A página em branco!

Uma página em branco, o que escrever? Antes, era a folha e a dificuldade da ideia inicial, da palavra, da frase que desse sentido e facilitasse a abertura das comportas para a reflexão escrita. As tentativas, o amassar e jogar o papel fora. O primeiro livro que escrevi foi escrito em papel e datilogafrado; alguns dos trabalhos na graduação também. Minha irmã ajudou-me muito. Ela era mais avançada e tinha uma máquina de datilografar eletrônica e eu ficava admirado com a rapidez que datilografava. Ainda hoje, sou grato.

Recordo do tempo da graduação, quando não havia as facilidades do computador. Meu primeiro trabalho acadêmico foi entregue por escrito. Talvez a professora tenha encontrado dificuldades em decifrar a minha caligrafia; talvez ela preferisse datilografado. Logo depois, ela me presenteou com uma máquina datilográfica portátil. Na verdade, quase não usei, pois não tinha a destreza necessária para datilografar.

Quando iniciei o mestrado ainda não tinha computador, as minhas condições econômicas não permitiam. Depois, consegui adquirir um PC que, na época, era top de linha. HD de 1.2 GB, Windows 95, acesso discado à internet, memória 16 MB. Tecnologia avançada! Nunca precisei levar à manutenção, mas logo se tornou obsoleto. O desenvolvimento tecnológico é incrível. Fico admirado com os recursos disponíveis na atualidade, mas também com a rapidez como os produtos tornam-se inúteis, peças de museu, lixo tecnológico. Sou de um tempo em que a TV era de válvulas – era preciso esperar esquentar para as imagens ficarem nítidas –, de uma época em que o chique era usar um bip, da máquina de datilografia mecânica, da máquina de fotografia com filmes de 12, 24 ou 36 poses – que exigia saber utilizar bem, tirar as fotos necessárias, especiais –, do tempo do toca-discos e LP de vinil. Como as coisas mudaram! Que bom viver a era da banda larga e poder usufruir de todos os recursos que a Internet possibilita; sou feliz por estar vivo no tempo da TV Digital, dos filmes disponíveis na rede, da música em MP3, etc.

As novas tecnologias transformaram o mundo, as sociedades, as relações humanas. Se compararmos com o passado recente, estamos diante do admirável mundo novo! Não obstante, o mundo novo prometido pela revolução tecnologia não está disponível para todos; a maioria permanece excluída. Os reais benefícios da nova era não estão ao alcance de todos. Por outro lado, a tecnologia oferece meios para maior controle dos selvagens, ao mesmo tempo em que mantém os civilizados alienados em seus mundinhos e espaços virtuais.

Por maior que sejam as possibilidades oferecidas pelo avanço da tecnologia, os dilemas essenciais da condição humana permanecem os mesmos. O computador mais moderno não substitui a criatividade, a razão e os sentimentos humanos. O melhor programa da Microsoft ou Linux não geram textos sem a intervenção humana. O acesso à melhor tecnologia não transforma ninguém em escritor. Entre a primeira letra e o ponto final, o primeiro caractere e o último, é preciso o raciocínio e habilidade humana para se comunicar pela escrita. Ninguém se torna bom escritor apenas por ter caneta e cadernos volumosos com folhas em branco ou possuir o computador de última geração. A tecnologia é apenas um instrumento. Enquanto tal, os usos e abusos podem ser vários. De qualquer forma, é preciso aprender a usá-la. No que diz respeito à escrita, é necessário ter a capacidade de superar a postura consumista e reprodutora de informações. É preciso ter o que comunicar e saber fazê-lo. Escrever é mais do que juntar palavras, ainda que a internet facilite o copiar, colar, editar e, até mesmo, o auto-plágio. A página em branco continua sendo uma página em branco!

9 comentários sobre “A página em branco!

  1. Se é pra filosofar, lá vamos nós! Contrariando o grande Socrates(Só sei que nada sei.), e sem desmerecer a sua reflexão(em nada, nem na mera vírgula),teimo ultimamente em afirmar que,” tudo é óbvio para todos”. Em sendo verdadeira esta afirmação, fica a pergunta: O que afinal não sabemos? Se Sócrates tem razão, somos então eternas folhas em branco a serem preenchidas pela obviedade. Escrevamos então sempre a partir do, e sobre o obvio

  2. Concordo com toda sua opiniao sobre a evolucao da tecnologia que nada vale se nao ha suficiente criatividade humana para a valorizar preenchendo a pagina em branco de modo a construir melhores valores da sociedade. Porem, com todo o respeito que tenho pelo professor, nao concordo consigo quando diz: ” a tecnologia oferece meios para maior controle dos selvagens”. A quem se refere? Estes termos ja causaram dores a geracoes e geracoes nalguns povos, pelo que, da forma como foi empregue continua carregada com mesmo peso depreciativo e nao acredito que ainda possam existir povos hoje sec XXI que possamos apelidarmos esses termos, por favor!

