A dor da decepção

Quem não teve alguma decepção na vida? Quem não decepcionou alguém? Por que as pessoas causam decepções, por que se sentem decepcionadas? De quem é a culpa?! Será que se trata de procurar culpados? Por que temos dificuldades em superar as decepções da vida? Por que as feridas não cicatrizam, mesmo quando parecem curadas?

A razão é o contraponto da sensibilidade. Também ela é humana. Ela nos impele adiante. Tentamos racionalizar a dor que sentimos, compreendê-la e superá-la. O perigo é cairmos no extremo oposto e deixarmos que a racionalidade predomine a ponto de perdermos a capacidade de sentir. Estamos o tempo todo na fronteira, entre a razão e a emoção. Somos paradoxais! Pensamos racionalmente e agimos emotivamente; doutras vezes, quando o sentimento deveria predominar, nossas ações são racionais, frias e formais. É difícil encontrar o equilíbrio entre o pensar e o agir, entre a razão e a emoção. Somos razão e sentimento.

A racionalidade pode contribuir para a superação da decepção, mas nada garante que as feridas sejam cicatrizadas definitivamente e que deixemos de sentir a dor da decepção. Por que é tão intensa que nem a razão consegue anestesiá-la? O filho sofre intensamente ao decepcionar-se com o pai, o irmão decepciona a irmã, a mãe decepciona-se com a sua filha, a moça com o seu namorado, a mulher com o seu esposo, o aluno com o seu professor, o amigo com o amigo,– e vice-versa. Os que se admiram, se gostam e se amam decepcionam-se reciprocamente. Todos sofrem! Por que?!

O dicionário Aurélio talvez nos ajude a compreender. Ele ensina que a palavra decepção significa “malogro de uma esperança; desilusão, desengano, desapontamento”. O verbo decepcionar, por sua vez, tem o sentido de “desiludir(-se), desapontar(-se), desencantar-se”. Como, então, não sofrer quando as esperanças são frustradas e dão lugar à desesperança e ao desespero? Como não sofrer se quem amamos e confiamos plenamente nos desaponta? Como evitar o sofrimento se o encantamento do amar e sentir-se amado é atingindo em seu âmago? Como não decepcionar-se quando se é abandonado num campo minado e depende-se apenas das próprias forças para sobreviver? Como não desapontar-se quando nos momentos em que mais se necessita de apoio não é possível contar com o amor, a amizade, a solidariedade de quem mais se espera? Por mais que a razão encontre argumentos para a compreensão das atitudes humanas é difícil não sentir a dor da decepção.

Por outro lado, o Aurélio nos permite ver de outra maneira. Se decepção também significa “desilusão” e decepcionar é “desiludir-se”, então devemos nos perguntar se não estávamos iludidos, se não vivíamos uma ilusão. A desilusão e o desiludir-se indicam a perda das ilusões. Tentemos ver pelo lado positivo. Perder as ilusões nos emancipa do objeto/pessoa que nos iludia. Desiludir-se é estar livre, liberto! De qualquer forma, não nos apressemos a culpabilizar o outro, pois muitas vezes somos nós próprios que alimentamos as ilusões, ou seja, construímos modelos ideais e projetamos no outro.

Por que?! Talvez a resposta seja mais simples do que imaginamos. Somos humanos, e, portanto, seres emotivos, sensíveis. Por isto, indubitavelmente, sofremos. Sofrer é da condição humana. Aceitemos o sofrimento como inerente ao viver. Ainda que o outro seja o causador do nosso sofrer, tentemos compreender e aprender a perdoar as fraquezas humanas. Talvez devamos agradecer por nos libertar das ilusões que nutríamos. Quem sabe seja o lenitivo que precisamos para suportar a dor da decepção. Muito mais difícil do que superar o sofrer do desapontamento seja a consciência de ser o motivo da dor da decepção! Seja como for, é insensato nutrir a dor da decepção, pois ela pode transformar-se em ressentimento. É preciso seguir vivendo, e é muito mais difícil quando as mágoas persistem!

