O diabo existe? A pedagogia do medo e a função civilizatória do sobrenatural

Em Os irmãos Karamázov, Dostoiévski elabora o seguinte diálogo:

− O diabo existe?
− Não, não existe.
− Tanto pior. Não sei o que eu teria feito ao primeiro fanático que inventou Deus. Enforcá-lo seria insuficiente.
− Sem essa invenção não haveria civilização*.

Ao retomar as minhas anotações sobre a leitura deste clássico da literatura universal, lembrei-me de outro trecho sobre a existência daquele cujos nomes são os mais diversos e inimagináveis. Trata-se de uma divertida conversa entre uma criança e sua mãe, escrita por Graciliano Ramos, em sua obra Infância, de inspiração autobiográfica. Vale a pena ler o trecho na íntegra:

Às vezes minha mãe perdia as arestas e a dureza, animava-se, quase se embelezava. Catorze ou quinze anos mais moço que ela, habituei-me, nessas tréguas curtas e valiosas, a julgá-la criança, uma companheira de gênio variável, que era necessário tratar cautelosamente. Sucedia desprecatar-me e enfadá-la. Os catorze ou quinze anos surgiam entre nós, alargavam-se de chofre – e causavam-me desgosto.

Um dia, em maré de conversa, na prensa de farinha do copiar, minha mãe tentava compor frases no vocabulário obscuro dos folhetos, Eu me deixava embalar pela música. E de quando em quando aventurava perguntas que ficavam sem respostas e perturbavam a narradora.

Súbito ouvi uma palavra doméstica e veio-me a idéia de procurar a significação exata dela. Tratava-se do inferno. Minha mãe estragou a curiosidade: impossível um menino de seis anos, em idade de entrar na escola, ignorar aquilo. Realmente eu possuía noções. O inferno era um nome feio, que não devíamos pronunciar. Mas não era apenas isso. Exprimia um lugar ruim, para onde pessoas mal-educadas mandavam outras, em discussões. E num lugar existem casas, árvores, açudes, igrejas, tanta coisa, tanta coisa que exigi uma descrição. Minha mãe condenou a exigência e quis permanecer nas generalidades. Não me conformei. Pedi esclarecimentos, apelei para a ciência dela. Por que não contava o negócio direitinho? Instada, condescendeu. Afirmou que aquela terra era diferente das outras. Não havia lá plantas, nem currais, nem lojas, e os moradores, péssimos, torturados por demônios de rabo e chifres, viviam depois de mortos em fogueiras maiores que a de S. João e em tachas de breu derretido. Falou um pouco a respeito dessas criaturas.

Fogueiras de S. João eu conhecia. Tinha-se feito uma diante de casa. Eu andara à tardinha em redor do monte de lenha que o moleque José arrumava. Admirando os aprestos, espantava-me de haver nascido ali de supetão um mamoeiro carregado de frutos verdes. Á noite deitara-se na pilha uma garrafa de querosene, viera um tição. E eu ficara na calçada até dez horas, olhando as labaredas, que meu pai alimentava com aduelas e sarrafos. A gente da vila mexia-se, ria e cantava, iluminada por outros fogos. No dia seguinte as folhas do mamoeiro se torravam, pulverizavam. E na rua, desentulhada, apareciam grandes manchas negras.

Também conhecia o breu derretido. No armazém, barricas finas continham substância escura que, pisada, tirava a cor das moedas de vintém livres do azinhavre, raspadas no tijolo, molhadas e enxutas. Eu havia esfarelado um pedaço dessa maravilha, com um peso de meio quilo, junto à balança romana da loja. Tinha posto a massa dourada num cartucho de jornal, riscado um fósforo em cima e esperado o fenômeno. Uma lágrima correra no papel, alcançara-me o dedo anular, descera da unha a primeira falange. Largando a experiência, eu me desesperara, abafando os gritos, fora meter a mão num pote de água. Tinha sofrido em silêncio, receando que percebessem a traquinada e a queimadura.

Quando minha mãe falou em breu derretido, examinei a cicatriz do dedo e balancei a cabeça, em dúvida. Se o pequeno torrão, esmagado com o peso de meio quilo, originara aquele desastre, como admitir que pessoas resistissem muitos anos a barricas cheias derramadas em tachas fundas, sobre fogueira de S. João?

– A senhora esteve lá?

