Mefisto, de Klaus Mann: a personificação do Mal

*Perdôo no autor todos os defeitos do homem;
mas no homem não perdôo nenhum dos defeitos do autor
Goethe,
Wilhelm Meister[1]

Mefisto: romance de uma carreira, escrito por Klaus Mann[2], é uma daquelas obras que envolvem o leitor e instigam a reflexão. É impossível ficar indiferente diante da brilhante e comprometedora narrativa sobre a carreira do ator Hendrik Höfgen no contexto da ascensão do nazismo. Este, com apenas trinta e nove anos de idade e sob a proteção de uma das principais eminências do regime nazista, tornou-se o diretor do Teatro Nacional. Era o ápice de uma carreira, cuja ascensão foi vertiginosa. Höfgen, porém, à maneira faustiana, colocou a consciência e a alma sob o abrigo dos que tinham o poder de vida e morte sobre milhões de mortais, um poder maligno, o Mal em toda a sua banalidade.

O romance de Klaus Mann é um libelo antinazista e comprometedor no duplo sentido: do autor com a realidade política e social, que exigia a denúncia e a luta contra o nazismo; e, do leitor, na medida em que induz ao posicionamento político, ainda que tenha consciência do caráter ficcional. Mesmo este, porém, está sob discussão. Com efeito, o personagem Hendrik Höfgen tem Gustaf Gründgens[3], ex-genro do autor, como modelo.

A fronteira entre realidade e ficção é tênue. Escrito e publicado no ano de 1936, em Amsterdã, em língua alemã, só vinte anos depois que o romance foi editado em solo alemão pela editora Aufbau, de Berlim (Oriental). Em 1963, a editora Nymphemburger anunciou a publicação de Mefisto, entre outras obras do autor. Em março de 1964, o filho adotivo de Gustaf Gründgens acionou o Tribunal Regional de Justiça de Hamburgo pleiteando a proibição do romance na República Federal da Alemanha. Peter Gorski almejava salvaguardar a honra do pai, falecido seis meses antes.

A justiça se viu sob o dilema de proteger os direitos do morto ou garantir a liberdade de expressão. Ela rejeita o pleito do herdeiro e este entra com recurso na Corte de Apelação de Hamburgo. Esta indeferiu e decidiu que a obra poderia ser publicada, até a decisão final do processo, mas impôs esclarecimento ao leitor em forma de prefácio.[4]

O processo continuou e, na prática, o romance permaneceu proibido na ex-Alemanha Ocidental.[5] O caso envolve aspectos importantes sobre a relação entre a arte e a vida, a ficção e a realidade, o processo de criação e a reprodução literária, o direito dos indivíduos – vivos ou mortos – à proteção jurídica da honra pessoal versus o direito e a liberdade de expressão do autor. Esta polêmica politiza a criação literária e lhe dá um significado ainda mais profundo.

*

Seja como for, Hendrik Höfgen faz o pacto com o demônio. Bem que ele tenta apaziguar a consciência com o argumento de que sua decisão foi a mais acertada, que a sua aliança era a maneira de ajudar os perseguidos pelos ditadores. Ele tenta convencer o seu amigo comunista, Otto Ulrichs, de que esta tática é não só inteligente como necessária: “Não é uma tática cômoda, mas tenho de perseverar. Encontro-me em pleno acampamento do inimigo. Vou minar o poder por dentro…”, diz (p. 274). É o discurso surrado dos que pactuam com o poder opressivo. Às vezes até acreditam verdadeiramente no que dizem. Ingenuamente ou não – que importa?! – terminam por serem cooptados e adaptados aos costumes e idéias que diziam – ou ainda dizem – combater.

No auge da sua fama, o diretor Höfgen se dá à liberdade de manter, às próprias custas, um indivíduo considerado ‘pária’, ou seja, não-ariano, como seu secretário particular. A consciência culpada necessita de acalento. É difícil definir até que ponto atitudes que incorrem em riscos, em determinados contextos, são realmente sinceras ou mero estratagema para conciliar-se com os outros e consigo. Será que o que fazemos pelos outros é verdadeiro altruísmo ou apenas mascara interesses inconfessáveis à nossa própria consciência? E se as nossas belas e boas ações nada mais forem do que um artifício para apaziguar a culpa que sentimos em nosso âmago?

Hendrik Höfgen sabe usar as influências que conquistou sem comprometer-se. Ele resguarda-se. É um homem de sorte: “Incidira sobre ele o vislumbre daquele brilho intenso que envolve o poder” (p.209). Poder, porém, que se sustenta sobre cadáveres. O ator Höfgen partilha desse poder; também caminha sobre os mortos e a escada que o eleva ao cume é construída pela carne, ossos e sangue dos que tombaram nas garras do Mal absoluto transubstanciado em forma humana.

