de comentar alguns aspectos em especial. Vejo a leitura como lugar de um encontro de almas com grande potencial transformador. Nos permite inclusive conversar com pessoas interessantíssimas de outros lugares e épocas. Sempre me pergunto qual a proporção de coisas que entendemos por experiência direta em comparação com o que entendemos por meio da experiência e expressão de outras pessoas. Suspeito que este último tipo de entendimento (aprendizagem?) ganhe disparado. Por outro lado, não só a compreensão, mas a expressão do sentimento de si e do mundo talvez também seja em grande parte possibilitada, ou favorecida, por esses “lugares de encontro”. Na leitura, digamos, “literária”, o escritor que encontra uma metáfora, uma analogia, uma certa forma de exploração psicológica no romance, uma expressão reveladora, pode levar a entender melhor o que sentimos, à maior probabilidade de conseguir expressá-lo, por vezes a confiar no que percebemos pela experiência própria (de forma inicialmente difusa e solitária), ajudando a organizar-nos psiquicamente. Penso isso não só em relação aos livros, mas ao cinema, às canções… Veja se Pink Floyd não oferece um insight decisivo sobre o que significa uma guerra, sem necessidade de ter vivido uma, por uma via talvez mais reveladora que uma exposição organizada conceitual e racionalmente (e por extensão, um insight sobre o alto preço de soluções violentas para conflitos, em geral). “O que foi feito está feito, não há como apagar a cena final: preste atenção a isso”, “o que aconteceu com o sonho de pós-guerra?, o que foi que nós fizemos?!” Não sei se todos têm essa empatia com as palavras, ou se é alguma coisa meio bocó, mas chego a chorar como se tivesse perdido um filho ou um pai da forma mais terrível na guerra, com algumas canções do The Wall e do The Final Cut. E espero que ninguém ache imperdoável aqui misturar “alta literatura” (seja lá o que for isso) com “alto rock” 🙂
    Acho que não coincido com o dito no post em uma coisa: na minha experiência pessoal, a leitura na escola é bem mais lembrada, em vários casos. Machado de Assis, Eça de Queiróz, Fernando Pessoa, Carlos Drummond foram lidos “por obrigação”, mas foram transformadores. É verdade que alguns livros lidos por curiosidade própria (Herman Hesse, Kalil Gibran, George Orwell) talvez tenham sido especialmente impactantes por terem sido “escolhidos”, mas nem todos os escolhidos tiveram esse impacto (Agatha Christie é legal, mas não foi significativa a não ser como entretenimento, já esclarecendo que não considero o “entretenimento” algo a ser menosprezado). Também é verdade que a leitura por obrigação, talvez fora da idade adequada, de José de Alencar, me afastou dele definitivamente. Enfim, muito legal o post, trouxe muuiitas reflexões que nem coloquei aqui, vou parando para não escrever um livro.

    Um abraço!

    PS: A poesia tem me ajudado a resistir. ~Ángel Rama~

  7. Amigo Ozaí:
    Muito interessante esta postagem. Gosto deste tema e estou finalizando um livro que trata da arte de ler, entre outras artes importantes para a transformação e o desenvolvimento de Sistemas Humanos. O percurso de leituras e reações a leituras que você faz eu também fiz à luz de candeeiro e vela lamparina e me sinto grato por ter percorrido esse labirinto maravilhoso da leitura e da busca do conhecimento. Não esqueço das leituras que fazia nos jornais do Partidão e dos textos anarquistas que “roubava” de meus tios para ler com meus coleguinhas do curso ginasial. Precisamos resgatar isto em nossas disciplinas. Precisamos fazer nossos estudantes lerem Monteiro Lobato e outros grandes autores brasileiros, mas fazer isto de modo ativo para poderem pensar com seus próprios pensamentos e não com os pensamentos dos atores lidos. Como disse Schopenhauer “ler é pensar com o pensamento dos outros” e isto devemos evitar e transformar a leitura em algo que contribua para a construção de nosso próprio Pensar.
    Um abraço e continue lendo muito.
    Jovino

  8. Ozai. Isso mesmo:ler faz bem. Nâo sei se voce leu – ou se sustenta uma resistência “atualizada” em Dom Casmuro e transferida para outros livros tão importantes que foi para minha formação, nessa linha enquanto “leitura desiteressada”: A Peste e O estrangeiro (de Camus), O velho e o mar (Hemigway), A república (Platão)…acho que lhe dei de presente como homenagem ao seu doutoramento. Será que voce existe uma “resistência” sua de ler os livros que tem um fundo filosófico ou que é de filósofo? abraço. Raymundo.

  9. Eis uma tarefa difícil nos dias de hoje. Uma maneira que encontrei para incentivar meu aluno a ler, foi lendo com eles, comecei pelo jornal, nada fácil, mas plantei uma sementinha, depois fui para os livros, houve resistência no começo, hoje já tenho mais ou menos 60% da turma lendo, conseguem falar sobre os livros lidos. Se isso faz eles serem melhores cidadãos dai vai depender do interesse de cada um e nesse interim vejo que eles pedem por explicações, mesmo sem saber o que os espera lá fora, Parabéns pelo texto e assunto abordado.

  10. aproveito seu artigo para retomar uma pergunta renitente: sera que ler nos torna melhores? e a resposta é: sera que uma boa conversa, uma relaçao amorosa, o brilho avermelhado das nuvens ao pôr do sol – isso tudo nos torna melhores?
    ou tudo isso faz parte do adentramento no misterio da vida, no entendimento do entrelaçamento cordial ou brutal entre homens, destes com a natureza, com a riqueza, etc. etc.
    enfim, a resposta parece que é: nao da pra saber e nao tem importância.
    quanto a mim, houve leituras que me marcaram, porque foram leituras na hora certa, na idade certa, e que deixaram uma lembrança indelével, como de um fantastico sonho acordada.
    uma dessas leituras foi a do Conde de Monte Cristo, seguida quase que imediatamente por David Copperfield e, um pouco mais tarde, “O encontro marcado”.
    Antes, me vejo descendo a Av. Getulio Vargas (tem uma em todas as cidades do interior…), numa tarde ensolarada, doze anos quando muito, depois de terminar a leitura do “Pequeno Principe”. O mundo tinha se curvado em harmonias e produzia em mim ecos vibrantes de generosidade universal.
    Nao importa o quanto durou – o importante é que aquele momento existiu e foi de plenitude.
    Hoje, o sentimento é de gratidao a autores, editores, pais e professores…

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