Avaliação discente no Ensino Superior

* Imaginemos a seguinte situação hipotética. O aluno procura a professora para conversar sobre a nota da avaliação. A professora escuta atentamente e argumenta: “Sim, você é esforçado e tenho certeza de que se dedicou ao máximo. Infelizmente, sua avaliação não expressa isso. Sei também que há casos em que não há a mesma dedicação e a nota foi melhor”. A professora não pode fazer nada, sua avaliação se atém unicamente ao que o aluno conseguiu fazer, ou seja, ao exposto no papel.

Outro exemplo hipotético: a aluna não freqüenta as aulas, mas consegue as melhores notas na avaliação do mestre. Este se vê, então, diante do paradoxo de reprová-la – mesmo que ela tenha demonstrado que sabe o conteúdo da disciplina – ou aprová-la, desconsiderando o aspecto da assiduidade. Ele pode apegar-se à exigência formal da presença nas aulas e decidir pela reprovação. Mas o que importa não é a aprendizagem do conteúdo? Por outro lado, ele sabe que a presença física dos alunos em sala de aula não indica necessariamente participação efetiva. Os corpos estão presentes, mas as mentes ausentes. Ainda mais nestes tempos de tecnologia avançada, com celulares e notebooks disponíveis. O aluno pode simplesmente estar presente, mas sem qualquer interação. O que fazer?

As situações acima expressam o dilema de avaliar. Nos exemplos, partimos do pressuposto de que o/a professor/a é bem-intencionado, razoável e se pauta por princípios éticos. Não obstante, a avaliação é um dos instrumentos de poder à disposição do/a professor/a e nem sempre é utilizado de maneira equilibrada. Os alunos criticam a prepotência e o narcisismo professoral. Com razão! Muitas vezes, o docente instaura o terror na luta de classe e utiliza o poder institucional enquanto uma de compensação às humilhações e frustrações sofridas.

É no processo avaliativo que o poder professoral (de definir a nota, classificar, aprovar ou reprovar) mais se faz sentir. O professor se vê com o poder de dar atestado de burrice, mas não auto-avalia o seu próprio desempenho. Este tipo de professor não se vê como o educador que também precisa ser educado e não admite que seu trabalho seja julgado por seus alunos. Ele se ilude: o tempo todo eles o avaliam; apenas não têm os meios e instrumentos para se expressarem. De qualquer forma, ainda que a atuação docente se paute por critérios objetivos e justos não anula o fato da relação professor-aluno é essencialmente uma relação de poder. E como garantir que não haja abuso de poder? Quem avalia o avaliador?

Este processo caracteriza uma relação humana. Pode parecer óbvio, mas às vezes é preciso lembrar que a avaliação não se dá entre conteúdo e provas, exames, etc., mas entre seres humanos num contexto específico. Inclui, portanto, aspectos inerentes à condição humana. Mas será que levamos isto em consideração ao avaliarmos e sermos avaliados?

Relação humana e relação de poder. A autoridade do professor é sacramentada pelo título e pela instituição burocrática, mas os critérios avaliativos nem sempre são claros e há práticas questionáveis. Os alunos reclamam do subjetivismo, aliado às motivações político-ideológicas, das arbitrariedades, falta de clareza e critérios diferenciados pautados em preferências e/ou rejeições pessoais, etc. O aluno pode recorrer se considera que a nota foi injusta. A maioria, contudo, desenvolve estratégias de sobrevivência e o senso de realidade indica que nem sempre é bom afrontar o mestre; em certos casos, desistem do curso; em outros, há resistência individual, mas é raro que ocorra ação coletiva. Não esqueçamos que os professores são julgados pelos pares e, em geral, predomina o espírito corporativo.

