Pode existir amizade entre o professor e o aluno?

Pode haver amizade entre o(a) professor(a) e os(as) alunos(as)? Se a amizade pressupõe igualdade, ela não tem espaço onde as relações humanas se pautam por relações de poder. A autoridade do professor pode ser exercida democrática ou autoritariamente, mas não deixa de expressar relação de poder. Ambos, professores e alunos, de certa forma, representam papéis diferentes. Como escreve Vernant (2002, P. 31)*:

“Um professor age como um ator quando chega numa sala de aula. Mas existem diferentes formas de atuar. Podemos bater na mesa e mostrar toda a distância que separa alunos do professor. Podemos jogar o jogo contrário, e foi o que fiz quando dei aulas no colégio: não só sendo informal com os alunos, mas procurando abolir, até nas roupas e no vocabulário, qualquer indício de autoridade conferida por uma hierarquia social. Evidentemente, o professor sabe muito bem, seja qual for a estratégia que adotar, que não é a mesma coisa ser professor e ser aluno.”

O aluno também tem plena consciência da realidade que o interpõe ao professor. Ele joga o jogo e pode vislumbrar na postura do professor uma simples manifestação demagógica – como também pode se convencer, simplesmente, de que o professor é um tolo. Faz parte da sua estratégia de sobrevivência diante das regras sociais e burocráticas. É compreensível. Por mais que o professor se mostre democrático e amigo, ambos, ele e o aluno, sabem que: “Aquele que está sentado em sua carteira e aquele que se encontra atrás da mesa não possuem o mesmo estatuto. A estratégia da não-distância pode ser muito eficiente ou, ao contrário, conduzir aquele que a usa para a catástrofe” (p. 31-32).

Professor e aluno expressam uma relação social. Contudo, a representação democrática implica a idéia de que ambos compartilham do mesmo grupo, constituem uma comunidade. Neste sentido, é possível estabelecer um jogo que questione a hierarquia socialmente definida. Para Vernant, não se trata apenas de uma habilidade, mas de “uma estética, e de uma ética da relação social” (p. 32). O professor ético não tenta iludir seu aluno, até porque este sabe que o poder burocrático-institucional legitima a função professoral.

“É preciso começar por deixar de ser professor para poder sê-lo”, afirma Vernant. Mas é possível ao professor deixar de sê-lo, abdicar do seu papel e mesmo do seu poder? E ainda que o faça não soará como falso ao seu aluno? A amizade implica um cimento que une os iguais em suas diferenças e permite a constituição da comunidade. A idéia de que professores e alunos constituem uma comunidade, um grupo, indica que, apesar do jogo de poder, eles são cúmplices:

“Esse elemento fundamental é o sentimento de cumplicidade, de uma comunidade essencial sobre as coisas mais importantes. Na relação do professor com seus alunos, é o fato de compartilhar uma certa imagem do que deve ser uma pessoa, de ter em comum uma forma de sensibilidade e de abertura para o outro, de concordar com a idéia de que ser outro significa também ser semelhante” (Id.).

É preciso anular a distância que separa professores e alunos, mas é possível? Não se pode ser simultaneamente professor e aluno. Também não se deve perder de vista que “as estratégias igualitárias têm um aspecto hipócrita, demagógico, e podem na verdade reforçar as posições de poder” (Id.). E os limites entre o democrático e demagógico são tênues. Porém, se o ser professor indicar uma atitude fundada em algo mais forte do que a relação de poder. Ou seja, se há ética na relação social e a compreensão de que professor e aluno constituem uma comunidade, então é possível diminuir a distância que os separa e fortalecer a relação fundada no sentimento de amizade. Este sentimento não indica harmonia, mas pertencimento à mesma comunidade. Ao pautarmos a relação por esta ética e sentimento, a amizade nos transforma. Assim, se o professor demonstra amor pelo que faz e respeito aos seus alunos, maior será a possibilidade destes se verem numa relação social formadora de uma comunidade cimentada por laços de solidariedade.

A amizade “sempre implica afinidades relativas às coisas essenciais” (p. 33). Trata-se de colocar em destaque o que é fundamental na relação professor-aluno para que eles se reconheçam enquanto um grupo constituído, uma comunidade. Pois a amizade também implica em que os diferentes compartilhem para que possam criar algo juntos. Nesta relação, o professor se constrói e também aos seus alunos: na medida em que está aberto ao outro, este outro se reflete nele e ele se transforma; mas, simultaneamente, transforma o outro. Nessa interação, que é conflitante e contraditória, a amizade torna-se possível.

E você, caro(a) leitor(a), considera possível a amizade entre professores e alunos? Como avalia os argumentos expostos acima?


