Razão e Paixão

“Seria preciso, acreditam certos críticos, uma forma impassível, fria e impessoal; para tais gentes, todo o argumento perde o caráter científico sem esse verniz de impassibilidade; em compensação, bastaria afetar imparcialidade, para ter direito a ser proclamado – rigorosamente científico. Pobres almas!… Como seria fácil impingir teorias e conclusões sociológicas, destemperando a linguagem e moldando a forma à hipócrita imparcialidade, exigida pelos críticos de curta vista!… Não; prefiro dizer o que penso, com a paixão que o assunto me inspira; paixão nem sempre é cegueira, nem impede o rigor da lógica”.
Manuel Bonfim
Paris, março de 1903 [1]

Somos humanos, seres que desejam, sonham e se apaixonam. Desde a antiguidade grega, o humano é definido pelo atributo da razão. O homem é um ser racional! Quem ousa duvidar desta assertiva? René Descartes (1596-1650), considerado o fundador da filosofia moderna, erigiu o seu pensamento filosófico sobre uma certeza racional: “Penso, logo existo” (“Cogito, ergo sum”). No século XVIII e XIX, a Razão foi ungida, posta sobre o altar da humanidade e transformada numa nova religião profana, em substituição à superstição e ao obscurantismo.

“O sono da razão produz monstros”, escreveu Francisco Goya (1746-1828). A Deusa Razão erigiu-se redentora da humanidade e luz que ilumina o seu caminhar sempre em direção ao progresso. A afirmação da Razão, em dueto com a ideia do progresso inexorável da humanidade, foi importante num contexto em que se questionava o poder feudal e tudo o que ele representa. O culto à Razão é o tributo do projeto burguês à modernidade.

Contudo, havia vozes discordantes, como a de Jean-Jacques Rousseau. Ele reconhece a importância dos sentimentos e emoções. Rousseau desconfia das promessas do progresso. [2] Ele não faz apologia da Razão, nem a coloca num plano prioritário em relação ao sensível. A dimensão intelectual racional é importante, mas está vinculada à condição humana que também é emocional e afetiva. Paixão e Razão não estão separados por muros intransponíveis, mas coabitam no mesmo ser. Somos seres racionais e passionais.

O despertar da razão não libertou o ser humano dos seus fantasmas, nem o fez superar as crendices. Os monstros continuam a assombrar o mundo dos vivos! A Razão gerou outras monstruosidades no século XX, o século das guerras mundiais, da barbárie nazifascista, do Big Brother imaginado por George Orwell na obra 1984, do barbarismo das bombas atômicas lançadas pelos EUA sobre Hiroshima e Nagasaki, etc. A Razão foi instrumentalizada e, paradoxalmente, alimentou a irracionalidade. Por outro lado, as religiões profanas – ideologias – engendraram formas de fanatismos tão obscurantistas quanto aqueles que os iluministas combatiam no século XVIII. Não esqueçamos que a barbárie é praticada com racionalidade. Eram pessoas racionais, muitos deles com títulos acadêmicos, que projetaram, por exemplo, a máquina da morte nos tempos sombrios da Alemanha hitlerista. Como escreve Rouanet:

“Depois de Marx e Freud, não podemos mais aceitar a idéia de uma razão soberana, livre de condicionamentos materiais e psíquicos. Depois de Weber, não há como ignorar a diferença entre uma razão substantiva, capaz de pensar fins e valores, e uma razão instrumental, cuja competência se esgota no ajustamento de meios a fins. Depois de Adorno, não é possível escamotear o lado repressivo da razão, a serviço de uma astúcia imemorial, de um projeto imemorial de dominação da natureza e sobre os homens. Depois de Foucault, não é lícito fechar os olhos ao entrelaçamento do saber e do poder. Precisamos de um racionalismo novo, fundado numa nova razão”. [3]

