O que é literatura?

A compreensão sobre o que seja literatura é uma construção histórica-social. Por outro lado, há uma hierarquização, fundamentada no cânone, que define e distingue a boa e má literaturas. Assim, não adianta gostar de ler, mas é preciso saber o que vale a pena ler.

Aliás, essa discussão é mais antiga do que parece. Outro dia, encontrei um livro de um autor do século XII, época do florescimento da “cultura livresca” e da formação das escolas ancestrais das universidades modernas. Em Didascálicon da arte de ler, Hugo de São Vítor ensina: “São três as regras mais necessárias para leitura: primeiro, saber o que se deve ler; segundo, em que ordem se deve ler, ou seja, o que ler antes, o que depois; terceiro, como se deve ler”. É preciso, portanto, não apenas selecionar bem o que ler, mas também adotar um método de leitura. “Parece-me que o estudante não deve tomar menos cuidado em não gastar tempo em estudos inúteis quanto em ficar desinteressado diante de um objetivo bom e útil. É mal fazer o bem com negligência, mas é pior gastar muitas energias inutilmente”, enfatiza São Vítor. É essencial o papel do professor enquanto orientador das leituras, pois “nem todos possuem este discernimento para entender o que lhes é proveitoso”.[1]

Para Hugo de São Vítor, a escolha do que deve ser lido e a leitura bem feita, segundo um método adequado, tem como objetivo a Sapiência, ou seja, o “bem perfeito”. O homem medieval almejava atingir a “sabedoria divina”, pela leitura disciplinada, metódica e orientada pela experiência do mestre. O começo é o ato de ler, o qual leva à reflexão e contemplação. O homem moderno segue-o, ainda que compreenda a “sabedoria” num sentido laico. Chega-se à sabedoria pela leitura dos clássicos canônicos, incluindo o texto sagrado. Literatura, nesta perspectiva, não é qualquer “literatura” mas sim aquela merecedora da nossa dedicação. Não devemos desperdiçar energias. Se é desaconselhável e humanamente impossível ler tudo, temos que nos ater ao essencial. Quais obras, porém, constituem “o essencial”? Como selecioná-las? Onde encontrar a sabedoria?

Hierarquiza-se a literatura. Harold Bloom, perguntado se os livros da série Harry Potter não seriam “uma boa porta de entrada, um meio de despertar nas crianças o interesse pela literatura”, responde: “Você realmente acha que as crianças vão ler coisas melhores depois de ler Harry Potter? Eu acho que não”. O entrevistador insiste: “Por que não ler os livros de J.K. Rowling, a autora de Harry Potter?”. Ele afirma: “Li apenas uma das obras dessa autora. A linguagem é um horror. (…) A defesa de livros ruins como esses, que vem de todos os lados – dos pais, das crianças, da mídia –, é muito inquietante e nem um pouco saudável”. [2]

Mas, por que não ler gibis, literatura de cordel, fotonovelas, literatura infanto-juvenil, a “literatura cor-de-rosa”, etc.? Por que não, enfim, ler Harry Potter? Se a leitura é o início do saber, vale a pena ler tudo. Não me parece que a leitura de textos e livros não incluídos no índex canônico seja determinante para a não leitura dos clássicos. E, de qualquer forma, é preciso perguntar-se: o que é um clássico? Como de deu a sua canonização?

Harold Bloom ironiza a “Escola do ressentimento” – neste rótulo ele inclui toda a literatura crítica ao cânone ocidental, isto é, a literatura feminista, pós-colonialista, multiculturalista, etc. Será que as obras com esse viés não merecem a qualificação de literatura? Raciocínios como estes tendem a abstrair a história e a despolitizar a literatura, como se esta tivesse uma essência em si, independente de fatores sociais, culturais, políticos, econômicos e históricos. É uma postura que reduz a literatura à identificação com o cânone.[3]


[1] DE SÃO VÍTOR, Hugo. Didascálicon da arte de ler. Petrópolis/RJ: Vozes, 200, p.45 e 139.

[2] Harold Bloom em entrevista à revista Veja, de 31 de janeiro de 2001. Disponível em http://veja.abril.com.br/310101/entrevista.html

[3] Sobre este tema ver: BLOOM, Harold. O Cânone Ocidental: os livros e a escola do tempo. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.

6 comentários sobre “O que é literatura?

  1. A literatura é reflexão e contemplação ,pelo menos para mim .

    os meus cumprimentos

    Maria do outro lado do mar

  2. Ozai. Muito louvável essa sua iniciativa de buscar em Hugo de São Vitor elementos tão atuais para uma leitura atemporal. A leitura está é crise no Brasil, somos o 53.lugar entre adolescentes de 15 anos, num ranking de 65 países. Argentinos e chineses sabem mais literatura brasileira do que nossos jovens. Os joguinhos da internet e a ignorância sobre literatura dos nossos professores são os piores inimigos da leitura dos livros, no Brasil. Parece que os cursos de formação de professores insistem nesta alienação.
    Gostaria de contribuir com duas observações ao seu texto: a) o título “O que é literatura” é o mesmo dado por J-P.Sartre. Quem não o conhece vale a pena ler e meditar, até poque o existencialista analisa se a literatura deve ser politicamente “engajada”, compara a pintura com a literatura, etc.
    Outra é simples e direta: “É melhor ler do que estudar”, diz Ziraldo. Concordo. Mas, causou mal entendido essa frase em algumas pessoas que “gostam muiiiito” de estudar e pouco de ler. Falo dos produtivistas acadêmicos cínicos, mas incultos. Ziraldo alertava que “ler” é mais importante, porque abre as portas tanto para o ato de estudar como também para “não estudar”, isto é, para o leitor se aculturar ou se civilizar lendo, lendo, lendo com prazer e não por dever. Abraço. Raymundo.