* Esta reflexão resulta de notas de leitura da obra Entre Mito e Política, de Jean-Pierre VERNANT (São Paulo: Edusp, 2002). Todas as citações se referem a este livro.

22 comentários sobre “Pode existir amizade entre o professor e o aluno?

  1. Matéria importantíssima, que conduz à reflexão do que é “ser humano”. Parabéns!

    No passado, se arvorava dizer: o “ser professor” se faz pela vocação. Hoje, o “ser professor” se faz pela necessidade de sobrevivência!

    Autoritarismo e relações humanas não combinam. Parece ser este o ponto crucial desta rica discussão.

    Sem ter a noção exata do porque, os professores, em grande parte desprovidos dos princípios norteadores dos processos educacionais, carregam nos ombros e na mente a postura autoritária da voz de comando, perspiscazmente introduzida no seio docente pelo regime militar.

    Sou professor há 21 anos. A sala-de-aula é uma extensão da minha vida. Nela me despojo da presunção e divido com os estudantes um pouco daquilo que poderá torná-los melhores na sua essência humana. Tenho conquistado a confiança e a continuidade de uma relação norteada pelo respeito e afeto mútuos. Talvez a isto se possa nominar “amizade”.

  2. claro que é uma possível essa amizade,eu sou muito amiga de um professor meu,somos “brothers” gostamos das mesmas coisas e nos divertimos muito juntos e isso não atrapalha em nada na sala de aula,eu o respeito como professor e ele me respeita como aluna na sala de aula,mas quando acaba a aula ficamos completamente diferentes,como amigos dinovo !!!

  3. Sou professora do 5º ano.Levei algumas alunas num final de semana ao cinema ,e para minha surpresa fui chamada a sala da diretora ,pois a mesma questionou a minha saída com as crianças.Mesmo eu tendo dito que fui buscar as crianças em casa e que os pais haviam permitido e que os mesmos tinham consciência de que a ida ao cinema não tinha vinculo com a escola ,ela fez um relato do ocorrido e pediu que eu assinasse.Foi constrangedor,

  4. Eu sou estudante e curso o terceiro ano do ensino médio, tenho amizade com vários professores que me dão aula, inclusive saimos, trocamos sms, vamos na casa uma da outra jogar video game. É possivel existir amizade sim, desde que o aluno que tenha a amizade não queira ser tratado com diferença na sala de aula, só porque tem mais intimidade com o professor do que os demais fora da escola.

  5. amizade é uma janela que se abre uma dimensão entre professores e alunos quando -o professor dá breja aí fica fácil de acontecer o inesperado quando o aluno é bastante comunicativo tá ali sempre trocando olhares sem ninguém perceber só professor consegue notar e ver mesmo desfarçado ou fingindo que tudo está muito longe me engana que eu gosto sabem aquele tipo de aluno mesmo com as nota baixa mesmo assim faz de tudo para agrada-lo o professor querendo cada vez mais aproximar mais e mais paga um lanchinho na hora do recreio ás vezes dá até carona para o professor e assim vai até chegar o momento ideal ou seja a velha oportunidade uma coisa eu digo e assino em baixo o amor seria tão fácil se a beleza do corpo não fosse tão difícil.o amor existe em qualquer língua não tenho dúvida nenhuma dessa relação entre professor e aluno acontecer desde que seja ambos mente abertas é sim cabível o respeito ele é essencial para ambos partes o professor vai para a sala de aula para insinar e o aluno para aprender mas o inesperado acontece sem avisar filiz é aquele que sabe aproveitar cada momento da vida sem preconceito sem violência o amor é paz é alegria só ele nos faz sorrir ….

  6. São raros os professores (a )que querem amizades com alunos,eles se acham superiores…A maioria quer ter amizade com pessoas q estão no mesmo patamar que eles…Isso é,alunos são inferiores!!!

  7. Grato Ozaí…

    cuidado com a inquisição heim…

    Pois bem, pela premissa que me pauto a amizade não é possível entre professores e alunos uma vez que a amizade manifesta-se antes de tudo de uma afinidade de espíritos afins que comungam entre si a existência sem a intermediação de papeis. Por mais que o texto busque compreender a amizade dentro do contexto professor/aluno ela não pode se realizar na medida que é vinculada por esses papeis/hierarquias e imagens correlativas pautadas em expectativas em detrimento desses mesmos papeis. Como esperar que exista uma real amizade dentro desses preâmbitos, quando um já vai com um olhar pré-moldado em relação ao outro. O que vejo na prática é que o ambiente (sala de aula) propicia através do encontro germinar uma posterior amizade onde ao término da relação ali estabelecida abre para que os mesmos possam se desenvolver aí sim em semelhanças confluentes de sentires e poderem dizer um ao outro: somos amigos.

