Palavras para pensar!

Estive a rever as minhas anotações de leituras e decidi selecionar algumas palavras que, a meu ver, permanecem atuais e talvez instiguem a reflexão:

“… o longo hábito de não pensar que uma coisa seja errada lhe dá o aspecto superficial de ser certa, e ergue de início um temível brado em defesa do costume. Mas o tumulto não tarda em arrefecer. O tempo cria mais convertidos do que a razão” (Thomas Paine). [1]

“A persuasão e a violência podem destruir a verdade, não substituí-la” (Hannah Arendt) [2]

“O culto da juventude é pueril: os adultos que o praticam não estão ajudando os jovens a amadurecer e contribuem para que mergulhem na sua infelicidade. “Qui n’a pás l’ esprit de son âge, de son âge a tout le malheur”. “Quem não possui o espírito da sua idade, tem dela toda a desdita” (Raymond Aron). [3]

“O patriotismo é, na vida política, o que a fé é na religião; está para os sentimentos domésticos e a saudade da pátria como a fé para o fanatismo e a superstição” (Lord Acton). [4]

“O prazer do texto não tem preferência por ideologia” (Roland Barthes). [5]

“Como, porém, aprender a discutir e a debater numa escola que não nos habitua a discutir, porque impõe? Ditamos idéias. Não trocamos idéias. Discursamos aulas. Não debatemos ou discutimos temas. Trabalhamos sobre o educando. Não trabalhamos com ele. Impomos-lhe uma ordem a que ele não se ajusta concordante ou discordante, mas se acomoda. Não lhe ensinamos a pensar, porque recebendo as fórmulas que lhe damos, simplesmente as guarda. Não as incorpora, porque a incorporação é o resultado da busca de algo, que exige, de quem o tenta, esforço de realização e procura, exige reinvenção” (Paulo Freire). [6]

“Essa ilusão de verdade, que se chama impressão de realidade, foi provavelmente a base do grande sucesso do cinema. O cinema dá a impressão de que é a própria vida que vemos na tela…” (Jean-Claude Bernadet) [7]

“A primeira tarefa dos intelectuais deveria ser a de impedir que o monopólio da força torne-se também o monopólio da verdade” (Norberto Bobbio). [8]

“Seria preciso, acreditam certos críticos, uma forma impassível, fria e impessoal; para tais gentes, todo o argumento perde o caráter científico sem esse verniz de impassibilidade; em compensação, bastaria afetar imparcialidade, para ter direito a ser proclamado – rigorosamente científico. Pobres almas!… Como seria fácil impingir teorias e conclusões sociológicas, destemperando a linguagem e moldando a forma à hipócrita imparcialidade, exigida pelos críticos de curta vista!… Não; prefiro dizer o que penso, com a paixão que o assunto me inspira; paixão nem sempre é cegueira, nem impede o rigor da lógica” (Manoel Bonfim). [9]

“É preciso reconhecer que muitas de nossas lembranças, ou de nossas idéias, não são originais: foram inspiradas nas conversas com os outros. Com o correr do tempo, elas passam a ter uma história dentro da gente, acompanham a nossa vida e são enriquecidas por experiências e embates” (Ecléa Bosi). [10]

“Olhar tem a vantagem de ser móvel, o que não é o caso, por exemplo, de ponto de vista. O olhar é ora abrangente, ora incisivo. O olhar é ora cognitivo e, no limite, definidor, ora é emotivo ou passional. O olho que perscruta e quer saber objetivamente das coisas pode ser também o olho que ri ou chora, ama ou detesta, admira ou despreza. Quem diz olhar diz, implicitamente, tanto inteligência quanto sentimento” (Alfredo Bosi) [11]

“…em sociedades como a nossa, a universidade prepara quadros de “funcionários da ideologia” dispostos a produzir os discursos condizentes com os interesses dos grupos detentores de poder” (Sergio Miceli) [12]

“Os jornalistas observam freqüentemente com muita satisfação que os universitários precipitam-se para a mídia, solicitando uma análise crítica, mendigando um convite, protestando contra o esquecimento a que são relegados e, ao ouvir seus testemunhos bastante terrificantes, somos levados a duvidar de fato da autonomia subjetiva dos escritores, artistas e dos cientistas” (Pierre Bourdieu) [13]

“A linguagem de autoridade governa sob a condição de contar com a colaboração daqueles a quem governa, ou seja, graças à assistência dos mecanismos sociais capazes de produzir tal cumplicidade, fundada por sua vez no desconhecimento, que constitui o princípio de toda e qualquer autoridade” (Pierre Bourdieu) [14]

