Aula Pública com os Estudantes da UEM

Fui convidado pelos estudantes da UEM para uma aula pública, realizada em frente ao Diretório Central dos Estudantes (DCE). O tema da aula foi Greve e Democracia, inspirado no movimento grevista dos trabalhadores da UEM. A propósito, ao contrário de muitos docentes, os estudantes, desde o primeiro momento, declararam-se solidários à greve dos servidores da UEM. [1]

Mais uma vez, os estudantes dão uma aula de Ciência Política e ensinam aos doutos que não há qualquer vínculo direto entre consciência política e titulação acadêmica. [2] A Assembleia Geral dos Estudantes da UEM, realizada antes da aula pública, com a participação de mais de 150 estudantes, aprovou a Greve Estudantil “em apoio à greve dos servidores, reconhecendo a legitimidade do movimento destes trabalhadores, pela retomada das pautas estudantis, pela unificação da luta em defesa da educação pública e pelo avanço da unificação da luta a nível estadual!” [3] Eles foram além do discurso vazio da solidariedade, negada pela prática que alimenta a cultura elitista e antidemocrática e a divisão entre os supostamente superiores e os inferiores.

A aula pública tematizou questões que envolvem a práxis política, a ação grevista e os ensinamentos e contribuições do movimento ao debate sobre a democracia no âmbito interno do campus e na sociedade em geral. O que a greve ensina? É na ação que aprendemos, não se aprende greve na escola nem em curso universitário. Com a greve enfraquece-se o individualismo egoístico, explicitam-se as contradições e os conflitos de interesses, desvela-se o véu que encobre as relações de dominação e o papel do Estado e das instituições em geral. A greve constitui uma autoridade coletiva questionadora das autoridades até então inatingíveis. A greve questiona os limites da democracia e, sobretudo, propicia a elevação da consciência política dos trabalhadores.

A aula pública foi uma experiência inédita e marcante. É admirável como as utopias são nutridas por gerações que se sucedem e, como a fênix revigorada, ressurgem das cinzas. Os jovens irradiam uma energia contagiante. Diante dos seus olhares, não há como não se transportar para o passado e recordar do tempo em que falava aos metalúrgicos e metalúrgicas de São Bernardo do Campo e Diadema e magnetizava outros olhares, também eles prenhes de sonhos e esperanças.

Os estudantes tornam este sonhar redivivo e expressam a potencialidade do vir-a-ser germinado no tempo presente. Isto ficou ainda mais patente no diálogo, sem dúvida, o melhor momento. Os jovens são ávidos de saber e fizeram várias perguntas. Questões que, de fato, expressam dilemas históricos pautados pela práxis humana e cujas respostas não dependem do conhecimento deste ou daquele intelectual, mas sim do processo histórico, político e social. Em suma, questões políticas e ideológicas não se resolvem em sala de aula ou numa aula pública. Minhas respostas, portanto, foram muito mais opiniões problematizadoras, no sentido de mostrar a complexidade dos dilemas políticos e sociais. Talvez até tenha decepcionado alguns, mas não cabe ao professor, enquanto indivíduo, oferecer receitas para a solução de dilemas que são históricos e dependem substancialmente da ação coletiva das classes e grupos sociais e políticos.

De qualquer forma, a sabatina instigou a reflexão! Em certa medida, suas perguntas são as que me faço e expressam os dilemas do intelectual não engajado em partidos e/ou grupos políticos no campus, que preza e cultiva a liberdade de consciência e se abstém do proselitismo para conquistar seguidores.

Meu sincero agradecimento ao DCE, aos presentes, e, especialmente à Nicolle e às trabalhadoras em greve que compareceram à aula, cuja fala me sensibilizou. Muito obrigado!

3 comentários sobre “Aula Pública com os Estudantes da UEM

  1. Antonio
    Bom dia
    Ao cumprimentá-lo torno extensivos os votos de solidariedade a todas e todos os que lutam por seus direitos, nesse particular os/as colegas em greve que acertadamente batalham por melhores salários e melhores condições de trabalho. Os que labutam na seara do serviço público a duras penas conquistaram recentemente o direito de sindicalização e o direito de greve. Essas duas possibilidades são ainda vistas com reserva por setores da sociedade que apõe todo o tipo de restrição a organização dos trabalhadores. Nessa esteira são sempre lembrados – divulgados espalhafatosamente – os proventos dos apaniguados, (protegido, aderente), políticos da vida partidária omitindo-se que milhões de servidores públicos, sobretudo municipais, sequer ganham o salário mínimo e a grande maioria não esta organizada ainda num reles Sindicato estatal. As Professoras Públicas do Estado do Rio Grande do Sul, por exemplo, do ensino fundamental, tem como salário básico a “fortuna” de R$ 400,00. Essa mesma categoria percorre os corredores do Poder Judiciário na busca da observância integral da Lei do Piso Nacional, rematada miséria, e vê somente os sucessivos governos estaduais se esquivando ao dever de pagar. Quando apelam como último recurso para o movimento paredista na defesa de seus direitos e por educação de qualidade os mesmos que dizem defender a educação, vituperam sobre o “exagero” que é fazer greve, e que no serviço público deveria ser proibido paralisar. De pronto esquecem que o Brasil ratificou a Convenção 151 da OIT, que assegura o direito de organização e o direito à negociação coletiva. Destaque-se que os governantes de plantão ainda não se mostram inclinados em tornar isso lei no âmbito interno. A esses males e despropósitos resta aos explorados e vilipendiados se organizarem e lutarem de todas as formas contra as injustiças praticadas pelo Estado. Observo, pois que é o que as Companheiras e Companheiros em greve estão fazendo e mais do que isso estão buscando e recebendo solidariedade de outros segmentos da sociedade e nesse particular do mundo universitário. Esse talvez seja inclusive o principal desafio dos servidores públicos de nosso país, conseguir interagir mais com a sociedade, mostrando a ela que nós também somos explorados.
    Cordialmente
    Pedro
    Caxias do Sul, 16 de setembro de 2012.

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