17 comentários sobre “A dor da decepção

  1. ÔO coisinha que doí meu Deus,ainda mais quando é de quem mais amamos,estou com um problema em família,me sentindo muito decepcionada,ódio e rancor não fazem bem,mas é o que tenho sentido,peço a Deus que tire isto de mim,enfim ótimo texto,parabéns!!!

  2. o difícil é saber que acabamos de perder a última ilusão. Como vou conseguir viver sem uma ilusão? Totalmente cética?
    Como lutar contra isto?

  3. Realmente, as decepções com os filhos, sejam de qualquer ordem, é a maior que um ser humano pode carregar. Desejamos que sejam perfeitos. Mas são humanos. Erram como todo mundo. E aís nos decepcionamos. E eu fico me perguntando: qual será a decepção que causei para meus pais?

    • Não são só os filhos que decepcionam os pais, tem pais, principalmente mães que decepcionam os filhos. E muitas vezes acabam com a família. O que deveria ser um elo de ligação entre irmãos, é quem provoca discórdia, irreparáveis.

  4. Decepções amorosas e pessoais são as mais comuns, haja vista que sofremos e fazemos sofrer em ambas dessas formas de nos desiludirmos conosco e com alguém.
    No entanto, acredito que passageiras.
    No caso do amor, outro que se encontre resolve as dores do anterior e, um dia feliz, deleta a decepção do dia anterior quando falhamos ou nao conseguimos o que queríamos na forma de um emprego, um concurso, uma viagem…
    Ao meu ver, a decepção que nos acompanhará pela existência de nossas vidas, diz respeito aos filhos.
    Eles representam tanto o que gostaríamos de ter sido quanto o que não imaginávamos que seriam, acarretando aos pais a responsabilidade pelo comportamento e realização daquele ser humano.
    Penso nos pais que possuem filhos dependentes químicos, o sofrimento que vivem, a decepção por aquelas vidas que perderam o sentido, a possibilidade de perdê-los para o tráfico (assassinados) ou de irem presos pelos crimes cometidos em busca de dinheiro e comprar drogas;
    Outro detalhe é o filho que tem uma vida medíocre, que não se define, que não estuda, que não se anima por mais incentivos que venha a ter dos familiares;
    Também aquele que não mantém um relacionamento estável, que deixa filhos (netos) espalhados com várias mulheres e não os sustenta, que abandona suas famílias, que é um irresponsável neste sentido;
    Ter um filho que se torna um meliante, um estelionatário;
    Imagino a dor dos pais quando o filho se torna um assassino, eventual ou em série, a dor que não sentem com essas tragédias em suas vidas!
    Ou que tenha bebido e, ao sair com o carro, mata inocentes porque não tinha o controle do veículo;
    E, a possibilidade de um filho ser político, e ser reconhecido de público como um reles ladrão!
    Enfim, acredito que a decepção por excelência esteja na razão direta do sucesso daqueles que trouxemos para este mundo, e tanto para seus pais quanto para seus filhos que, muitas vezes, não conseguem atingir o patamar desejado por culpa de seus próprios genitores, que os abandonaram, não os sustentaram, não se preocuparam com seus futuros, com a educação, com saúde e segurança!
    Acredito ser esta a decepção maior que podemos sentir: a nossa incapacidade de fazer outras pessoas felizes, principalmente com aquelas que têm o nosso sangue, e que deveríamos contribuir para que realizassem seus desejos!

    • Francisco adorei seu texto, muito verdadeiro a responsabilidade materna e paterna ultrapassa a relação de decepção, o amor nos impossibilita de constatar os erros dos filhos e aceitar os erros por eles cometidos, muitos pais nunca irão conseguir ver os seus filhos como seres humanos e assim é impossível contribuir para uma relação saudável de erros e acertos…

      • Obrigado Estela.
        Fico contente por não tê-la decepcionado.
        Um abraço.

    • Me identifico plenamente com vc, Francisco. Realmente, as decepções com os filhos são as mais difíceis de administrar, porque nos expõem ao sentimento de culpa, razoável ou não. Sentimos que falhamos, exatamente com aqueles a quem mais amamos, isso em decorrência de um sentimento de onipotência, de que podemos determinar a vida desses seres que trouxemos ao mundo, ignorando todos os outros fatores que exercem influência sobre suas trajetórias.

