Quem avalia os professores?!

A Universidade Estadual de Maringá (UEM) adota a Avaliação Institucional Discente, uma etapa do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes). Ao acessar http://www.npd.uem.br/ain/, os alunos podem avaliar os docentes, as disciplinas e atividades dos cursos, a infraestrutura da instituição e fazer sua auto-avaliação. Os formulários seguem o padrão de questões fechadas. No final há um campo em aberto para que dúvidas, críticas e/ou sugestões.

As questões referentes à avaliação do docente são:

  1. Capacidade de comunicação oral;
  2. Domínio e clareza do conteúdo;
  3. Como foi ministrada a disciplina;
  4. A preparação das aulas pode ser considerada;
  5. Relacionamento com os alunos;
  6. Atendimento às dúvidas apresentadas;
  7. Aproveitamento do tempo de aula;
  8. Recursos didáticos utilizados em aula;
  9. Estímulo ao uso da biblioteca e internet, como meios de ampliar a aprendizagem;
  10. Pontualidade para com as aulas;
  11. Freqüência para com as aulas;
  12. Disponibilidade para atendimento aos alunos;
  13. Capacidade de motivar os alunos.

O aluno deve responder a cada questão segundo as opções disponíveis: ‘ótimo’, ‘bom’, ‘regular’, ‘insatisfatório’, ‘não sei informar’. Este é o limite da avaliação, na medida em que não permite a justificativa do julgamento avaliativo para cada item formulado. Claro, o aluno pode fazer sugestões e/ou críticas no campo em aberto, mas será suficiente para fundamentar a avaliação de que o docente X é ‘ótimo’, ‘bom’, ‘regular’ ou ‘insatisfatório’?

Quanto à disciplina, o discente pode avaliar os seguintes aspectos:

  1. Apresentação do programa e critérios de avaliação da disciplina;
  2. Desenvolvimento do programa da disciplina;
  3. Atendimento aos objetivos propostos para a disciplina;
  4. Importância desta disciplina no curso;
  5. Carga horária destinada à disciplina;
  6. Qualidade e atualização do material de leitura;
  7. Relevância e utilidade dos conteúdos trabalhados na disciplina;
  8. Estratégias utilizadas para trabalhar os conteúdos da disciplina;
  9. Sistema de avaliação adotado pelo docente para a disciplina;
  10. Integração dessa disciplina com outras disciplinas do curso;
  11. Avaliação da disciplina como um todo.

As respostas seguem o mesmo padrão informado acima. As questões são bem formuladas e uma análise das respostas pode indicar até mesmo a pertinência ou não de manter determinadas disciplinas nos cursos. Se houvesse a possibilidade do aluno fundamentar e justificar o conceito dado, oferecia mais argumentos para a análise.

Sou favorável à avaliação. Claro, há as limitações inerentes à própria natureza do procedimento, mas é necessário que os discentes tenham mecanismos para avaliar seus professores, as disciplinas e os cursos. A práxis docente deve estar sob permanente avaliação – e isto começa pela própria reflexão auto-avaliativa do docente. O feedback é importante, pois nos permite ter uma ideia de como os nossos alunos nos veem. A condição humana do professor indica limitações, possibilidade de erros, etc. O educador também precisa ser educado e identificar erros, limites e buscar aperfeiçoar-se é parte deste processo.

Portanto, não há problema algum em ser avaliado pelos alunos. Penso que independente das avaliações institucionais, os professores deveriam se submeter ao julgamento dos seus alunos. Pode haver abuso, manifestações de ressentimento, injustiças, etc., por parte dos alunos? Sim, é um risco. De qualquer forma, somos julgados. Ocorre que a instituição e o espírito de corpo nos protegem. Assim, o aluno é silenciado – ainda que sua voz ressoe pelos corredores e espaços informais.

Ainda que possa haver complôs e julgamentos irresponsáveis em um ou outro caso, o problema maior está na ineficiência deste tipo de procedimento avaliativo. Em mais de 14 anos na UEM, nunca recebi os resultados desse tipo de avaliação institucional. Parece-me que o aluno tem consciência de que tais avaliações não terão a mínima influência sobre a sua vida acadêmica. Daí a recusa da maioria em ‘perder tempo com isto’. Para muitos, ‘é uma inutilidade’. Compreendo, mas penso que é uma oportunidade para se manifestar, apesar dos limites e incongruências.

Talvez o aluno se sinta mais estimulado a avaliar se for garantido que os docentes, em seus respectivos departamentos, farão encontros pedagógicos para analisar, discutir e decidir a partir das avaliações dos discentes. Talvez seja ingênuo esperar que isto aconteça, mas os alunos podem reivindicar e transformar suas avaliações individuais de mera formalidade institucional em uma demanda política-pedagógica coletiva.

Não há porque temer a avaliação do aluno; muito pelo contrário, devemos estimulá-lo a fazê-la – e, inclusive, a auto-avaliação, pois é uma forma de cada um refletir sobre seu desempenho como estudante e a responsabilidade que isto envolve perante ele próprio e a sociedade. É fundamental que eles também auto-avaliem. Assim, se responsabilizam. Talvez precisemos acreditar mais na capacidade dos nossos alunos e investir mais na autonomia deles.

 

6 comentários sobre “Quem avalia os professores?!