“O sacerdócio teórico vive do erro teórico, que lhe cabe identificar, denunciar, exorcizar: a “tentação”, o “desvio” ou a “recaída” estão em todo lugar e até mesmo em seu próprio discurso…” (Pierre Bourdieu) [15]

“O emprego seguro que os professores fazem do idioma universitário não é mais casual que a tolerância dos alunos à obscuridade semântica. As condições que tornam o mal-entendido lingüístico possível e tolerável estão inscritas na própria instituição: não só as palavras mal conhecidas ou desconhecidas aparecem sempre em configurações estereotipadas capazes de alcançar o sentimento do já entendido, como a linguagem do magistério possui a consciência completa da situação onde se realiza a relação de comunicação pedagógica, com seu espaço social, seu ritual, seus ritmos temporais, em suma todo o sistema de coerções visíveis ou invisíveis que constituem a ação pedagógica como ação de imposição ou de inculcação de uma cultura legítima” (Pierre Bourdieu & Jean Claude Passeron) [16]

Por ora, paremos por aqui! E você, caro(a) leitor(a), quais palavras acrescenta a estas reflexões?! Qual é a sua reflexão sobre as citações aqui selecionadas?


[1] PAINE, Thomas. Senso Comum e outros escritos políticos. São Paulo: IBRASA, 1964, p. 4. (Clássicos da Democracia)

[2] ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo, Editora Perspectiva, 2001, p. 320.

[3] ARON, Raymond. Estudos Políticos. Brasília: UnB, 1985, p. 295-296.

[4] ACTON, Lord. Nacionalidade. In: BALAKRISHNAN, Gopal. (Org.) Um mapa da questão nacional. Rio de Janeiro: Contraponto, 2000, p. 38.

[5] BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Editora Perspectiva, 2004, p. 40.

[6] Citado in BEISIEGEL, Celso de Rui. Política e educação popular: a teoria e a prática de Paulo Freire no Brasil. São Paulo, Ática, 1982, p. 100.

[7] BERNADET, Jean-Claude. O que é Cinema. São Paulo: Brasiliense, 2006, p. 12.

[8] BOBBIO, Norberto. Os intelectuais e o poder: dúvidas e opções dos homens de cultura na sociedade contemporânea. São Paulo, Editora UNESP, 1997, p. 81.

[9] BONFIM, Manuel. A América Latina. In: SANTIAGO, Silviano. (Org. ) Intérpretes do Brasil. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 2000, p. 631.

[10] BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 407.

[11] BOSI, Alfredo. Machado de Assis. O enigma do olhar. São Paulo: Ática, 2000, p.10.

[12] In BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo, Editora Perspectiva, 1974, p. LV.

[13] BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1997, p. 87.

[14] BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Lingüísticas: O que falar quer dizer. São Paulo, Edusp, 1998, p. 91.

[15] Idem, p. 164.

[16] BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean Claude. A Reprodução – Elementos para uma teoria do sistema de ensino. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982, p. 121.

4 comentários sobre “Palavras para pensar!

  1. Olá, Antonio

    “É preciso reconhecer que muitas de nossas lembranças, ou de nossas idéias, não são originais: foram inspiradas nas conversas com os outros. Com o correr do tempo, elas passam a ter uma história dentro da gente, acompanham a nossa vida e são enriquecidas por experiências e embates” (Ecléa Bosi).

    Não cheguei até aqui por acaso. Vim pela curiosidae e quando cheguei me detive na imagem de uma personagem por quem tenho muito respeito: Mafalda de Quino. Então, reconheço, através da escolha do pensamento de Ecléa Bosi, o quanto nossas (generalizo o pronome) afinidades são justificadas.
    Agradeço minha curiosidade, embora eu não precise dela para confirmar o quanto aprendo quando leio tudo que divide com seus leitores.
    um abraço,

    Ana Maria

  2. “A primeira tarefa dos intelectuais deveria ser a de impedir que o monopólio da força torne-se também o monopólio da verdade” (Norberto Bobbio).