  8. Antes de escrever este post ou durante, deviam ter definido o que é amizade.
    Diante do conceito formado pelo aluno do que é amizade, acredito mesmo que não devia existir amizade entre esses dois entes da da comunidade escolar.

    Eu vejo os bons exemplos relação professor-aluno nas escolas ao redor do mundo como, por exemplo, da Filândia, Coréia do Sul, Japão, agora, a China que disponta com seus bons resultados, e lá professor não é amigo de aluno. Lá, professores são Professores, fazem o seu serviço ao invés de tentar comprar o aluno com hipocrisias.

  9. Ola Ozai!
    É interessante a temática tratada no artigo postado por você.
    O meu ponto de vista se aproxima ao do de José Maria. Por ser uma relação complexa é necessário distinguir a que faixa etária de alunos se está falando. Porque as relações por faixa etaria são distintas.
    A nível superior acredito que seja possível, por serem pessoas maduras e com objetivos bem definidos. Mas no Ensino Fundamental e Médio as coisas são bem diferentes, pois, se trata de crianças que estão em fase de formação e compreensão dos papéis de cada pessoa…, adolescentes e jovens que tem dificuldades em lhe dar e aceitar os papéis de cada pessoa. Muitas vezes confundindo ou não aceitando os papéis.
    Nas postagens as pessoas tratam da proplemática indiscriminadamente, como se as relações nas diversas etapas da vida fossem iguais. Um problema do seu artigo, ao meu ver, foi essa não distinção.
    Mas gostei das intuições contidas no artigo.
    Abraço.

  10. Penso que se o professor não se colocar num pedestal autoritário, possa haver uma troca, mínima que seja – dependendo do grau de instrução e relação – entre alunos e professores. Um professor não precisa ser amigo íntimo, mas precisa demonstrar que é ao menos compreenssivo com as necessidades e expectativas de quem está ali buscando conhecimentos e novas experiências, sejam elas didáticas ou pessoais, porque nada mesmo impede um professor de ser próximo de um aluno.
    Já tive professores que eram conselheiros de turma, e quando precisei da ajuda de um deles, obtive mais que isso, porque além de me ouvir ele me ajudou a entender o que se passava comigo. Isso, qualquer professor pode estar apto a fazer, basta ter sensibilidade e estrutura cultural e emocional.

  11. Ozai: A amizade entre professor e aluno/a é possivel desde que foi encerrado o contrato pedagógico. O mesmo vale para a relação médico/ paciente, psicoterapeuta/ paciente, advogado/ cliente, etc. Porque enquanto vige o contrato, existe dessimetria da relação, logo, a amizade fica impedida de autenticidade. Na universidade contemporânea, ainda existe a relação “especial” entre orientador e orientando/a, que tende ser mais intimista e marcada pelo humor de ambos e trocas sobre a historia participar de cada um, impressões sobre a vida, etc, no decorrer do processo de orientação do trabalho/pesquisa. O risco é a orientação virar “também” relação amorosa e sexual. Recoloco, aqui, sua pergunta: pode existir amor genuíno ou sexo eventual entre orientador e orientando, se tratando de duas pessoas maiores de idade? (Raymundo Lima)

  12. Hoi Ozaí!!!!
    O teu artigo é bastante pertinente, sabes porquê??
    Porque normalmente o aluno pensa que quando existe uma relação entre professor
    e aluno é porque esta havendo um caso ou o professor não se dá ao respeito…
    Enfim, eu acredito que as pessoas podem dar se bem, mas sempre pautado pelo
    respeito mútuo e sem terem que misturar as coisas, porque até não podemo-nos
    esquecer que apesar de existir essa hierarquia o ser humano é um ser social.

  13. Ótimo post, Ozaí! Acredito que a amizade entre professor e aluno é totalmente possível desde que os dois estejam abertos e dispostos a essa relação. Eu tenho relações muito boas com meus professores e são maravilhosas, pois assim a troca de conhecimento é muito maior!
    Abraços.

  14. Olá Ozaí,

    É a primeira vez que leio um texto escrito por vc.
    Penso que é muito relevante essa interação professor/aluno não só em sala de aula, mas em outros momentos tmb. Esse vínculo que podemos denominar de “amizade” gera laços que se perpetuam.
    Adoro compartilhar momentos da minha vida com os alunos do projeto no qual faço parte. Eles perguntam sobre a minha vida secular, me cumprimentam quando me encontram na rua, trocam email, celular…etc.
    Foi se o tempo que o professor era visto como alguém intocável, que está em posicionamento completamente diferente dos seus alunos.
    Abraços, Elice.

