O marxismo é religião?

Certa feita, num evento acadêmico, causou acirrada polêmica e furor um comentário sobre as afinidades eletivas entre marxismo e religião. Não foi meu intuito afirmar que o marxismo em geral é uma espécie de religião laica. Apenas chamei a atenção para o fato de que determinados comportamentos, observados em minhas vivências, muito se assemelham a uma forma religiosa de conceber e praticar uma ideologia. Outro dia, por exemplo, a fala de um companheiro, seu tom de voz e gesticulações, aliado ao conteúdo sectário da sua mensagem, mais me parecia uma pregação profética de verdades dogmáticas. Contribuía até mesmo a aparência física do falante, com sua barba branca que assinalava o passar dos anos. Era um discurso de fé e defesa da ortodoxia. Mais parecia que estava diante de um profeta falando para discípulos convertidos. E não é uma questão de idade. Noutra ocasião, observando um jovem acadêmico a defender o marxismo, tive a impressão de estar perante um sacerdote neófito.

Compreendo a paixão que move uns e outros, mas parece-me que são tênues os limites entre a adesão voluntária e racional a uma determinada ideologia – um ismo qualquer – e a transubstanciação desta em uma crença ortodoxa, à maneira religiosa. Parece-me, portanto, que, em determinados contextos, as ideologias laicas adquirem caráter religioso. Então, seus profetas, pequenos sacerdotes e seguidores, acríticos e papagaios de slogans, agem à maneira dos grandes e pequenos inquisidores. E se não nos lançam na fogueira da inquisição laica é, simplesmente, porque não tem o poder.

Felizmente, este tipo de comportamento não é geral. No entanto, parece-me que há uma certa vinculação entre fé e ideologia. É uma hipótese. Será que as ideologias embutem em si um certo messianismo? Não expressam o desejo humano de construir o paraíso aqui na terra? Estou convencido de que os sonhos de sociedades perfeitas são perigosos. O ser humano real é imperfeito. As sociedades criadas pelo humano são imperfeitas. Imaginar a ordem social perfeita é idealismo – ainda que em nome do materialismo dialético.

Bem sei que há marxistas que não são dogmáticos nem agem à maneira religiosa. Mas também há a patrulha ideológica que, diante de qualquer possibilidade de crítica ao cânone, logo buscam os rótulos políticos – quando não o mero xingamento – para afastar os críticos. De qualquer forma, estas reflexões me fizeram lembrar a leitura de Tempos interessantes: uma vida no século XX, do historiador marxista Eric J. Hobsbawm. Neste livro, Hobsbawm faz referências a termos próprios da religião. Por exemplo, ao analisar o Movimento Comunista Internacional após a morte de Stalin, escreve:

“Embora a Igreja Comunista Universal tivesse feito surgir diversos grupos cismáticos e hereges, nenhum dos grupos rebeldes que ela gerou, expeliu ou matou jamais conseguiu estabelecer-se além do âmbito local como rival, até que Tito o fizesse em 1948…” (p. 226).[1]

O marechal Josip Broz Tito, dirigente máximo da ex-Iuguslávia socialista, foi “excomungado” da “Verdadeira Igreja”, até que, em 1955, houvesse a reconciliação com Kruchev. E os comunistas que tiveram que aceitar a excomunhão, agora se viam obrigados a reconsiderar.

Segundo Hobsbawm, “Para os jovens revolucionários de meu tempo, as manifestações de massa eram equivalentes às missas papais para os católicos devotos” (p. 354). É muito interessante o seu depoimento sobre o significado do ser comunista naquela época:

“Para os que, como eu, se tornaram comunistas antes da guerra, e especialmente antes de 1935, a causa do comunismo era em verdade algo a que pretendíamos dedicar nossas vidas, e alguns de fato o fizeram. A diferença crucial veio a ser entre os comunistas que passaram a vida na oposição e aqueles cujos partidos tomaram o poder, e que portanto se tornaram direta ou indiretamente responsáveis pelo que ocorreu em seus regimes. O poder não corrompe necessariamente as pessoas como indivíduos, embora não seja fácil resistir a sua corrupção. O que o poder faz, especialmente em tempos de crise e de guerra, é tornar-nos capazes de realizar e justificar coisas inaceitáveis se fossem feitas por indivíduos privados. Para os comunistas como eu, cujos partidos nunca estiveram no poder nem metidos em situações que exigissem decisões sobre a vida ou a morte de outras pessoas (resistência, campos de concentração), as coisas foram mais fáceis” (p. 150).