Rouanet propugna por uma nova razão, que reconheça os próprios limites e seja capaz da crítica e autocrítica; que a razão louca seja substituída pela razão sábia. Assim, ele busca resgatar a Razão iluminista, para que se complete o trabalho de secularização. Sábia ou louca, a Razão permanece segregada, como uma característica especial e definidora do que é o ser humano. Este, porém, é uma totalidade que incorpora o racional e a paixão. Onde está a tal da essência humana tão apregoada pelos visionários do futuro? Talvez Jean-Jacques Rousseau, Marques de Sade e outros autores, possam contribuir para a percepção de que o humano é também paixão, natureza e irracionalidade. A barbárie, lamento insistir, também é humana. O humanismo cândido, liberal ou marxista, tem um ideal de ser humano que só existe enquanto abstração racionalizada. Parece-me que a Razão deve ser orientada pela paixão e vice-versa, pois elas constituem o mesmo ser que pensa e sente!


[1] BONFIM, Manuel. A América Latina. In: SANTIAGO, Silviano. (Org.) Intérpretes do Brasil. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 2000, p. 631.

[2] Ver ROUSSEAU, Jean-Jacques (1971). Discours sur les Sciences et les Arts. Paris: Flammarion, entre outras obras do autor.

[3] ROUANET, Sergio Paulo. As razoes do iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 12.

7 comentários sobre “Razão e Paixão

  1. Essa questão dos monstros da razão me faz lembrar do livro da Hannah Arendt, “Eichmann em Jerusalém”. Ainda sobre essa questão, ouvi dizer que a frase de Goya, “El sueño de la razon produce monstros”, poderia ser traduzida tanto por sono, quanto por sonho. No primeiro caso, os monstros teriam a ver com a falta da razão, sua suspensão ao dormir. No segundo, seria uma produção da própria razão, que a constitui. Essa ambiguidade poderia trazer compreensões um tanto diferentes, não? O interessante é que por ser ambiguidade sugere, antes de uma sentença, um problema: os monstros podem acabar com o despertar da razão ou são produtos dela mesma?

  2. Mas para que serve a razão senão para desvelar as nossas paixões. A razão é uma exigencia da paixão, tal como a exigencia da esfinge, ou voce a decifra (a paixão) ou ela te devora.

  3. É em consideração a estes pressupostos, dos quais você escreve, que percebo o quanto ainda os intelectuais precisam se despir da arrogância intelectual, como se suas especializações lhes dessem exclusividade para saber da vida e daquilo que afeta a existência de homens e mulheres tão diversos e tão apaixonados pelos seus modos de existir. No entanto, é por ainda existir intelectuais como você que também percebo que é possível contribuir com a sociedade, sem se encastelar em mundos construídos restritamente pela razão. Obrigado pela reflexão! Ela sempre me diz muito! Um grande abraço, professor!

  4. Realmente, um belo artigo; parabéns, Professor.
    Sugiro continuar a desenvolver este tema com as atuais desconfianças de que o modelo racional proposto junto com a afirmaçao da idade moderna era um modelo elaborado nas ruas das capitais europeias, em paises que afirmavam seu direito de dominaçao sobre o mundo alargado pelas grandes navegaçoes e descobertas de outras culturas.
    Os seres humanos reconhecidos como tais so o podiam ser na medida em que se aproximassem desse ideal unico, que, se nao é mais legitimado, nem por isso perdeu sua força de modelo ideal e branqueal.
    Mas desconfio que também a racionalidade como privilégio de um modelo unico de ser humano servia para relegar seres vivos à condiçao de objetos jamais merecedores de respeito ou piedade. Seres vivos, entenda-se, nao apenas os homens originarios de outras paisagens, continentes – America, Asia, Africa – portadores de outras pigmentaçoes dérmicas, mas também os seres vivos vistos como desprovidos de qualquer racionalidade. Ou seja, tudo que fora relegado para o lado da natureza, os animais grandes e pequenos, as plantas, desde arvores seculares até flores e folhas ainda sem valor de mercado, pois que a tal natureza devia servir ao homem como este bem entendesse, como, alias, o monoteismo desde suas primeiras codificaçoes ja tivera o cuidado de postular.
    Bom domingo, Ozai, e um abraço.

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