  1. Ozai,
    Estudo em uma faculdade particular. Ao contrário do que relata , nela o professor vive sob a pressão do sistema avaliativo. Há casos de demissão de professores em decorrencia das avaliações. Ao ler os itens a serem avaliados temos a sensação que a utilização do resultado será o catalizador do repensar da prática pedagogica conjugada uma mudança de postura do aluno que se auto avaliar com o desempenho deficiente. Mas como voce ressalta parece que existe um obstáculo intrasponivel entre o ideal e o real do processo avaliativo nas universidades. Por outro lado , professores que tem tranquilidade de lidar com avalições são raros. Em minha faculdade em todo meu curso só tivemos um que pensa como você. Incrivel mas os alunos reconhecem isto, tanto que será nosso professor homenageado.
    boa semana

  2. Antonio
    Bom dia
    Estudei em Universidade paga, a qual se auto-intitula de comunitária, porém, sem que a comunidade possa opinar ou interferir em suas ações. Com esse comunitarismo os menos lembrados são os estudantes, aos quais prioritariamente compete sustentar a instituição. Mesmo assim tivemos a disposição a tal de avaliação docente, que seguiu em regra os modelos adotados por outras instituições de ensino superior. O resultado é o que mencionastes, até hoje não soube de aplicação pratica. Numa instituição particular de ensino superior o não atendimento das expectativas dos alunos poderia ensejar mudanças no quadro de profissionais contratados, o que em regra não ocorre. Menos colocado em prática é a capacitação e sobremodo a aproximação com a comunidade acadêmica. Não sou pela demissão e sim pela estabilidade a todos/as trabalhadores/as, justo não obstante que exista a avaliação de parte a parte, mas acima destas há necessidade premente do diálogo e da construção da discussão propositiva, o que em tese caracterizaria a Academia. No que tange as instituições públicas não há nenhum mecanismo de controle acadêmico e nem social. A aplicação dos parcos recursos públicos é decidida pelos governantes de plantão e na esteira geralmente pelas reitorias, em processo eqüidistante dos mais necessitados. Raros são os projetos gestados no ventre das Universidades Públicas que beneficiam comunidades carentes e mesmo estes quando existentes são pouco divulgados para que o exemplo seja seguido – multiplicado – e até exigido pela sociedade. Mesmo dentro da institucionalidade vigente não está também claro para que servem as tais de avaliações visto os plantonistas insistirem em manter remunerações escorchantes aos funcionários e docentes. Resta, pois concluir que da institucionalidade – Estado – e por extensão dos governantes de plantão nada se pode esperar em termos de investimentos na educação, já no que tange ao corpo docente, discente e funcionários, se estes tiverem vontade própria, comum e solidária, se pode esperar que lutem para a mudança desse nefasto quadro, onde milhões de brasileiros/as seguem analfabetos, analfabetos funcionais e distantes em sua maioria do ensino superior. A greve dos docentes federais revela as várias situações que estamos imersos e mesmo as possibilidades de enfrentamento do descaso estatal. Os professores em greve revelam vontade política e capacidade de união e sobremodo coesão dos objetivos. A duração do tempo da greve não passa de mero indicativo do descaso do governo de plantão, reforçando o propósito de nossos comentários, ou seja, a luta é árdua, difícil e sem certezas.
    Cordialmente
    Pedro
    Caxias do Sul, 05 de agosto de 2012.

  3. Que etapa fascinante do ensino é esta que inaugura o aporte da voz do aluno na concertaçao da universidade.
    Que sejamos aprovados, incensados ou pelo contrario rejeitados e desfavorecidos por essa voz, pouco importa. Sera sempre uma ocasiao de dialogo e retificaçao de itinerario. Ou talvez da simples constataçao que esse trabalho nao nos alegra e logo nao nos convém.
    Nao estou ao par da situaçao nos outros paises; em todo caso, nunca ouvi falar nisso nas universidades francesas ou inglesas, mas sem duvida esta iniciativa brasileira é corajosa e inovante.
    Deixo aqui minha sugestao de que o assunto seja retomado daqui a um ano ou por ai’ e que se analise os resultados locais, com uma varredura pelo panorama mundial – imagino que, se existe alhures, tambem deve ser novidade.

  4. Ozaí muito bom esta informação, mas gostaria de saber como posso realizar no site da Uem a avaliação, no teu caso não tenho nada do que reclamar, mas tem professores que parece que gostam de reprovar os alunos, causando muitas desistências. Ando me deparando com situações onde o professor cobra o que não ensinou, não tem clareza em suas explicações deixando a atenção dispersa, digo que muitas vezes o professor, ele mesmo se perde, tem métodos de avaliações que causam ao aluno surpresa, digo o professor que deveria preparar o aluno para a avaliação, não prepara. Sou completamente contra o aluno ter que ser auto didata, entenda que muitos trabalham e não tem tempo para além de estar presente nas aulas, ter que estudar por conta o que o professor não ensina e vai cobrar, auto didata somente será bom quando o aluno vai estudar algo além da aula, que não será cobrado depois, e que tem disponobilidade para isto, é claro que o aluno e professor ambos tem que se ajudar, pois o conhecimento é compartilhado e até onde eu sei, ambos podem chegar em um bom acordo, onde o professor de fato ensinou e o aluno possa mostar de maneira mais eficiente que de fato aprendeu, caso tenha se dedicado o minimamente. Forte abraço Ozaí.

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