    Prof Antonio Ozaí, eis algumas toscas reflexões sobre a frase de Bobbio: Sabe, o poder é sempre um problema pra mim. Ainda não estou resolvida com ele… rsrs! Diz uma frase de Abraham Lincoln que se quisermos por à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder. Sim, eu concordo! Já vi na política brasileira, na religião, na sala de aula e na família, homens que se “transformaram” depois que assumiram cargos hierárquicos. Há pessoas que mandam e outros que obedecem. Essa é a regra do jogo. A hierarquia nessa ordem social que temos hoje está em toda parte e dela advém o poder. Por exemplo, na família. Mesmo que se estabeleça igualdade entre homem (pai) e mulher (mãe), há sempre um poder que se estabelecerá entre um dos dois, neste caso, podemos transportar o termo de Bobbio e dizer que há um monopólio da força, que ora provém do pai, ora da mãe e em alguns casos, até dos/as filhos/as, com o intuito de estabelecer aquilo que é o certo (a verdade) para o lar. Na sociedade cristã que temos, não adianta querer mudar esta regra. Os valores e a moral já estão instituídos. Estamos submersos nessa força que estabelece a verdade, aquilo que a religião conceitua como o certo. Essa tal verdade passa a ser inquestionável. Exemplo: a monogamia e a opção sexual. Voltemos a falar destes assuntos que já foram temas de alguns textos neste blog. A religião estabeleceu a monogamia como certo em nossa sociedade. Porém, não deixamos de amar outro/a por esta verdade ser estabelecida. Por quê? Temos sentimentos que vão para além dessa “verdade”. Vamos então nos esquartejar por isso? Penso que não devemos, mas sim resistirmos! O mesmo ocorre quando duas pessoas do mesmo sexo se apaixonam. Isso é mesmo errado? Então, por que a paixão acontece, mesmo se a pessoa cresceu a vida toda com a referência “papai-mamãe”? Enquanto o monopólio da força estabelece suas verdades, o ser humano se autodestrói e deixa de viver a sua essência. Então, para quem tem um pouquinho de intelectualidade, resta a coragem de romper com tais monopólios e seguir o conselho de Bobbio. Penso que esta deveria ser a minha primeira tarefa, se é que eu me considero como uma intelectual… Acho que já dei os primeiros passos ao romper definitivamente com a minha religião. Bom, este é só um “parvo” exemplo daquilo que ultimamente me corrói a alma: o monopólio da verdade que me separa do amor. Continue firme na luta! Abraços, camarada!
    Iolanda Milanes

  3. Antonio
    Boa tarde

    Não lembro com sinceridade de ter comentado ulteriormente sobre os excertos em tela, agregado à falta de lembrança esta a covardia em temer cair em contradição irretratável, ao emitir segunda opinião. Esclarecidas imodestamente essas particularidades, também confesso não ter lido ainda todos os/as preclaros/as pensadores/as, o que em contrário também não redundaria em opinião positiva e muito menos autorizada, pois haveria o risco de mais confundir do que esclarecer. Dos citados/as têm uns 30 anos que comprei e li os livros do Professor Paulo Freire, ainda quando graduando do curso de Licenciatura Plena em Filosofia. Por essa época, inicio dos anos 1980, grupo de colegas acadêmicos/as inclusive trouxeram (organizaram a vinda) a Caxias do Sul do insigne educador social. A cotização das despesas de estada e viagem coube aos que foram ouvi-lo em palestra. Acho também que nosso Sindicato de Classe, no início dos anos 1990 repetiu o feito patrocinando em parceria com outras entidades a vinda do já citado Professor. Não posso esconder que fui simpático as suas idéias, até o momento que minhas convicções ruíam qual o murro, visto que a teoria se afastou completamente da prática. Os trabalhos no exílio, sobremodo, foram feitos em Estados de Ditadura Bolchevista, ficando patente a contradição na pregação supostamente democrática sob a batuta de títeres. Na Prefeitura de S. Paulo, guindado a condição de Secretário da Educação, não viu prosperar seus auspícios. Faltou sintonia? Os professores/as não desejavam a democracia? O “ditado” não foi assimilado? Confesso que não sei e muito menos estive presente no cotidiano, somente lendo e ouvindo sobre os comentários externos. Seus seguidores hoje estão no poder em centenas de Prefeituras, Governos Estaduais e também governam o Brasil, sem levar em conta que educação deveria ser prioridade com investimentos no mínimo os previstos nas leis da República. Mantêm-se o modelo da exclusão. A Educação formal é ainda privilégio. Não deve mudar, pois precisamos ainda de mão-obra barata e alienada.
    Cordialmente
    Pedro
    Caxias do Sul, 26 de agosto de 2012.

  4. Eis a citação que me mobilizou nos últimos dias:

    Não é necessário sair de casa.
    Permaneça em sua mesa e ouça.
    Não apenas ouça, mas espere.
    Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio.
    Então o mundo se apresentará desmascarado.
    Em êxtase, se dobrará sobre os seus pés.
    Franz Kafka

    Não sei de qual dos livros foi tirada…

    abraço e obrigada por compartilhar as suas.

    Áurea

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