Ser comunista nesta fase, segundo o título da autobiografia de Giorgio Amendola, líder comunista italiano antes da guerra, era “Uma escolha de vida” (Una scelta di vita) (p. 150). Exigia dedicação plena ao partido:

“O “partido de vanguarda” leninista era uma combinação de disciplina, eficiência executiva, completa identificação emocional e um sentimento de dedicação total” (p. 155, grifo do autor).

Um exemplo ilustrativo da “fé” no partido é o depoimento de um amigo do autor, Tedy Prager, sobre uma militante comunista, Freddie, que ficou presa sob uma viga após a detonação de uma bomba inimiga despejada em Cambridge, durante a Segunda Guerra Mundial, mas precisamente em 1941:

“Ela gritava que o fogo estava queimando seus pés, e eu continuava a dar machadadas na viga, mas nada acontecia. Pobre Freddie… Não adianta, ela agora gritava, vou morrer. E então, enquanto as lágrimas me vinham aos olhos devido ao desespero e à fumaça, tão exausto que não conseguia levantar o machado, ela bradou: Viva o Partido, viva Stalin… Viva Stalin, gritava ela, e adeus rapazes, adeus Tedy” (citado p. 155).

Segundo Hobsbawm:

“Freddie não morreu, mas teve as pernas amputadas. Na ocasião, nenhum de nós consideraria surpreendente que as últimas palavras de um membro moribundo do Partido fossem para o Partido, para Stalin e para os camaradas. (Naquele tempo, a idéia de Stalin entre os comunistas estrangeiros era tão sincera, tão natural, tão imaculada pelo que se soube depôs, e tão universal quanto a genuína dor que sentimos em 1953 por ocasião da morte de um homem que nenhum cidadão soviético desejaria – ou ousaria – chamar por um apelido como “tio Joe” na Inglaterra ou “Bigodudo” [Baffone] na Itália. Nossas vidas eram para o Partido. Devíamos tudo o que tínhamos e recebíamos de volta a certeza de nossa vitória e a experiência da fraternidade” (p. 155-156).

“Aceitávamos a absoluta obrigação de seguir a “linha” que nos era proposta, mesmo se discordássemos dela, embora fizéssemos esforços heróicos para nos convencer de sua “correção” intelectual e política a fim de defendê-la, como se esperava de nós. Ao contrário do fascismo, que exigia abdicação automática e submissão à vontade do líder (“Mussolini sempre tem razão”) e o dever incondicional de obedecer a ordens militares, o Partido – mesmo no auge do absolutismo de Stalin – apoiava sua autoridade, pelo menos em teoria, no poder de convencimento da razão e do “socialismo científico”. Afinal de contas, supunha-se que fosse baseado numa “análise marxista da situação”, que todos os comunistas deveriam aprender a fazer” (p. 156).

A dedicação abnegada ao partido era plena e incluía, inclusive, aspectos da vida privada e sentimental:

“Fazíamos o que o Partido nos mandava fazer. Em países como a Grã-Bretanha ele não nos requisitava nada de muito dramático. Na verdade, não fosse sua convicção de que aquilo que faziam estava salvando o mundo, os comunistas poderiam sentir-se entediados com as atividades rotineiras de sue Partido, conduzidas segundo o ritual costumeiro dos movimentos trabalhistas ingleses (camarada presidente, minutas de reuniões, relatório de tesoureiro, resoluções, contatos, vendas de livros, e tudo o mais) em casas particulares ou salas de reunião pouco acolhedoras. Mas obedeceríamos a quaisquer ordens que o Partido nos desse. Afinal, a maioria dos quadros soviéticos e do Komintern, no período do terror stalinista, que sabiam o que os esperava, acataram a ordem de regressar. Se o Partido mandasse abandonar o amante ou o cônjuge, obedecia-se. Após 1933 o Partido alemão no exílio ordenou a Margaret Mynatt (mais tarde inspiradora das Obras completas de Marx e Engels em língua inglesa) que fosse de Paris para a Inglaterra, pois precisava de alguém em Londres, e, como a entrada de comunistas alemães conhecidos era negada, foi necessário contar com um camarada com documentação britânica válida. Sem um momento de hesitação ela abandonou o amor de sua vida (assim me disse ela mais tarde) e partiu. Nunca mais o viu (ou seria a viu?) novamente” (p. 156-157).

“Era impensável qualquer relacionamento sério com quem não fosse membro do Partido ou estivesse para ingressar (ou reingressar)” (p. 157).