Os procedimentos avaliativos podem ser diversos: provas (escritas, oral, com/sem consulta, em grupo, individual, dissertativa, objetiva, que exige memorização, etc.); trabalhos (pesquisa de campo, elaboração de materiais didáticos, seminários, aula práticas, etc.); e outros procedimentos como a auto-avaliação, participação nas aulas e projetos de ensino/e pesquisa e extensão, estudo de casos, etc. Todos os meios utilizados têm aspectos negativos e positivos e estes podem ser potencializados ou não, a depender das circunstâncias e da capacidade profissional. De qualquer forma, a decisão final cabe ao docente. Os meios avaliativos não invalidam a relação de poder. É fundamental, portanto, ter a nítida consciência desse aspecto e procurar utilizar de maneira positiva o poder de avaliar. E, sobretudo, estar aberto a reconsiderar e corrigir qualquer injustiça cometida, ainda que involuntariamente. O educador precisa, antes de tudo, respeitar o aluno, tratá-lo como ser humano e não enquanto objeto de avaliação. Isso deveria ser uma obviedade.

O ritual da prática avaliativa não se restringe às implicações pedagógicas, mas incluem também aspectos éticos, psicológicos, etc. A postura docente equivocada pode se revelar desestimulante, frustrante e restritiva do desenvolvimento intelectual e humano do discente. Há quem se regozije pelo rigor acadêmico expresso na reprovação do maior número de alunos. Parece-me, no entanto, que tais práticas podem ser reveladoras de um certo sadismo intelectualizado. A reprovação em massa e a evasão deveriam ser motivo de preocupação e reflexão. A função do professor é ensinar. Será que ele cumpre bem o seu papel quando a maioria dos alunos não consegue assimilar o conteúdo? Quem, de fato, é o reprovado?

Enquanto relação de poder, a prática avaliativa pode revelar-se um instrumento disciplinar eficiente. No extremo, é no processo avaliativo que o docente compensa a sua ira, insatisfação, ressentimentos, etc. A prova torna-se objeto da vingança professoral, fator de punição. É simples, basta formular as questões num grau de dificuldades maior. O aluno percebe, mas o que pode fazer? Nada. O poder de formular as questões, definir os critérios – ou nem defini-los – e, sobretudo, de decidir a nota é do docente.

Avaliar é muito complexo. É um dos momentos mais difíceis da práxis docente. Contudo, ainda que consideremos uma situação ideal em que prevaleça o melhor meio de avaliação e a decisão docente seja legitimada e reconhecida como justa, a questão essencial permanece: é possível medir o conhecimento? Nas Ciências Humanas a subjetividade e a possibilidade de mais de uma interpretação são aspectos nem sempre considerados. É possível a objetividade plena neste campo? Será que os professores percebem que a pretensa objetividade científica encontra-se prenhe de valores e humores que podem influenciar o ato de avaliar? Cada cabeça uma sentença, cada professor o seu critério. E este parece um mistério para o aluno. A mesma prova pode ter notas diferentes a depender de quem avalie.

Qual a origem da necessidade de mensurar o saber e da certeza de que é possível fazê-lo? Quantificar o conhecimento parece ser um fator intrínseco à natureza pedagógica. Apontam-se os efeitos, problemas, etc., mas, em geral, não questiona-se o fato de que a avaliação se propõe a medir o aprendizado em termos quantitativos, matemáticos. Um aluno vale 9, 25 e o outro 10, ou seis e alguma coisa, ou menos, etc. Mas a nota seis é o critério para ser aprovado. Então, o que diferencia os aprovados? E o aluno que foi reprovado por alguns décimos, será menos inteligente do que aquele que conseguiu a nota seis? No entanto, a proposta de extinção de qualquer mecanismo de definição de notas – pois todos os instrumentos visam quantificar resultados – muito provavelmente será considerada absurda. Ainda que muitos programas de pós-graduação já tenham abolido as notas. Por que a resistência na graduação?

Os alunos questionam os abusos dos instrumentos de avaliação, podem até mesmo preferir uns a outros, elogiam os professores que utilizam eficazmente esse ou aquele meio avaliativo, mas, em seu conjunto, concebem a avaliação como um fato em si, naturalizam e não questionam os pressupostos. Aliás, não só os alunos, seus professores também! A favor de uns e de outros, deve-se observar que estão submetidos ao sistema de ensino e às exigências burocráticas. Não obstante, isto não é obstáculo intransponível à reflexão crítica! A verdade é que a o processo avaliativo corresponde às práticas do poder disciplinar e professoral.


