Os nossos demônios

 

DOSTOIÉVSKI, F. Os Demônios. São Paulo: Ed. 34, 2004 (Trad.: Paulo Bezerra)

*A leitura de Os Demônios, clássico de F. Dostoiévski, me fez pensar sobre a alcagüetagem na política. Procedimento muito utilizado no Estado Novo, quando a simples qualidade de opositor assumia ares de comunismo, foi refinado nos anos da ditadura militar. Talvez o exemplo mais cabal seja o Cabo Anselmo. Esta prática contribuiu para dizimar a oposição aos ditadores.

Este clima perdurou nos anos 1980. Naquela época fui entrevistar, num imponente edifício no centro da capital paulista, um alto membro do Partido Comunista. Ele recebeu-me com desconfiança. Questionou porque estava com o livro do imperialista Foster Dulles (Anarquistas e comunistas no Brasil) e como poderia garantir que eu não fosse da polícia. Respondi que esta já estava bem abastada de informações. Argumentei que o desconhecimento favorece o clima anticomunista da caça às bruxas. E, pensei, ele deveria ser inteligente o bastante para falar apenas o que considerasse oportuno. A entrevista foi realizada.

Esta atitude é compreensiva. Vivíamos um tempo onde a insegurança política ainda era intensa. Minha pesquisa, que resultou no livro História das Tendências no Brasil, ainda era tabu. Era uma época onde a delação como arma política assumia a forma de rótulos (afirmar pelos bastidores que tal pessoa pertencia a tal organização política poderia destruí-lo politicamente). Ocorria a espionagem pelos próprios companheiros que, em eventos políticos, observavam quem votava contra a Articulação, com quem andava e quem eram os amigos (uma vez alguém me disse: “Cuidado com fulano, ele é comunista. Não ande com ele”).

Os profetas modernos instrumentalizavam a estupidez dos seguidores. Eram estes, os que faziam o jogo sujo: espionar, caluniar, denunciar. A vítima passava a ser tratada como uma espécie de criminoso político, um traidor. Talvez os líderes, não acreditassem nestas baboseiras, mas não tinham pudor em apoiar tais práticas, desde que correspondessem aos seus interesses políticos. Havia até quem calasse, mas apoiava os acusadores.

Houve também um tempo em que a delação, feita em nome da ética, da moralidade e da legalidade, até pareceu simpática. Na organização burocrática, o delator se apega às filigranas da legalidade para destruir o outro. Além dos dividendos políticos, este recurso resultar na própria exclusão do oponente da organização. Tal prática atinge as idéias e o indivíduo, suas relações pessoais, familiares etc., extrapolando o campo da luta política.

Do ponto de vista da moral – argumento precioso para o delator – tal recurso não deixa o acusador em melhor situação que o acusado. Na verdade, na ânsia de destruir o oponente, o puritano não atenta para a baixeza do seu procedimento; não toma em conta a essência da situação; desconsidera os fatores que levam a pessoa a se insurgir contra a legalidade instituída; não questiona a própria legalidade, como se isto fosse um detalhe sem importância. O alcagüete, quando lhe interessa, adota um discurso de esquerda, antiburocrático e até mesmo questionador do legalismo.

O que está em jogo é a utilização da organização como meio, o controle de determinados cargos ou posições na estrutura burocrática que garantem o uso dos recursos e privilégios e atendem à sofreguidão dos que ocupam a vida em buscar o poder – ainda que adotem a retórica que nega o poder. O dedo-duro almeja passar por paladino da justiça. Eis como a delação assume a auréola da defesa da legalidade e é utilizada como arma que ultrapassa a política.

Mudam os meios, permanecem os fins. O maniqueísta não percebe os demônios que habitam entre nós, nem que, muitas vezes, intentando o bem, faz o mal. Vale a pena ler Dostoiévski.


* Publicado em Literatura Política e Sociedade, 09.09.2007.

5 comentários sobre “Os nossos demônios

  1. Caro colega, não li o obra ‘Os demônios’ esperava que fizesse um breve resumo da obra. Mas a análise política ficou brilhante.
    No mundo da política, a sede pelo poder, domínio, incitam os instintos figadais e os fins justificam os meios. A busca da hegemonia se dá pela força ou consentimento e a mentira e o engodo é a arma utilizada. Wanderson Castilho, na obra Mentiras: um rosto de várias faces (Matrix, 2011) afirma que a mentira é um ato instintivo de preservação do ser humano, […] é uma grande preservação social. Os demônios internos associam com os externos e produzem ação e omissão que conduzem a morte.