  15. Como não sou professora, talvez traga em mim uma imagem muito idealizada.
    Pode ser que seja por isto que não tenha entendido sua questão…
    Sou tão idealista que entre aluno e mestre só concebo o belíssimo jogo que Paulo Freire fazia.
    Um jogo no qual o grande Paulo se conduzia pelo seu apurado amor a humanidade.

  16. Shalon adonai! Antigamente os índios eram odiados, mas os professores sempre tiveram os seus defensores, alguns alunos é que perderam a sua consciência da utilidade dos professores em suas vidas. Eu comecei e sala de aulas em 1966 e hojes ainda não encontrei alnos meus que não tenha afirmado que fui um colaborador no seu crescimento como ser humano e como cidadão. Isso é muito gratificante. Alguns momentos temos entrada em discussão pois não conseguem ter a luz da razão ou querem um movimento como se fossem um gênio da lamada. Ser professor é a ultima resposta da conspiração do conhecimento. Professor de biologa, eis a revelação da vida em todos os seus milagres. eu sou amigo de meus alunos e os alnos bons nuca esquecem. HALLELUJAH.

  17. Profº Antonio Ozaí, seu artigo me chamou a atenção por não conter o termo “mediador”, que acredito, seja a mais atual função docente, incentivando a autonomia do aluno. E dentro desta perspectiva, posso acreditar que seja perfeitamente possível a amizade entre professores e alunos.

    Deixo o link de um artigo lido faz algum tempo, para elucidar minha colocação.

    http://www.gestaouniversitaria.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=185:o-professor-como-mediador-no-processo-ensino-aprendizagem&catid=38:40&Itemid=21

  18. Penso que quando falamos em “humanização no processo educacional” essa questão deve ser pontuada,uma vez que não podemos educar com princípios humanísticos se os professores colocarem uma barreira institucional ou reafirmarem essa relação de poder de maneira autoritária,ou seja,se quisermos ensinar com os métodos da “pedagogia do exemplo” devemos tratar os alunos como iguais. Todavia,sem pretender ser contraditório, é preciso que haja ainda o discernimento por parte do educando e do docente em relação aos papéis de cada um nesse “jogo”,sendo que na sala de aula o professor irá agir como tal,e a amizade ficará das portas pra fora .Caso contrário perde-se o respeito do aluno quando esse o professor não estabelece limites e vira o professor “amigão”. Todavia essa pode ser uma estratégia pedagógica para atrair a atenção dos alunos,desde que seja dosado esses extremos.Pelo menos essa é a minha modesta experiência no ensino secundário onde atuo,o que me deixa na dúvida se isso é um agravente pela imaturidade dos adolescentes ou uma imagem mítica do professor arraigada no imaginário social,imagem difícil de ser descontruída.
    A grande problemática é que o professor tem uma imagem esteriotipada,muitos alunos pensam que os docentes não possuem vida social,como se o professor fosse um ser que vive em um universo paralelo,ou em uma caverna a preparar suas aulas,os enxergam como verdadeiros monges da educação.Perde-se de vista que esse também é um ser humano em constante transformação, passível de erros e acertos,que deve antes de adentrar em uma sala de aula aprender que deve ensinar e aprender,e sempre dosar os extremos ideológicos e valorativos,e que antes de tudo estamos lidando com seres humanos,passível de múltiplas determinações e com todo um repertório subjetivo que não pode ser ignorado,o aluno precisa ter voz,. No mais,muito interessante o tema do artigo….

  19. Quando se está lidando com adultos, final do médio e universitário, acredito que se aplica, mas nas séries iniciais e na adolescência é mais complicado. Os sujeitos em formação confundem, ou parecem querer confundir os papéis sociais, vivem testando os limites, buscando as possibilidades de confronto. Se não ficar muito evidente os limites e o professor não mostrar a sua autoridade cria-se uma zona gelatinosa e confusa sem possibilidades de apoio para a formação.

  20. Amizade para mim é uma espécie de amor, sem a necessidade de fidelidade, conquistas, apegos, sexo, etc
    Eu a acho possível até entre homens e mulheres (!!!!!!) rsrsrs…
    Porque não entre professor/aluno, chefe/empregado, etc, etc, etc…?
    Tenho experimentado deixar os jogos sociais para os que precisam marcar território.
    Resultado desta experiência: fiquei mais livre, leve e solta.

  21. Olá Ozaí!
    Gostei muito do artigo, pois a possibilidade de existir amizade entre prof e aluno tem sido constantemente debatida, tanto entre profs como entre profs e alunos. Aqui, a questão de compreender o que é fundamental nessa relação, esclarece algumas dúvidas sobre a possibilidade de constituir laços de amizade com os alunos.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s