Este também foi o caso do primeiro casamento do autor:

“Naturalmente ela era também comunista; filiou-se ao Partido quando casamos – naquela época eu consideraria inconcebível casar com que não fosse membro do Partido…” (p. 200).

“Confesso que no momento em que percebi ser capaz de imaginar uma verdadeira relação com alguém que não fosse recruta potencial do Partido compreendi que já não era mais comunista no sentido integral de minha juventude” (p. 157).

Ser comunista pressupunha um ethos, uma moral revolucionária, uma conduta objetiva e subjetiva, a fé no socialismo e no partido:

“Nesses tempos a sociedade deles é uma versão em miniatura da sociedade ideal, na qual os homens são irmãos e sacrificam tudo pelo bem comum sem abandonar sua individualidade. Se isso é possível no âmbito do movimento, por que não será possível em toda parte” (p. 158).[2]

“A essa altura eu havia reconhecido, com Milovan Djilas, que tratou extraordinariamente vem da psicologia dos revolucionários, que “essa é a moralidade de uma seita”, mas que isso é precisamente o que lhes deu tanta força como impulsores da mudança política” (p. 158).

Hobsbawm enfatiza que “o comunismo representou o ideal de transcender o egoísmo e servir toda a humanidade sem exceção” (p. 160). Isto exigia sacrifícios:

“Dureza, até mesmo falta de piedade, fazer o que tinha de ser feito, antes, durante e depois da revolução, era a essência do bolchevique. Era a reação necessária aos tempos” (p. 160-161).

“Na guerra total em que estávamos metidos, não nos perguntávamos se deveria haver limites aos sacrifícios impostos a outrem, mais do que a nós mesmos. Como não estávamos no poder, nem era provável que chegássemos a ele, esperávamos ser prisioneiros, mais do que ser carcereiros” (p. 161)

“Havia partidos comunistas e seus funcionários, como André Marty que aparece em Por quem os sinos dobram, de Hemingway, que se orgulhavam de seu bolchevismo “duro como aço”, e não menos o Partido Comunista soviético, no qual este se juntava à tradição absolutista de poder ilimitado e à brutalidade da existência russa cotidiana para produzir as hecatombes da era stalinista” (p. 161-162).

“… a prova de sua devoção à causa era a disposição de defender o indefensável.[3] Não era o credo cristão Credo quia absurdum (“acredito porque é absurdo”), e sim o constante desafio: “Podem me experimentar mais: como bolchevique, eu não sucumbo” (p. 162).

A fé pressupõe unicamente a crença. Não há algo de religiosidade neste ethos comunista? O leitor pode argumentar que o depoimento de Hobsbawm se refere ao período stalinista, ao período do culto à personalidade. Tem razão. Mas será que o culto aos líderes, a transformação da teoria dita revolucionária em dogma e a defesa da ortodoxia são aspectos restritos ao predomínio do “guia genial dos povos”? Afinal, há ou não manifestações ideológicas autodenominadas marxistas que mais se assemelham a seitas religiosas? Há ou não afinidades eletivas entre marxismo e religião? Qual a sua opinião, caro leitor, cara leitora?


[1] Todas as citações são de: HOBSBAWM, Eric J. Tempos interessantes: uma vida no século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2002 (grifos meus).

[2] Esse trecho é citado pelo próprio autor e refere-se ao que escreveu logo após a crise de 1956, quando se “encontrava mais próximo das convicções da juventude” (p. 158).

[3] Hobsbawm se refere a Theodore Rothstein, fundador do PC britânico, que sofreu muito ao cair em desgraça aos olhos de Moscou.

22 comentários sobre “O marxismo é religião?

  1. Bom dia, Antonio.

    Bem, é evidente que isso que podemos generalizar como “fé religiosa” não se restringe à religiosidade. Podemos ver exemplos semelhantes nas torcidas de times de futebol, na escolha de determinados produtos mercadológicos, na adesão a determinadas empresas como prestadoras de certos serviços (de bancos à clubes). E, evidentemente, também na política. E nesta, não somente no sentido de ideologias, mas o que seria o nacionalismo senão um tipo de fé, de credo?

    A pergunta que te faço, respondendo tuas suscitações do fim do texto é: isso torna a ideologia, a perspectiva política em questão, “negativa”? Não seria algo natural, na medida em que “nos encontramos”, no sentido de que percebemos nesta a resposta para nossas inquietações de cidadão, de homem (essencial e naturalmente político) e de que vemos nisso alguma esperança de mudança (evolução, melhoria, justiça) social?

