Para pensar a relação autoridade e liberdade na educação

O pleno florescimento da inteligência humana exige a liberdade intelectual. Quando esta é tolhida, sob qualquer aspecto, o homem torna-se presa fácil dos diversos tipos de totalitarismo, o pensamento crítico dá lugar ao fanatismo e o homem degenera-se: tanto dominado como dominador infantilizam-se, tornam-se escravos da própria fraqueza. Surge o tutelado e a necessidade da tutela; a autoridade dá lugar ao autoritarismo. E o humano, em seu medo à liberdade, ganha a ilusória segurança da obediência;

Quando a crítica, a expressão das opiniões divergentes, é suprimida, nos empobrecemos, esfacela-se a verdade e a possibilidade de alcançá-la. Silenciar o outro é próprio dos que supõem ungidos e infalíveis. No fundo, escondemos nosso próprio medo, não admitimos uma verdade simples: o outro pode ter razão. Ao silenciar o outro porque pensa diferentemente, perdemos a oportunidade de aprender.

Educar para a liberdade é favorecer e fortalecer o diálogo e estimular o pensamento crítico. Quanto mais a educação cumprir esta função mais o homem se tornará consciente do valor da liberdade e a valorizará cada vez mais.

A liberdade também pode ser limitada e aprisionada pelo doutrinarismo dos que acreditam-se portadores e guardiões dos bons valores, mesmo quando estes são desejáveis, e salvadores da humanidade. A postura antidoutrinária significa abrir mão da possibilidade de condicionar o outro, ainda que seja em nome de princípios defensáveis. Críticas ou apologéticas do capitalismo – ou outro ismo qualquer – as ideologias tendem a se fecharem em si mesmas e a aprisionar a liberdade do pensar crítico. Afinal, que direito tenho de impor ao outro os meus princípios? Hoje eles podem parecer corretos. Mas, e no futuro?

A postura do professor é fundamental para a defesa da liberdade intelectual. Sua possibilidade de sucesso na orientação dos alunos neste sentido depende da liberdade de ensinar. Esta é essencial. Mas, a liberdade também é determinada por fatores externos à academia e à escola. A liberdade do professor depende de como a comunidade concebe sua função e a da educação. Quanto mais conservadora a sociedade, maiores as dificuldades para a prática da liberdade. Quanto mais a esta estiver aniquilada na sociedade, menor a liberdade de pensamento e de expressão. Quanto mais necessidade de intervenção dos governos, maior a necessidade de usar os professores e o sistema educativo como meios de doutrinação.

A liberdade de pensar e se expressar livremente é a liberdade de crítica. Não é a causa do professor ou do intelectual isolado que está em jogo, mas sim a comunidade. Quanto maior a liberdade, maior a possibilidade de discussão, de refutação e correção dos erros.

“Há o risco de ficarem os alunos expostos à influência de professores que professam opiniões indesejáveis, ou perniciosas, de que alguns estudantes não sejam capazes de suportar o peso da liberdade que se lhes oferece. Mas a alternativa para a liberdade acadêmica é o doutrinamento de acordo com os pontos de vistas da maioria”. *(111)

Na sala de aula não pode haver temas tabus. A função do professor não é fazer doutrinação; o doutrinador termina por tolher a liberdade de pensamento do aluno e usa sua autoridade para forçar a aceitação da seu discurso ideológico, muitas vezes dissimulado enquanto conteúdo pretensamente científico.

O professor deve estimular a defesa do pensamento da minoria, ainda que esta minoria seja ‘um’. Ele pode ter razão… Por outro lado, a maioria pode ser simplesmente outro nome que damos à tirania. Os estudantes devem ser encorajados a debater as idéias, não por seus rótulos, e sim por seus significados e conteúdos. Só o estudo crítico em liberdade pode propiciar isto. Isto pressupõe o questionamento do autoritarismo e, concomitantemente, o aprendizado da liberdade – às vezes confundida com a licenciosidade.


* NASH, Paul. Autoridade e liberdade na educação. Rio de Janeiro, Edições Bloch, 1968, p 111. Estas reflexões foram escritas a partir da leitura desta obra – a qual, embora publicada há muitos anos, permanece atual.

7 comentários sobre “Para pensar a relação autoridade e liberdade na educação

  1. Ozaí respeito seu texto mas ele está longe de qualquer realidade, principalmente da educação brasileira. A distancia que existe de uma universidade para colégios é gritante. Hoje o professor (até por argumentos como esses expostos acima de que a culpa dos problemas educacionais é do mestre) é totalmente desvalorizado, humilhado realmente. Ele mal consegue lecionar, quanto mais fazer uma exposição mostrando as diferenças entre uma teoria e outra. Penso que você deveria mudar seu enfoque, porque o que você escreve não condiz com a realidade de precarização total. A partir do momento que você tem que “prender” aluno em sala de aula ou você é Hitler como na charge ou os alunos montam em cima mesmo. Você vira carrasco mesmo sem querer. E mais, a aprovação automática tira toda e qualquer autonomia no seu trabalho. Liberdade intelectual, tabus e outros… quem dera os profs pudessem falar disso, hoje eles mais apagam fogo do que lecionam. A realidade é muito pior do que as pessoas acham. Professor é uma profissão em extinção.

  2. “Quando a crítica, a expressão das opiniões divergentes, é suprimida, nos empobrecemos, (…). Silenciar o outro é próprio dos que supõem ungidos e infalíveis. No fundo, escondemos nosso próprio medo, não admitimos uma verdade simples: o outro pode ter razão. Ao silenciar o outro porque pensa diferentemente, perdemos a oportunidade de aprender”.