  3. Antonio
    Bom dia
    Minha preocupação fica aquém do horizonte do politicamente correto, no que tange ao tema proposto. O problema todo (penso imodestamente) está no hábito da leitura e no acesso aos livros. É possível no Brasil, se concluir uma graduação sem ler sequer um livro. Mesmo tendo Bibliotecas ao dispor, falo obviamente de cidades com acesso público aos livros, jornais e revistas, computadores online, vê-se o hábito passar ao largo, sendo uma minoria que efetivamente lê (suscito a hipótese que só os mais abastados mantenham a regularidade na freqüência e consumo nas livrarias).
    Paralelo a isso não vemos de parte do Ministério da Cultura, uma campanha midiática permanente de incentivo a leitura. Não é a toa que os jornais impressos só estejam encolhendo e muito possivelmente venham a se resumir as ferramentas eletrônicas (pode que a questão seja também econômica e não só cultural).
    Particularmente, diante dos percalços econômicos, leio os livros disponíveis na Biblioteca Pública da cidade e efetuo a consulta aos da Biblioteca Central da Universidade local, pois como ex-aluno não posso retirá-los, portanto, estabelecer critérios subjetivos como “boa leitura”, leitura recomendável, “os mais vendidos”, “excelente escritor”, etc. não passam de quimeras.
    Comecei a ler aos 9 anos, incentivado por papai, pessoa sem alfabetização regular, que lia fluentemente o alemão, polonês, castelhano, italiano (gramatical e mais o veneto) e português. Acho enfim que se os adultos demonstrarem um mínimo de gosto pela leitura logo estarão incentivando as crianças e os jovens nessa direção, pois o hercúleo trabalho feito pelas escolas (Professoras) ainda tem dado pouco resultado, pois a família e os amigos ainda são fatores determinantes na formação dos hábitos sociais e coletivos.
    Abraços
    Pedro

    • Pedro
      Bom dia
      Concordo com o que dissestes, nossa crianças devem ter exemplos em casa, parar de assistir esses desenhos animados que muitas vezes incentiva a violência escolar e ler bons livros.Pois fui professora de educação Infantil por 4 anos e por mais que as escolas juntamente com os professores incentivem o gosto pela leitura, faltará sempre algo mais…. Enquanto os pais não se reeducarem demonstrando o gosto pela leitura,incentivando seus filhos a conhecer esse mundo mágico e cheio de conhecimento, essa fultura geração será assim cada vez mais alienada, pobre de idéias e ideais!
      Abraços
      Joana Darc

  4. a questao é interessante, e tanto mais quanto nao resolvida. talvez nao haja mesmo uma resposta unica – em todo caso é evidente a limitaçao da visao do teorico citado no seu artigo – literatura é também o que se esta fazendo agora, no presente momento, é muito mais do que aquilo que ja esta consagrado e certamente transborda do cânone, qualquer que ele seja.
    tenho pra mim que o cordel tem pelo menos uma coisa em comum com os grandes relatos épicos de Homero, que é o fato de, ao ser ouvido, poder ser memorizado e transmitido oralmente e poder sê-lo por exprimir valores vivos de uma dada cultura numa forma perfeitamente adequada a essa cultura e a esses valores. outra coisa nao foi a transmissao da Iliada e da Odisseia, tornadas patrimonios extensamente populares bem antes de serem anotadas por escrito. e, alias, até mesmo antes de terem um autor oficialmente reconhecido, o que faz delas algo proximo do que hoje em dia se designa como folclore.
    quanto ao Harry Potter, comprei o primeiro para ler junto com um adolescente que nao se interessou e foi dormir, mas nao eu, que so fui fechar os olhos quando acabei o romance. apesar de nao ter continuado a ler a série, esse livro me deixou aquele gosto de coisa boa que valeu a pena experimentar – uma aventura literaria.

  5. Interessante seu texto, eu acredito que devemos nos preocupar em instigar o gosto pela leitura sem se importar muito se é uma literatura clássica ou não. É muito mais fácil fazer com que um aluno tenha contato com a tal literatura clássica depois que ele já adquiriu o hábito de ler do que fazer um aluno que não possui esse hábito entrar em contato com esse tipo de leitura. Acredito que a preocupação deve ser em torno do aluno adquirir um ponto de vista crítico, fazer com que ele leia, questione e busque outras fontes de conhecimento, assim aos poucos ele assume uma postura sobre o que ele esta lendo e vai trilhando o caminho do conhecimento.

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