Os amores e dilemas de Sabina

Sabina é a personagem de ficção inspirada na vida real da autora que a criou, Anaïs Nin.[1] Ela é casada e ama Alan. Ele é terno, inspira confiança. Ela tem certeza de que é amada e, à sua maneira, acredita que também o ama. Sabina precisa dele, da segurança que ele infunde. Ele é o porto seguro que ela necessita, a vida sem ele seria insuportável. Se ele a rejeitasse seria o mesmo que decretar a sua morte. Contudo, ela anseia atracar em outros portos, explorar novos territórios, navegar em águas tumultuosas, enfrentar ventanias e tempestades. Sua personalidade é adversa à calmaria. Embora arrisque perder a segurança do porto representado pela figura do marido, intuí que ele estará lá a esperá-la e pronto para ouvir as histórias que encobrem suas aventuras amorosas em outros portos.

Em suas viagens a outros territórios inexplorados, Sabina sente uma contínua tensão. Ela não consegue desarraigar-se completamente de Alan e de tudo o que ele representa em sua vida. Ela se pergunta porque age assim, o que a impele e sente-se culpada. E por mais que precise se ausentar, procurar, se encontrar e se perder em outros corpos, em outros portos, ela tenta resguardá-lo. Isto exige dons de atriz, representação, em suma, mentir. Sabina constrói mundos imaginários e neles representa papéis diferentes. Mas como compatibilizá-los? Como impedir que as experiências vivenciadas interfiram nas diversas realidades criadas? Será possível extirpar de si os papéis representados e anulá-los perante as exigências de cada contexto e circunstância? Diante de tantas Sabinas qual é a verdadeira? Ela teme que a necessidade de mentir torne a si mesma uma mentira:

“Alan diz que meus olhos são lindos, mas não posso vê-los, para mim eles são olhos mentirosos, minha boca mente, há apenas algumas horas estava sendo beijada por outro… Ele está beijando a boca beijada por outro, está beijando olhos que adoraram outro… vergonha… vergonha… vergonha…. as mentiras, as mentiras…” [2]

Talvez por isto a ânsia em tomar banho, em lavar a velha maquilagem e trocar as roupas. Sabina vive em mundos paralelos e precisa ansiosamente livrar-se da Sabina pertencente ao outro mundo externo ao convívio com seu marido. Ela precisa esquecer-se de si mesma, aniquilar a Sabina que buscou saciar-se em outros braços, olhares e bocas. A água a purifica e uma nova Sabina emerge, a Sabina que sabe-se amada e desejada por Alan. Ela metamorfoseia-se na mulher idealizada pelo marido. Agora ela é outra Sabina, a Sabina de Alan. “Já não sente mais responsabilidade por aquilo que ela foi. Há uma modificação de seu rosto e de seu corpo, de suas atitudes e de sua voz. Ela tornou-se a mulher que Alan ama”.[3]

Como é possível tamanha metamorfose? Como manter a sanidade quando se é impelida a representar vários papéis. Diferentemente da atriz que se desvencilha do personagem tão logo se encerra a representação, Sabina sabe que as diversas Sabinas vivem nela, estão presentes em cada experiência vivenciada. Por mais que queira, por mais que o ritual do banho, troca de roupa e o assumir a personalidade que se espera e as circunstâncias exigem, ela é a mesma Sabina. Ela carrega em seu âmago a culpa desencadeada pelas ações das Sabinas que anseia outros territórios, outros corpos. Por que esta necessidade? Em que medida estas experiências a saciam? Não é suficiente o amor de Alan, o porto seguro da sua vida?

Anaïs Nin (1903-1977)

Sabina inveja nas atrizes a facilidade que elas têm em se desembaraçarem de seus papéis. Como no teatro, ela procura desesperadamente desvencilhar-se das personagens que assume no mundo paralelo das Sabinas que habitam seu ser e recuperar a verdadeira personalidade permanente e imutável da Sabina esposa. No grande teatro da vida, porém, o único ser revela-se múltiplo e dilacera-se. Sabina é a síntese das diversas contradições que abarcam seu eu e, portanto, expressa o ser contraditório que representa nos diversos momentos.

Ela não pode simplesmente esquecer, arrancar de si as experiências vividas. Queira ou não, elas são incorporadas. Não existe a Sabina, mas as várias Sabinas que residem em seu eu multifacetado. Sabina sente-se culpada por amar demais, culpa-se pelos vários amores em vez de um único; por construir um mundo de representações e tergiversações, pela necessidade de viver várias vidas. Ela trilha caminhos que a levam para fora de si mesma, mas será que se encontra neles? Uma parte dela quer expiar a culpa, ser única, permanente e imutável; outra, quer ser livre dos tormentos da culpa, escapar e aventurar-se em outros portos, explorar outros territórios, perder-se em outros olhos para tentar encontrar-se. Sabina é impelida por uma força incontrolável a lançá-la para fora de si mesma. Ela sente o peso da responsabilidade dos seus atos, carrega o fardo da liberdade e o ônus da autodescoberta. Eis a riqueza e o drama que ela expressa.


[1] NIN, Anaïs. Uma espiã na casa do amor – As confissões eróticas de Anaïs Nin. Rio de Janeiro: Record, 1982.

[2] Idem, p.22.

[3] Idem, p.23.

2 comentários sobre “Os amores e dilemas de Sabina

  1. Talvez ela seja realmente uma boa escritora – mas o que tive oportunidade de ler até hoje nao me convenceu.
    Talvez ela tenha simplesmente encarnado de maneira inteligente o que os americanos chamavam ha tempos de sex appeal – o que talvez lhe tenha possibilitado seduzir tantos e tao bons escritores. Uma troca equitavel, pensando bem – ela lhes proporcionava sensaçoes inauditas e eles um papo fascinante.
    Tudo de bom, né nao?

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