    Penso que, mais do que compreensível, é aceitável e, em certa medida, até louvável — desde que não venha a CEGAR o adepto, como algumas religiões, em certa medida, sim, o fazem. Mas não é porque é religião que é sinônimo de “ruim”, de “retrógrado” ou de “limitado, mente fechada”. Não concorda?

  2. Na Ideologia Alemã, o próprio Marx diz que ” a maior força motriz da humanidade é a paixão ” os partidários do períodos de guerra não têm opção. Mas nos períodos de paz têm que rever as opções de suas lutas. O marxismo hoje, tem a obrigação de falar sobre a própria vida, as teorias do passado são referências mas a vida hoje é outra, ainda que muito semelhante.

  3. o Marxismo é um para muitos uma crença na utopia de uma sociedade na ausência de sociedade nos moldes do capitalismo. Se a religião é a crença em uma vida que se importa com a vida dos outros, o marxismo é uma práxis que defende o oprimido dos seus algoses os ricos.
    O pensamento de Marx é claro e o objetivo quando defende o grito dos excluídos, exortando os lideres religiosos, intelectuais a descerem do púlpito das palavras para campo de batalha das ações transformadoras.

  4. À primeira vista, o poder do Estado Burguês da atualidade aparenta, dessa forma, estar dividido, sob o aspecto orgânico, em Poder Legislativo – esse subdividido internamente em duas casas parlamentares ou congressuais, i.e. Assembléia e Senado -, Poder Executivo – esse outro subdivido internamente em órgãos de Governo e de Administraçao Pública – e, finalmente, Poder Judiciário – esse último repartido em inúmeras instâncias jurisdicionais.

  5. O fundamento para uma boa compreensão da realidade social é o estudo sério e aprofundado dos grandes pensadores da Humanidade. Entre eles, Karl Marx, Engels, Lênin, Gramsci, Rosa Luxemburgo, Lukács, Mészáros, Mariátegui, Galeano, Guevara, etc., é importante, mas não só. É preciso tomar ciência de tudo o que o conhecimento humano sério pode oferecer, em todos os campos das ciências, sejam sociais ou técnico-científicas, como forma de saber e poder confrontar o próprio desenvolvimento da vida, da sociedade, de nossas próprias maneiras de existir e viver, além do próprio Universo. E, assim, estar preparado para poder trocar ideias com quem se disponha e esteja em condições de fazê-lo, pois só assim se enriquecem os acervos culturais de cada ser humano. Posturas sectárias, em quaisquer instâncias da vida, individual ou social, não condizem com a dialética da realidade e não levam a nada! Estudar e pesquisar, sempre, sem prevenções ou fixações, eis do que precisamos para melhor enfrentar o necessário embate social, político e revolucionário!

    • Em minha modesta opinião, o comentário do José Safrany Filho ilustra bem o artigo (ainda que involuntariamente…), no sentido de demonstrar que, de fato, existem perturbadoras relações entre marxismo e religião. Um dos problemas centrais do marxismo, relacionado a isso, é o fato de trabalhar com o ideia de verdade; pior, imaginar que a verdade só pode ser acessada por meio de seus instrumentais teóricos (no comentário abaixo, uma reveladora frase: “o fundamento para uma boa compreensão da realidade social é o estudo sério e aprofundado dos grandes pensadores da Humanidade”)…

      O texto é ótimo. E menciona ainda o grande Tito, uma das grandes figuras do século XX!! Tido era foda, para dizer o mínimo…

      A frase que melhor resume o artigo: “Estou convencido de que os sonhos de sociedades perfeitas são perigosos. O ser humano real é imperfeito. As sociedades criadas pelo humano são imperfeitas. Imaginar a ordem social perfeita é idealismo – ainda que em nome do materialismo dialético”. É isso.

      Penso ainda que os grupos marxistas que possuem inclinações messiânicas e visionárias (obviamente não são todos) deveriam assumí-lo. Os positivistas de Comte fizeram isso (creio que ainda hoje no Rio de Janeiro exista um templo positivista – não é ironia, existiu mesmo e talvez ainda exista). Além de se livrarem dessa eterna suspeita de que formam seitas, poderiam conquistar ainda mais adeptos para a causa.