Desprezou a interrogação inconveniente e prosseguiu com energia.

— Eu queria saber se a senhora tinha estado lá.

Não tinha estado, mas as coisas se passavam daquela forma e não podiam passar-se de forma diversa. Os padres ensinavam que era assim.

— Os padres estiveram lá?

A pergunta não significava desconfiança na autoridade. Eu nem pensava nisso. Desejava que me explicassem a região de hábitos curiosos. Não me satisfaziam as fogueiras, as tachas de breu, vítimas e demônios. Necessitava pormenores.

Minha mãe estragara a narração com uma incongruência. Assegurara que os diabos se davam bem na chama e na brasa. Desconhecia, porém, a resistência das almas supliciadas. Dissera que elas suportariam padecimentos eternos. Logo insinuara que, depois de estágio mais ou menos longo, se transformariam em diabos. Indispensável esclarecer esse ponto. Não busquei razões, bastavam-me afirmações. Achava-me disposto a crer, aceitaria os casos extraordinários sem esforço, contanto que não houvesse neles muitas incompatibilidades. Reclamava uma testemunha, alguém que tivesse visto diabos chifrudos, almas nadando em breu. Ainda não me havia capacitado de que se descrevem perfeitamente coisas nunca vistas.

− Os padres estivaram lá? — Tornei a perguntar.

Minha mãe irritou-se, achou-me leviano e estúpido. Não tinham estado, claro que não tinham estado, mas eram pessoas instruídas, aprendiam tudo no seminário, nos livros. Senti forte decepção: as chamas eternas e as caldeiras medonhas esfriaram. Começava a julgara história razoável, adivinhava por que motivo Padre João Inácio, poderoso e meio cego, furava os braços da gente, na vacina. Com certeza Padre João Inácio havia perdido um olho no inferno e de lá trouxera aquele mau costume. A resposta de minha mãe desiludiu-me, embaralhou-me as idéias. E pratiquei um ato de rebeldia:

— Não há nada disso.

Minha mãe esteve algum tempo analisando-me, de boca aberta, assombrada. E eu, numa indignação por se haverem dissipado as tachas de breu, os demônios, o prestígio de Padre João Inácio, repeti:

—Não há não. É conversa.

Minha mãe curvou-se, descalçou-se e aplicou-me várias chineladas. Não me convenci. Conservei-me dócil, tentando acomodar-me às esquisitices alheias. Mas algumas vezes fui sincero, idiotamente. E vieram-me chineladas e outros castigos oportunos. **

A pedagogia do medo nos faz acreditar em coisas que nem imaginamos! O menino Graciliano é uma exceção que confirma a regra. De qualquer forma, convenhamos seu estilo é bem-humorado, sem perder de vista a seriedade da questão. Até porque, chineladas fazem doer!

Sim, o Diabo existe! Sem ele, é impensável a existência de Deus. Acreditar em Deus significa aceitar a existência do seu oposto; um necessita do outro para afirmarem-se perante a imaginação humana. Desconfio que foi o próprio Senhor que o criou. Ou terá sido a mente humana quem criou a ambos?!

Se o personagem dostoievskiano estiver certo, ambos são fatores que contribuem para a existência da civilização. Sem a adoração e o temor ao sobrenatural, o ser humano estaria livre de todas as amarras que o prendem à moral religiosa e só Deus – e o Diabo, é claro – sabem do que o humano, demasiado humano, é capaz! Eis que as forças que o oprimem o corpo, as leis e os instrumentos humanos criados para manter a ordem social são insuficientes. É necessário, ainda, controlar as mentes, aterrorizá-las e mantê-las pacificadas. Em outras palavras, é preciso garantir a submissão do espírito. Eis a função civilizadora da idéia de Deus e do Diabo. Não obstante, quantas barbaridades foram e são cometidas em Nome de Deus?!


* DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os irmãos Karamázov. São Paulo: Abril Cultural, 1970, p. 105-106.

