Plágio: a culpa é de quem?

Na internet encontramos nossos textos copiados sem ser citada a fonte. Nos casos mais graves, há a reprodução literal com autoria diferente, ou seja, o “autor” não vacila em assumir como seu a produção intelectual de outrem e não tem o mínimo temor em ser descoberto. Talvez por ignorância, quem sabe por outros motivos, o “autor” não leva em conta que a internet é um espaço público e que, portanto, a fraude será descoberta. Certa vez, por exemplo, uma leitora da REA encontrou um texto da revista publicado em outro site e com autoria diferente. Enquanto editor da REA entrei em contato com o responsável e o texto foi retirado do ar.

Há plágio em todas as áreas. Há casos ocorridos no âmbito da pós-graduação – o pós-graduando aprovado teve seu trabalho contestado por outro colega, pois parte do texto avaliado pela banca era cópia. Noutro caso, o plágio foi feito em um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) e o aluno foi reprovado.

A reprodução do trabalho alheio sem citação de fonte, pelo simples mecanismo do CONTROL C + CONTROL V, é um dos principais problemas que os docentes enfrentam na atualidade. Na era da internet, do MSN, das redes sociais, etc., é muito fácil comunicar, mas também plagiar o outro. Se antes, para evitar a “cola”, o professor atuava como uma espécie de vigilante, agora ele precisa se valer de instrumentos tecnológicos que mensuram e indicam se houve ou não plágios – na internet há programas e serviços com este objetivo.

O que fazer diante de um caso específico, e mais comum na práxis docente, do plágio que envolve nossos alunos na graduação? A atitude mais comum é simplesmente zerar a nota. Certa vez, ao ler os trabalhos de dois alunos percebi que os textos eram idênticos. Fiquei a pensar porque agiram assim, mas não tive dúvidas em zerar a nota de ambos. Será que eles imaginaram que os trabalhos não seriam lidos? Por que escolheram o caminho que parecia o mais fácil? Comuniquei a ambos minha decisão e não houve contestação. O silêncio deles representou o assumir a culpa.

De outra feita, ocorreu um caso paradoxal. A aluna copiou vários trechos de um trabalho de minha autoria publicado na internet. * Foi incomum! Há, portanto, casos e casos. O plágio pode ser individual – no qual o indivíduo copia material disponível na internet – ou pode envolver mais de um, as vezes numa rede de solidariedade às avessas. Há, ainda, aqueles que pagam para outros fazerem seus trabalhos, e o plágio pode ser resultado do trabalho de quem presta o serviço. Neste caso, se descoberto, pode-se tentar reaver o dinheiro e, quem sabe, reclamar no PROCON.

Nos exemplos acima, não há inocência. O plagiador assume os riscos e deve assumir as conseqüências. Mas, e se o meu trabalho foi utilizado por um colega sem a minha autorização? Se sou pego de surpresa diante de um plágio que me envolve, mas do qual não tinha conhecimento, devo ser punido? Se alguém teve acesso ao meu texto, e numa clara atitude de abuso de confiança copia o meu trabalho e entrega ao mesmo professor que nos avaliará, sou culpado também? Mesmo que eu prove e que a pessoa assuma o que fez, é justo que eu seja punido? Como agir diante de uma situação como esta?

O professor tem diante de si dois trabalhos idênticos e, burocraticamente, toma sua decisão. Será uma decisão justa? Por que não convocar as partes envolvidas, ouvi-las e decidir segundo princípios de justiça. Não é mais sensato considerar os argumentos que tentam provar a inocência? Nestes momentos, é preciso sensibilidade e tratamento adequado do problema. Claro, nós professores temos o poder para decidir, e contamos com o apoio dos nossos pares. Mas da mesma forma que o plagiador abusou da confiança, precisamos também ter o cuidado de não abusarmos do poder de atribuir notas. Do contrário, plagiador e avaliador, e os pares que nos apóiam, terminam por cometer uma injustiça.