  3. Antonio
    Boa tarde
    Ouvi dizer que o uso da máquina de escrever, logo que o engenho se tornou comercial, chegou a ser posto em dúvida quanto a sua utilização no Poder Judiciário brasileiro. A questiuncula girou em torno da discussão se os processos e setenças podiam ser datilografados ou se teriam que ser elaborados como vinham sendo a séculos, ou seja, com escrita a mão, polêmica tipica de país valorisador do bacharelismo e da analfabetização dos que trabalham. Com a informática, já esta em curso a tese – em alguns lugares já implantado – das próprias audiências serem online soterrando o uso anti-ecológico de montouros de papel e tinta. Nessa esteira e possívelmente também o ensino virtual esteja se proliferando – expandindo – mais rapidamente que os cursos presenciais, o que demonstra a urgência de se repensar para ontem as instituições educativas. A técnica – ciência – obviamente vem auxiliando o homem na produção de alimentos, medicamentos, tratamentos, etc. Fica por outro lado o paradoxo do acesso. A revolução tecnologica – terceira onda? – possivelmente não encontre paralelos no pouco que se conhece da história. Já a possibilidade de se “ter” esses meios a disposição implica em necessáriamente em se ter um determinado padrão de renda. A inclusão financeira vem se distanciando cada vez para mais pessoas do que as várias possibilidades oferecidas pela tecnologia. Outro paradoxo é o de que mais alimentos produzidos, mais alimentos são desperdiçados, quer dos estoques, quer dos já elaborados, enquanto milhões diante da indiferença dos que tem, pura e simplesmente passam fome. Tentando vislumbrar alternativas ariscamos citar o caso da Coreia do Sul, que vem apostando pesado na Educação e no acesso as tecnologias. Esse deveria ser, pensamos um modelo a ser considerado – talvez com ressalvas – mas bem diferente do outro que estamos seguindo cegamente e que nos conduz aos braços do “grande irmão”.
    Cordialmente
    Pedro
    Caxias do Sul, 24 de julho de 2012.

  4. Professor Antonio Ozaí, a algum tempo acompanho seu blog e gosto muito de suas reflexões, porém ainda não tinha me sentindo a vontade para fazer comentários… Porém, este ultimo tema veio de encontro as minhas angústias de doutoranda e do dilema de escrever uma tese. Um professor que eu admiro muito, batiza este momento do confronto intelectual com a folha em branco de “Guerra sem Testemunhas”, sempre achei muito apropriado, pois é o que sinto todas as vezes que tento iniciar um texto. Abraço

  5. Ozaí, a página estava em branco e precisava dar uma resposta a inquietudade – qual a utilidade da filosofia? Comecei a escrever: ‘viver exige resolver problemas e, aí está uma da sutil utilidade da filosofia. O problema leva a produção do pensamento. Pensamos porque temos problema, afirmou Rubem Alves (2007, p.10). A atitude fundamental do pensar é perguntar. Perguntar sobre o caminho navegante sem um mapa ou bússola. O filosofar é intrínseco ao ser humano que precisa aprender como exigência filosófica. Assim o filosofar ajuda a fazer a melhor escolha, a opção mais eficaz no cotidiano.
    Há uma exigência séria no procedimento do filosofar: o distanciamento das certezas. O cientista na busca de solução de um problema, visando dotar de sentido e significado, e resolver um problema posto, tem que postar-se distância da certeza, segundo o princípio socrático ‘só sei que nada sei’. Através de uma visão de totalidade, inserindo os princípios da contradição, da negação da negação, da mudança de qualidade e quantidade proporcionou clareza, coerência, e raciocínio lógico, na condução de um processo.
    O fim do capitalismo parece para muitos o fim do mundo. A pergunta urge: como é possível para a sociedade ocidental enfrentar o fim dos tempos? Afirma Zizek (2012) ao apontar que o capitalismo global está vivendo a sua crise final. A reflexão crítica leva ao engajamento para uma ‘virada na direção do entusiasmo emancipatório’ e ‘o ponto de partida desse processo é nos apavorarmos com nós mesmos’.
    Para quê filosofia? Em outras palavras – no ambiente de uma sociedade regida por um grupo social dominante e dirigente sob uma razão epistemológica cientificista, e concepção política e econômica (neo) liberal – qual a utilidade, que uso e proveito a filosofia serve ao interesse do capital? Se o capital domina a ciência, esta depende de questões filosóficas, que se solidifica nos pressupostos da filosofia: a verdade, o conhecimento, o pensamento racional, os procedimentos para o conhecer e outros, afirma Chauí(2005,p.19) Para muitos a filosofia é uma arte do bem-viver ou o viver virtuoso e conforme Platão ‘é um saber verdadeiro para viver numa sociedade justa e feliz’. A ênfase está na moral e na ética. A filosofia transcende tal redução’.

  6. Como sempre, para refletir!!!! Como professora muitas vezes tento passar essa informação aos alunos, ou seja, a tecnologia é interessante, mas não substitui o raciocínio humano. É preciso cuidado com a idolatria à tecnologia.

  7. Por incrível que possa parecer, acho uma página em branco no computador mais difícil de preencher que num caderno ou bloco… E a constatação de estarmos diante de um admirável mundo novo dá uma sensação de impotência!!!

  8. Filosofia pura, heim!! professor, também já refletir sobre isso, o que vale mesmo é que somos humanos e como tais, não devemos esquecer que somos passivos de idas e vindas, tira e põe, levantar e cair, conhecimento e ignorancia, falar e ouvir e principalmente acertos e erros e jamais esquecer que somos inacabados mesmo com essas tais TECNOLOGIAS , nadamos , nadamos e estamos na mesma praia, muda-se apenas o modo ‘tecnicas” de nadar, mas na mesma praia. Até a próxima. diretamente da Bahia.

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