** RAMOS, Graciliano. Infância. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1981, p. 77-79.

12 comentários sobre “O diabo existe? A pedagogia do medo e a função civilizatória do sobrenatural

  1. Ozaí, o pouco que conheço ou o nada que conheço de ti me mostra a singularidade que és tu nesse mar de equanimidades em que estamos metidos… Grato por dedicar seu tempo a compartilhar conosco das flores que se abrem em teu íntimo… A pedagogia do medo se estende além do da invenção e necessidade do Diabo, vai do bicho papão ao homem do saco, vai e vive conosco em cercas elétricas espalhadas pelas casas, cachorros, guardas, policiais, militares, fronteiras e armas, mas no fundo o que mais tememos e o que mais queremos é viver em paz. O Diabo ou a Sombra que vive em nós fruto de muitos condicionamentos passados ao meu ver é o que mais nos assusta. O espantoso Diabo que vive em nós mesmos que pensamos que existe (ou existe mesmo) no outro. O outro que é nosso objeto bem amado e bem odiado…
    O Capetão, tão fundamental nesse processo que chamamos civilização, mas afinal de contas que antecipados que somos em chamar algo de civilizado. O que vêm afinal a ser civilização? Por que tanto medo? Por que se perpetuar tanto essa cultura? Até quando precisaremos como no conto da Clarice ficar inventando Deus sem deixar espaço para que ele realmente se manifeste. Além de tudo que possamos imaginar, além, desse nosso pobre intelecto que tenta desesperadamente um sentido no além sem perceber o mistério que ronda a nossa vida no aqui. A fantástica vida que não está lá fora, mas bem escancarada no dia a dia. Mas tudo bem deixa essas questões para lá, já estamos atrasados para o trabalho e vamos mais uma vez entrando na maré civilizatória do medo de sermos demasiadamente humanos, demasiadamente divinos…

  2. O problema não está na crença da existência ou não de Deus, pois se existimos é porque algo nos criou. O problema está na natureza do criador. O Universo é infinito, portanto, nada pode criar o Infinito, uma vez que nada pode ser maior que ele. Então só nos resta uma alternativa: O próprio Universo é o criador. Mas como o Universo seria o próprio criador? Sabemos que tudo no Universo é regido por uma linguagem matemática. Hoje, os cientistas já sabem queo universo todo é permeado por uma energia. Eles a chamam de Energia Escura, porque não a vêem. Ora, uma Energia infinita e regida por uma linguagem matemática é uma Energia Inteligente. Logo, o próprio Universo é um campo infinito de energia inteligente, mas não Consciente, pois não faz sentido a existência de um ser que não conhece sua própria dimensão, já que é infinito (pelo menos, segundo Huberto Rohden esta forma de consciência que conhecemos). Esta teoria se encaixa na filosofia taoista que diz: Tao (o Universo Imanifesto, Deus) gera Ki (uma energia secundária já pertencente ao universo relativo), pois se divide em Yang e Yin e gera tudo que existe. É daí, talvez, que surgiu a frase “Deus criou o universo” traduzindo como Tao (o Universo Infinito) criou Ki (o universo relativo), somente assim ela faz sentido. E isso me leva ao conceito de que estamos dentro de um CHIP INFINITO, o Universo com todo seu mecanismo interno seria, portanto, um COMPUTADOR INFINITO, não manobrado por alguém de fora como no filme Matrix, mas manobrado por nós mesmos. Qualquer coisa que quisermos fazer podemos, desde que obedeçamos suas leis (manifestadas na matemática, física e química). Ora, se consideramos Deus como uma Inteligência Infinita, o seu oposto seria o nada e a ignorância e não o diabo, uma figura humana distorcida com chifres e pé de bode. Para quem quer se aprofundar neste assunto escrevi o livro O MITO DO DEUS PAI publicado pela EDITORA BIBLIOTECA 24X7 e que pode ser adquirido diretamente no SITE DA EDITORA ou na LIVRARIA CULTURA. Ele discute o Universo Inteligente, senhor de sua própria criação. Entretanto, este não é um livro materialista, pois mostra que somos quantidades ínfimas de energia gerada pela vibração da Inteligência Infinita até adquirimos consciência através das sucessivas reencarnações em corpos materiais até evoluirmos para Seres Superiores (Espíritos de Luz).
    Infelizmente, este é um assunto sobre o qual as pessoas se recusam a falar e até a pensar. Elas têm medo, horror mesmo do desconhecido e isso leva ao comodismo de aceitar as explicações burlescas dos religiosos inclusive de que quando se sofre é por que o deus pai gosta muito de nós e está nos pondo a prova para ver nossa o grau de nossa fé. Esta é a desculpa que os religiosos têm par justificar a miséria humana. Como psicanalista posso assegurar que esta é uma atitude de transferência dos nossos pais biológicos que nos protege quando criança para um pai mais poderoso que nos protegerá quando adultos. Recebi um E-mail que trazia uma lenda cherokee da iniciação de um jovem ao estado adulto. Nela ele ficava de olhos vendados a noite toda a mercê de toda sorte de perigos, mas ao acordar e tirar a venda dos olhos viu que seu pai estava ao lado dele o tempo todo. Comparava a mensagem a Deus nos protegendo. Respondi então: Se Deus está ao nosso lado, por que então ele não protege seus “filhos” como o pai do índio e evita tanta desgraça, tanto assassinato no meio do mundo. Esta é a razão pela qual nossos antepassados tomaram os extraterrestres que assomaram em nosso céus como deus e sua comitiva de anjos que vieram trazer justiça à Terra, fazendo prosperar os bons e aniquilando os maus, imagem esta bem retratada nos textos bíblicos e que perdura até hoje, mas o Infinito não pode se reduzir ao finito (aspecto humano). Assemelho esta condição a de dois personagens lendários de nossa história. O primeiro chamado de Bartolomeu Bueno da Silva vendo as índias ricamente adornadas com chapas de ouro procurou saber sua procedência. Como ela se recusaram a lhe informar ele pôs fogo a uma tigela contendo aguardente, afirmando que, se não lhe desse a informação lançaria fogo em todos os rios e fontes. Com medo, os índios informaram o local e o apelidaram de Anhangüera (em tupi, añã’gwea), diabo velho. O outro persongem é Diogo Álvares Correia que recebeu o apelido de Caramuru (palavra tupi que significa lampreia) ao afugentar indígenas que o queriam devorar, matando uma ave com um tiro de arma de fogo. O náufrago português foi bem acolhido pelos índios Tupinambás que o chefe deles, Taparica, lhe deu uma de suas filhas.