Afinal, de quem é a culpa do plágio? Talvez não se trate de identificar culpados, mas de analisarmos as causas que levam ao plágio, ao abuso de confiança – na relação professor-aluno e aluno-aluno. Talvez seja necessário repensarmos as nossas atitudes diante do plágio, pois como afirma a Professora Ivy Judensnaider, a penalidade não resolve o problema: “A questão que se coloca, acima de qualquer outra, é como ensinar aos alunos a importância da produção acadêmica sem a recorrência ao plágio ou à cópia”.** De qualquer forma, e ainda que discordemos dela, precisamos ter a sensibilidade e o cuidado necessários para não cometermos injustiças.


* Ver “Déjà vu! Um causo especial de “cola”, disponível em https://antoniozai.wordpress.com/2008/12/10/deja-vu-um-causo-especial-de-%E2%80%9Ccola%E2%80%9D/

** JUDENSNAIDER, Ivy. O plágio, a cópia e a intertextualidade na produção acadêmica. REA, nº 123, Outubro de 2011, disponível em http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/14244/7987

19 comentários sobre “Plágio: a culpa é de quem?

  1. Gostaria de saber se quando um professor retira informações da internet para dar trabalhos para alunos, isso pode ser considerado plágio ?

  2. Quando vc copia um artigo da Internet, dando os respectivos créditos ao autor e mais tarde descobre que aquele artigo não é daquele autor e imediatamente vc retira esta página do ar. .
    Isto pode ser considerado plágio.

    • É importante ter a referência escrita no rodapé do texto. Se você cita um autor que não é o verdadeiro, mas de qualquer forma o citou, você se pré dispôs a identificar a origem de um texto que não é seu, mas que lhe é útil de alguma forma. Portanto, não houve dolo da sua parte em subtrair para si uma ideia que não é sua. Você esta, apenas, fazendo uso dela e reconhecendo o texto de outro. Neste caso a culpa recai sobre o suposto autor que cometeu tal leviandade. Você não precisa retirar definitivamente a pagina do ar, basta uma correção e uma explicação sobre ela. Do plágio, quando, sim, existe o dolo, este por princípio não é bom. Mas quando temos uma ideia em que outro já tenha previamente anunciado e não sabemos? As ideias voam como os pássaros, nem sempre quando se captura uma, significa que ela é sua. Quem é o autor, o verdadeiro?

      • Muito obrigado. pela sua resposta. Estou sendo processado exatamente por isso. Um artigo assinado por uma pessoa que não era o autor. Quando fui avisado pelo verdadeiro autor, retirei a página do ar e fiz a errata , mas mesmo assim o autor quer uma indenização por danos morais . Pior que moro no Rio e ação é em MG . Tenho que contratar advogado e pagar o deslocamento e hotel fazer acordo de indenização.

  3. Então, o “copiado” é inocente e o “copiador” é culpado?!

    O Giovanni propôs uma questão interessante.

    E, mais interessante, ainda, seria ler o desfecho desta proposição.

    Seria, por acaso, esse “copiado” – Deus?

  4. Hoje em dia até questões de prova são retiradas da internet!!! Mas isso é claro, NÃO é plágio. Plágio é o aluno retirar as respostas!!! Fala sério, se falta senso dos alunos em elaborar as respostas, falta dos professores em criá-las!

  5. Gostaria de saber se quando o professor copia artigos da internet como slidespor exemplo, isso não é plagio tambem, ou somente o aluno é penalizado, quero saber como denunciar um professor que comete plagio, não achei nenhum artigo relacionado