* Texto elaborado para subsidiar a participação no debate “A (IN)EFICIÊNCIA DOS INSTRUMENTOS DE AVALIAÇÃO NAS UNIVERSIDADES – “Uma crítica aos tradicionais métodos vigentes”, evento promovido pelo Centro Acadêmico de Economia – José James da Silveira (UEM).

14 comentários sobre “Avaliação discente no Ensino Superior

  1. Coelho (1.994) diz que “o ato de ensinar muitas vezes se reduz a uma rotina burocrática, para a qual não se exige maior competência e dedicação por parte dos professores, salários dignos, bibliotecas e laboratórios equipados”. Educar e educar-se para coelho (1.999), é ensinar e aprender as ciências e a tecnologia, ensinar e aprender a falar e a escrever de acordo com a norma culta, a ver e a ouvir a natureza, o mundo, o outro, a sociedade, o professor, o aluno, a história, bem como ensinar e aprender os limites e possibilidades da educação, do conhecimento, da ciência e da tecnologia. Assim, ensinar não é repassar e socializar, nem aprender é armazenar, apropriar-se e consumir informações, internalizar conteúdos de consciência. Ao contrário. Ensinar é mediar e aprender é construir a relação com o saber, com o verdadeiro. O professor, enquanto mediador entre os estudantes e o saber, deve impor-se à classe, não pela força ou autoridade pura e simples, mas conseguindo interessá-los e fazendo-se compreender por eles, sem destruir ou sufocar suas dúvidas, questionamentos e poder de contestação. (coelho:1.999). no capítulo que se segue, buscaremos refletir de forma mais aprofundada sobre avaliação, que é o foco principal desse nosso trabalho.

  2. Os poucos professores que adquirem essas habilidades e conhecimentos, o fazem somente por interesse e iniciativa própria, e assim mesmo tendo que ultrapassar barreiras institucionais até mesmo para reconhecer as qualificações obtidas.

  3. São Paulo, terça-feira, 29 de maio de 2012 – Folha de S. Paulo

    Lições do melhor professor que conheci

    Aos 75 anos, morreu na semana passada, vítima de uma parada cardíaca, Almir Massambani, docente de física desde 1962 na USP de São Carlos. Seu nome é pouco conhecido, a não ser por seus ex-alunos.
    Almir foi um professor de verdade. Não era um cientista, fez um doutoramento porque a USP exigiu, mas o que ele gostava mesmo de fazer era de ensinar, conviver e amar seus estudantes. E era amado por eles. Fazia questão que seus alunos aprendessem o que estava ensinando.
    Era professor por excelência, pois o que o motivava e preocupava era o sucesso do aluno, não o seu próprio – figura rara nas universidades de hoje, pois o bom docente que não pesquisa tem pouquíssimos mecanismos de valorização e promoção.
    Formar bem profissionais e novas lideranças pode exigir produção, aplicação e divulgação de novos conhecimentos, mas para ensinar bem é preciso vocação e preparo específico. Caso contrário, essas instituições não deveriam ser universidades, mas centros de pesquisa.
    O que mais vejo nos meus estudos sobre evasão no ensino superior: a pouca atenção que se dá ao aluno ingressante é uma das maiores causas do abandono de cursos, como já provou Vincent Tinto, o maior especialista do mundo no assunto.
    O que vemos mais é a nostalgia -por vezes revoltada- que os docentes demonstram com a qualidade dos alunos que recebem quando comparada à de épocas passadas. Isso é um fato na maioria dos lugares, mas temos que lidar com os alunos como eles são, buscando formas de fazer com que acompanhem o curso.
    Como eu sou natural do Rio (e Almir também era), sempre comentávamos que “jacaré” se pega no início da onda. No ensino, não é diferente. Se o aluno não pega a “onda” nos primeiros meses de aula, a onda passa e ele fica -ou seja, não acompanha a disciplina, é reprovado e, muitas vezes, desiste do curso. Uma perda para ele, para a instituição e para a sociedade como um todo, pois o país fica mais pobre!
    Almir aplicou esse princípio ao enfrentar uma turma problemática no primeiro ano do nosso Instituto de Física de São Carlos. Sentou-se com a turma e quis entender qual seria o ponto correto de partida -não aquele que está nos livros, mas aquele que a turma poderia acompanhar.
    Explicou o que precisariam saber para poder iniciar a disciplina, orientou a cada um para cobrir as lacunas por um mês e, a partir daí, iniciou o curso propriamente dito. Sucesso absoluto, reprovação baixíssima.
    Hoje, o querido Almir seria o que se chama “coach”, figura tão valorizada nos processos de formação intelectual, artística ou esportiva.
    Quando elogiado, perguntava: “Não é obrigação do professor fazer o aluno aprender?” Esse era o Almir. Um grande professor, o melhor que conheci. E um grande amigo. ________________________________________ROBERTO LEAL LOBO E SILVA FILHO, 73, professor titular aposentado do Instituto de Física de São Carlos da USP, é presidente do Instituto Lobo. Foi reitor da USP

