A república contra as mulheres – anotações sobre “Lendo Lolita em Teerã”, de Azar Nafisi

Há livros que compensam a leitura. A obra Lendo Lolita em Teerã, escrito por Azar Nafisi*, é um deles. É um livro autobiográfico. A autora, nascida no Irã, mas que vivia no estrangeiro desde os 13 anos, retornou à Teerã em 1979. Então, a derrubada da monarquia autocrática do Xá Reza Pahleva gerara expectativas de mudanças políticas. Os desdobramentos da Revolução Iraniana não confirmaram as esperanças e o que se seguiu foi o domínio da teocracia liderada pelo Aiatolá Khomeini. Apesar do regime ditatorial, Nafisi permaneceu no Irã por 18 anos. Professora de Literatura, lecionou na Universidade de Teerã de 1979 a 1981, quando foi expulsa por não obedecer aos ditames da política teocrática. Tempos depois, voltou a lecionar na Universidade Livre Islâmica e na Universidade Allameh Tabatai.

Lendo Lolita em Teerã nos permite conhecer os aspectos políticos, culturais, sociais e o cotidiano da República Islâmica do Irã, pelo olhar privilegiado de uma mulher intelectual que viveu e sobreviveu àqueles anos conturbados. Não por acaso, o subtítulo do livro é “memórias de uma resistência literária”. Quando se viu impossibilitada de exercer a docência, Azar Nafisi formou um grupo de alunas que, na clandestinidade, liam e estudavam autores como Vladimir Nabokov, F. Scott Fitzgerald, Henry James e Jane Austen. Ela relata esta experiência, entremeada pelos acontecimentos políticos que transformaram o dia-a-dia dos iranianos.

Com Azar Nafisi aprendemos sobre literatura, mas sobretudo sobre a vida real de homens e mulheres submetidos à opressão política. A dominação de gênero é legitimada pela religião e o poder político. A República Islâmica visa especialmente a submissão das mulheres, embora também reprima todo e quem ouse desafiar o poder das autoridades.

Nenhuma obra é imparcial e isenta de valores. Nafisi não oculta seu ponto de vista, sua escrita é comprometida. Não obstante, demonstra integridade intelectual e permite aos leitores, como na literatura que analisa, apreender a complexidade da conjuntura e dos indivíduos concretos envolvidos no palco da história. Também o leitor dificilmente sairá ileso, pois trata-se de uma obra que pressupõe posicionamento.

Lendo Lolita em Teerã também tem caráter pedagógico, afinal trata-se da história de vida de uma professora e apresenta os ingredientes que envolvem a práxis docente num ambiente de restrições das liberdades mais elementares necessárias ao exercício da docência. Embora seja outra cultura, diferente da nossa, há aspectos pedagógicos comuns que contribuem para a reflexão sobre o ato educativo, o ensinar e aprender. Basta observar com carinho como transcorrem as relações entre a autora e seus alunos – em especial, as alunas – e com os seus colegas no campus. As questões pedagógicas são necessariamente políticas, politizadas e politizantes. Por exemplo, quando os alunos exigem a mudança do currículo, que autores como Ésquilo, Shakespeare e Racine fossem substituídos por Brecht, Gorki e Marx e Engels. Para eles, a teoria revolucionária era mais importante. Depois, todos seriam submetidos ao rígido controle político dos aiatolás e o campus moldado à imagem e semelhança dos intérpretes da lei islâmica. Ironicamente, eles desprezavam as liberdades individuais, ditas burguesas; foram tragicamente perseguidos e tiveram a liberdades suprimida. Vários foram assassinados.

Lendo Lolita em Teerã é uma obra que permite conhecer melhor a realidade cultural, social e política da República Islâmica do Irã. Vale a pena ler! A propósito, também sugiro que assista ao filme Persepólis.


* NAFISI, Azar. Lendo Lolita em Teerã: memórias de uma resistência literária. Rio de Janeiro: Edições BestBolso, 2009 (420p.).

8 comentários sobre “A república contra as mulheres – anotações sobre “Lendo Lolita em Teerã”, de Azar Nafisi

  1. Vou ler este livro nas férias. Agradeço-lhe pela dica. Soube que as mulheres que ousam descobrir a cabeça no Iran estão causando até terremotos no país [dizem os xiitas de alto escalão]. Tb. gostaria de saber se realmente a teocracia iraniana proíbe homens usar bermudas, bonés. Se realmente é proibido criar cachorro. Aqueles que ousam, deixam os bichinhos na clandestinidade. Se realmente lá é proibido ser homossexual, mas parece que o sistema de saúde autoriza mudança de sexo.