  6. Antonio
    Boa tarde

    Quero respeitosamente ponderar que alguns alunos bolsistas (refiro-me exclusivamente os que o fazem com dinheiro público), após concluírem seus Mestrados, Doutorados, etc., “esquecem” de disponibilizar na WEB suas Teses ou Dissertações.
    Ao que saiba, salvo melhor informação, essa disposição é recente, solicita Ela, pois, para quem se serve do dinheiro público para postular titulação o compromisso (talvez mais moral do que legal) de colocar seus estudos – trabalhos – em domínio público, não se aplicando aos trabalhos realizados preteritamente, os quais também utilizaram verbas públicas. Temos aqui uma segunda barreira, pois muitos trabalhos patrocinados pelo contribuinte restam inacessíveis, aos reles mortais isso tudo na defesa abstrata do direito autoral.
    Há também artimanha em curso que apõe barreiras ao acesso dos bens culturais que teriam precluso o direito autoral, servindo-se do argumento do direito de propriedade, mesmo os que estão sob a guarda do Estado. Um dos argumentos utilizados é que o ente público pode arrecadar taxas, pois despende valores para a manutenção dos bens. Justíssimo esse argumento se nós brasileiros, não pagássemos bilhões em impostos, dos quais muito pouco é aplicado em cultura.
    No que tange ao tema proposto, oscilo muito da ação dos preclaros mestres, pois se há a regra moral de “não colar”, não plagiar, de citar o autor, há a contra regra no sentido de burlá-la, pois há a boca pequena correm boatos de que alguns encomendam suas monografias, teses, dissertações, TCCs, etc. Sob o manto legal de assessoria ao aluno, a imprensa escrita local – Caxias do Sul – localizou empreendedores que asseguram suporte aos que realizam tais estudos, obviamente que o procedimento requer investimentos adequados.
    Quando aluno da graduação observei em dias de provas alunos indo até o “Xerox”, para fazerem cópia dos textos que havia para estudar. O que esperar profissionalmente dessas pessoas ao estarem com seus cursos por terminados?
    Em minha primeira graduação ainda tínhamos provas orais, com data e hora pré- estabelecidas, com a possibilidade de acompanhamento dos próprios Colegas. Talvez, hipótese, seja essa uma das alternativas. Também se poderia agregar aos trabalhos escritos a exposição dos mesmos, situação em curso ainda em várias instituições de ensino superior (temos escolas de nível médio que também o fazem e talvez até do fundamental).
    Cabe ressalvar aqui que nossa discussão corre riscos, pois no mundo onde o “estudo” abandona o plano material da sala de aula e migra a passos largos para o virtual – Educação a Distância – pode que todos os nossos paradigmas educacionais, quer éticos, quer morais tenham de há muito soçobrado.
    Cordialmente
    Pedro
    Caxias do Sul, 23 de junho de 2012.

  7. Caro Ozaí
    A questão no plágio que mais me incomoda é a questão da honestidade intelectual. Se conseguirmos como professores ensinar que o plágio é uma apropriação indébita, como qualquer coisa deste tipo, seja um plágio, seja dinheiro público, ou qualquer coisa é necessário que se afirme a questão da honestidade. Um aluno ou professor que faz plágio está sendo deshonesto consigo mesmo, além de ser também com quem copiou sem citar a fonte. Esta é uma praga que está presente em nosso cotidiano em todos os setores da vida cotidiana. e quando isso acontece com nossos alunos é o momento de disutir com toda a turma a questão da honestridade intelectual e a produção de um determinado sabger.

  8. Caro Ozaí; bom tema para um post. Mas, plágio é plágio e mesmo usando os melhores recursos para evitar injustiças, se o texto não foi declarado livre (citada a fonte original, naturalmente), no mínimo a fonte deve ser citada integralmente, nas normas da ABNT por questão ética. Mas, você tem toda razão ao dizer que é preciso uma nova abordagem do plágio: causas e consequências. Abraço !

  9. Caro Professor, o artigo e o tema sao dos mais oportunos e minha contribuiçao sai da memoria de meu primeiro ano de universidade, em que apresentei um belo trabalho de copia entusiasmada de um livro da biblioteca da Universidade do Parana que tinha sido doado pelo professor. Muito naturalmente, sem mençao de fonte, sem grafismos indicadores de citaçao, absolutamente nada que perturbasse minha total boa fé.
    Nao sei se hoje em dia os alunos sao preparados para alargarem seus horizontes e conhecimentos em pesquisas de trabalhos que os precedem, respeitando pela adesao ou pela contestaçao os autores que citam.
    No meu tempo, no norte velho do Parana e em colégio de freiras, jamais tinha feito isso. Na biblioteca do colégio so havia edificantes vidas de santos e na cidade nao havia biblioteca publica. Suponho e espero que isto tenha mudado.
    Até hoje me lembro da afiada ironia do professor, comentando a inegavel riqueza da biblioteca da FFCL e a diversidade de informaçao que os alunos podiam encontrar pesquisando, como tinha feito minha ignorante pessoinha. Em seguida sugeriu que sempre que prestavamos homenagem ao autor de um texto qualquer ao inclui-lo no nosso texto, seria de bom alvitre nunca deixar de informar seu nome, obra, pagina, etc.
    O que fiz dai por diante, e aproveito esta oportunidade para prestar homenagem ao grande professor que foi Wilson Martins, descortinando para aquela turminha de letras a emoçao e a complexidade de um texto literario.
    Minha conclusao é que a discussao sobre o plagio deve ser feita bem antes do momento de publicar trabalhos, talvez ainda no secundario e certamente nos primeiros anos de faculdade, com amplas discussoes abrangentes sobre o respeito do trabalho alheio e do interesse de informar fontes a outros esquisadores.