O ator Höfgen joga com as aparências no imenso palco da vida. Sua atuação é cativante e poucos são os que conseguem ver atrás da sua máscara do personagem que encarna, Mefisto, o verdadeiro Hendrik Höfgen. Os espasmos da consciência culpada não o impedem de admirar a força do Mal e de se identificar com este.

Quando do incêndio do Reichstag, o Parlamento alemão, perpetrado por criminosos e provocadores nazistas para incriminar os judeus e a oposição, Höfgen estava em Paris. Diante da ascensão do nazismo, ele receia retornar à Alemanha. Afinal, andara em companhia dos bolcheviques e assumira idéias execradas pelo novo regime político. Mesmo à distância, porém, percebeu as conexões que envolviam a idealização e execução desse crime provocador. Essa percepção não o impediu de, na primeira oportunidade, se reconciliar com o inimigo e voltar ao país natal.

O momento crucial da consagração do pacto com o Mal ocorre, após o seu retorno, com a encenação da peça Fausto, de Goethe, cuja interpretação coroou a sua fama e ascensão de autor. Mefisto foi seu grande papel, ator e personagem se confundiam. Na platéia estava o todo-poderoso primeiro-ministro. Este faz questão de cumprimentá-lo e sela a sua fama e a certeza de que conquistara a confiança do poder.

Höfgen seduzira o poder e, numa simbiose macabra, fora seduzido por este. O ator provinciano se elevara ao Olimpo. Não importa o custo, nem que tenha sacrificado os verdadeiros amigos e a si mesmo no altar de tais divindades; não importa que a sua estrada tenha sido pavimentada por cadáveres. Nada importa! Tudo o que importa é compartilhar do poder encarnado pelo primeiro-ministro. Ele, contudo, tem consciência do significado do seu ato. Ele já não se pertence!

Hendrik Höfgen venceu e tornou-se o diretor do Teatro Nacional. Ele foi recebido pelo “Messias de todos os germanos” (p.279), o Führer. Todavia, o poder e a opulência não eram suficientes para fazê-lo esquecer os fantasmas que o atormentavam. Não há como fugir de si mesmo!


* Versão adaptada de texto publicado originalmente na REA, nº 92, janeiro de 2009, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/092/92ozai.htm

[1] Epígrafe de Mefisto: romance de uma carreira, Klaus Mann (São Paulo: Estação Liberdade, 2000, 318p.).

[2] Klaus Mann (1906-1949), filho mais velho de Thomas Mann, diante da situação política alemã, emigrou, em 1933 para Amsterdã (Holanda), onde editou a revista política-literária Die Sammlung (A coletânea) e participou da Frente Popular em oposição a Hitler. Posteriormente, exilou-se nos Estados Unidos.

[3] Gustaf Gründgens foi ator e diretor do Teatro Nacional na Prússia, uma personalidade famosa em sua época.

[4] “Ao Leitor:

O autor Klaus Mann emigrou voluntariamente em 1933 levado por seus ideais, e em 1936 escreveu esse romance em Amsterdã. Em virtude de suas idéias de então e de seu ódio contra a ditadura hitlerista, criou um quadro crítico da história do teatro da época em forma de romance. Ainda que não se possa negar que tenha tomado por modelo pessoas daquela época, ele configurou os personagens do romance fazendo uso apenas de sua imaginação literária. Isso vale sobretudo para o personagem principal. De qualquer modo, as ações e ideais atribuídos ao personagem no romance correspondem em grande parte à imaginação do autor. Daí ele ter acrescentado à obra a seguinte explicação: ‘Todos os personagens deste livro representam tipos, e não pessoas reais.’ O Editor.” Ver o anexo “Sobre a publicação desta edição”, de Berthold Spangenberg, p.306

[5] Ver o anexo citado, p. 303-318.

3 comentários sobre “Mefisto, de Klaus Mann: a personificação do Mal

  1. No auge da sua fama, o diretor Höfgen se dá à liberdade de manter, às próprias custas, um indivíduo considerado ‘pária’, ou seja, não-ariano, como seu secretário particular. A consciência culpada necessita de acalento. É difícil definir até que ponto atitudes que incorrem em riscos, em determinados contextos, são realmente sinceras ou mero estratagema para conciliar-se com os outros e consigo. Será que o que fazemos pelos outros é verdadeiro altruísmo ou apenas mascara interesses inconfessáveis à nossa própria consciência? E se as nossas belas e boas ações nada mais forem do que um artifício para apaziguar a culpa que sentimos em nosso âmago?