  6. Grande professor, tudo bem?

    Acabei rindo bastante com o título da postagem. Fazemos (eu e uns amigos aqui na Unicamp) esse comentário todos os dias quando caímos no tema das disputas da esquerda dentro da Unicamp. Ao ponto que ocorre o mesmo, as pessoas envolvidas com partidos, mais evidentemente na Liga Estratégica Revolucionária e no PSTU, tendem a se relacionar entre eles mesmos, mas essa é a parte leve, curiosa até, fico me perguntando o que pensam, por que assim?
    A parte complicada são as rotulações, e a sensação de que muitas vezes se consideram alguns atropelamentos em nome de “algo maior”, que parecem pequenas mas não o são.
    O movimento estudantil “tradicional” se estabelece aqui com força e pela força se faz manter. Certos assuntos não podem ser tocados em uma reunião ou assembléia sem o rechasso ordenado e a condenação pública de tal atitude.
    Os tão conhecidos piquetes ocorrem mais porque nossas assembléias estudantis não são reconhecidas pela grande maioria do instituto e as medidas tiradas, como paralizações ou greves, só conseguem ser garantidas pela “força” : do grupo que se reconhece na assembléia, de realizar o piquete, afim de impedir que estudantes e professores continuem com suas rotinas correntes.

    E é impressionante a quantidade de vezes que as palavras “tradição”, “historicamente”, “clássicos” são repetidos, e a “história” invocada afim de proteger e/ou legitimar certos modos de atuar do m.e.

    Dái brincamos, é o “movimento estudantil tradicional” e a “igreja ortodoxa revolucionaria”.

    E é uma tristeza, mas acabam legitimando um discurso muito ruim acerca da dureza e falta de diálogo do m.e. , isso afasta as pessoas, tem afastado, e toda essa incorrespondência, essa distância , mina muito as nossas possibilidades, já não bastasse o contexto da própria academia…

    Agora, queria saber de você professor, como é aí em Maringá? Como o pessoal se organiza politicamente aí no seu departamento aí, os alunos e os professores? Já parou pra dar uma olhada nas assembléias deles?