  2. Ih, rapaz, é complicado. Está aí toda a mobilização política e militar contra o Irã — a mais clara e determinada posição que tenho visto quanto a este ponto é a de Fidel Castro, de quem decididamente não sou um seguidor — e fica esquisito a gente se ver obrigada a defender a República Islâmica contra os agressores. Gente como nós, ateus, ou religiosos secularistas, prefeririam ver o Cão chupando manga a se entender com o direito divino iraniano, e aí a coisa azeda. Esse assunto é para mim incômodo pacas, o dos apoios que nos sentimos obrigados a dar. Por exemplo, devemos defender Chávez contra o imperialismo gringo, mas seria muito mais confortável defendê-lo se ele se abstivesse de dizer tantas asneiras inacreditáveis em público, como aquela segundo a qual a civilização marciana terá sido destruída pelo capitalismo…
    Mas muito bacana a dica de leitura, ainda vou ler esse livro.

    • O livro de Azar me parece importante,principalmente quando nos fala de um professora. Contudo, a fala quanto ao Irã é algo já meio que requentado, e que de alguma maneira nos lembra a democrática Noroega, onde as mulheres são estupradas inclusive por seus próprios maridos. Isto numa relação de 25%, sem que
      se tome providências. Funciona mais ou menos como no teocrático
      Irã.

  3. Caro Antonio Ozaí,

    entendo o livro Lendo Lolita em Teerã como bem sucedido literariamente, isto é, ele consegue respeitar algumas regras formais para se constituir numa leitura interessante.
    Contudo, ele carrega uma pretensão de verdade perigosa, pois parece
    retratar um momento político importante na história mundial sem criticá-lo
    devidamente, sem contextualizá-lo. Inclusive por ser “autobiográfico”, como você sugere.
    Estudo o Irã tendo estado nesse país e posso lhe assegurar de que a Nafisi
    comete erros consideráveis.

    Assim, considerar Mosadeh um “antigo herói nacional” é de um desacerto
    básico, que só um estrangeiro, é o que ela parece ser,
    poderia cometer. Ou se trata de adesão ideológica e aí tudo bem.

    Além disso, ela fala de um intelectual iraniano, seu amante (no
    livro não fica claro), mas não cita uma única obra local de peso. Não nos
    introduz naquele país. Parece que tudo são ruínas. E assim, junta-se a
    outros tantos que servem para reforçar uma imagem ocidentalizante do Outro
    oriental.

    Termino aqui por não saber se você receberá “e-mail”.

    Com respeito e admiração,

    Daniel Marcolino

  4. Professor Antonio, obrigada pela orientação sobre estelivro. Um grande abraço Sarah Da Viá

  5. Nao li o livro de Azar Nafisi, mas ja assisti ao extraordinario desenho animado de Marjani Satrapi, PERSEPOLIS. Talvez este fosse o ponto de vista complementar, pois é o de uma jovem que sai de uma familia bem estruturada e bem educada na tradiçao iraniana para enfrentar a liberdade e a solidao de uma estudante numa capital ocidental e, junto com suas lembranças pessoais, conta a historia recente do Irã. Além da informaçao, entram também humor e ternura por sua familia que, depois de ter sofrido a ditadura politica do Xa, sao perseguidos pela intolerancia religiosa atual.
    Como criaçao grafica, a historia em quadrinhos inicialmente e, em seguida, o filme, sao de uma depuraçao, uma exatidao e um cinza de nuances tais que lembram Guernica.
    So que na historia de Marjani e do Irã, as explosoes duram anos, as da BP, da CIA, da policia do Xa, da policia dos molas…. a ja longa e terrivel historia do petroleo e a destruiçao de homens e paisagens.
    Falando em petroleo, estou esperando sair “Or noir” (“Ouro negro”) o novo filme de Jean-Jacques ANNAUD, cineasta que nao brinca em serviço e nao mede as palavras – por exemplo o filme que ele fez sobre a disputa das colônias africanas entre França e Alemanha é de uma lucidez tao impiedosa que a gente até entende porque nao teve sucesso na França…
    (o nome original é “La victoire en chantant” – nao sei o titulo em português)
    um abraço,
    Regina

    • Menina, eu vou dar um jeito de ver esse filme! Não li o HQ, mas vi uns vinte desenhos extraordinários tirados do livro, coisa bonita como o quê.
      Sobre o petróleo e tudo o que há em torno do petróleo, seria interessante a gente procurar saber como estão as reservas atuais do Irã, em dinheiro: se são abundantes como parecem ser, se há negócios entre a República Islâmica e os bancos europeus, essas coisas. A Líbia, afinal, possuía nada menos que 200 BILHÕES DE DÓLARES em reservas internacionais até o dia do assalto — ou latrocínio, para ser justo.

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