Arte, Portas e Livros

Fui à Exposição Porta Aberta, no Centro de Excelência da UEM. A mostra reúne trabalhos dos acadêmicos e docentes do curso de Artes Visuais da UEM (coordenado pela Profª Kiyomi Hirose) e artistas plásticos convidados. Eles utilizaram portas descartadas e destinadas ao lixo para criarem arte. [1] A exposição faz parte do Projeto de Extensão Arte no Meio, coordenado pela Profª Sheila Souza.

Acompanhei de passagem a criação da arte nas portas, pois utilizavam o vão do Bloco G34, no qual trabalho. Passei por eles várias vezes e, com curiosidade contida e um olhar furtivo, vi-os pintando as portas, mas não sabia o objetivo. Foi uma agradável surpresa saber que o trabalho, agora transformado em obras de arte, seria exposto. Quis ver o resultado. [2]

Pouco entendo de arte, mas gostei do que vi. Observei as portas e fiquei a pensar sobre as motivações dos artistas. O olhar de quem cria expressa sua imaginação e, muitas vezes, é indecifrável. Uma das portas chamou a atenção pelo desenho de um cachorro com um dos olhos deformados, como se estivesse ferido. Descobri, depois, que o efeito foi provocado por um acidente com água no transporte ao local da exposição.

A iniciativa é louvável e vale a pena ver a arte nas portas. Parabéns a todos!

De uma arte a outra: a arte literária. Um livro como Dois Irmãos, escrito por Milton Hatoum[3], é uma obra de arte. A construção dos personagens, a narrativa, a história, o contexto, etc., tudo corrobora uma leitura envolvente. O livro é um convite ao mergulho no mundo da ficção criado com maestria pelo autor, criação que se confunde com a realidade na medida em que envolve o leitor.

Ao ler Dois irmãos, a história de Omar e Yaqub, gêmeos inimigos, aprendemos sobre a cultura do povo amazonense e a conhecer melhor o ser humano e a nós mesmos. O romance aborda temas comuns e inerentes à condição humana: amor, ódio, desejo, inveja, ciúme, etc., presentes tanto nas representações fictícias quanto na vida real. Contudo, ainda que trate do gênero humano, é o universal abstrato que a obra literária retrata.

Mesmo que a leitura contribua para o autoconhecimento e do ser humano genérico, é preciso saber diferenciar o livro da realidade, a ficção da vida real. Ainda que os personagens da ficção se amparem na realidade colhida pelo autor, eles são representações e construções existentes enquanto tal apenas no universo literário. Claro, há a tendência a corporificá-los tomando como referência seres humanos realmente existentes. Mas é aconselhável não nos deixarmos iludir por nossa imaginação, pois um livro, com o perdão da redundância, é apenas um livro.

Li Dois Irmãos por indicação do Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Maringá.[4] O grupo se reúne mensalmente para conversar sobre obras literárias. Foi a minha primeira participação. A propósito, é um belo exercício para quem desejar refletir sobre a recepção dos leitores. É muito interessante como cada um interage e é impactado pela leitura, gerando identificações e distanciamentos afetivos. As ênfases e ausências, o gostar e o não gostar, em suma, a forma como cada indivíduo incorpora a obra tem muito a ver com as histórias de vida, experiências vividas, subjetividades, idiossincrasias. Dessa maneira, a minha concepção sobre o livro, o ato de ler e o significado e influência deste é tão válido quanto qualquer um dos demais. Eis o aspecto democrático e a riqueza da arte literária. De certa maneira, ela permanece em aberto.

Gostei da iniciativa, da recepção e do bate-papo literário. Agradeço a todos e em especial ao amigo Raymundo de Lima pelo convite e incentivo à participação. A obra a ser lida para o próximo encontro é Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Lerei!


[1] Participam da exposição os seguintes artistas: Aletheia Alves da Silva; Alessadra Mazur, Alison Sarro, Annelise Nani, Antônio de A. Junior, Denilson Marinho, Erica Gandolfo, Jéssica A. L. Viega; Fabiane Kitagawa, Felipe Franco Tomazella, Guilherme Radi Dias, Luana Mendes da Silva, Marcelo Monteiro, Maria Giulia Caramaschi, Marlucia Iasuki, Odille Mazzetto, Pedro Procópio, Rislene Rissi, Roberta Stubs, Sheilla Souza, Tadeu dos Santos, Tania Rossetto Tatiane Marin Moraes e Thereza Aguitoni.

[2] A exposição continua aberta ao público nos dias 3, 7, 8, 9, 14 e 16 de dezembro, das 17 às 19 horas, no Centro de Excelência, Av. Itororó s/n Bosque II. Contato: artesheilla@yahoo.com.br. Veja fotos da exposição em: http://www.facebook.com/media/set/?set=a.310689778955681.80305.100000439853163&type=3

[3] HATOUM, Milton. Dois Irmãos. São Paulo: Companhia das Letras, 2011 (200 p.).

4 comentários sobre “Arte, Portas e Livros

  1. Com relação ao livro “Dois irmãos” Milton Hatoum. Eu diria que não é apenas mais um livro, é uma obra de arte das palavras. Fiquei maravilhada com a leitura. Ambientado em Manaus, a tragetória da família de Halim é comovente. E a reunião do clube sábado (03/12) explanação brilhante dos participantes, contribui para ampliar minha opinião, sobre a obra.

  2. Que bom Ozaí! Junte-se a trupe! É uma alegria tê-lo conosco…
    Vou voltar lá na exposição Porta Aberta, dessa vez para levar meus pais…

    bjo, Angelita.

  3. “Mas é aconselhável não nos deixarmos iludir por nossa imaginação, pois um livro, com o perdão da redundância, é apenas um livro” (recortei essa frase de seu comentário como “jornalista” sobre nossa conversa sobre o livro citado).
    Ora, meu caro Ozai, COMO LER UM LIVRO COMO ESSE SEM SE DEIXAR LEVAR PELA IMAGINAÇÃO? Afinal, literatura é para ler com imaginação ou para ler com razão instrumental científica, filosófica ou política? Realmente, um livro é um livro, mas pode não ser “apenas um livro”. Mas para ir além do material livro, será preciso que o leitor se envolva no processo de leitura para provocar a imaginação (e do racional) , a IDENTIFICAÇÃO e a EMPATIA com as personagens, por exemplo. Para isso acontecer a alma precisa querer se oferecer em ascese. Mas, infelizmente, há leitores que se travam durante a leitura: parando de vez ou fazendo de conta que estão mergulhando no universo criado pelo escritor. Isso é um problema ‘psicológico’ mais do leitor. Entende???

  4. Concordo duplamente com o Professor Ozai, pois a ideia de “abrir” as portas transformando-as num suporte do olhar e da mao que pinta e projeta imagens é realmente das mais interessantes.
    Quanto ao romance de Milton Hatoun, que li no lançamento ao ganha-lo de presente, foi um susto feliz, uma surpresa maravilhada com essa descoberta da Amazonia, ou melhor, de Manaus fazendo convergir toda uma dimensao humana e universal para seres situados, enraizados, quase diria enlameados pela presença invasora das aguas e pelos fantasmas da florestas, da imigraçao, das lutas, odios e amores que movimentam o romance.
    abraço,
    Regina

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