  2. Alguém no passado já dissera que o homem é o lobo do próprio homem, é isso?
    Se não é bem assim é parecido, ou seja, somos o mal maior e, vencer a nós mesmos, trata-se do grande desafio.
    Mas alguns regimes políticos encarnam a maldade por excelência e, o nazismo, tem sido apontado como modelo de crueldade ilimitada.
    Um ponto a discutir, pois eu penso que não foi o pior sistema que a humanidade se deixou sofrer, haja vista que paralelamente ao nazismo e depois que este foi dissipado com a vitória aliada na Segunda Guerra, o comunismo continuou a ceifar milhões de vidas para se perpetuar no poder.
    Se naquele que foi o maior conflito da história da humanidade morreram mais de cinquenta milhões de pessoas, o comunismo contabiliza em todo o planeta mais de cem milhões de mortos!
    Claro, não posso fugir à isenção do capitalismo, isto é, não vê raça, cor ou credo, de modo a se manter na economia com a isca sedutora que o atrela à democracia, mesmo que dissimulada.
    Se observarmos a China e seu regime de força, o capitalismo tem sido vitorioso, que continua a permitir o surgimento de ricos e a continuação de muitos pobres, e em nada melhorou o seu sistema ainda que utilizado em um país comunista, que poderia vir a ser modificado para evitar esses contrastes que estamos habituados a conviver.
    Se o dinheiro atualmente personifica o mal, então não há salvação para a humanidade, pois todos os movimentos criados pelo homem para que vivesse melhor em sociedade submergiram, vencidos pelo apelo do poder, da aquisição, da fortuna, do patrimônio, do desejo ser concretizado em qualquer tempo.
    E não há religião que consiga neutralizar este apego pelo dinheiro, pois ele está vinculado à necessidade e, ela, não permite barganha!
    Teria sido este o mal maior criado unicamente pelo ser humano?
    Estaria na cédula o símbolo da maldade?
    Seria o Mefísto a nos perturbar o espírito porque sem ele (o dinheiro) somos incapazes de sobreviver?
    A contradição do mal que o dinheiro ocasiona e o bem que ele faz para aqueles que o possuem, seria a equação a se buscar a utópica igualdade?
    Então inventamos o socialismo?
    Comunismo?
    Capitalismo?
    Social-democracia?
    Mas o mundo não mudou!
    A fome, a sede, a doença, a miséria, contuinuam a se alastrar indiscriminadamente!
    Haveria alguma solução para esta desigualdade social, cultural e até mesmo religiosa que não passasse pelo vil metal?
    Mal comparando com a história acima, o dinheiro seria a razão pela qual nos tornamos inimigos até de nossas próprias famílias?
    Ou o Mefisto seria a ganância?
    Ou o Mefisto é o homem verdadeiramente encarnado e personificado que nos tornamos a partir do momento que temos o poder nas mãos?
    Quer dizer que, sem dinheiro, representamos apenas?
    Não somos autênticos?
    Um outro autor do passado havia dito que o Poder corrompe.
    Então a busca sistemática por ele é para isso, a busca pelo poder de corromper e, assim, ninguém poder acusar ninguém?
    Uma vez absolutamente corrompidos está é a nossa essência?
    Por isso que hoje amamos e amanhã odiamos muitas vezes a mesma pessoa?
    Nossos sentimentos são os primeiros a se deixarem levar pela tentação?
    Vivemos de artimanhas?
    Olha, professor, parabenizo-lhe pela reflexão que o senhor me provocou.
    Ela não é nada otimista, ao contrário.
    Em síntese:
    Desconhecemo-nos ou não sabendo quem somos estamos desvinculados de nós mesmos, tipo que cada um cuide da sua vida e viva o melhor que puder?
    E, o resto é o resto?

  3. nao li o livro, mas vi o otimo filme alemao/hungaro de Istvan Szabo, com Klaus Maria Brandauer encarnando um Mefisto mais diabolico do que o proprio.
    confesso que essa epopeia europeia do nazismo e da segunda guerra mundial como paradigma de reflexao para a humanidade anda me enjoando.
    tenho a impressao de que é uma unanimidade ja conquistada, contra a qual ninguém se posicionaria, logo, nao compromete.
    mas também nao leva a nada, muito pelo contrario, serve de anteparo aos reais dilemas que se apresentam hoje à consciencia e à açao de todos os homens. aqueles dilemas que exigem posicionamentos dificeis e doloridos, às vezes perigosos… bem mais do que historias de que se conhece o final…
    o mundo é bem mais vasto e mais diverso do que a velha Europa jamais sonhou…
    um abraço,
    regina

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