    Um abraço,

    Thiago Oshiro

  7. Uma coisa é a teoria de Karl Marx e outra a interpretação dos seus discípulos, marxistas. Da mesma forma, uma coisa é a teoria psicanalítica e outra são as diversas formas de “fazer clinica” psicanalitica, sempre “em nome do Freud”. O espirito de seita também é observado entre os discípulos de Freud, Carl Gustav Jung, entre outros. Talvez o problema não seja a teoria e seu inventor, mas saber como a mediocridade dos discípulos usam a teoria de forma dogmática, rasa e sem contextualização histórica e cultural. E também os discípulos adotam uma “moral” própria. (Discordo quando o texto se refer a um “ethos”comunista, porque tão somente existe uma “moral” comunista, assim como existe uma “moral” católica, uma “moral” protestante, uma “moral” fascista, etc Portanto, é preciso distinguir moral de “êthos” [ἦθος = êthos] , lembrando a distinção inaugurada por Aristóteles). Os discípulos tanto no marxismo como os do campo ‘psi’ constituem uma “miséria” na teoria e na prática. “Miséria dos discípulos” (disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/075/75lima.htm ).
    O pior marxista realmente é o marxista religioso, porque é um contrasenso desta perspectiva racional importante para analise materialista da sociedade. Um marxista religioso é um fanático ou fundamentalista desta concepção que é demasiadamente humana, porque se limita apenas a pregar suas ideias em vez de confrontá-las com a prática e dialogar com outros conhecimentos sistemáticos. “Temo o homem que só conhece um livro”, ou que venera um autor, já alertava Tomas de Aquino. Por isso, eu optei por manter distância para com um professor fanático (de Marx, de Jung, de um neoliberal etc), isto é, daquele que só lê um só autor, sempre venerando-o e fazendo dele um profeta ou deus narcísico. Também me distancio de pessoas que só tem um único assunto para conversar: marxismo, psicanálise, futebol… Na verdade, estes desgraçados nem sabem conversar, mas apenas reproduzem ideias batidas, slogans e palavras de ordens, sempre de costas para a realidade. Como tenho uma perspectiva e uma ética oriunda da psicanálise, evito confrontar o fanático com a realidade, para evitar neles o seu caos existencial. Eles usam o marxismo ou outro sistema como patuá (para se defender das outras perspectivas) ou como “único” modo de pensar (porque são pobres de espírito/ teorias). Uma vez ousei confrontar um marxista religioso com a realidade, ele surtou. Depois de tomar agua com açucar, mais calmo, disse: “eu preciso ter fé no marxismo, porque preciso de algo que me faz sentido de vida”.
    ENTÃO, QUANDO O MARXISMO VIRA RELIGIÃO? ALGUMAS POSSÍVEIS RESPOSTAS OU SINTOMAS:
    1) quando o marxista trái a dialética, isto é, ignora ver as coisas em movimento. Um marxista “conservador”, dogmático, é um contrasenso. O marxismo se garante hoje mais pelo método de pesquisa (materialimo histórico e dialético), mas não pela advinhação sobre o futuro a derrocada do capitalismo, que o mundo do futuro será inevitavelmente socialista, comunista. Esta pulsão advinhatória não enxergou a derrocada da União Soviética e do socialismo real. Ou seja, quanto o discurso marxista é vaticinante, triunfalista, arrogante, é religiso.
    2) O marxismo constitui um discurso, portanto, também usa estratagemas para “convencer” o incauto a adotar a fé marxista ou reforçar a crença dos “irmãos” em Marx. Empenhar-se em com-vencer resistentes pela via da retórica e agir nos bastidores para “queimar” na fogueira da inquisição simbólica alguém que ele escolhe como “inimigo do povo”, “neoliberal”, “de direita”, etc, principalmente sendo de esquerda, é uma atitude que nada deve aos católicos inquisidores medievais. Os marxistas religiosos inquisidores de nossa época criam esqueminhas eficientes para impedir acesso de colegas em determinados espaços nas universidades, escolas, partidos, na imprensa. OU usam do mesmo estilo INQUISITORIAL para expulsar discordantes. Muitas vezes não é preciso “queimar” o outro pela boca ferina; basta apenas “deixar de convidar” um colega para uma banca examinadora, ou para um cargo ou tarefas que irão dar visibilidade de sua competência, etc. BULLYING UNIVERSITÁRIO. Os marxistas religiosos no Brasil até hoje faz vítimas, contribuindo para expurgar os “diferentes” de seu discurso dogmático. CURIOSAMENTE, o expurgo continua mais para os da esquerda do que para os da direita. Esse mecanismo de expurgo entre os iguais é denominado por Freud de “narcisismo das pequenas diferenças”.
    3) também surge o ímpeto religioso quando o marxista usa fragmentos da teoria para explicar “tudo”, como se fosse uma panacéia que tem o poder de curar as diversas doenças. Geralmente este marxista jamais leu Marx, mas apenas seus comentadores, ou repete o professor-carismático “a autoridade” sobre Marx. Oh! Esta mesma atitude além de pobre em termos marxianos, joga no lixo as demais teorias que são necessárias para o diálogo racional. Daí os marxistas religiosos serem ignorantes, semelhante a ignorância dos religiosos contemporâneos sobre o problema da homoafetividade. Qualquer forma de ignorância faz mal. Assim como qualquer forma de amar vale a pena (Beto Guedes), qualquer forma de esclarecimento vale a pena. “Não importa a cor dos gatos, desde que eles peguem os ratos” que corroem o conhecimento genuíno e aberto para debate. Pois bem, conheço marxista que despresa as psicoterapias para tratar membros de sua família, porque acredita apenas nas explicações sociologizantes da causa dos trantornos mentais);
    4) quando falta autocrítica da teoria, eis o marxismo no campo religioso. Ora, uma teoria que não é humilde nas suas explicações, que não reconhece suas limitações, e foge de fazer autocritica de suas aplicações, não pode ser considerada cientifica. Bárbara Freitag (UnB) certa vez escreveu que os marxistas-socialistas não tem coragem de fazer autocritica de seus fracassos ao longo de sua curta história. Ainda não fizeram autocrítica dos crimes cometidos em nome de uma sociedade perfeita. Ah, mas aquilo foi stalinismo, maoismo, pot potismo. Mas quantos não acreditaram, na época, que aquele era O CAMINHO, A VERDADE E A LUZ DA PRÁXIS MARXISTA? Até Sartre que tanto louvou a liberdade aplaudiu a revolução cultural chinesa, que envergonha os chineses hoje. Quem não tem compromido de fazer autocritica não deveria ser considerado marxista autêntico. 5) O marxismo torna-se religião quando produz seguidores, discípulos acriticos, que faz veneração a um “professor” que “sabe ler” o Marx revelado.
    Ozai, seu texto merece reconhecimento, mas falta confrontar com a realidade. No texto voce se refere a “seus profetas, pequenos sacerdotes e seguidores, acríticos e papagaios de slogans, agem à maneira dos grandes e pequenos inquisidores”, e também se refere as “patrulhas ideológicas” do marxismo religioso. Então, se voce [Ozai] tem consciência disso, deveria jamais se render às pressões dos marxistas religiosos que habitam nas universiadades brasileiras. Por exemplo, quando eles exercem poderosa pressão para expulsar um colega de uma revista, ou para para ser ‘desfavorável” num parecer em indicar um colega que pensa “diferente” ou que “é diferente”, espero que voce RESISTA e DENUNCIE. A DEMOCRACIA BURGUESA garante que voce não se submeta ao autoritarismo e ato inquisitorial. Contudo, minha experiência aponta que na maioria das vezes a AÇÃO entre marxistas dogmáticos e críticos tende ser sempre RELIGIOSA, e não racional. Ou seja, os “irmãos” de luta, “companheiros” ou “camaradas” VALE MAIS do que “amizade”. É ou não é? Ass.: Raymundo de Lima.