    Pedro Cabral Cavalcanti – pcabralcavalcanti@gmail.com

  3. Esse cotejo de Dostoievski com Graciliano Ramos soltou faiscas de proximidade e iluminaçao mutua. E o conto de Clarice Lispector completou o quadro, lindamente.
    Parabéns a todos.

  4. O conto a que me referi:

    “PERDOANDO DEUS”
    Por Clarice Lispector

    “Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas.
    Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade.
    Não era tour propriétaire, nada daquilo era meu, nem eu queria. Mas parece-me que me sentia satisfeita com o que via.
    Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso “fosse mesmo” o que eu sentia – e não possivelmente um equívoco de sentimento – que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-Lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho.
    O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.
    E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.
    Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva.
    Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado poderia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e que eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? no rato? naquela janela? nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais.
    Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar – não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele – mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação.
    … mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte.
    Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de “mundo” esse meu modo de ser um pouco de tudo.
    Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que “Deus” é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.”

    ~ Clarice Lispector, conto “Perdoando Deus”, livro “Felicidade Clandestina” (1998)

    • Não se responde a Clarice, à sua obra, à sua mínima presença. Como a Deus, responder a clarice seria inventar. Basta sua perene existência tào breve neste tempo de ratos. A existência de Clarice compensa um tanto a obscura dùvida de existência do Invisível.

  5. Boa tarde Ozaí, demais,

    Acredito profundamente que, apesar de todos os custos que a sinceridade possa vir a ter, quem anseia por uma vida mais autentica e encontros que valham a pena não pode abrir mão dela.
    Por isto estou muito grata por esta sua maravilhosa reflexão: como a criança do conto, vira e mexe sou “sincera, idiotamente”…hahahaha…
    Até muito pouco tempo eu era indiferente a existência de Deus (e, do Diabo) pensava que estando viva a grande questão era aprender a viver da melhor maneira possível.
    Se Deus existisse, ele saberia o que fazer de mim após minha morte.
    Hoje estou com tendencia a acreditar na existência de Deus, mas não dá nem para começar a falar sobre ele…hahaha…tem um conto da genial Clarice Lispector que fala do que pretendo dizer-lhe…vou ver se consigo cola-lo abaixo…