  4. Interessantíssimo o artigo e os comentários, porém tenho uma dúvida para expor;
    Pode o sistema de ensino que conhecemos no Brasil e em várias partes do mundo, continuar ignorando que existem padrões neurológicos distintos em cada indivíduo?
    Todos nós já sabemos que em uma sala de aula, não temos o mesmo nível de absorção e compreensão de conteúdo homogenizado. O problema não é do corpo docente e muito menos dos alunos, e sim uma questão e vontade de mudar radicalmente o sistema de ensino que conhecemos.
    Como ensinar engenharia para um aluno com padrão neurológico para artes, música, teatro e etc? Esse aluno conhece o seu padrão cerebral? As instituições de ensino aplicam esta prática de avaliação antes do ingresso dos alunos na vida estudantil e acadêmica? Porque o sistema educacional ignora a neurociência e seus fundamentos mais que corretos de que existem grupos humanos com identidades cerebrais distintas e que aprendem de formas diferentes.
    Tenho uma professora de Direito na Universidade onde estudo, que somente escreve e dita fichamentos e longos textos e nunca apresentou á turma um olhar visual, uma experiencia de tato, sentimental…que para min não fazem falta, porém para outros alunos é fundamental.
    É claro que de forma alguma gostaria de ver o sistema de ensino dividido em grupos e fomentando assim uma disseminação, mas podemos sim criar bolhas de co-criação fundamentadas nos parâmetros cerebrais de cada grupo dentro da instituição.
    É uma pena, ver métodos como MBTI sendo utilizado para capacitar executivos de auto escalão para não só “melhorar” as capacidades de seus colaboradores, mas também para perpetuar “controle” das massas. Uma ferramenta tão primorosa deveria ser difundida gratuitamente e utilizada na identificação e planejamento de nossas crianças, jovens dentro do círculo de aprendizagem e formação cognitiva.

    Para finalizar, vou ter a audácia de prognosticar os docentes como pessoas necessitadas também do método MBTI, cujo o custo de aquisição nas empresas de consultoria organizacional é de R$30mil, para que sintam sua maravilha e tenham a audácia de torna-la parte do cotidiano de todos.

    Vamos lutar por isso?

    Sou aluno de ADM da Unilasalle e agradeço a oportunidade de troca de ideias.

  5. […] Os alunos questionam os abusos dos instrumentos de avaliação, podem até mesmo preferir uns a outros, elogiam os professores que utilizam eficazmente esse ou aquele meio avaliativo, mas, em seu conjunto, concebem a avaliação como um fato em si, naturalizam e não questionam os pressupostos. Aliás, não só os alunos, seus professores também! LEIA NA ÍNTEGRA: https://antoniozai.wordpress.com/2012/06/02/avaliacao-discente-no-ensino-superior/ […]

  6. Meu caro Ozai. Não dá pra discordar do seu texto integral. Mas ele deixa exalar um ar de compaixão pelos “ alunos tão oprimidos pelos dominantes professores”, com suas avaliações sádicas, injustas, subjetivas, etc e tal.