  2. “O maniqueísta não percebe os demônios que habitam entre nós [Menos ainda os que habitam dentro de nós…], nem que, muitas vezes, intentando o bem, faz o mal. Vale a pena [para quem sentir algum enfado, ou tenha-se simplesmente o prazer de…} ler Dostoiévski.”
    Abraços
    Fernando

  3. Esse aspecto da delaçao, que você acentua na frase
    “na ânsia de destruir o oponente, o puritano não atenta para a baixeza do seu procedimento; não toma em conta a essência da situação; desconsidera os fatores que levam a pessoa a se insurgir contra a legalidade instituída; não questiona a própria legalidade, como se isto fosse um detalhe sem importância.”,
    explica talvez a figura de Calabar, visto como o traidor da ordem oficial e merecendo ser delatado pelo que você muito bem qualifica como “o puritano”. Calabar volta obsessivamente à literatura do século XX (e talvez a outras artes), e tanto no teatro de Geir Campos, Ledo Ivo ou Chico Buarque/Rui Guerra quanto no romance de Joao Felicio dos Santos com esse mesmo titulo e essa interrogaçao. Sem falar na figura do traidor ja esboçada nas personagens do jesuita (na peça O Jesuita) ou do rabino (As minas de prata) aos quais José de Alencar sugestivamente da o mesmo nome de Samuel. Ja aqui, a ambivalencia dos sentimentos e a interrogaçao moral dilaceram esses personagens que vao de encontro à ordem vigente e nesse embate deixam sangue e lagrimas.
    Deixei uma primeira analise de alguns desses personagens em artigo na REA, mas continuo esperando que o tema seja desenvolvido e aprofundado. Quem sabe em literatura comparada, jogando com Os demonios de Dostoievski? Fica aqui minha sugestao.

  4. Meu caro professor Ozaí, que vale a pena ler Dostoiévski, concordo plenamente, mas pergunto:
    E para aqueles que o senhor denominou de maniqueístas?
    Porque de oitenta para cá (estou resgatando uma época citada pelo senhor), a delação e a ânsia pelo poder não mudaram, ao contrário!
    Até o advento do mensalão, em 2004, jamais havíamos visto e tomado conhecimento de algo igual, tanto em corrupção quanto à quantidade de dedos em riste apontando os culpados pela excrescência política arquitetada para roubar o país!
    Aliás, imoralidade que não diminuiu mesmo depois das delações e acusados da prática nefasta e criminosa adotada pelos políticos brasileiros.
    Eu ainda acho que entregar um companheiro tem dois aspectos a serem discutidos amplamente:
    a relação de amizade que deve imperar e, portanto, capaz de esconder o mau caráter de um ou de outro ou vários;
    a questão ética. Deve-se fechar os lhos à desonestidade?
    Deve-se ignorar a trampa?
    Em nome de uma amizade deve-se permitir toda a sorte de golpes e crimes contra o país e povo (obviamente estamos trocando idéias sobre política)?
    Ou por serem companheiros de partido político mesmo sem ser amigos?
    Justifica-se assim, o corporativismo?
    Afinal das contas um cargo público não pertence a este ou aquele partido.
    Essas contratações sem concurso ensejam esse procedimento de delação, a manutenção do cargo em comissão ou de “confiança” à base da vigília sobre outros que desfrutam da mesma condição, isto é, aquela que lhes permitiu ingressarem no seviço público pela porta dos fundos, imoralidade e indecência iguais as que são cometidas e acobertadas pelos partidários ou combinações de partidos pela distribuição também imoral de ministérios, secretarias, estatais e diretorias no Congresso Nacional e pelos estados brasileiros afora!
    Agora, professor, os demônios são mesmo tendenciosos, pois atuam somente contra nós, mas a favor desavergonhadamente da classe política traidora do país e do povo, a beneficiar-lhes com gordos proventos e inumeráveis verbas para isso e aquilo, enquanto que batem boca de forma inócua, inútil, desnecessária, deixando de lado os problemas que afetam o brasileiro no que ele tem de básico: saúde, educação e segurança.
    Interessante que, a delação, esta que se pode definir como abjeta, mentirosa, cuja intenção é prejudicar alguém, existe em profusão na política, onde sabidamente a ética é despudoradamente abandonada, inexistente.
    Repito:
    Concordo com o senhor em ler o célebre escritor russo, mas tenho lá meus receios se eles não se utilizarão de certas artimanhas para ampliarem a rede de intrigas e criatividade de como explorar mais ainda o povo brasileiro.
    Ou alguém pode me explicar por que pagamos a maior taxa de impostos e tributos do mundo e somos governados por um partido que alardeia ser popular?!
    Conforme minhas convicções religiosas, professor, eu antecipo rejeitar explicações que se baseiam em mitos ou figuras que representem o mal.

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