    Abraços,

    Áurea

  6. Eu já me manifestei em artigos anteriores que não acredito na existência do gramunhão.
    Não sou ateu, mas ignoro as religiões.
    Tenho uma certa inveja pelas pessoas que as professam, que são suas seguidoras e crêem firmemente na palavra de seus orientadores espirituais.
    Ora, como somos imperfeitos, sabidamente padres, pastores, rabinos, pais de santos ou qualquer outro porta-voz divino, também encontrariam dificuldades em interpretar os desígnios de Deus ao meu ver.
    Desta forma, apenas acredito em Deus e que a humanidade um dia entenda a sua importância e resolva as suas pendências.
    Penso que o diabo poderia ser substituído pelo remorso, e Deus pelo respeito, consideração, afeto e amor.
    O outro lado da vida, se houver, deve continuar misterioso, assim como não podemos avaliar alguém em todas as suas reações, intenções, pensamentos e atitudes.
    Mas que a criação ou invenção do demônio serviu de freio a ânimos mais exaltados isso é indiscutível , e a criação ou invenção de Deus para acirrar esses mesmos ânimos e servir como justificativas a ódios e guerras e segregações, igualmente indubitável.
    Contradições que povoam a nossa mente porque agimos da mesma forma contraditória.
    Se Deus e o lado bom e o diabo o lado ruim e ambos habitam nosso espírito, certamente em razão de nossas limitações ora pensamos agir em nome do bem, mas estamos do lado mau ora pensamos o contrário.
    Só não admito quando resgatam esse símbolo dom mal para justificarem atitudes ignóbeis, fracas, típicas de caráter falho.
    O maior problema que tivemos foi esse medo do castigo que foi inoculado em nós, que impediu muito da nossa criatividade e ascenção espiritual, certamente.
    Uma pena as religiões terem se fundamentado mais no demônio que em Deus; mais na punição que compreensão pelas nossas falhas.
    Mas sempre reverenciamos mais o temor que o enfrentamento. O medo baliza o nosso comportamento e é o sentido mais aguçado que temos, principalmente diante do desconhecido.
    Pois justamente por não nos conhecermos ainda, não imaginarmos as nossas potencialidades, a “outra vida” nos causa temor, ao invés de servir como esperança para um merecido repouso após termos experimentado a condição humana de viver.

  7. Shalon Adonai!, amado, a figura histórica, folclórica e que muitos seres humanos gostam mesmo, não é de Deus, é do DIABO. Como essas os seres vivos conseguiram se juntar na antropologia física e cultural para simplesmente ser mais importante do que o presidente morto da Venezuela, que me nego a escrever o nome desse diabo das Américas.
    Seguindo os passos da Apologética, questiono a utilidade desse bichano, chifrudo e carnavalesco, no gênesis bíblico a ser reconhecido como uma serpente, que até hoje pouco intérpretes da Bíblia não conseguiram saber qual o seu substituto.
    Qual será a função da crença no século 21, relativo ao personagem “diabo”, é por isso que muitas pessoas perderam o interesse na igreja, pela falsa importância que se dá ao diabo com outros nomes de anjo maléfico ao Belzebulth. Pouco se prega sob o bem e mais estamos enfraquecendo a espiritalidade, o povo evangélico e o católico vem perdendo o sentido de uma Pátria Espiritual, proliferam as seitas e os makumbeiros começam a acordarem pelo seu valor como foi com a Pitoniza de Endor, que exalta a figura de um diabo revelador e ainda o batiza de profeta Samuel.
    Considere cada brasileiro como bom imitador, assim vamos seguir a maioria, o diabo faz sentido e tem muita importância na ignorância das origens do homem ou dos seres humanos. Finalmente meu amado e amigo escritor tenho obrigação de dizer que divido o meu amor pelo DI-A-BO. HALLELUJAH.

  8. Ozaí,

    Parabéns pelo post de hoje. Dostoiévsky e Graciliano Ramos juntos em um mesmo post ficou muito bom, sobretudo pela passagem do texto do Graciliano Ramos. A propósito da sinceridade, e embora não seja exatemente esse o caso no texto de Ramos, tenho uma colega de trabalho cujo pai dz que as pessoas gostam da sinceridade, mas detestam os sinceros.

    Um abraço,

    Francisco Giovanni

    • Caro Giovanni,

      boa tarde.
      Meu sincero muito obrigado.
      Bem, acho que o pai do seu colega tem razão! rsrsrs
      Abraços e tudo de bom,

      Ps.: Ainda aguardo aquele seu texto. Lembra?! Sua contribuição é fundamental.

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