    1) Ora, ora, os alunos que chegam a universidade hoje, principalmente nos cursos de humanas com baixa concorrência, mostram graves deficiências de leitura e compreensão de textos. Muitos também mostram displicência, falta-lhes ânimo para ler os textos que pedimos. Eles já não compram livros imprescindíveis para sua formação. São viciados nas fotocópias e nas pseudopesquisas de internet. A maioria deles com “capital cultural”, foram tão mimados pelos pais que esperam também ser assim tratados pelos professores. Existem “professores-MÃE, aqueles que oferecem colinho e mamas para os alunos. São professores que dão sempre disconto para alunos folgados, a maioria riquinhos que aprenderam com os pais que não precisam se esforçar para passar. E são considerados maus os professores-PAI, porque oferecem a lei, as convenções, a “castração” que vem da realidade dura da vida. Claro, há os professores que se excedem na autoridade, e exercem fasci smo pedagógico com os alunos. Mesmo sendo um professor esquerdista a atitude fascista é visível no sadismo na hora da prova impossível e na hora das notas trágicas.

    2) Muitos alunos não conseguem acompanhar as aulas porque não compreendem o que o professor ensina. São “analfabetos funcionais universitários”. Ora bolas, devemos “passar” estes alunos como já fazem os professores que seguem a onda da aprovação automática escolar?

    Um aluno analfabeto funcional principamente da área de humanas aparentemente – só aparentemente – causa menos danos a sociedade do que um aluno de medicina ou de engenharia. Só aparentemente, porque um professor descomprometido em ensinar e avaliar a aprendizagem tira a oportunidade do aluno aprender e saber onde está sua falha. Mas, por que um curso de medicina (como é o da UEM) está colocado em primeiro lugar? Claro, porque o coletivo dos professores ensinam e avaliam “bem” a aprendizagem dos alunos, entre outros quesitos de avaliação do curso.

    Pergunto: como você se sentiria diante de um médico que não foi avaliado durante as disciplina s do seu curso? Você dormiria tranqÃ?ilo numa casa construída por um engenheiro que foi “passado” nas disciplinas de calculo?

    3) Venho observando que os cursos que possuem TCC, no mínimo força os alunos a melhorarem sua redação. Força também o professor cuidar bem da sua orientação, porque ele também é avaliado pelos seus pares na hora da defesa oral do aluno. Está lá no livro “A bússola do escrever” organizado pelos professores Lucídio e Ana Maria (da UFSC), aliás, fiquei sabendo deste importante livro pelo próprio Ozai, durante uma banca de mestrado onde avaliamos uma dissertação. Agradeço-lhe. Pois bem, os autores – são 20 ao todo que escrevem no livro – sinalizam que a maioria dos alunos dos nossos mestrados apresentam um texto de fÃ?lego pela primeira vez em forma de “dissertação de mestrado”. Logo, o olhar avaliativo sobre o texto hoje é primeiramente observado, ficando em segundo lugar o conteúdo da pesquisa supostamente “científica”.

    4) Entáo, concordo que devemos ser contra o neopositivismo avaliativo, mas não podemos aplaudir o faz-de-conta avaliativo – no fundo uma “ação entre amigos” que ocorre em muitas bancas examinadoras; ou ser favorável a “aprovação automática”, que reproduz a ideologia já vigente nas escolas de São Paulo e outros estados. Espero que sua filosofia educativa, Ozai, não seja aquela denominada de “populismo pedagógico”. Veja o que recortei do texto de Alda Judith Alves-Mazzotti “Relevância e aplicabilidade da pesquisa em educação”, que parece responder também as notas muito altas dos cursos de Ciências Humanas e Sociais e aprovações faz-de-conta de TCCs, dissertações e até teses mal elaboradas. Suspeito que hoje muitos professores universitários sentem vergonha ou medo de dar notas “reais” aos alunos que resistem aprender. Suspeito que professores “duros” na avaliação são muito poucos na universidade, meu caro.