    Caro professor, estas palavras me marcaram profundamente!
    Ha tanta coisa que acontece nas nossas instituicoes, nao diria directamente na educacao mas, nas instituicoes que influenciam as decisoes na educacao. Os que tendem a matar ou silenciar as poucas vozes corajosas emergentes do “circulo academico” sao os detentores do poder politico, ou que prendendem aproveitar-se deste para alcancar um determinado objectivo interiramente imediato e pessoal. Infelizmente a nossa juventude ainda nao se apercebeu ser alvo de manipulacao politica, dai o seu servilismo e nunca questionar, o que, como e quando fazer!
    Forca, so com ideias como essas podemos ganhar a consciencia de uns.
    (Meu comentario tem como base a realidade mocambicana)

  3. Gosto deveras do q escreves, neste texto deixo em replay:”Educar para a liberdade é favorecer e fortalecer o diálogo e estimular o pensamento crítico” . Grifo a palavra estimular como lembrete para eu lembrar de relembrar a minha prática. Vlw

  4. Ótimo texto!

    Penso que a frase mais atual e dasfiadora do texto, no atual momento da educação brasileira é: “[…] o doutrinador termina por tolher a liberdade de pensamento do aluno e usa sua autoridade para forçar a aceitação da seu discurso ideológico, muitas vezes dissimulado enquanto conteúdo pretensamente científico”.

    Como já dizia filósofo Adorno: “Toda epistemologia tem uma ideologia”. O desafio é desmarcarar e superar o caráter doutrinador/autoritário que se camufla de conteúdo científico, de instrução! Com certeza o mais ideológico por crer que está com a verdade e desqualificar toda opinião diferente rotulando-a de “ideológica”!

    Abraço.

  5. Antonio
    Bom dia
    Ao cumprimentá-lo fico imensamente feliz que estejas novamente focando o tema educação. Confesso que minhas experiências de sala de aula – embora graduado em duas Licenciaturas feitas em instituição particular – são superficiais, não passaram dos estágios obrigatórios e de um período de voluntariado. No meu entender deveria ser prioridade da sociedade e dos governantes de plantão, num primeiro momento, o acesso ao ensino fundamental e médio. O acesso e permanência na Escola também deveriam estar assegurados qual é feito em muitos países. Obvio que paralelo ao comparecimento as Escolas deveriam Elas ter o básico, como água potável, sanitários, salas de aula construídas mesmo que nos moldes tradicionais, quadras esportivas cobertas, bibliotecas (temos em mãos a chance de substituir o livro de papel pelas mídias digitais, muito mais baratas e ecologicamente sustentáveis) e impreterivelmente remuneração constitucional adequada a todos os que trabalham nas Escolas. Há que se ressaltar que o Piso Nacional, desrespeitado pelos plantonistas do Estado, esta aquém do Salário Mínimo constitucional estranhamente ignorado por todos que juram cumprir e defender a Constituição. Fique registrado que alguns Municípios do Brasil cumprem todos esses quesitos inclusos o acesso de zero a seis anos, merenda escolar balanceada, línguas estrangeiras com Professores habilitados, etc. o que também não tem se mostrado suficiente. Permanecem problemas como evasão, repetência e dificuldades no aprendizado. Muitos alunos chegam às séries finais sem saber ler e com dificuldades na matemática, incluso as instituições particulares. O quadro, salvo melhor entendimento, é e permanece sombrio. As metas do ‘Plano Nacional de Educação’ previstas para o último decênio não foram atingidas, e de quebra ao que saiba estamos sem ‘novo’ “Plano”, pois esse ainda percorre os caminhos do Congresso sem acordos, sem votação e o mais grave de tudo sem previsão definida de investimentos. Na esteira a maioria dos governantes de plantão ignora a Lei do Piso Nacional, o que evidencia que educação não é prioridade e que as leis no Brasil só servem a determinados interesses, visto que sobram recursos para corrupção, desvios e desperdício. A necessidade de paralisação dos educadores federais, por melhores condições de trabalho, cumprimento dos compromissos d’Antanho assumidos e não observados pelo Governo Federal, também referendam nossas argüições. Pasmos assistimos alguns países com plena inclusão digital, ou trabalhando freneticamente nesse sentido e nós ficamos discutindo a simples votação de um Plano Nacional, do qual paira a certeza de ser rotineiramente ignorado pelas matrizes ideológicas detentoras dos governos. Ainda está na Constituição Federal, nas Estaduais, incluso Leis Orgânicas dos Municípios percentuais obrigatórios para educação, que em regra passam ao largo. Não falamos em democracia no saber e do saber, pois bem, essa terá que caminhar – conviver – em paralelo com esses problemas que a nosso ver a vem sufocando a educação no Brasil. Nas ilhas brasileiras, onde as condições materiais objetivas estão dadas qual outros centros de ponta, campeia o fascismo, o que demonstra que nossa luta não só tem sido árido como vem retrocedendo em prol de diversidade de opiniões.
    Cordialmente
    Pedro
    Caxias do Sul, 17 de junho de 2012.

  6. Professor, ‘tão pequenininhas as letras nos balões. Não deu pra ler direito . O que ‘tá escrito na última fala ? De qualquer forma, ‘tá “nus trinks” outra vez esse outro post que você escreveu . Abraço .

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