    • Raymundo,

      boa tarde.
      Muito obrigado por comentar.
      Suas palavras são instigantes, contribuem para o esclarecimento dos leitores e, tenha certeza, para a reflexão crítica.

      Obrigado.
      Abraços e tudo de bom,

  8. O marxismo não é religião, mas há marxistas que são religiosos. Esses marxistas citados no texto são exemplos disso, mas ainda viveram em um contexto que os absolve. Combater na 2ª Guerra Mundial, enfrentar o momento tenso da Guerra Fria, encarar as perseguições de ambos os lados – tudo isso obrigava a tomar decisões sérias, com sérias consequências. Uma delas era a de ser comunista. Quem adotava essa posição corria riscos reais e, por isso, a convicção era necessária. E sabemos que o pensamento crítico é refratário à convicção. Daí tantos saltarem da crítica ao fanatismo. Mas nada disso significa que o marxismo seja religião. Pelo contrário, o marxismo é um sistema de pensamento crítico, extremamente rico, e que pode fornecer elementos para uma discussão inteligente de vários de nossos problemas.

  9. Caros colegas, a pouco não vejo um texto dessa natureza. A reflexão é algo necessário a todo e qualquer ser humano, porém, temos alguns pseudos marxistas que dogmatizam a teoria dele. É notável, as contribuições deste para os estudos em sociologia, entretanto, não é a resposta de tudo, nem para tudo.

  10. Olá, Ozaí! Concordo que haja semelhanças entre marxismo e religião, mas pensei em uma hipóstese: será que também não deveríamos pensar em uma estreita, talvez quase imperceptível afinidade que igualmente há entre capitalismo e religião? Aliás, creio sinceramente que haja muito mais capitalistas ortodoxos do que marxistas ortodoxos entre nós. E não nos damos conta disso… Muitos de nós defendem, com unhas e dentes, os benefícios de ser e estar dentro do capitalismo. Outros, além de unhas e dentes, o defendem com discursos, e todos os dias, em todos os momentos: uma verdadeira onipresença. Como um deus, como Deus. Por não serem necessariamente panfletários, esses discursos (sutis, quase silenciosos e, portanto, muito eficazes), agem sem se fazerem notar: simplesmente estão. É o que vemos nos noticiários de TV, nos programs de rádio, nos artigos de jornais, na mídia eletrônica, nas publicidades e propagandas, no horário político e obrigatório, nos desenhos animados, nos filmes, nas novelas, nas igrejas, na fala da nossa vizinha. Notamos quase imediatamente quando alguém manifesta sua adesão ao marxismo de maneira efusiva, mas respiramos e transpiramos capitalismo. Eles, marxistas, são ortodoxos. Nós, não. Será?

  11. Acho que devia pesquisar isso hoje, afinal levantar esta questão e responder com posturas do entreguerras é complicado, quem naquele momento não tinha suas paixões aguçadas? – Segundo é preciso verificar isso hoje ué, será que isto foi reformulado? – terceiro podemos encontrar posturas não religiosas no momento tantas quanto estas ai, sugiro Trotsky, A revolução traída; ensina um bom método cientifico ao contrário destas posturas religiiosas – Quarto: se em algum momento as posturas marxistas se tornarem religião deixaram de ser marixmo; o marxismo é método de análise e ação política, um bom manejador do método foge das posturas dogmáticas porque é preceito do próprio método.