    Escreve a autora: “a questão levantada por Cunha (1991), com referência às bancas de teses e dissertações, uma vez que essa está diretamente vinculada àquela que acabamos de mencionar. Cunha atribui grande parte da responsabilidade pela baixa qualidade de muitos trabalhos desenvolvidos em nossas pós-graduações ao que ele denominou “populismo pedagógico” (p.65) […] O fato teria levado a um sistema de “facilitário” que se evidencia nas bancas de dissertação e tese que, segundo o autor, se tornaram mais uma “ação entre amigos” (p. 66) do que propriamente bancas examinadoras, aprovando trabalhos que não mereceriam a “cidadania acadêmica” (p. 64)”

    Disponível em:http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-15742001000200002

    Valeu pela instigação. A propósito, os leitores estão avaliando seu escrito e o meu também, portanto, estamos sempre avaliando. O problema não é abolir a avaliação, mas sim, revisar os critérios e empreender novo ‘habitus’ de avaliar mais justo e mais realista.

  7. Infelizmente, tardiamente cheguei à conclusão que a finalidade das provas e outros
    critérios de avaliação são uma maneira de dar um feed-back aos alunos de seu
    grau de aproveitamento escolar e para o professor também .
    A partir desse feed-back os alunos poderão se auto-avaliar idem para o professor.
    Talvez a parte mais importante esteja no início do ano letivo o professor motivar
    os alunos mostrando como a sua disciplina se insere no contexto do aprendizado
    daquele curso, qual o objetivo , quais as habilidades ou conhecimentos deverão
    ser adquiridos e sua importância, inclusive provocando uma discussão em sala.
    Numa escola que eu lecionei, numa conversa na sala dos profesores, a professora
    de Geografia contou que para motivar os alunos sobre a importância da disciplina
    era para que os alunos aprendessem o nome das capitais dos vários paises,paranão ficarem envergonhados quando alguém lhes perguntarem.
    Eu lhe perguntei se era só isso, ela não me respondeu.
    Os conceitos e princípios nos quais a disciplina se baseia podem deixar dúvidas e
    os exemplos representativos, objetivos de forma que os alunos aos entrarem na
    prova não se intimidem.
    Quando o aluno estiver muito abaixo da média da classe o professor deverá
    conversar em particular com o aluno e conforme o caso pedir auxílio do
    psicopedagogo(a), profissional indispensável nas escolas de 1º, 2° e 3° graus.

    Mauro Ostronoff

  8. Prezado Antonio:

    Texto brilhante e oportuno, pois este tema é alentador e frustrante frente a todos os desafios que os professores enfrentam em sala de aula.

    Alentador por perceber que são inúmeros os colegas preocupados com ele e que até arriscam uma alternativa ao sistema de avaliação atual.

    Frustrante por perceber que ainda estamos distantes de uma alternativa razoável e mais justa para promoção e distinção daqueles que aprenderam e sobretudo conseguem transformar em prática as tantas teorias, às vezes inúteis, discutidas ou apenas ouvidas em sala de aula.

    Diante disto, acredito que este seria um momento importante para trocarmos experiências sobre possibilidades de sistemas de avaliação que tornam o atual mais justo, o que achas?

    Ainda temos o aprendizado para a convivência harmoniosa com o atual aluno, extremamente conectado e usuário fervoroso de tecnologia e ainda assim com dificuldades de formar frases, respeitar o colega e expressar o seu pensamento, enfim o seu conhecimento de forma inteligível.

    Sei que vivemos momentos de transformação e esta transformação causa angustia por não nos sentirmos seguros para defender uma alternativa, entretanto, agradeço a oportunidade de, em fazendo estes comentários, provocar, tenho certeza, outros textos com pensamentos elucidativos.

    Abraços.

  9. boa tarde, professor!

    Adorei seu artigo, e este tema é algo com o qual tenho me debatido há tempos, acredito que a avaliação é o grande nó dentro do processo educacional, pois não entendo a avaliação como algo que se possa mensurar com objetividade, no entanto, quase a totalidade dos sistemas de educação, combram do professor uma nota final que, supostamente, determina o grau de aprendizagem do aluno.
    Recentemente apresentei à USP um TCC sobre o assunto, para um curso de pós-graduação em Gestão do Currículo e ao investigar o tema só obtive mais e mais perguntas na busca de soluções para o processo de avaliação.
    Posso dizer, concordando com o seu artigo, que o professor tem grande dificuldade em definir critérios de avaliação e por consequência o aluno da educação básica “aceita” as regras definidas em tempos que não condizem mais com a nossa escola e nossa sociedade do século XXI.
    Há muito a fazer neste campo, há muito a estudar, há muito a refletir…

    obrigado pelo espaço.