  10. Ozai. Palavras muito sensatas a respeito do tema . Parabéns pela maneira como voce debate algo tão presente na vida academica e que muitos fingem ignorar.Abraço. Walter Garcia

  11. Ocupo-me em função disto nas últimas quatro semanas, esporadicamente, procurado órgãos legais em que possa informar-me e orientarem-me das condições de liberalidade e penalidade, no que refere-se a re-publicar obras inteiras ou parciais sendo de autoria alheia.
    Isto tornou-se preocupação porque – o senhor o deve saber – ali em meu blog há diversas e diferentes postagens de outras autoras e outros autores, em qualidade e, mais notadamente, quantidade superiores às por mim autoradas, que uso-as por finalidade de reunir e aproximar alguns objetos de meus estudos. Alguns são inéditos no ciberespaço, o que faz-me pensar duas, três, muitas vezes antes de postar textos com esta peculiaridade. Claro que depois de um tempo, talvez, outras pessoas por seus motivos republicam em novas postagens.
    (“Re”+”publica”, ganha ato por outro viés, no sentido de ‘difundir o mesmo’ sendo este mesmo algo “público”, como denota parcialmente o termo latino “res publica” para “coisa pública”. Digo ‘parcialmente’ porque quem republica por alguma forma algo não de própria autoria, TALVEZ não pense ou imagine tal ato relacionado diretamente com a coisa jurídica e suas implicações em retorno, digamos, jurídico-reguladoras do que será ou é de cunho público, isto é, livremente acessível.)
    Sempre que posto algo de outrem, ao final do meu post, indico a origem, seja ela de outro blog pelo link, seja num livro ou outra fonte bibliográfica impressa fisicamente em papel para que seja encontrada. No entanto, a preocupação consiste em saber se isto é bastante a fim de não causar alguma injustiça ou ilegalidade nem receber alguma acusação por plágio, conforme se pronuncia nesta sua inquietação.
    Uma coisa que tenho notado é que há, diria, subjetivação de algo alheio como próprio especialmente se atinge a esfera emocional agradando-a, arrebatando-a com deleite exatamente em quem identifica-se totalmente naquele momento ou àquela época com o objeto encontrado. Fato/situação com motivação psicológica cujo alerta ético fica -com ou sem aspas- despercebido, transformando a/o amante do objeto encontrado em um tipo de sonâmbula/o, hipnotizada/o, com faculdades mentais sem auto-crítica ativa ou com auto-crítica sugestionada, conotativamente estou isto falando. O que remete às suas questões. Assim que souber de algo formal, comunico-o. Por enquanto, de informal trago isto http://blosque.com/guia-plagio/ e, pra encerrar, porquê no título deste seu post está o conceito “culpa” e não “responsabilidade”? Um abraço.

    • Obviamente e mais facil “zerar” o trabalho, claro. Mas um Professor deveria possuir tanta sensibilidade de ouvir os dois lados (se o caso for de dois alunos). Pois abuso de confianca, ou plagio sem que a pessoa seja que foi plagiada, e crime. E “zerando” apenas os trabalhos o Professor estaria cometendo uma injustica, pelo meno com um dos alunos.
      Infelizmente vivemos numa era de egoistas e de pessoas, que sempre procuram o caminho “mais facil”, sem tomar consciencia de como estao prejudicando um outro. Nos meus olhos, isso e crime e deveria ser punido.

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