  12. Muito bom o teu texto Antonio, levanta uma reflexão muito pertinente. Apesar de me considerar marxista, por ter ingressado nos estudos sociológicos pela via dos movimentos sociais, não me considero ortodoxo ou dogmático, postura que vejo em muitos companheiros de causa. Acredito que estes que adotam uma postura próxima à religião em sua grande maioria são os que menos leram Marx. Entendo que o grande salto que o materialismo histórico pode nos ajudar a dar é o de utilizá-lo como metodologia de análise de conjuntura, como forma de complexificar a realidade através da compreensão dialética dos elementos envolvidos, justamente o que se perde ao adotar uma visão estagnada de mundo e de futuro. Ou seja, analisar a realidade do trabalho e do capitalismo hoje não é a mesma coisa que foi no século XIX, há muitos outros fatores a serem levados em conta do que a expropriação dos trabalhadores pelos capitalistas – o que não exclui essa expropriação da realidade atual. Adotar uma postura religiosa, ou de marxismo de cartilha é na minha opinião negar a própria dialética histórica, levando tanto à negação da realidade histórica, quanto aos dos desvios que o poder proporciona.

  13. Por que você agora quer ser um comunista? será que o regime politico de uma democracia disfarçada, não lhe agrada? e como o Brasil é “laico” suporta tudo e tem partidos políticos que fazem inveja aos europeus e americanos. Será que vc está se transformando em um inovador censor, e querendo emplacar com o marxismo como se fosse partido de homofóbicos. Sábios fundadores de teorias que pareciam dar certo saíram frustrados, e somente falta o Bento 16 aderir, somente deixarei de ser papa quando morrer, eis um comunismo diferente de seus fundadores. Isso sim, é uma CONSPIRAÇAO DIVINA, e somos atriotas, mesmo diante de muitos agitadores loucos como é essa vossa proposta de ressuscitar os russos.* Não moderado eis um ativista”

  14. Amado, O COMUNISMO MESSiÂNICO, morreu. Agora diante da história que fulminou a esperança de um progresso comunista, aparece essa geléia, parecida com o atual PT do Brasil. Tenha santa paciência, se é que vc queira ser um SANTO POLITICO MARXISTA.

  15. Caro editor, minha opiniao é que a atençao necessaria é a do coraçao, ao momento e ao detalhe. Isto dito, sem disciplina nao se chega a nada.
    Conclusao? Nao sei formular outra, senao uma vaga reflexao sobre os efeitos nefastos de toda organizaçao gigantista e mundializada, desde a igreja catolica na idade média, a URSS e seus dogmas mortiferos, ou mais recentemente o mundo dividido entre o “eixo do bem” (nos) e o “eixo do mal”, o resto do mundo que se mostrasse diferente ou que tivesse interesses e modos de vida divergentes do nosso, o ocidental, que se considera democratico.
    O que se opoe a isso, concretamente, para mim, é, por exemplo, agricultura familiar, propriedade limitada da terra, respeito pela religiao e modo de vestir dos outros, e pela natureza enquanto universo oposto ao mundo da cultura, oposto ao mundo da construçao humana que atualmente dispoe de instrumentos para tudo destruir e para converter cada um a seus interesses imediatos e, a longo ou curto prazo, destrutivos.

  16. Essa questão surgiu em algumas aulas nessa última semana, quando discutíamos o projeto político revolucionário de Marx. E essa postagem é publicada em ótimo momento e, com certeza, repassarei o link aos alunos.

    Ao meu ver, o ponto mais forte das reflexões de Marx se refere aos vários conceitos capazes de desvelar, ainda hoje, desigualdades sócio-econômicas, escamoteadas pelas ideologias capitalistas. Trata-se de um autor fundamental para “desnaturalizar” as relações de dominação características desse modo de produção — e de alguns de seus precedentes, na verdade –, bem como para nos dar consciência de seu caráter inevitavelmente transitório, já que a história, em sua concepção, é dialética.

    O grande problema — que transforma análise sociológica em religião — surge quando alguns dos marxistas não percebem que essa superação, teoricamente inevitável, do capitalismo não conduzirá a sociedade, de modo imediato e mecânico, ao socialismo e, depois, ao comunismo. Esse último termo deve ser encarado muito mais como uma tese lógica no contexto das formulações de Marx: se a origem das desigualdades está na propriedade privada, logo, uma formação social plenamente igualitária pressupõe a socialização da produção.

    Principalmente os “intelectuais orgânicos” devem lutar para que essa idealização — imbricada a uma situação econômica, para não fugir ao contexto materialista — seja cada vez mais palpável mediante as possibilidades colocadas por nossa própria época, sem acreditar, contudo, que a história tenha um curso previamente determinado — e que deve ser cumprido a rastros de sangue. Afinal, esse é, fundamentalmente, o roteiro da Bíblia.

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