    Professor Marcos

  10. Antonio
    Bom dia
    Meus filhos estudam em escola particular. O número de alunos/as por sala de aula beira os trinta (30). A avaliação é trimestral, com duas provas globais e uma de recuperação. O aluno/aluna com bom desempenho opta se quer fazer a “prova de recuperação”. Não posso obviamente opinar sobre o acompanhamento aos que tem dificuldades, pois os de casa em regra têm boas notas. Do tempo que estive no fundamental e médio – sempre em escola pública – observo que muitos com excelentes notas não lograram êxito na vida profissional e outros com péssimas notas são profissionais com graduação reconhecidos em suas áreas, o que em tese mostraria os limites da Escola. A Escola onde os filhos estudam procura não cair num “reunionismo” de pais ou responsáveis, mas promove geralmente dois encontros anuais, onde as professoras, orientadoras e psicóloga ficam frente a frente. A Direção também sempre está presente. O pouco que sei é que no dia a dia a Escola (Direção) procura conversar com os pais ou responsáveis caso o aluno/a apresente algum tipo de dificuldade de relacionamento, aprendizado ou desempenho. Fique claro que isso não resolve todas as situações, havendo na terceira série alunos que não sabem ainda ler, isso reitero em Escola Particular. Todos os dias têm tarefas para fazer em casa as quais exigem, pelo menos em nosso caso, acompanhamento e ou revisão. A leitura também esta sempre presente, sendo fornecidos os livros pela Biblioteca, em se tratando do fundamental. No médio tivemos (teremos ainda) que adquirir alguns livros “receitados” pela Escola. Existe também um número de atividades em grupo e trabalhos práticos com materiais em regra recicláveis. O acesso a informática e ao inglês esteve presente desde a pré-escola. No caso específico do Ensino Médio e entre Colegas observa-se que os alunos começam a se reunir em horários extraclasse, considerando que alguns trabalham meio expediente, por iniciativa própria buscando suprir suas dificuldades no aprendizado. Existem também os que vêm estudando individualmente um número regular de horas diariamente com vistas a obter uma boa classificação no vestibular que se avizinha. Temos também os que estão se preparando para a profissionalização em nível médio (técnico), já fazendo a capacitação (público e privado) ou pleiteando uma vaga nos Sistema S ou mesmo nas Escolas das Empresas, vagas (a das Empresas) essas extremamente disputadas, talvez mais do que Medicina em Universidade particular. Há alguma garantia de um futuro confortável, sucesso profissional não, mas como família não estamos esperando só da Escola, procuramos fazer o que sabemos sem certezas, mas com determinação. Acho em suma que a Escola tem papel importante, mas transferir responsabilidades sociais não é o caminho, pois somos socialmente testados e desafiados diariamente, querer, pois que a Escola (Professoras) não cobre alguma coisa dos alunos me parece medíocre.
    Pedro
    Caxias do Sul – RS.

  11. talvez se deva chegar à pergunta que, para mim, surge ao final de sua bela exposiçao: se a finalidade do saber universitario é a aquisiçao de poder e dinheiro, a ausência de avaliaçao desvalorizaria o titulo que sanciona o fim do curso.
    e, se nao é essa sua finalidade, qual é ela? o conhecimento contemplativo? a sabedoria? talvez num mundo ideal…
    objetivamente, sendo o balanço final de uma relaçao de poder, a avaliaçao teria que ser regulamentada. sempre imaginei que a reprovaçao de mais de 30% de uma classe é um atestado de incompetência do professor. assim como a aprovaçao de 100% dos alunos, alias – uma boa comparaçao seria com eleiçoes: 70% de abstençoes como 99% de votos para o candidato no poder nao sao bons sintomas….
    a questao entao poderia ser como julgar objetivamente o trabalho docente frente ao trabalho discente.
    fica ai a sugestao.
    um abraço.

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