      • Obrigado, Miriam Santos.
        Somente os pais podem avaliar a verdadeira decepção quando não conseguem ver seus filhos felizes, ainda mais quando a culpa é deles, dos genitores.
        Se, por um lado, o sofrimento é atroz, do ouro, indica que certas pessoas possuem sentimentos que podem fazê-las reagir, corrigir o que está errado e retomarem o caminho da alegria e realizações em família.
        Um abraço.

  5. Antonio
    Bom dia

    Justamente na área dos relacionamentos e mesmo no dos sentimentos é que na “escola” da vida, tirei sempre zero. Tendo a insociabilidade como marca, não tenho moral, portanto, para analisar sequer meus fracassos. No que tange as frustrações, expectativas em relação ao próximo, acho que nos projetamos neles ou que queremos egoisticamente que apresentem determinados tipos de comportamento. O fato é que as relações interpessoais não são matemáticas, mecânicas, exigem sobremodo flexibilidade, não apresentando em suma resultado exato ou o retorno que esperamos – pretensão unilateral – de forma precisa.
    No que tange as decepções os choques foram violentos e insuperáveis, houve corte radical de parte a parte. A regra é atravessar inclusive a rua, para evitar qualquer proximidade. Com base nas primeiras experiências frustrantes, adotei e adoto como regra a distância para tudo e para todos. Melhor não obstante assim do que fingir sociabilidade, solidariedade, amizade por interesse e demais mazelas humanas. Se não posso ou não quero ajudar o outro (a), não tenho o direito de atrapalhar. Posso e devo omitir-me da estrada da ambição e do sucesso tão sublime para muitos carreiristas. No que tange a minhas ambições obvio que os outros também não as têm que tolerar ou aceitar pura e simplesmente, mesmo que a opção preferencial seja pela austeridade, pela modéstia, pelo desapego as coisas materiais, pela carreira, etc.
    Não obstante minha mediocridade, estultice e estupidez, quero pretensiosamente transformar em algo concreto o “desafio” proposto no tema em debate. Objetivar de forma concreta se não a conduta geral ao menos alguns gestos que resultem em proveito social e não do plano individual.
    Cordialmente
    Pedro
    Caxias do Sul, 15 de julho de 2012.

  6. Ozai, uma otima reflexao para um domingo de manha. Uma frase me remete ao mais belo romance do século XIX (ou um dos mais…): “Razao e sentimentos”. Ele ja deu origem a varios filmes, mas a voz da romancista é a unica que traz a perplexidade e o sofrimento da necessaria adaptaçao a novos tempos.
    E como o tempo esta sempre se renovando, talvez venha dai o sofrimento: da mudança, do inesperado, que destroi todas as nossas veleidades de prever e prevenir.

  7. Olá Antõnio,

    Atualmente as pessoas passam de um relacionamento a outro, como dizem por aí “a fila anda”, o mais “gozar”, felicidade e prazer imediato;porém isto não passa de um mecanismo de defesa. comportamento que deveria levar as pessoas (bem como colocastes) a se questionar por onde estaria a razão quando se deixa os sentimentoa de lado, quando passamos por cima da dor, quando não damos um tempo para cicatrizar as “feridas” da alma”; e agindo desta forma, inerentemente entra em um ciclo de repetição de um comportamento “padrão” em um, dois, três relacionamentos… A razão ao menos deveria entrar em ação e questionar; O quê? E por quê? Repete. Penso que a razão não está em negar o que sentimos, mas sim no modo como lidamos com os sentimentos. Ser racional na minha opinião, é ser coeso com o que quero, com o que desejo… e assumir isso. Mas algo é certo, se alguém repete a mesma historinha, é saudável ponderar; este ciclo deve ser “quebrado” com o enfrentamento da nossa própria megera através do outro, o embate necessário, inevitável, entre “eros X Thanatos” para que realmente seja possível reescrever uma outra história, mais real, verdadeira. Belo texto. Abraço

  8. Belíssima reflexão! Escrita com as marcas de alguém que não apenas teoriza, mas também coloca o sentimento nas palavras.

    Um abraço,
    Jonas

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